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Bem-vindos. Hoje falamos de redes de abastecimento e de como a tecnologia pode ajudar a sua monitorização e controle, aumentando o desempenho e a eficiência. E vamos olhar em concreto para o projeto desenvolvido com uma rede de abastecimento de água. Para isso, vamos conversar com o Hugo Branquinho, vice-presidente de soluções digitais da EQS Global, e com o Nuno Barreira Sanches, gestor de energia e frotas das Águas do Interior Norte. Eu sou o Paulo Ferreira e este é o "Regresso da Indústria", uma parceria entre o Observador e a Cotec. Nuno Barreira Sanches, bem-vindo. Obrigado por estar conosco. Começo por si, para saber que problemas é que queriam resolver, que soluções é que andavam à procura, quando nas Águas do Interior Norte avançaram com esta parceria com a EQS.

Bom dia, Paulo e bom dia, Hugo. Bom dia a todos que nos seguem nesta conversa. Antes de mais, gostaria de agradecer, em nome das Águas do Interior Norte, o convite que nos generosamente. Quando o EQS nos abordou, no sentido de participarmos neste caso de estudo, e só para fazer um enquadramento muito rápido, na altura ainda éramos a Empresa Municipal de Águas e Resíduos de Vila Real, a EMAR de Vila Real. Mas já nessa altura sabíamos que iríamos crescer e ser englobados na atual Empresa Intermunicipal, constituída por oito municípios: Vila Real, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Mesão Frio, Sabrosa, Murça, Torre de Moncorvo e Feitos de Espada à Cinta. Esta dispersão territorial, associada ao sistema de telemetria que estamos a começar a implementar, implica um aumento muito acentuado do volume de dados e logo ali tivemos a noção que iríamos precisar de soluções novas que nos apoiassem na gestão das redes de abastecimento em dois pontos muito críticos. Por um lado, a gestão dos dados de telemetria, de modo a retirar os dados que sejam críticos e essenciais, mas também ajudar num problema muito concreto e importante na nossa área, que é o combate de perdas de água.

Que costuma ser grande, fala-se numa média de 30%, não sei se este valor ainda está atual em Portugal, de perdas de redes de água de abastecimento. Andaria por aqui?

Na altura, Vila Real estaria mais abaixo. Agora, com este sistema intermunicipal, estaremos mais acima.

E Nuno Barreira Sanches, portanto, uma das vossas questões era, de facto, por um lado, gerir o volume de dados, isto é, a rede fornece dados em permanência. A rede de água. Ou vai passar a fazê-lo e, portanto, depois é preciso tirar algum partido desses dados, imagina-se, não é?

De muitos dados, tirar o que é essencial e importante.

No fundo, para a tomada de decisões depois na gestão das empresas e das redes.

Exatamente.

Disse há pouco que foram contactados pela EQS. Hugo Branquinho, bem-vindo também a este "Regresso à Indústria". Hugo Branquinho, vice-presidente de soluções digitais da EQS. Tomaram então a iniciativa, neste caso, de vir ter com a Águas do Interior Norte. Sabiam ao que iam de alguma maneira? Já iam com soluções na manga para aquilo que eram as necessidades deles?

Olá, muito obrigado pelo convite. Sim, já íamos. A EQS tem estado a desenvolver uma série de soluções digitais para apoiar os nossos clientes no tratamento, na passagem de dados para informação, porque realmente o processo de decisão é feito com informação e não com dados. O desafio das águas é um desafio muito interessante, porque é um desafio que ultrapassa muito para além do negócio. Estamos a falar de otimização de recursos, de utilização consciente dos recursos e para nós, na EQS, é algo que é muito relevante e encaramos isto não só como um processo de digitalização, mas um processo de otimização, de racionalização dos recursos todos. Nós, como disse, tivemos o apoio da Comissão Europeia no desenvolvimento da nossa plataforma IUNO, uma plataforma de asset management e gestão de risco, e fomos ter com as Águas do Interior Norte. Primeiro, porque tenho uma ligação grande com as Águas do Interior Norte, porque é a terra onde eu me vi crescer.

Claro, há uma proximidade geográfica.

Exatamente. E gosto de ajudar primeiro os amigos. E o que aconteceu foi natural, foi a aplicação dos nossos algoritmos, das nossas plataformas, em que já estávamos a utilizar ou já utilizamos esses algoritmos noutras indústrias mais pesadas, para conseguir ter informação e ajudar a gestão a identificar falhas e otimizar essas falhas e então ganharmos todos com isso.

Vamos tentar descodificar isto no concreto. Como é que trabalha, Hugo Branquinho? No terreno, qual é o ponto? É colocar sensores ao longo da rede, por exemplo, sensores tecnológicos, que depois transmitem informação sobre o quê? Sobre o fluxo de água, sobre a pressão da rede, sobre eventuais fugas, como é que funciona na prática?

Na prática, é um processo que dito é muito fácil, executado não é assim tão fácil. Portanto, nós fazemos um estudo prévio, neste caso com a ADINE, da rede, em que identificamos pontos-chave, como bombagens, tanques e sistemas gravíticos, e as válvulas de redução de pressão, que estão um bocadinho a meio do caminho do consumidor final. Estudamos esses sistemas, identificamos quais são as variáveis, as grandezas que são interessantes monitorizar. Algumas já o disse, desde o caudal, pressão, e muitas vezes com alguma engenharia ao barulho, conseguimos inferir grandezas que de outra forma seriam difíceis de quantificar. Depois de termos identificado todas essas grandezas e os pontos de monitorização, vamos para o local e instalamos sensorização. Essa sensorização pode ser sensorização off-the-shelf, algo que nós compramos e que, de uma forma geral, já existe espalhada por grande parte das redes. O ADIno, como disse o Nuno, está numa fase relevante de implementação em toda a sua rede. Esses dados, captamos, e aí vem outra dificuldade. Nós podemos captar os dados utilizando rede móvel, pode ser GSM. Temos os outros protocolos como a LoRa, Zigbee, que podemos utilizar quando a cobertura GSM não o permite. Podemos também fazer a ligação tipicamente por fio, wired. Esses dados entram na plataforma e aí há logo uma primeira disposição de dados, em que conseguimos ver os pontos críticos e alguma alarmística associada a esses dados. Mas depois, a passagem desses dados para smart data e informação é feita através de algoritmos. Algoritmos esses que permitem detetar a sazonalidade, caudais que estejam muito fora do normal e com esses algoritmos é que conseguimos limpar a quantidade de dados e fazer um drill down até realmente aqueles sistemas que estão com problemas.

Ir ao essencial, no fundo. Separar o trigo do joio aqui e depois transformar esses dados na tal informação que é útil para a gestão. Nuno Pereira Sanches, do lado da Águas do Interior Norte, já disse que estão em processo de crescimento com vários municípios a serem geridos. Já atingiram os resultados que pretendiam com esta parceria? Ainda é cedo? Que resultados é que pretendem atingir? Isto é, quais são os objetivos para este projeto?

Este projeto foi muito pequeno em relação à distribuição geográfica que agora temos. Foi um estudo piloto, no entanto, os dados recolhidos foram analisados, foram cruzados com as nossas ocorrências, com as nossas ordens de trabalho, que registamos durante este quase um ano de estudo. Verificamos que quanto aos equipamentos propriamente ditos, houve poucos alertas, felizmente, nenhuma avaria. Felizmente para nós, porque se calhar para o Hugo até dava jeito algumas avarias.

Era mais um teste.

Era mais um teste, exatamente. Quanto às ocorrências relacionadas com fugas e roturas, aí sim, foi possível identificar no tempo alterações de pressão que antecederam estas ocorrências, estas fugas.

Que antecederam, isto é, há aqui uma capacidade preditiva também?

Exatamente. Nalguns casos até cerca de quatro dias.

Troco-me se isto for miúdos, Nuno. Essa monitorização permite, de alguma forma, estabelecidos alguns padrões, prever que ali há um risco enorme de uma fuga naquele ponto da rede, por exemplo.

Exatamente isso.

Como é que vocês, perante esta informação, atuam? Vão ao local e fazem o conserto da rede? Como é que isso funciona depois?

Sim, dependendo do local onde isso esteja a acontecer, podemos antecipar o problema e atuar diretamente na rede ou fazendo a substituição de algum troço que seja o indicado, fazê-lo, ou até melhorando algum equipamento.

Já agora, qual é o estado das redes? Porque há redes com décadas, algumas estão a ser substituídas. Em que fase é que estão na Águas do Interior Norte, em toda esta área em que atuam?

Temos redes de vários tipos. Temos redes que são muito recentes, felizmente, e temos redes que realmente são muito antigas e que precisam de uma substituição premente.

Essas requerem mais cuidado.

Exatamente. É difícil prever ainda onde é que vão acontecer os problemas, mas sabemos de antemão que são nas zonas mais antigas.

Pois, há de haver um grau de incidência de problemas maior. O Hugo Branquinho há pouco falou da questão da transferência de dados entre os sensores colocados ao longo da rede e depois as plataformas que os vão receber e analisar. Falou da rede GSM. Estamos a falar de zonas do interior, neste caso concreto, onde por vezes há os chamados buracos negros de cobertura de rede móvel, nomeadamente. Depararam-se com muitas dificuldades destas ou foram pontuais, de alguma maneira?

No nosso caso, a ADIno foi simpática e as zonas que escolheram para fazermos o teste tinham bastante cobertura. Portanto, aí não tivemos esse problema. Contudo, nós estamos preparados para quando acontecerem esses problemas, termos alternativas. E é algo que é muito relevante, porque sem a comunicação não conseguimos fluir, as coisas não ligam, não há as conexões.

O 5G está na agenda do país, de alguma maneira, e promete revolucionar muitas destas coisas que estamos a falar. Eu não sei se isto cabe ali naquele conceito de internet das coisas, sensorização. Cabe. Hugo, acha que o 5G vai, de alguma forma, permitir uma monitorização muito melhor deste tipo de redes de abastecimento?

Sim, mas devo fazer a ressalva que neste momento o grau de maturidade da indústria é baixo, o que faz com que os pacotes de dados que são transferidos ainda sejam de pequena dimensão. Quando evoluirmos para algo como visão e imagem, e também aqui na algoritmia e nos temas da digitalização, uma imagem vale mais que mil palavras. Neste caso, uma imagem vale mais que mil pacotes de dados. Aí sim, o 5G vai ser o diferenciador. Contudo, na minha perspetiva, e é uma perspetiva muito própria, é que ainda temos um caminho a fazer com os recursos que temos disponíveis já há algum tempo. E esse caminho passa por instrumentar, ainda com pacotes de dados, se calhar, pequenos, em que a GSM ou outra tecnologia atual É o 5G também atual, mas que está em fase de desenvolvimento. Conseguimos colmatar e então, para alguns casos específicos, onde sejam necessários mais dados, imagens, o 5G vai ser a resposta para essas situações.

Quando fala de imagens, fala mesmo de-

Imagem live feed

Live feed de pontos centrais da rede, por exemplo?

Exatamente. Podemos detetar problemas de entradas não permitidas, podemos detetar problemas de incêndios, podemos detetar trabalhadores que não levam os EPIs adequados. Podemos detetar, inclusive, vibrações excessivas de instalações através da imagem com os frames per second adequados. Ou seja, há um outro mundo que se abre, mas as bases têm que estar lá e neste momento ainda faltam algumas bases para conseguirmos marchar para aí.

Há um trabalho prévio a fazer. Nuno Pereira Sanches disse há pouco que este projeto tem cerca de um ano. Como é que estão a avaliá-lo neste momento e até que ponto é que há aqui bases para alargá-lo geograficamente, uma vez que estão a aplicá-lo numa região-piloto limitada? Trabalham com oito concelhos do interior norte do país. Quais são as perspectivas de evolução, isto é, qual é o vosso plano tecnológico?

Sim, como referi, nós estamos neste momento a alargar a telemetria de todos os municípios. Depois de termos esta telemetria instalada, depois de termos uma malha mais apertada, estará em cima da mesa apoiar-nos num software que nos ajude, como este, a distinguir o que é realmente importante e a trabalhar estes dados. E sim, de facto, este tipo de software é crucial na melhor interpretação do grande volume de dados que são gerados.

E é crucial, quando diz isso, que melhorias é que se verificam? Já vimos há pouco que podemos estar a falar de redução das perdas d'água na rede.

Exatamente.

Como é que se faz o equilíbrio? Por exemplo, há pouco falou também da sazonalidade. Imagino que haja picos de sazonalidade de consumo d'água no verão, eventualmente com mais pessoas a consumir e com mais consumo d'água por questões climáticas. Também se consegue otimizar o consumo d'água, consegue-se poupar água de alguma maneira, se quisermos pôr isto numa palavra simples?

Consegue-se poupar água não a desperdiçando. De facto, a sazonalidade é um fator que temos que ter sempre em conta. Por um lado, temos a questão da mobilidade estudantil aqui nas cidades, por outro lado, a questão da população migrante e turística, que altera significativamente os consumos. E estas alterações trazem diferenças de pressão e velocidade nas condutas e uma maior diferença até de funcionamento dos próprios equipamentos. No entanto, o serviço tem que se manter de igual forma, sem falhas. Um alarme de um maior consumo de água ou diminuição súbita de pressão na rede não tem a mesma interpretação se for em fevereiro ou se for em agosto. É assim, um software como o que a QS apresentou, associado à inteligência artificial, pode-nos permitir distinguir e alertar apenas o que é importante, essencial e prevenir problemas maiores.

Claro. Portanto, por vezes o mesmo facto pode ter causas ou interpretações diferentes.

Exatamente.

E o sistema tem que estar habilitado, no fundo, a distinguir uma coisa da outra. Branquinho, este vosso projeto, de alguma forma, é como se costuma dizer, escalável, é uma tecnologia que vocês já estão a aplicar também, eventualmente, com outros parceiros, com outros clientes, noutros pontos do país, eventualmente, ou estão numa fase ainda de desenhar a solução e depois tentar, de alguma forma, escalá-la, colocá-la no mercado? Até que ponto é que isto é uma oportunidade de mercado?

É uma oportunidade de mercado, nós gostamos de acreditar que sim. A solução que desenvolvemos é uma solução um bocadinho diferente de outras empresas da concorrência. Deixe-me só começar aqui a dividir para conseguir perceber melhor o meu ponto.

Força.

Nós dividimos o processo até à informação dos dados em três fases: recolha dados, desenvolver a smart data, que é a algoritmia a trabalhar em dados, sem qualquer interação humana, em que acreditamos que cobre 80% dos problemas que os nossos clientes têm, nomeadamente este que estamos hoje a falar do ADINE, em que foram os algoritmos a trabalhar sozinhos, e depois os restantes 20%, já há uma interação humana para garantir que os dados estão mais ajustados. E assim cobrimos os 100% dos casos. Contudo, normalmente as pessoas, as empresas não conseguem alocar recursos para fazer logo os 100%. Então o processo tem sido: recolher dados, produzir smart data, garantir que esta smart data, estes 80%, têm o retorno do investimento pretendido pelas empresas e haver alguma validação de como nós fazemos todo o processo, e depois de haver um investimento, as empresas já alocam pessoas para o trabalho. Dito isto, nós acreditamos que a nossa solução é escalável. Aliás, nós já temos a solução a trabalhar em outros clientes que nada têm a ver com a indústria da água, mas que utilizam equipamentos como bombas centrífugas, turbinas, compressores, permutadores Seja tudo a trabalhar na smart data e acreditamos que aqui vai ser uma grande parte do tratamento de dados, porque vamos conseguir rapidamente mostrar às organizações que através da algoritmia, através de algoritmos que conseguem identificar, como já comentaram, a sazonalidade, a contextualizar os dados, vão conseguir ter ganhos rápidos e esses ganhos rápidos vão justificar junto das administrações investimentos mais avultados para conseguirmos ter um sistema que consiga cumprir com os 100% das necessidades.

No fundo, os benefícios pagam o investimento.

Sim.

Nuno Barreira Sanches, mesmo para terminar, estamos a chegar ao fim deste nosso "Regresso à Indústria", ia lhe perguntar se é essa a avaliação que vão fazendo também. E uma questão muito mais de âmbito de cultura de organizações. Estamos a falar de sistemas de abastecimento de água, cujos clientes finais são os municípios, setor público, com a área da tecnologia, que é das mais dinâmicas e das mais inovadoras. Estamos a falar aqui de um funcionamento a dois ritmos, a duas velocidades, ou neste caso, os municípios também estão a correr para acompanhar, no fundo, toda a inovação e a mudança de planos tecnológicos que existem no mercado?

Eu diria que, e voltando um pouco ao início da nossa conversa, o crescimento da ADINA, e que acontecerá com outras entidades como a nossa, justifica claramente todo o envolvimento e colaboração com os desenvolvimentos de softwares como o da EQS, que nos permitam, por um lado, interpretar os grandes volumes de dados e, por outro lado, melhorar a eficiência energética e hídrica. Eu creio que cada vez mais, e tratando-se de um bem essencial como a água, temos todos que fazer um esforço e corrermos atrás de soluções que nos permitam gerir bem a água.

Muito bem, é esse bem essencial, sem dúvida, e cada vez mais também a questão da sustentabilidade de recursos está em cima da mesa. Agradeço a Nuno Barreira Sanches e a Hugo Branquinho, a partilha desta experiência, desta parceria entre a EQS e a Águas do Interior Norte, que no fundo estão a levar a uma otimização e a uma eficiência maior das redes de abastecimento de água em oito municípios do interior. Este foi mais um "Regresso à Indústria", uma parceria entre o Observador e a Cotec. Até ao próximo programa.

Muito obrigado.

Muito obrigado.

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