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A procura de soluções que tornem a vida mais fácil e prática aos utentes de produtos e serviços é uma constante e a indústria farmacêutica não é exceção. Hoje não falamos de inovação no desenvolvimento de fármacos, mas sim nos avanços que têm sido alcançados na forma como os tomamos. E assim chegamos ao projeto da Ovione com a WeHead para o desenvolvimento de um inalador especial. Para isso temos conosco Daniel Caramelo, cofundador e diretor de design da WeHead, e João Ventura Fernandes, diretor de negócios de inalação da farmacêutica Ovione. Eu sou o Paulo Ferreira e este é o "Regresso da Indústria", uma parceria entre o Observador e a Cotec. Bem-vindos, João e Daniel. Começando por si, João Ventura Fernandes, que problema na Ovione, que desafio queriam resolver quando avançaram para este projeto?
Boa tarde, Paulo. Obrigado pelo convite, desde já. A Ovione tem estado, ao longo das últimas décadas, muito envolvida na criação de ingredientes ativos, formulações e também dispositivos médicos para administração de fármacos pela via pulmonar. Esta é a via tipicamente mais eficiente para tratar doenças crônicas pulmonares, entre elas doenças como a asma e a doença obstrutiva crônica, tipicamente um efeito secundário que acontece para pessoas que são fumadoras mais tarde na vida e que afetam atualmente cerca de 300 milhões de pessoas no mundo inteiro. Nesse contexto, este projeto iniciou-se da constatação da evolução do mercado, nomeadamente da evolução das moléculas que são utilizadas para tratamento destas doenças crônicas, em que no passado, tipicamente, o que acontecia era que as moléculas que eram desenvolvidas necessitavam apenas de uma dose baixa, tipicamente na ordem de umas dezenas de microgramas, o que era administrado através da geração atual de dispositivos médicos de inalação ou inaladores. Acontece que com a evolução do caudal de novas moléculas cada vez mais eficientes, inclusivamente o desenvolvimento de moléculas biológicas para tratamentos mais eficientes destas patologias, a dose necessária para ser entregue está a crescer, a evoluir desde os microgramas para miligramas ou mais, portanto, um fator de 10 do que era no passado. E constatou-se a necessidade de desenvolver uma plataforma, um dispositivo médico inovador e mais adequado para a administração de doses mais elevadas destes fármacos para tratamento destas patologias crônicas respiratórias. Foi dessa constatação e dessa necessidade que já se observa no mercado, que gerou a identificação da oportunidade e o início desta colaboração com a WeHead para desenvolver um dispositivo exatamente focado na administração destes novos compostos por via pulmonar.
E portanto, falaram com a WeHead. Daniel Caramelo, quando receberam este problema, ou receberam este pedido da Ovione, como é que chegaram a esta solução depois? Como é que desenvolveram o caminho até lá chegar?
Boa tarde, Paulo e João. Obrigado também pelo convite para estar aqui. No fundo, nós partimos para este projeto como partimos para a maior parte dos projetos que nos chegam, ou seja, tentamos analisar realmente todos os constrangimentos e todas as preocupações que os nossos clientes têm na procura da resolução de um problema e tentamos observar quais eram os constrangimentos, toda esta preocupação de realmente fazer chegar ao utilizador doses de fármaco de uma forma bastante contida e ao mesmo tempo fácil de utilizar. Nós nos lembramos realmente de uma ideia de revólver, ou seja, no fundo, aquilo que nos ocorreu de imediato foi a concentração de várias doses num processo de um dispositivo circular. São pequenos contentores que rodam e têm uma saída para onde é feita a inalação do utilizador. Isso facilita em termos ergonômicos, em termos de contenção do próprio produto num objeto muito simples. Ele também permitiu fazer uma inovação ao nível da produção e do enchimento do fármaco na Ovione, que permitiu que os pós fossem colocados dentro do dispositivo de inalação, já com o dispositivo montado. Isso facilita muito em termos de produção e em termos de higiene, até do próprio processo de enchimento e de fabrico.
O manuseamento fica mais fácil, é isso?
Exatamente.
Explique, portanto, é um objeto circular. Quantos é que são os compartimentos, as doses?
Ele está preparado para oito doses. Sendo que poderia ser escalável para talvez mais. Mas este é o número que tanto a Ovione nos transmitiu como o número desejável para a quantidade de fármaco que é suposto atribuir ou dispensar numa utilização.
Claro, portanto, oito compartimentos, cada um deles com a dose certa de pó para inalar e depois vai rodando. Tente explicar-nos, Daniel.
Sim. Isto na rádio realmente torna-se mais complexo.
Mais difícil, não podemos mostrar. Claro.
Imaginemos uma chaminé e que por baixo dessa chaminé há uma espécie de um revólver que coincide Ao alinhar essa chaminé com esse contentor, faz com que haja uma passagem de ar, de forma que seja inalado esse pó. E ao fazermos a rotação destes contentores, ou seja, alinhando um a um com a dita chaminé de inalação, vai dispensando essas oito doses por oito vezes.
A cada rotação, digamos. Claro.
Sim, o fármaco não pode ser todo inalado de uma só vez, ou seja, aquela porcentagem de pó não pode ser toda dispensada de uma só vez.
Claro.
Sim, eu posso complementar. O objeto permite dosear uma dose muito elevada através de múltiplas inalações. Através desta divisão de uma dose, vamos supor, de 100 mg, dividida por oito manobras de inalação. Isto porque, tipicamente, o ser humano não consegue inalar mais do que uma determinada quantidade por cada inalação, caso contrário, existem reações adversas de tosse. E portanto, exatamente para administrar uma dose elevada, chegou-se a esta configuração circular, que administra a dose total dividida por múltiplos compartimentos em manobras sequenciais de inalação. E daí esta configuração circular, como o Daniel explicou, através de um revólver, que permite que o user rode e vá de compartimento ou de contentor em contentor, que tem então uma fração da dose total, de maneira a inalar sequencialmente uma porção de cada vez, de uma forma conveniente, segura e sem provocar essas reações adversas, até chegar à dose total a ser administrada.
Estamos a falar de um objeto que cabe na palma de uma mão, só para terem uma noção de escala.
Exato, portanto, uma coisa redonda e relativamente pequena. João Fernandes, então quando estiveram perante esta solução, como é que foi a implementação? Já agora, em que ponto é que está este projeto? É um projeto que já está no mercado, que já está a ser utilizado, ainda está em fase de testes. Sabemos também que é um setor muito regulado, obviamente, e que precisa fazer passar estes dispositivos, imagino que precisem também de passar por uma série de autorizações e certificações. Como é que está isso?
Exatamente, Paulo, é uma excelente pergunta e também dá uma oportunidade de fornecer aos ouvintes uma perspectiva sobre como é que funciona o processo de desenvolvimento destes produtos e, como o Paulo disse, e muito bem, os tempos típicos, que foram, neste caso, na situação anterior da pandemia, foram altamente encurtados devido à necessidade, mas explicar também qual é o padrão normal destes processos. Este projeto começou em conjunto com o IAD em 2018. Nós, na Ovione, estamos cada vez mais com uma estratégia de inovação aberta e de inovação colaborativa com outros parceiros da indústria, como uma forma de trazer capacidades, competências e conhecimento externo à nossa organização para permitir precisamente encurtar os tempos de desenvolvimento, acelerar o processo de desenvolvimento e chegar a soluções melhores e mais rápidas. E depois de identificada a oportunidade, formámos então esta parceria com o IAD para desenvolver este produto. O processo foi de dois, três anos com o IAD de conceção, portanto na fase inicial de ideação, nós chamamos a fase de ideação, de geração de várias ideias para o produto, vários conceitos para o produto, avaliação de cada conceito e seleção das ideias mais promissoras. Depois, uma fase de desenho detalhado em que a equipe do IAD esteve muito envolvida. Também uma fase de criação da propriedade intelectual, que é muito importante neste negócio para proteger muito bem o produto, na sua fase de inovação, na sua fase de comercialização posterior. E depois uma fase cíclica, que tipicamente acontece no desenvolvimento de produto entre a fase de iteração, de melhoria progressiva em vários ciclos, de iteração entre o desenho e o conceito do produto e a implementação da sua capacidade produtiva. Todo este processo que eu referi agora demorou dois, três anos e portanto, concluído esse processo, colocámos em vigor uma capacidade, que nós chamamos a capacidade piloto de produção deste inalador, deste produto, que nos permite fornecer a uma escala piloto o produto aos nossos clientes, aos nossos parceiros farmacêuticos, para a fase de desenvolvimento. Nós, na Ovione, não estamos envolvidos na invenção das moléculas, dos compostos químicos, no fármaco em si. Somos produtores dos mesmos, mas não necessariamente uma empresa que se dedica à identificação dos compostos. Esses são tipicamente os nossos clientes. Mas estamos muito envolvidos na produção desses ingredientes ativos, no desenvolvimento do produto e na integração, neste caso, com o dispositivo médico que faz a sua administração, neste caso, ao pulmão. E portanto, feito o desenvolvimento inicial e a implementação da escala de produção piloto, estamos nessa fase de colocar o produto, nós chamamos na pipeline, dos fármacos dos nossos parceiros.
E o processo de licenciamento disso é feito pelos vossos parceiros e clientes ou são vocês mesmos que fazem?
Essa é novamente uma excelente pergunta, Paulo, ainda bem que faz. Tipicamente o processo, e complementando a questão anterior dos timelines, depois de gerada esta inovação, nós temos que encontrar parceiros farmacêuticos que tenham então estas novas moléculas para tratar doenças pulmonares na sua fase inicial de desenvolvimento. O processo farmacêutico caracteriza-se por uma fase de descoberta do fármaco, depois uma fase pré-clínica, só estas duas fases podem demorar vários anos, até cinco anos. E depois uma fase de ensaios clínicos. Os ensaios clínicos têm três fases: fase um, numa amostra reduzida de pacientes, fase dois, numa amostra maior. Estas primeiras fases focadas, sobretudo, no estabelecimento da segurança e eficácia do novo composto químico, novo fármaco E depois uma fase três, de um ensaio alargado numa população elevada e muito representativa do ponto de vista estatístico, antes da submissão do dossiê à entidade reguladora. Isto acontece em diferentes territórios, nos Estados Unidos, na Europa, como vimos na questão do Covid. E depois da aprovação do fármaco, se for bem-sucedido. Como eu disse, a fase inicial de descoberta e pré-clínica pode demorar vários anos, cinco, sete anos, e a fase de ensaios clínicos um, dois, três, pode demorar também outros sete. Portanto, podemos chegar a um processo que pode demorar 15 anos. É um processo bastante longo.
Longuíssimo.
Exatamente. E portanto, na fase em que estamos, é de colocar este dispositivo médico nas mãos dos nossos parceiros, que têm estas novas moléculas na fase inicial, se quiser, que é a fase pré-clínica, e que vão avançar para o desenvolvimento e para os ensaios clínicos. É nessa fase que estamos.
Muito bem. Daniel Caramelo, como é que vão ser agora os próximos passos, então? Vão acompanhar também os testes que vão ser feitos para adaptar ou melhorar aquilo que houver a melhorar no dispositivo?
Sim, vamos continuar a acompanhar. Sendo que o nosso principal trabalho talvez esteja a montante desta fase. A nossa preocupação até agora foi realmente desenhar o equipamento, fazer com que a ideia realmente funcione. Isso acarreta uma série de trabalho em termos de investigação, de desenhos, de detalhe, de análise, prototipagem, seleção de materiais. Nós estamos inseridos na zona industrial da Marinha Grande e ali à nossa volta temos bastantes ferramentas para fazermos também essa construção correta dos objetos, desde a análise aos próprios protótipos, às tomografias que são necessárias fazer. E todo este processo foi um processo que nós fomos desenvolvendo até agora, e deixámos o produto num estágio em que fizemos uma série de moldes de pré-série, para permitir ao João e à Ovione fazerem realmente essa bateria de teste e conseguirem colocar os produtos na mão dos seus clientes, de forma a serem testados. E claro que nós estamos nessa fase de obter o feedback por parte desses clientes e claramente melhorar o produto, porque há sempre espaço para isso.
Claro. João Fernandes, qual é o tipo de escalabilidade de um produto como este? Isto é, quem vai depois colocar o produto no mercado são os vossos clientes, que produzem o fármaco. Fármaco que já estará ou será administrado pelos próprios utilizadores através deste dispositivo. Depois, o potencial disto o que é? Global? Vão conseguir vender para vários países, internacionalizar o dispositivo?
Sim, é tipicamente esse o processo. Portanto, o dispositivo é um elemento importante do ponto de vista até de propriedade intelectual e de vantagem competitiva, que nos permite entrar em parcerias com clientes farmacêuticos, que têm então novos compostos. Isso permite-nos também capturar o interesse destes clientes na própria produção do ingrediente ativo, através das nossas capacidades e da formulação desse ingrediente ativo. Nós temos internamente essas capacidades de desenvolvimento e podemos suportar os nossos parceiros na fase de desenvolvimento e de ensaios clínicos no fornecimento desses materiais, assim como o enchimento dessas formulações dentro do próprio dispositivo. E claro, como o Paulo referiu, e muito bem, existe essa oportunidade também de monetização, de licenciamento do próprio dispositivo e do valor dessa propriedade intelectual aos nossos parceiros, que podem também depois tirar partido da vida de patente associada a esta invenção e utilizá-la como estratégia de proteção no mercado. Tipicamente, como o Paulo referiu, obviamente de maneira certeira, o mercado é global e tipicamente estes acordos muitas vezes são acordos em que o parceiro tem interesse em assegurar certos direitos exclusivos de comercialização em alguns territórios. Já aconteceu com a Ovione em gerações de produtos anteriores a este produto específico, mas também inaladores. Acordos, por exemplo, como aconteceu com a geração anterior a este produto, em que fizemos um acordo especificamente para um país como o Japão, em que um dos nossos dispositivos está no mercado há mais de 10 anos a entregar um fármaco de uma grande empresa farmacêutica japonesa para tratar, isto muito antes do Covid, uma doença infecciosa, a gripe, através da administração de um fármaco por via pulmonar. E portanto, é esse tipicamente o processo de comercialização.
E do lado da WeHealth, Daniel, a vossa contribuição para um projeto destes onde é que acaba? Vocês seguem até ao fabrico do produto ou desenvolvem o protótipo, entregam ao cliente e depois as questões de produção em massa já são com ele? Explique-nos um bocadinho como é que funciona para vocês.
Como é que funciona o nosso processo? É assim, tipicamente o nosso processo nós começamos do A a Z, ou seja, começa realmente com a folha em branco, com um problema por resolver. Fazemos esse desenvolvimento, essa ideação de conceitos, passamos por uma fase realmente de concretização, de modelação tridimensional, de teste em termos de protótipo Juntamente com os clientes, em função de ser um cliente industrial ou um cliente editorial, no fundo, são clientes que têm produção ou clientes que não têm produção própria. Para os clientes que não têm produção própria, nós fazemos o sourcing, muitas vezes, de quem é que poderá fazer essa produção. A nossa especialidade é realmente a produção em massa e a produção, sobretudo, em polímeros. Não quer dizer que não façamos noutros materiais, mas vão desde os equipamentos como os da Ovion, de um packaging funcional, mas também temos muitos equipamentos eletrónicos, máquinas de café, trabalhamos no segmento desportivo, na área médica, etc. E muitas vezes fazemos esse sourcing de quem poderá produzir esses componentes e apresentamos essa solução fechada também ao nosso cliente, ou seja, no fundo, só compra produção. Para os clientes industriais, normalmente é mais simples, porque a produção já está em casa deles e nós fazemos o acompanhamento e a concretização do nosso projeto, dessa ideia, dentro da casa dos clientes, até que chegue ao mercado. Muitas vezes até trabalhamos em termos do packaging, realmente da relação com o consumidor. E como o João também disse, muitas vezes, o fato de nós estarmos constantemente a criar novas ideias faz com que sejamos, por natureza, uns fabricantes de propriedade intelectual. E isso muitas vezes é aquilo que também vendemos aos nossos clientes como uma mais-valia, não só do próprio projeto de design e de engenharia, e de acompanhamento à produção e de sourcing, mas sobretudo de geração de inovação. Ou seja, o nosso DNA está muito associado com a inovação que fazemos nos produtos e este caso da Ovion é um exemplo disso. Podia ser um objeto que poderia ser resolvido de uma outra forma, mas o fato de ser resolvido desta maneira permitiu que realmente gerasse essa riqueza e esse patrimônio industrial e intelectual, que permite ao nosso cliente, Ovion, também fazer negócio com essa própria inovação. Ou seja, isso no fundo, é a nossa metodologia e em função também dos projetos, temos mais ou menos envolvimento e podemos ir mais ou menos longe, conforme também se entenda.
E cada projeto é um projeto e neste caso, foi assim que aconteceu e ficou aqui bem ilustrado também o poder da inovação e a forma como nestas parcerias todos podem ganhar, neste caso a Ovion, a WeHead e obviamente depois os clientes finais que vão ter um dispositivo inovador para ajudar a ultrapassar as suas doenças. Agradecemos Daniel Caramelo e a João Ventura Fernandes, a presença neste mais este regresso da indústria. É uma parceria entre o Observador e a Cotec. Este fica por aqui. Até ao próximo programa.
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