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O dilema coloca-se para muitas atividades: como garantir o fornecimento de serviços essenciais com o menor impacto ambiental? A gestão da rede de transporte de eletricidade é uma dessas atividades. A sua manutenção obriga a encontrar um ponto de equilíbrio com as árvores e floresta por onde passam os cabos e postes elétricos. A E-Redes e a Albatroz Engenharia juntaram-se à procura de soluções e é sobre isso que falamos hoje com João Gomes Mota, cofundador da Albatroz Engenharia, e Ricardo Messias, diretor de gestão da vegetação da E-Redes. Eu sou o Paulo Ferreira e este é o "Regresso da Indústria", uma parceria entre o Observador e a Cotec. Ricardo Messias, bem-vindo a este "Regresso da Indústria", começando por si. Que problemas é que queriam resolver e que vos levaram também ao desenvolvimento desta ferramenta?

Olá, Paulo. Antes de mais, agradeço o vosso convite para este programa. Realmente, sobre a indústria e inovação, é extremamente interessante a partilha de iniciativas que demonstram esse tal potencial do regresso da indústria, que é o vosso mote. Aqui começo pelo enquadramento da E-Redes. Nós somos o concessionário de redistribuição elétrica em Portugal continental. Esta rede de distribuição elétrica é composta por muitos quilómetros, possivelmente a maioria que nos está a ouvir não terá noção da dimensão, mas só na rede de alta e média tensão temos 69 mil km aéreos, e só vou falar dos quilómetros aéreos, uma vez que são esses que interessam aqui para o tema que falaremos. E depois ainda temos a concessão com os municípios, que são mais 110 mil km aéreos em baixa tensão.

Isso é muita coisa. Consegue dar-nos uma ideia do que é que são esses milhares de quilómetros?

Sim, eu posso dar uma ideia do que temos em espaço florestal. Em espaço florestal, destes que eu falava de alta e média tensão, são cerca de 30 mil. Trinta mil é como se tivéssemos 10 vezes o perímetro de Portugal continental.

Impressionante.

É muito quilómetro. Esta noção de escala em termos de Portugal é bastante interessante. Nós temos que monitorizar muito bem esta infraestrutura, primeiramente, para salvaguardar a segurança de pessoas e bens, e em segundo plano, para garantir a continuidade de serviço, uma vez que todos contam conosco, seja a pessoa lá em casa a ligar o interruptor, seja a pessoa que tem uma linha de montagem. Como é que fazíamos e fazemos esta monitorização? A E-Redes sempre foi, eu gosto de dizer, um early adopter tecnológico, e esta monitorização é algo que fazemos com meios inovadores desde os anos 80. E com meios inovadores, refiro-me a voos de helicóptero com diferentes tecnologias que permitem a monitorização da rede no que designamos por não visível. Ou seja, conseguem detetar preditivamente potenciais problemas que se revelam em fenômenos físicos não visíveis ao olho humano, mas que são detetáveis com tecnologias, por exemplo, termografia e ultravioletas. Fazemos isto desde o início dos anos 80 e há 15 anos juntámos mais uma tecnologia nestes voos, designada LiDAR, que é uma tecnologia laser para medir a distância da rede a objetos na sua envolvente.

No fundo, Ricardo, as árvores, não é? Só para explicar, no fundo, trata-se de garantir a integridade dos cabos elétricos que passam e dos postes, e a forma como eles convivem com as árvores, que vão crescendo, que vão caindo algumas, certamente, e portanto para garantir que tudo está em condições, é isso?

Correto, é isso mesmo. Nós o que fazemos é: temos continuamente estas inspeções e os relatórios que resultam destas inspeções permitem-nos enviar equipes para regularizar situações detetadas antes que elas se concretizem. Isto era o estado da arte que tínhamos. O problema que tínhamos em mãos é que precisávamos sempre de um voo para detetar as situações a regularizar. E o que pretendíamos, e pretendemos futuramente, é conhecer tão bem o enquadramento da rede que sabemos quando é que devemos ir a um local mesmo sem ter voos. E o que é este conhecer? Na parte de espaço florestal, nós, em Portugal, temos uma cartografia, no entanto, essa cartografia são quadrículas, algo grandes, que para uma estrutura linear como a rede elétrica não nos dá muito conhecimento, uma vez que podemos ter, por exemplo, uma dessas quadrículas classificadas como espaço agrícola e no canto dessa quadrícula, onde passa a rede elétrica, temos lá, por exemplo, um eucaliptal. O que pretendíamos era com os dados LiDAR, que tínhamos recolhido ao longo do tempo, de que modo podíamos utilizar esses dados, transformá-los em informação, porque nós até ao ano passado, a única informação que extraíamos desses dados era a distância, e pretendíamos potenciar esses dados para conhecer todo o enquadramento florestal da linha E é aí que entra a Albatroz, que não conhecíamos, e por isso também é importante esta questão da divulgação sobre a inovação, e que propôs uma abordagem muito interessante, baseada em machine learning. E se calhar o João Gomes Mota fala sobre isso.

É isso mesmo. Vou passar aqui a bola agora ao João Gomes Mota, da Albatroz Engenharia. É neste ponto que entram neste projeto. João Gomes Mota, perante esta questão, qual foi a abordagem no terreno que tiveram?

Como o Ricardo acaba de dizer, os dados já existiam. Os dados dizem apenas o que é vegetação, o que é linha, o que é poste. Portanto, tratava-se de agarrar nessa nuvem de pontos que é chamada vegetação e separar todas as árvores uma a uma.

Esses dados agora eram o quê? Fotografias ou representações?

Não, são nuvens de pontos. É uma nuvem de pontos em que cada ponto só sabemos a coordenada deles no mundo e sabemos se é vegetação, se é um cabo elétrico ou um poste. Há mais umas classes, o sol também lá está, mas o que importa aqui, vamos focar-nos no que é vegetação. Trata-se de agarrar em todos os pontos, vamos imaginar que temos uma nuvem de voo à nossa volta verde, e dizer que esta é uma árvore, mas aquela ali ao lado já é outra árvore diferente. Portanto, o primeiro desafio que tivemos foi-

Por espécies.

Primeiro, só por geometria, pelo aspecto. Percebemos se aquilo é uma árvore diferente, aquilo que às vezes hoje, ao olharmos para as ferramentas como o Google Earth ou o Google Maps, as pessoas percebem que ali são árvores. O segundo desafio é a espécie, claramente. Neste momento, usando machine learning, temos identificadas duas espécies, a saber, o pinheiro-bravo e o eucalipto, que são as espécies mais frequentes de Portugal e de crescimento mais rápido. Continuamos, embora interessados nas árvores, sabemos que o nosso cliente é a redes e, portanto, as árvores de crescimento rápido são as mais importantes para eles. E depois, finalmente, como sabíamos que havia um repositório, um acervo de dados com alguns anos, embora as árvores cresçam relativamente devagar, tratámos de fazer esta solução. Se tivermos uma nuvem de pontos de 2020 e tivermos uma de 2017, que achamos que é no mesmo sítio, vamos admitir que se trata da mesma árvore, vamos medir quanto é que ela cresceu. E assim temos duas maneiras diferentes de perceber a importância e o risco que determinada árvore terá para a rede elétrica. Por um lado, pela sua espécie. Sabemos que um carvalho tem menos riscos do que um eucalipto e, por outro lado, pela sua própria taxa de crescimento, mesmo que, por qualquer motivo, não consigamos saber qual é a espécie. E foi exatamente isso que fizemos. Criámos três ferramentas em que olhando para os dados do passado, fomos procurar se somos capazes de separar as árvores das suas vizinhas, saber a sua espécie para estas espécies que já falei e calcular o crescimento quando tivermos múltiplas observações.

E portanto, vocês aí conseguem, à partida, perceber quando é que em determinado local o crescimento de uma árvore pode começar a pôr em risco a rede elétrica, é isso?

Sim, isso já se conseguia fazer há alguns anos, como o Ricardo disse antes. Agora, a questão aqui é ir daqui para frente. No fundo, o que queremos daqui para frente saber é perceber quantos em quantos anos é que é preciso visitar uma linha por helicóptero e depois fazer manutenção para otimizar esse esforço. Se nós soubermos que estamos a trabalhar numa zona, por exemplo, de montado de sobro, não precisamos de ir tantas vezes como numa zona onde haja eucaliptais, ou haja acácias, ou outra vegetação de crescimento rápido. Portanto, aqui já estamos a passar um bocadinho do risco para a rede, mas para a otimização da gestão a longo prazo, mas isso deixo ao Ricardo para falar, que é o foro dele.

Só mais uma questão aqui ainda, Gomes Mota.

Diga.

Qual é o nível de detalhe que vocês conseguem ver isto árvore a árvore, é isso, basicamente?

O nosso objetivo é este. Ainda não conseguimos, e agora se houver na audiência pessoas que gostem de eucaliptos, temos algumas dificuldades com as varolas dos eucaliptos. Quando elas rebentam da toiça, parece-nos mais que uma árvore, às vezes é uma só. Temos alguns casos esses, mas o objetivo é esse: uma árvore, um registo.

Muito bem. Ricardo Messiás, feita esta análise, analisam os dados, tiram conclusões dos dados recolhidos, imagino. Que resultados é que já conseguiram atingir nesta fase do projeto? De que forma é que a abordagem que a eRedes tem na manutenção da rede já se alterou em função desta nova ferramenta?

Nós aqui ainda estamos numa fase inicial, apesar de estar estipulado que faremos todos os quilómetros em espaço florestal, esta análise. Neste momento, o projeto incidiu apenas em quatro distritos que considerámos prioritários. E nesses distritos, o que fizemos foi confrontar aqui os resultados que a Albatroz nos entregou e consideramos que estamos a conseguir, de algum modo, modelizar o que se passa no terreno. E nós com esse modelo poderemos, possivelmente, em 2023, fazer o plano de voos. Nós fazemos planos de voos anuais, portanto, o que está em vigor este ano foi feito o ano passado e vai decorrer de forma normal ainda. Possivelmente, o plano de voos que fizermos em 2023 poderá beber informação daqui e como o Gomes Mota estava a dizer, há áreas que se calhar vamos dar prioridade a ir o voo e há outras que podemos recuar. Inclusivamente, pode haver aqui áreas que nós vamos dizer: "Olha, não precisamos de voo" e enviamos diretamente equipes para lá, uma vez que sabemos, com os dados que a Albatroz nos irá fornecer, sabemos que ali, pegando aqui no exemplo que o Gomes Mota estava a dizer, existe uma zona de eucaliptos que ficaram lá uns cepos e que possivelmente, neste momento Os rebentos já podem estar perto da linha. Possivelmente, a mudança de modo de gerir todos estes planos de intervenção, só para o ano, 2023, é que conseguiremos, de algum modo, pôr em prática.

Diga.

Estava a dizer que o importante, só realçar algo que o Gomes Mota disse, que realmente isto são dados que já existiam. Ou seja, o custo de recolha destes dados já tinha sido feito, é como se tivesse ali um custo já afundado. E o que estamos a conseguir fazer é produzir valor em cima de um custo que já estava afundado. Portanto, isso que surgir é sempre ganho, e como é óbvio, consegue ficar muito barato por quilômetro inspecionado.

O que eu ia perguntar há pouco, Ricardo Messias, é: estamos a falar de quantos voos por ano ou por mês, eventualmente?

Nós, neste momento, por ano, fazemos à volta de 20 mil km de voo de helicóptero.

Que tem um custo importante, não só financeiro, como ambiental, imagino.

Sim, também, porque o helicóptero é um meio que realmente ainda a motorização é a combustível fóssil, e obviamente tem o seu impacto. Nós temos outras iniciativas, nomeadamente a utilização de drones, que já vão começar a ter uma importância grande já este ano, mas realmente, se nós conseguirmos reduzir os quilômetros voados pelo helicóptero, será bastante positivo, até porque tem um custo grande, como estava a dizer, e tem riscos. Um voo de helicóptero como este é um voo que é muito especializado, digamos, porque voa a muito baixa altitude sobre uma infraestrutura elétrica e portanto, há aqui riscos que não são desprezáveis em termos de segurança, que é algo também bastante caro à nossa organização, e portanto, se conseguirmos reduzir também no tema de segurança, também temos aqui benefícios.

É outra vantagem. João Gomes Mota, esta ferramenta desenvolvida pela Albatross, que oportunidades de mercado é que vocês veem para ela? Antes de mais, isto é utilizado noutros países, este tipo de tecnologia? Não é, é escalável? Explique-nos um bocadinho como é que isto funciona em relação a isto.

Todos os países que eu tenho visitado, que fazem uma boa gestão de linhas elétricas e do ambiente à volta delas, têm alguma forma de gestão da vegetação. O que acontece é que ela é tradicionalmente uma forma muito intensiva em labor humano, mais ou menos especializada. Eu conheço já do Canadá à Suécia, passando por Espanha, França, Alemanha, os países mais próximos de nós, Reino Unido, por exemplo. O nosso grande desafio é fazer isto, por um lado, a partir de dados preexistentes e não de novos dados, o que é importante, portanto temos que ver isso. E segundo, fazê-lo de forma muito automatizada para manter os custos comprimidos. Esse é que é o grande desafio. Portanto, a pergunta que me faz da escalabilidade, se é escalável, aquilo que digo é, se não for escalável, não é rentável. Porque depende exatamente da nossa capacidade de fazer algoritmos fiáveis e com resultados positivos para que seja escalável, porque senão os valores não compensam o trabalho humano de olhar para os dados. E portanto, esse é o grande desafio.

É transformar isto numa ferramenta, de facto, de utilização mais massiva. Ricardo Messias, em relação à E-Redes, disse-nos há pouco que estão a testar ou estão a aplicar esta tecnologia em quatro distritos. Imaginamos que a ideia é, depois de ela estar devidamente validada, cobrir o território nacional todo?

Sim. Os quatro distritos foi uma questão apenas de definir uma prioridade e ter áreas boas para desenvolvermos toda esta tecnologia. Porque o acordo que temos firmado com a Albatross é, como eu disse, para toda a rede elétrica em espaço florestal. Toda a rede elétrica que temos nesses espaços vão ter este tipo de análise e vamos ficar com estes dados para trabalhar e para, como eu referi, ter benefícios quer em termos financeiros, quer em termos de outras questões que nos são mais caras ainda, como por exemplo, a questão da segurança.

E a questão do ambiente também. De alguma forma, Ricardo Messias, isto permite uma gestão da floresta, que é vizinha, obviamente, da rede, de uma forma mais eficiente? Isto é, salvar árvores, isto.

Sem dúvida. A legislação mudou a 1 de janeiro, e estamos expectantes de quais vão ser os requisitos em termos de gestão da vegetação. Mas a legislação anterior era bastante agressiva em termos da biodiversidade, porque obrigava a uma intervenção que praticamente não deixava lá nada. Obviamente, temos que ter esse cuidado em termos das árvores, não podem realmente estar debaixo das linhas, porque crescem e as linhas não andam assim tão alto. No entanto, nós temos zonas do país em que temos, por exemplo, matos E estou a ver zonas da Serra da Estrela, por exemplo, que são lindíssimas pela zona de pedra e não têm mais do que matos e que somos obrigados a limpar, e limpar é uma palavra pouco agressiva para o que fazemos, aquelas zonas. E eu creio que este tipo de conhecimento fino do que está no enquadramento da linha nos permitirá, seguramente, assegurar uma melhor interação com a biodiversidade local. E é isso que estamos expectantes também que aconteça.

Também é uma tecnologia a meio do ambiente. João Gomes Mota, e mesmo para terminar...

Posso dar uma palavra sobre isto?

Claro.

Rapidamente. Além da biodiversidade, como o Ricardo acaba de acrescentar, há um aspecto também social importante. Na prática, quando nós olharmos a linha como uma parte de um ecossistema, temos que pensar nos interesses dos bombeiros, das pessoas que vivem à volta, das pessoas que fazem passeios na natureza, dos pastores que levam seus rebanhos e dos próprios donos do terreno sobre o qual a E-Redes, neste caso, tem o direito de passagem por concessão. É olhando tudo isto como um ecossistema que vamos conseguir gerar uma melhor gestão de tudo isto, uma preocupação fundamental são os incêndios, como é evidente, mas vamos chegar à conclusão que se calhar limpar não é a forma melhor de fazer isto, conseguimos gerir melhor e garantir o melhor coberto vegetal e melhor satisfação de todas as partes interessadas.

Muito bem, agradeço a ambos a presença neste "Regresso à Indústria", agradeço ao João Gomes Mota, da Albatross Engenharia, e a Ricardo Messias, da E-Redes. Esta explicação sobre este projeto. Este foi mais um "Regresso à Indústria", uma parceria entre o Observador e a Ecotec. Até o próximo programa.

Projeto cofinanciado do Compete 2020, Portugal 2020 e União Europeia, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional