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Controlo de qualidade, redução de desperdícios e zero defeitos são objetivos permanentes da indústria. E foi isso também que juntou a Volkswagen Autoeuropa e a Introsys num projeto de linhas piloto de controle automático da qualidade. E é desse caso que falamos hoje com Raquel Caldeira, da Introsys, e Gisela Garcia, da Autoeuropa. São ambas líderes de inovação nas respectivas empresas. Eu sou o Paulo Ferreira, este é o Regresso da Indústria, uma parceria entre o Observador e a COTEC. Gisela Garcia, bem-vinda e começando por si, que questão é que a Autoeuropa queria resolver quando avançaram para esta parceria com a Introsys?

Olá, muito boa tarde. A nossa parceria com a Introsys já ocorre há vários anos, numa primeira instância em fase mais operacional, portanto em chão de fábrica, como fornecedores integradores de tecnologia no chão de fábrica. Tínhamos uma questão que gostaríamos de resolver e que não tínhamos know-how específico, concreto em casa para o fazer. Então desafiamos a empresa Introsys para nos resolver uma determinada questão de controle de qualidade. E essa questão especificamente foi na nossa área de produção das carroçarias, portanto, a área onde se juntam as várias peças metálicas do carro, onde são soldadas e coladas, e depois no final dessa área sai a parte da carroceria do carro, antes de ter rodas, portanto, uma parte antes de ser pintada. E foi concretamente na peça do capô que nós tínhamos uma questão que queríamos controlar de uma forma mais automática, que era a colagem do capô. O capô leva um cordão de cola ao longo do seu perímetro e esse controle de cola é feito por uma máquina específica. Contudo, o controle é visual e, portanto, só éramos capazes de o fazer posteriormente à aplicação dessa cola. Então desafiamos a empresa Introsys para que nos ajudasse a encontrar uma solução, de forma que esse controle fosse automático e de preferência a decorrer durante o processo da aplicação da cola. Isso perfeitamente alinhado com a introdução que fez, tem a ver com os processos automáticos de inspeção e no percorrer da estratégia do zero defeitos.

Muito bem, a ideia aqui então era fazer um controle na hora e um controle sem intervenção humana.

Exatamente.

Raquel Caldeira, qual foi então a abordagem da Introsys-

Não é necessário.

Diga, Gisela.

Eu estava só a dizer, numa primeira fase, como apoio à decisão humana, não tanto sem intervenção humana, mas numa primeira fase, como apoio à decisão humana.

Raquel Caldeira, e perante isto, qual foi a abordagem no terreno?

Boa tarde a todos, antes de mais gostaria de agradecer o convite do Observador e da COTEC para participarmos neste evento. E a nossa estratégia foi uma estratégia que utilizamos em qualquer projeto de investigação e desenvolvimento. Iniciamos por fazer um levantamento de um conjunto de requisitos que são fundamentais para sabermos qual é o objetivo do projeto e o objetivo do produto. E esse levantamento de requisitos é feito sempre com o utilizador final, neste caso, a Volkswagen Autoeuropa. Então, depois de várias reuniões e visitas ao chão de fábrica, foi iniciada a fase de conceptualização do sistema, em que teríamos de desenvolver um software para fazer a inspeção desse cordão de cola que a Gisela estava a referir. Na fase de desenvolvimento propriamente dita, o software foi desenvolvido e aplicado em três momentos. Um pré-demonstrador que utilizámos nas ações de disseminação, que também tinha um aplicador de cola, mas era com um robô colaborativo e um sistema de pequenas dimensões. Um demonstrador industrial que temos na nossa delegação de Castelo Branco, que é uma célula já muito próxima das células da Volkswagen Autoeuropa, que tem o sistema de cola, que tem o robô industrial da ABB com autómates e todos os outros componentes que cumprem o standard. Aí sim, colocámos um conjunto de câmaras num anel, que é o sistema de inspeção de cola inline, ou seja, que é realizado durante a aplicação do robô. Quando o robô está a aplicar a cola, é feita logo a inspeção, e um sistema offline que é realizado após a aplicação. Na linha piloto da Volkswagen Autoeuropa, implementámos também estes dois sistemas de inspeção, semelhante ao demonstrador industrial da Introsys. Tudo isto, como já referi anteriormente, cumprindo o standard da Volkswagen, que a Introsys nos seus projetos de sistemas de controle para a indústria já está habituada a trabalhar.

Raquel, ia perguntar-lhe também se este é um sistema de inspeção e monitorização ou se também faz a correção de eventuais defeitos que sejam detetados.

Nas instalações da Introsys, ou seja, no demonstrador industrial da Introsys, tem as duas vertentes. Consegue fazer inspeção e monitorização e também correção de alguns tipos de falhas. Nós podemos ter falhas que são, por exemplo, interrupções do cordão de cola. Essa é uma falha corrigível. Há outro tipo de falhas, como por exemplo, um borrão, ou a cola estar para além dos seus limites de tolerância, já não é corrigível. As falhas corrigíveis são corrigidas no sistema da Introsys. Na Volkswagen Autoeuropa, devido a algumas restrições de segurança do robô, só é possível fazer inspeção e monitorização. Caso contrário, não cumprimos o standard da Volkswagen. Mas o sistema está desenvolvido para permitir as duas coisas: inspeção e também correção.

Gisela Garcia, isto é um projeto-piloto. Em que fase está neste momento? Já tiraram alguma conclusão? Já conseguem ter dados recolhidos para avaliar eventuais impactos positivos que tenham? Em que fase é que estão?

O projeto foi feito para um modelo que atualmente já não está a ser produzido, portanto, o processo agora precisava de ser reconfigurado para o carro que estamos a produzir e, portanto, neste preciso momento, estamos nesse processo. Estamos no processo de adaptar a tecnologia ao novo modelo.

No modelo em que fizeram o teste do projeto-piloto, certamente que analisaram dados, que tiraram conclusões. Conseguem ter, neste momento, alguma métrica do tipo de defeitos que conseguiram corrigir?

Eu não tenho esses valores comigo. Sei que o output foi bastante positivo, mas eu não consigo dizer em termos quantitativos, efetivamente, quais foram os resultados.

Mas, de qualquer maneira, é um projeto que vai avançar e que vai ser também aplicado a outros modelos?

Este projeto teve, acima de tudo, uma dimensão de mostrar que é possível fazer inspeções automáticas e preditivas na linha de produção das carroçarias. E, portanto, mais do que propriamente os resultados deste projeto em concreto, interessou-nos a parceria que fizemos com a Introsys e que já deu, inclusive, frutos a outros projetos que já temos a decorrer. E também foi muito útil na perspectiva de trazer para o chão de fábrica estas tecnologias e também sensibilizar e formar os operadores que estão no chão de fábrica para a utilização destas tecnologias. Portanto, nem sempre os projetos de I&D resultam necessariamente num produto que depois é diretamente aplicável na produção. É sempre essa a nossa intenção, mas nem sempre isso é o que acontece. Tem uma grande componente de experimentação e de levar alguma incerteza para o chão de fábrica, para que também os colegas da produção tenham a possibilidade de aportar valor e feedback naquilo que é o início da investigação e do desenvolvimento, e não só receberem as soluções quando já estão comercialmente desenvolvidas. E, portanto, este projeto em concreto foi dos nossos primeiros projetos-piloto na área da inspeção automática. Já foi muito bem acolhido. Não está a ser utilizado na sua plenitude na produção, mas serviu de entrada para este tipo de tecnologias na linha de produção e para futuros projetos, que inclusive nós já estamos a explorar e a executar.

Raquel Caldeira, aqui também há uma componente preditiva deste tipo de soluções. Isto é, conseguem de alguma maneira depois tirar conclusões para o futuro, isto é, para aquilo que pode acontecer nas próximas peças ou nos próximos processos?

Sim, nós fazemos um tratamento estatístico dos resultados, em que se percebe uma degradação do sistema. Uma das características que estes sistemas de cola têm é que no início do bidon da cola, normalmente há situações de ar que alteram o comportamento da aplicação da cola ou no final também acontece a mesma coisa. Ou seja, é possível prever este processo de degradação que se vai realizando ao longo do processo produtivo e também do desgaste do próprio consumível, à medida que a cola vai sendo consumida do seu recipiente. E é possível, com esta análise de tendências, fazer essas previsões.

Gisela Garcia, há aqui sempre objetivos, obviamente, que também são de sustentabilidade. No fundo, trata-se aqui de fazer uma economia de recursos, a redução de desperdício, obviamente. Este tipo de projetos, este tipo de práticas e sistemas também têm muito impacto a esse nível?

Com certeza. Tudo o que é estratégias de zero defeitos, além de ter um impacto direto naquilo que é a competitividade da própria empresa, porque nos tornamos mais eficientes, tem obviamente um impacto também na utilização mais sustentável dos recursos, porque produzimos menos sucata e menos desperdício no próprio processo produtivo. E, portanto, ao tornar-nos mais eficientes, é um projeto com grandes benefícios, quer económicos, quer de sustentabilidade ambiental.

E Gisela Garcia, estes projetos no universo da Volkswagen podem ser exportados, aplicados, isto é, testados numa fábrica ou numa unidade, neste caso a de Palmela, e depois serem levados para outras unidades do grupo por esse mundo fora. Como é que isso funciona dentro da Volkswagen?

Dentro do grupo, quer da Autoeuropa, quer das outras fábricas da Volkswagen para a Autoeuropa, existe um processo interno bastante já robusto e sustentado de partilha de boas práticas. E portanto, todos os projetos que nós temos que chegam a bom porto, cujos resultados são interessantes, nós fazemos essa divulgação para o mundo Volkswagen, sim.

E para eventualmente então serem aplicados noutras unidades. Raquel Caldeira, e do lado da Introsys, que oportunidades de mercado é que há aqui neste tipo de soluções? A aplicação deste tipo de tecnologia e de funções pode ser feita a outros setores, eventualmente, ou a outras unidades?

Sim, e mesmo dentro da Volkswagen Autoeuropa, nós já implementamos um sistema que está neste momento em produção, não na área das carroçarias, como a Gisela referiu que esta está implementada, mas na área da montagem final, antes da aplicação da cola dos vidros ao carro É necessária a aplicação de um fluido, que se chama primário, e nós fazemos a inspeção. Há uma colocação automática do primário, que era feita manualmente até há bem pouco tempo. E a Introsys implementou um sistema automático de aplicação do primário e de análise da qualidade dessa aplicação. O maior desafio, além do produto a aplicar ser muito mais fluido do que a cola, dando origem a mais erros, obviamente, é que é uma substância preta que é colocada em todas as cores dos carros. Os carros aí já estão pintados, inclusivamente em carros pretos. Isso teve desafios acrescidos em termos da nossa análise e de machine learning aplicado para conseguir identificar claramente o primário preto nos carros pretos. Já existe. Outros mercados, obviamente, todas as empresas que utilizem colas, que têm como estratégia zero defeitos e utilizando ensaios não destrutivos, ou seja, fazer uma análise a 100% do produto sem destruir uma determinada amostra, podem utilizar esses sistemas, nomeadamente mecatrônica, placas de circuito impresso, moldes, vidros, os próprios cordões de soldadura, entre outros.

Raquel Caldeira, e para quem não entende tecnologicamente como é que estas coisas funcionam, que tecnologia que está aqui aplicada? É tecnologia de ponta, é tecnologia recente ou no fundo estamos a aplicar tecnologia que de alguma forma já conhecemos há algum tempo, que já dominamos e que nem é assim tão complexa, mas estamos a aplicá-la em contextos diferentes e com integração de peças diferentes para obter estes resultados?

Um pouco das duas coisas. As câmaras utilizadas são câmaras que já existem no mercado há algum tempo. A metodologia utilizada, o fato de termos um sistema offline, também já é amplamente visto no mercado ou já existe no mercado, apesar de com poucas aplicações em fábricas, existe mais num processo de prototipagem. O processo inline, ou seja, de verificação em tempo real da qualidade da aplicação, esse sim é mais raro e foi um produto desenvolvido pela Introsys. Temos inclusivamente uma marca registrada para esse produto. E também, obviamente, os algoritmos de machine learning, ou seja, os algoritmos de aprendizagem, esta camada de inteligência para perceberem muitas diversidades de imagens, quais são as que estão corretas e as que não estão corretas, é obviamente tecnologia de ponta.

E Gisela Garcia, na implementação no chão de fábrica, este tipo de tecnologia obriga a grandes mudanças no fluxo de trabalho e na interação, eventualmente, entre trabalhadores e máquinas, ou são processos relativamente simples?

Pretende-se que sejam o menos intrusivos possível. Um dos requisitos que normalmente nós colocamos é precisamente este tipo de aplicação seja o menos intrusivo possível com o trabalho da pessoa. E normalmente isso acontece. Do ponto de vista de quem está a operar noutras estações de trabalho. Do ponto de vista, depois, de quem vai analisar os dados e de quem vai interpretar os resultados, aí sim, por vezes é necessário haver formação para que as pessoas transitem também de um trabalho mais manual para um trabalho mais digital. Há essa necessidade que, na realidade, todas as fábricas agora no futuro vão ter que enfrentar e que é desafiante, que é formar as equipes que estão de fábrica para um mundo mais digital.

No fundo, quando se fala, por vezes, na substituição de trabalho humano por trabalho mecânico, com o avanço da tecnologia nas fábricas, muitas vezes estamos mesmo é a falar mais de uma mudança de funções, no fundo, a colocar as mesmas pessoas a fazer outro tipo de tarefas, é isso?

Mais requalificação, deixando de fazer um trabalho tão repetitivo e passando a ter um trabalho mais variado em termos de conteúdo, mas que implica algumas competências digitais e que obviamente terão que ser dadas a estas novas tecnologias. Se bem que os sistemas que normalmente são desenvolvidos, são sistemas com imagens bastante fáceis de manusear e de interpretar, esse também é sempre um dos requisitos que nós colocamos a quem faz esse desenvolvimento. Mas sim, há essa transição, não há necessariamente uma redução, mas uma transição para outro tipo de competências.

Agradecemos a Raquel Caldeira e Gisela Garcia, o fato de terem partilhado conosco o essencial deste projeto entre a Introsys e a Autoeuropa. Este foi o "Regresso da Indústria", uma parceria entre o Observador e a Cotec. Até o próximo programa.

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