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O que é que o betão tem a ver com casca de arroz e como é que alguns resíduos agroalimentares podem ser usados pelo setor da construção? É sobre estes aproveitamentos e a utilização circular de matérias-primas que falamos hoje. E vamos fazê-lo com Beatriz Marques, a investigadora do ITECONS, é o Instituto de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico para a Construção, Energia, Ambiente e Sustentabilidade, e com Micaela Oliveira, gestora de projetos do grupo Farcimar, soluções em pré-fabricados de betão. Eu sou o Paulo Ferreira e este é o Regresso da Indústria, uma parceria entre o Observador e a Cotec. Micaela Oliveira, deixe-me começar por si. O grupo Farcimar tem uma parceria precisamente com o ITECONS para o desenvolvimento de novos materiais para o setor da construção, em que estão a trabalhar, isto com recurso à valorização de resíduos da agroindústria. Neste caminho, nesta parceria, até onde é que já conseguiram chegar?
Eu começo por agradecer o convite que nos foi feito. Realmente, a parceria com o ITECONS já começou há alguns anos e temos vindo a trabalhar em conjunto no desenvolvimento de novos produtos e de novas soluções. Este desafio foi-nos lançado pelo ITECONS e também pelo Técnico de Lisboa, numa parceria, num projeto conjunto, e tem a ver com o desenvolvimento de barreiras acústicas e de painéis multicamada, em que o objetivo era substituir pelo menos 50% do agregado do betão por casca de arroz. O projeto até tem sido desenvolvido com substituição a 100% dos agregados convencionais com casca de arroz. A Farcimar produz e comercializa vários tipos de barreiras acústicas, em que a camada absorvente tem sido em betão madeira, betão borracha ou betão poroso. E temos este projeto conjunto em que a parte absorvente é em betão com casca de arroz.
Que é uma coisa improvável, pelo menos para quem não domina essas questões. Quais são as vantagens da casca de arroz em relação a esses outros materiais que mencionou?
A casca de arroz tem uma baixa massa volúmica e elevada porosidade, o que permite atingir produtos com boas características tanto térmicas, acústicas, mas para melhor falar sobre esse assunto, se calhar, é a Beatriz.
Beatriz Marques, vamos lá então. Investigadora, esteve do lado da investigação e da pesquisa que levou a este resultado. Como é que se lembraram da casca de arroz, que era uma coisa que provavelmente não lembraria muita gente?
Sim. Antes de mais, boa tarde a todos e agradeço também o convite. A casca de arroz surgiu já no seguimento de projetos até anteriores, aqui na região do Baixo Mondego. O ITECONS está sediado aqui na cidade de Coimbra, por isso nós também começámos com alguns projetos, até mais na área hídrica e ambiental, a perceber como é que podíamos tirar partido dos recursos que o Baixo Mondego nos oferece. E em conversa com agricultores, com pessoas do setor agrícola, que nada tem a ver com a construção, foram partilhando conosco esta dificuldade em escoar este resíduo da cultura do arroz. Nós vemos em nossas casas o grão de arroz dentro das embalagens, mas antes de chegar aí, um resíduo muito importante que acaba por decorrer deste processo é a casca de arroz. Eles não conseguem fazer nada com a casca de arroz, não conseguem utilizar como adubo, não conseguem utilizar para alimentação animal. Então, o que acaba por acontecer é que fica armazenada durante muito tempo em silos e acaba por se tornar um problema grande para pequenos e médios agricultores desta região.
Ou seja, tem mais custo lidar com ela e geri-la do que algum proveito para outra utilização, é isso?
Exatamente. E então começámos a testar fazer algumas misturas com alguns materiais, tentar perceber como é que reagia e foi no seguimento de uma série de experiências, misturando a casca de arroz com outros materiais que nós já conhecíamos melhor, que surgiu também esta oportunidade de explorar um potencial que começámos a perceber que a casca de arroz tinha, que era tirar partido deste desempenho acústico. E falámos com a Farcimar, também juntámos o Instituto Superior Técnico, como a engenheira Micaela referiu, e começámos a explorar essa potencialidade com diferentes tipos de mistura. Há aqui todo um trabalho de investigação que está por trás, para tentar perceber como é que podemos tirar partido desta nova mistura e destes novos materiais sem comprometer a qualidade técnica e todas aquelas conquistas que nós já tínhamos para trás e principalmente os padrões de qualidade que a Farcimar já vinha a trabalhar. E tem sido este, até agora, o nosso caminho e tem estado a correr bem.
Micaela Oliveira, foi um caminho longo para chegarmos até aqui. Antes de mais, deixe-me perguntar: estas barreiras acústicas já estão em aplicação, já estão no terreno ou ainda não?
Não, este projeto do betão com casca de arroz, espera-se que surja, e esta aplicação das barreiras com casca de arroz, espera-se que surja no âmbito deste projeto do High Sus que está em desenvolvimento. A Farcimar comercializa vários tipos de barreiras acústicas, com casca de arroz ainda não. Mas os resultados que temos tido têm sido muito promissores, tanto em termos de desempenho acústico, como havia uma dificuldade inicial, ou que se achava que poderia ser uma dificuldade, que tinha a ver com a Não deixa de ser um material biodegradável e a questão do seu comportamento a longo prazo era uma questão que nos preocupava.
Ou seja, trocando isso por miúdos, podia de alguma forma apodrecer, como acontece com todos os materiais que existem.
Haver uma degradação biológica do próprio produto que pudesse inviabilizar a solução. Era o ponto fraco que era identificado à partida, porque já havia uma série de estudos iniciais feitos pelo Itecons que viabilizavam o produto em si e as soluções cimentícias com a casca do arroz. A Farcimar também já tinha muita experiência e um know-how muito grande em termos de barreiras acústicas, a parte produtiva. Havia essa questão que era aquele ponto que nós identificávamos que poderia vir a ser um problema. E tem-se verificado que a própria casca do arroz, quando inserida na pasta cimentícia, não se tem detetado essa biodegradabilidade do material. Por isso os resultados têm sido muito promissores. Nós temos mesmo, em termos acústicos, conseguido barreiras com comportamentos muito similares à nossa barreira de betão madeira. Os painéis multicamada, que é o segundo produto, em termos térmicos, também têm tido bom desempenho. Por isso, sim, estamos contentes com os resultados.
E estão confiantes então que isto vai ser um produto de aplicação relativamente próxima. Beatriz Marques, como é que isto funciona? Estas parcerias do Itecons, são vocês que vão desenvolvendo produtos, fazendo testes, fazendo a vossa investigação e inovação, e depois vão ter com potenciais parceiros que estão nos setores a quem isso pode de alguma forma ser útil, ou ficam à espera que sejam as empresas a ir ter convosco para desenvolver soluções?
Normalmente nós beneficiamos mais, eu acho que os produtos, até a sociedade no geral, digamos assim, acaba por beneficiar mais quando o ponto de partida surge de uma necessidade que as empresas têm, que a indústria tem. E é esse também o nosso principal objetivo e é essa também a nossa missão, no fundo, é desenvolver esta investigação, não só uma investigação com uma abordagem científica, mas também uma investigação aplicada aos desafios que a realidade empresarial nos faz chegar. Claro que nós temos alguns trabalhos que vão decorrendo em paralelo, tentando explorar caminhos, até para tentar antecipar algumas questões que até as próprias indústrias com quem nós costumamos já trabalhar possam ter. Mas de uma forma geral, a missão do Itecons ou os trabalhos que o Itecons faz só fazem sentido quando estão aliados com esta realidade empresarial que é muito importante e é isto que depois também faz levar para o mercado global produtos muito inovadores, com valor acrescentado e que possam levar também Portugal não só para o mercado europeu, para o mercado mundial e criar ali mesmo uma riqueza. Esse é o nosso objetivo, é sempre partir desta parceria, desta sinergia, digamos assim, com as empresas com quem nós já vamos trabalhando. Algumas chegam até nós a colocar alguma questão e nós aí tentamos trabalhar em conjunto, também sem esquecer a parte da realidade. Por exemplo, neste caso da Farcimar, foi muito importante conhecer a realidade produtiva. Não nos interessa para nada estar a desenvolver um trabalho científico com uma abordagem tipicamente científica, ou seja, com princípio, meio e fim e pensar naquilo que pode ser interessante para a comunidade científica, se depois na parte produtiva, se na parte prática, isto não se traduzir em nada que seja concretizável ou que possa trazer algum valor, em primeiro lugar para a empresa e depois também para o mercado global. Por isso nós trabalhamos sempre com esta prioridade que é criar estas parcerias, estas sinergias com a indústria.
Com empresas e que tenha uma utilização prática muito óbvia. Micaela Oliveira, este tipo de inovação insere-se naquilo que é uma das tendências atuais, que é da sustentabilidade, do aproveitamento de matérias-primas que provavelmente não teriam outra aplicação. Enfim, há aqui um impacto ambiental. Isso é uma coisa que vocês sentem que os vossos clientes valorizam? Ou ainda não estamos nesse ponto?
Não, eu acho que ainda não estamos nesse ponto, mas eu acho que o caminho será esse. Será naturalmente esse, mas tem que haver um trabalho anterior àquilo que nos é exigido pelo cliente, porque as próprias normas europeias e todas as diretivas da Comunidade Europeia apontam para esse caminho. Por isso os clientes, mesmo que não estejam vocacionados para o fazer, serão mais cedo ou mais tarde obrigados a exigir determinados padrões de qualidade que assentam na sustentabilidade. Eu acho que tem sido feito, até porque também já existem apoios ao desenvolvimento de soluções mais sustentáveis, tem sido feito um esforço por parte dos centros de investigação e também pela indústria para que isso aconteça. É o que eu acho sobre isso.
Claro. Micaela, esta área da construção em que o grupo Farcimar se encontra, dá a ideia para os não especialistas, que é das áreas onde há pouca inovação, de alguma maneira, porque nós vamos vendo as obras a ser feitas e betão, ferro, enfim, os materiais parecem que são sempre os mesmos, mas isto é uma falácia, porque por trás dessa aparente regularidade em relação àquilo que se fazia antes, vai havendo muita inovação de materiais. É isso? O que é que estão a desenvolver mais nos vossos materiais, além deste?
Eu começava por responder à sua pergunta ainda um bocadinho à génese da nossa parceria com o IT cons. Eu acho que muitas vezes estas coisas surgem da própria necessidade da própria empresa, que a dada altura sentiu necessidade de alguma coisa. No nosso caso, as barreiras acústicas são produtos com marcação CE, exigiam ensaios em um laboratório certificado que estavam a ser feitos em Espanha e a Farcimar, na altura, achou por bem arranjar um parceiro em Portugal que lhe fizesse esses ensaios. E foi o IT cons que abraçou esse desafio e que se tornou capaz de os fazer. A partir daí, o IT cons começou a conhecer a realidade da Farcimar muito de perto. E a partir daí passou a ser o IT cons a chamar a empresa. E eu acho que as empresas em Portugal precisam muito deste chamamento das entidades e dos centros de investigação e das faculdades, porque as empresas estão muito centradas na produção, estão muito centradas no seu dia a dia, mas muitas delas também estão recetivas a trabalhar e a desenvolver trabalho nesta área, porque é uma forma de irem inovando. Eu acho que as empresas deviam estar recetivas a isso. A Farcimar, em particular, tem sido chamada a algumas situações e está sempre disponível para... Primeiro, é óbvio que faz internamente os seus estudos de viabilidade económica e de avaliação do potencial do produto. Mas tem estado recetiva e como a Farcimar, também acho que existem outras empresas que estarão recetivas.
A serem parceiros nestes projetos de investigação, que implicam sempre estas duas partes, os cientistas, mas a aplicação prática depois em indústria.
Exatamente, por isso a construção não deixa de ser um setor que eu acho que é, que sendo chamada, e muitas vezes advém de uma dificuldade que têm, depois uma coisa traz a outra. Eu acho que a palavra é mesmo sinergia. Por isso acho que a construção sendo um setor que à partida não estará tão apto ou tão recetivo, às vezes, se calhar é uma ideia errada. Não é?
Claro.
Se calhar, às vezes até estão mais do que são aliciadas para fazer.
Sem dúvida. Beatriz Marques, do lado da investigação, o que vocês têm em preparação ou em que é que estão a trabalhar no IT cons, precisamente nesta área dos materiais e sobretudo no setor da construção?
Nós temos estado muito também a seguir aquilo que não só que a nossa realidade do planeta nos vai pedindo como sociedade. Mas também é aquilo que são as próprias diretivas europeias, aquilo que nós também entendemos que é o caminho de um futuro mais sustentável. Temos trabalhado bastante nestes projetos que incidem mais na economia circular, este aproveitamento de resíduos e de subprodutos, não só de resíduos da área da construção, como subprodutos de outras indústrias, como é o caso da agroindústria. Mas também temos tentado perceber como é que até materiais que nós já utilizávamos, por exemplo, como isolamento térmico ou como outro tipo de aplicações, podemos reinventá-los e aplicá-los em novas soluções, em coberturas verdes, por exemplo, em ir ao encontro da sustentabilidade por vários caminhos. E outro caminho que também tem sido bastante explorado e que nós até neste projeto do Rise Up tentamos não esquecer, daí também ter surgido a ideia dos painéis multicamada, é em encontro da sustentabilidade através da eficiência energética, melhorando não só o desempenho em termos mecânicos e físicos que os materiais têm de ter, as questões de durabilidade também, como já falámos há pouco, mas também a parte térmica ou de isolamento térmico, que os materiais envolventes dos nossos edifícios, as soluções, as paredes, tudo isso precisa de ter, e as exigências são cada vez maiores para que consigam não só dar uma resposta de segurança, mas também uma resposta de sustentabilidade, ou seja, contribuírem para que os edifícios se tornem mais eficientes energeticamente. E também não esquecendo, também é muito importante, algo que tem se vindo a falar nos últimos anos, mas que penso que ainda é preciso continuar a falar mais, que é a parte de eficiência hídrica, não só dos materiais, dentro dos recursos naturais que nós falamos, dos resíduos, dos materiais sólidos, digamos assim, este material líquido também faz parte da vida do planeta, faz parte do nosso dia a dia e também é importante haver uma consciência maior de como podemos ou como a indústria da construção pode gerir de uma forma mais eficiente a utilização da água, a existência e os caminhos.
Que é um tema que está sempre em cima da mesa. Beatriz Marques, este projeto em concreto da utilização de casca de arroz para fins de construção é uma inovação mundial, há mais coisas a ser feitas noutros sítios com este tipo de produtos? O que é que sabem sobre isso?
A casca de arroz, daquilo que nós temos tido também a nossa pesquisa, em termos de aplicação, em termos científicos, digamos assim, pela comunidade científica, tem havido já algumas experiências, não só dentro da Europa, mas também até noutros países, no Brasil, na Ásia, com a utilização da casca de arroz, que são países onde também têm bastante este resíduo. Mas a aplicação, normalmente estas aplicações que nós vemos na comunidade científica, porque é onde mais facilmente nós também conseguimos obter essa informação do que está a ser estudado Existem algumas aplicações com misturas com cimento, como é o caso destas que nós estamos a trabalhar neste momento com o Farcimar. Existem também algumas misturas com outro tipo de ligantes, para substituir, por exemplo, partículas de madeira, dos MDFs, isso existe. Agora a questão aqui também foi aceitar o desafio de uma aplicação inovadora, que nós não sabíamos, nem tínhamos informação nenhuma de como seria essa aplicação, como é o caso das barreiras acústicas, não só pela questão acústica, que nós já tínhamos indícios de que poderia ter um bom comportamento, mas também pela questão da durabilidade. E este projeto também tem sido muito importante para ir antecipando essas condições reais de aplicação, desde esta fase de desenvolvimento de produto, para podermos ter mais segurança ou a Farcimar poder ter mais segurança na altura de os colocar no mercado e poder dar a garantia de qualidade que pretendem. Mas sim, a casca do arroz tem-se vindo a observar alguma insistência por parte de outras indústrias de outros países na utilização de resíduos e deste tipo de resíduos. Claro que existe ainda um preconceito associado à utilização de resíduos, mas isso se calhar já seria outra conversa.
Já era outra conversa, exatamente. Claro, mas o caminho é um pouco por aí, Micaela Oliveira, e estamos quase a terminar, o tema da sustentabilidade, da economia circular, do aproveitamento de resíduos, se quisermos, dar nova vida a resíduos, está em cima da mesa. O próprio PRR tem o pilar da sustentabilidade muito evidente. A área da construção, onde está o grupo Farcimar, está a adaptar-se a isto e às oportunidades que, para todos os efeitos, vão surgir ou estão a surgir?
Sim, eu diria que sim. A Farcimar tem tido essa preocupação de desenvolver produtos, tem estado sempre recetiva ao acolhimento de projetos que visem a sustentabilidade, tanto no seu processo produtivo como no desenvolvimento do próprio produto. Até porque eu acho que mais cedo ou mais tarde será uma exigência do cliente, até por causa das diretivas europeias que obrigam ou vão obrigar, mais cedo ou mais tarde, a que assim seja. E o produto será valorizado. Eu acho que as empresas terão que fazer este esforço adicional agora para que vejam o seu produto valorizado no futuro e terão, certamente, o retorno desse investimento que agora estão a fazer.
Muito bem. É um caminho sem fim, que está a começar agora.
Exatamente.
Ainda bem. Em nome da sustentabilidade. Estivemos então aqui a olhar para a aplicação, neste caso, à construção de matérias-primas agroalimentares. Uma combinação pouco provável, mas ela existe. E fizemo-lo com Beatriz Marques, do ITCons, e com Micaela Oliveira, do grupo Farcimar. Este foi mais um regresso da indústria, uma parceria entre o Observador e a Cotec. Até ao próximo programa.
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