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Novo Parlamento, nova temporada do Sofá do Parlamento. O governo já tomou posse, dias depois da Assembleia da República ter enfrentado uma maratona para eleger o presidente e a mesa, numa demonstração de como esta legislatura pode ser difícil para Luís Montenegro. Hoje recebemos um dos novos vice-presidentes da Assembleia da República. Bem-vindo, Rodrigo Saraiva. Já vamos a esse processo de eleição de Aguiar Branco. Antes disso, o discurso de Montenegro na tomada de posse é um bom arranque? A promessa de descida de impostos também é um pescar de olho pra Iniciativa Liberal?

Muito bom dia ou boa tarde, consoante os ouvintes estiverem a ouvir. Eu acho que podemos dizer que foi um discurso com uma ambição de ter muitas coisas. Depois podemos discutir e analisar a ambição das medidas em si, em que eu acho que algumas não há assim tanta ambição. Mas foi com demasiadas coisas, não só para tentar fazer um cumprimento de várias promessas que o PSD ou a AD foram fazendo ao longo da campanha eleitoral, mas depois também fazer um bocado um check, digamos assim, em muitas daquelas que são medidas programáticas e bandeiras da Iniciativa Liberal. Sim, reconheço isso. Algumas também de outros partidos, algumas para tentar já condicionar, possivelmente o Partido Socialista ou o Chega, para aquilo que venham a ser as votações, sobretudo no orçamento de Estado depois do verão.

Que é a questão da corrupção. Por exemplo, a Iniciativa Liberal já disse que entra nesse debate. Não teme que esse debate possa ser sequestrado, digamos assim, pelo Chega?

A Iniciativa Liberal não teme debater seja aquilo que for. Os temas existem, a corrupção é um problema não só factual, mas também percepcionado pela população. Urge combater. Nós, ao longo da campanha eleitoral, fomos também vocais relativamente à necessidade de combater a corrupção, mas depois há algumas divergências na forma como combater, até porque alguns acham que se combatem com alguns virtualismos, algumas utopias. Nós acreditamos que se combate sobretudo desburocratizando, simplificando. Rui Rocha costuma dizer, e muito bem, que a burocracia é o negócio dos corruptos e, portanto, simplificando e desburocratizando é uma forma de combater a corrupção, como também é uma forma de combater a corrupção podermos ter a escolha de pessoas, de servidores públicos, não só das entidades reguladoras, mas também de outros institutos, por via de concurso e até concurso internacional, e as pessoas serem escolhidas, de facto, pelo seu mérito, não serem escolhidas porque ficam a dever um favor a alguém, porque quem fica a dever um favor, depois está bastante mais frágil para poder ter que devolver um favor. E, portanto, combate-se a corrupção, sobretudo pela simplificação, pela desburocratização e por escolha de pessoas por mérito, para não ficarem a dever favores a ninguém. Foi isso ontem que Rui Rocha também já respondeu nesse repto que Luís Montenegro lançou a todos os partidos. Estamos disponíveis para fazer esse debate e apresentar estas propostas e esperando que elas depois também tenham recebimento e possam vir a ser implementadas.

Quando refere aí que Luís Montenegro tentou pescar o olho a muitos partidos, pareceu-lhe uma atitude já de desespero pela sobrevivência ou uma estratégia que vai querer implementar agora de forma mais proativa?

Não, eu acho que quem está na política tem que ser sobretudo realista e pragmático. Portanto, acho que o primeiro-ministro está a ser realista e pragmático. O quadro parlamentar é aquele que é. Nós vimos de dois anos de um quadro parlamentar em que havia uma maioria absoluta de um partido e, portanto, tudo o que acontecia nesta Casa, tudo aquilo que eram propostas que chegavam a esta Casa via partidos ou via governo, era apenas um partido que decidia, que era o Partido Socialista. E neste momento esta legislatura tem outro enquadramento. Portanto, vai ser necessário diálogo e, por exemplo, a escolha do novo ministro dos Assuntos Parlamentares demonstra esse pragmatismo e essa noção da realidade de ter alguém com perfil mais dialogante. E é isso que espero. Portanto, eu acho que foi uma intervenção do senhor primeiro-ministro, bem como as suas escolhas de alguns ministros para algumas posições, com noção da realidade e com pragmatismo. E espera-se de quem está na política, sobretudo quem está no governo, que seja em primeira instância pragmático para poder conseguir implementar aquilo que são as soluções que possam vir resolver os problemas dos portugueses.

Está a elogiar o nome Pedro Duarte. Hugo Soares vai ficar aqui responsável pela bancada. Pedro Duarte parece-lhe ser mais capaz de criar pontes entre os vários partidos?

Eu sou um pouco suspeito porque conheço o Pedro Duarte há muitos anos. Reconheço-lhe também bastante combatividade, mas é uma pessoa, porque também é reconhecido globalmente, como uma pessoa de diálogo fácil. Recordando um título que apareceu na imprensa há uns dias. Portanto, é um ministro dos Assuntos Parlamentares com um perfil não tão bélico, mas mais dialogante. Portanto, acho que isso é consensual das pessoas que conhecem o perfil do Pedro Duarte.

Marcelo Rebelo de Sousa diz que não é impossível a legislatura chegar ao fim. Luís Montenegro disse também aquela frase de este não ser um governo de turno. Acredita que é possível cumprir os quatro anos?

Eu acho que todos os atores políticos devem desejar que as legislaturas sejam cumpridas na sua plenitude. Por quê? Porque, em primeira instância, isso significa que demonstra estabilidade. E demonstra estabilidade para quem? Para os portugueses, em primeira instância, para o seu dia a dia, para que tenham previsibilidade, mas também para aquilo que é o tecido econômico, onde as empresas, para um conjunto de decisões que precisam de fazer para que a economia funcione bem e possa crescer, tenham previsibilidade. E essa previsibilidade das políticas vem também da estabilidade dos mandatos dos governos e da Assembleia da República. Portanto, eu acho que quem está na política de forma responsável e pondo em primeira instância os interesses do país, deseja que os mandatos sejam cumpridos. Quem está de uma forma tática, pensando primeiro nos seus objetivos e nos seus interesses, e não nos interesses dos países, possivelmente não está a desejar que a legislatura chegue até o fim.

Interessa também à Iniciativa Liberal a resposta à pergunta que Montenegro deixou, se o PS vai ser uma oposição democrática ou um bloqueio democrático.

Eu acho que esta legislatura e os primeiros dias na Assembleia da República trouxeram duas novidades. A primeira novidade é que não era expectável que tivéssemos um presidente da Assembleia da República socialista, do Partido Socialista. E afinal, com aquilo que aconteceu, a meio do mandato, vamos voltar a ter um presidente da Assembleia da República do Partido Socialista. Portanto, esta foi a primeira novidade e isso deve-se àquilo que foi a prestação do Partido Socialista e do partido Chega no primeiro dia da Assembleia da República. A segunda novidade é uma coisa muito curiosa, é que de repente, nós temos o Partido Socialista e outros partidos, como o Bloco de Esquerda e o Livre, que nos últimos anos têm combatido e acusado André Ventura e o Chega de não serem credíveis. Nas últimas semanas, de repente, o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Livre, parece que passaram a dar credibilidade à palavra de André Ventura e do partido Chega, porque acreditaram piamente, ou então foi um taticismo que não se recomenda, acreditaram naquilo que foi a palavra sobre um tal acordo que existiu. E não houve acordo nenhum, porque aquilo que também já foi explicado pelo anterior líder parlamentar, atual ministro de Estado e das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, aquilo que ele fez enquanto líder parlamentar do PSD, foi uma chamada telefônica ao partido Chega, ao Partido Socialista e à Iniciativa Liberal. E fui eu que recebi essa chamada pela Iniciativa Liberal. E foi uma conversa sobre alguns temas de funcionamento da Assembleia da República, um deles onde ele me informou que iriam apresentar a candidatura de José Pedro Aguiar Branco a presidente da Assembleia da República. Eu respondi que nós também iríamos apresentar, no caso, o meu nome como candidatura a vice-presidente da Assembleia da República. Transmiti que aceitaríamos e votaríamos o nome de José Pedro Aguiar Branco, ele disse também que votariam a favor do nosso nome. Portanto, esta foi uma conversa semelhante que teve comigo, que eu acho que teve com o partido Chega e teve com o Partido Socialista. Esse telefonema, eu quando encerrei a chamada, não entendi que aquilo tinha sido um entendimento, ou um acordo formal, ou um acordo escrito, ou um acordo tático. Não, foi uma conversa normal para o bom funcionamento da Assembleia da República. Outros foram pra imprensa dizer que tinha havido um acordo. E curiosamente, o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Livre atribuíram credibilidade a essa afirmação do partido Chega. Esta foi a primeira grande novidade desta legislatura, o Partido Socialista a dar credibilidade ao partido Chega.

E já se percebeu que a Iniciativa Liberal não dá. Não dando credibilidade ao partido Chega, a única alternativa para cumprir estes quatro anos é mesmo o PSD conseguir negociar com o PS?

O que a Iniciativa Liberal dá credibilidade é à democracia e ao funcionamento da Assembleia da República. E aquilo que nós temos que fazer nesta Casa, nós nunca votamos contra uma proposta, apenas porque a proposta vinha de determinado partido. Não é só o Chega que está aqui em equação, são todos os partidos. Nós estamos nos antípodas do Partido Comunista Português, do Bloco de Esquerda, do Livre, do Partido Socialista e do Chega. E votamos a favor de várias propostas desses partidos. Portanto, isso é que é estar de forma credível e de forma séria na política, é olhar para as propostas pela sua substância, por aquilo que significam, e depois ou concordamos ou discordamos. Nós não votamos as propostas por quem as subscreve, ao contrário de outros partidos que na legislatura anterior votavam contra propostas só porque tinham um determinado proponente. Isso é que não é a forma de estar, porque isso não resolve aqueles que são os problemas concretos da vida dos portugueses.

Indo à questão da Mesa da Assembleia da República, o Rodrigo Saraiva, vai chegar o momento em que vai ter que gerir também o plenário. Já conversou com Aguiar Branco sobre o método de o fazer, que postura é que vai adotar ou que visão é que tem pra essa função?

Ainda não, ainda não reunimos com o senhor presidente nesse sentido. Certamente que qualquer um dos vice-presidentes, quando tiver que substituir o senhor presidente, terá o seu toque pessoal, a sua forma de gerir, mas acho que teremos também linhas orientadoras, porque não podemos ter uma mesa funcionando a vários ritmos. A mesa tem que ter um ritmo, independentemente de estar a ser presidida pelo senhor presidente ou pelos senhores vice-presidentes. Agora, todos nós, quando estamos na função, a gerir um plenário, temos que gerir da melhor forma. Eu, por acaso, isto é com alguma piada, como é óbvio, eu estou mais preocupado na forma como vou lidar e vou ter que gerir as intervenções dos deputados também do grupo parlamentar do qual eu faço parte. Pra quem não conhece, eu sou do Belenenses. E eu costumo dizer que tenho algum receio de ter o síndrome Jorge Croado. Por quê? Jorge Croado era árbitro de futebol, era sócio do Belenenses e sempre que apitava o Belenenses, prejudicava o Belenenses. Portanto, eu tenho receio de ter a síndrome Jorge Croado em prejudicar, em primeira instância, os deputados da Iniciativa Liberal, em ser muito mais efusivo em retirar a palavra a um deputado do meu partido do que dos outros.

O PS disponibilizou-se para aprovar um orçamento retificativo. Pra Iniciativa Liberal, este instrumento pode ser importante ou mais vale concentrar esforços e pensar já no orçamento de Estado 2025?

É totalmente uma prerrogativa do senhor Primeiro-Ministro e do Governo a opção que vão fazer. E é uma opção legítima apresentar um orçamento retificativo ou não apresentar, consoante aquilo que é a informação que vão ter agora acesso. A partir do momento que são governo, vão ter acesso a um conjunto de informação mais aprofundada, mais densificada, que lhes vai permitir tomar essa opção. O que eu não deixo de notar com alguma curiosidade é que o Partido Socialista, que há poucos meses dizia que tinha apresentado o melhor Orçamento de Estado da história, que era fantástico e que era maravilhoso, agora passados uns meses, são os primeiros a vir dizer que é muito importante haver um orçamento retificativo. Parece que não acreditando naquele Orçamento de Estado que há poucos meses diziam que era o melhor. Isso é que é uma nota de curiosidade. Se é preciso um orçamento retificativo ou não, isso é, de facto, uma prerrogativa do senhor Primeiro-Ministro e do senhor Ministro de Estado e das Finanças, que agora com a informação que vão ter acesso, vão ter que tomar essa decisão. E nós cá estaremos para avaliar se essa proposta der entrada na Assembleia da República.

A matemática tem imposto muito que o PSD tenha que olhar para o PS ou para o Chega para conseguir estabilidade e a legislatura de quatro anos. Onde é que fica a Iniciativa Liberal no meio destas contas, tendo em conta que o número de deputados que tem não permite dar essa estabilidade à legislatura?

Esta legislatura tem muitas oportunidades para todos os partidos. A legislatura anterior era de maioria absoluta e, portanto, tudo o que era aprovado, como eu disse há pouco, nesta Casa, dependia da vontade de um partido apenas. Vivíamos uma legislatura de partido único. Esta legislatura, de facto, é de nove partidos. Estão nove forças políticas apresentadas na Assembleia da República e todos vão ter a oportunidade de conseguir ter ganhos de causa em algumas propostas. Aliás, as primeiras propostas que a Iniciativa Liberal já submeteu nesta legislatura, se tiverem o mesmo sentido de voto da legislatura anterior, algumas há poucos meses, se tiverem o mesmo sentido de voto, se os partidos forem coerentes, vão ser todas aprovadas, porque só o Partido Socialista é que votou contra. E portanto, se os outros mantiverem o voto, essas propostas, e cá está, são ganhos de causa. A Iniciativa Liberal começa logo a ganhar no início desta legislatura. E portanto, aí está, oportunidades para todos os partidos. Isto é a parte positiva. A parte negativa é porque podem se dar conjugação de algumas somas preocupantes. Eu já dei este exemplo: imagine que aparece aqui uma proposta para que a TAP não seja privatizada 100%, por aquilo que os partidos disseram na campanha, essa proposta é aprovada, isso é preocupante. Se, de repente, algum dos partidos mais à esquerda apresenta uma proposta para taxar lucros extraordinários das grandes empresas, que é um absurdo, essa proposta arrisca-se a passar, porque há um partido que gosta muito de dizer que é direita e que é amigo das empresas, mas andou a defender essa proposta, que é o partido Chega. E portanto, há aqui um conjunto de propostas preocupantes que podem ter a conjugação da soma do Partido Socialista, do Bloco de Esquerda, do Partido Comunista e do partido Chega e seriam aprovadas. E isso é muito preocupante, como estes exemplos que eu dei, quer da TAP, quer de mais taxação sobre as empresas. E portanto, esta é uma legislatura que tem muitas oportunidades e tem também muitos riscos, mas, em bom português, é mesmo a democracia a funcionar.

Só aqui já na nossa reta final, deixa a liderança do grupo parlamentar para a Mariana Leitão. Que mudanças é que isso pode dar ao grupo parlamentar da Iniciativa Liberal nesta nova fase também em que o jogo virou mais à direita?

Só há uma coisa boa, que a Iniciativa-

Que ela sabe ser exigente com militantes do PSD, neste caso, Isaltino Moreira já não é, mas ficou também conhecida por esses confrontos.

Sim, teve um bom estágio de combate político. Talvez a Mariana tenha um perfil mais combativo, mais aguerrido do que eu, mas isso é, de facto, um detalhe. O grupo parlamentar da Iniciativa Liberal tem uma liderança muito boa. Estou muito confiante na liderança que a Mariana vai incutir no grupo parlamentar. Mas há uma coisa muito boa também que a Iniciativa Liberal tem. É que nós às vezes surpreendemos. É verdade que gostamos muito de surpreender, mas a Iniciativa Liberal tem uma previsibilidade que dá garantias às pessoas e dá garantias a todos os atores políticos. Portanto, não esperem que a Iniciativa Liberal venha a defender ao longo desta legislatura coisas diferentes daquilo que andou a defender. As nossas bandeiras e as nossas propostas continuam a ser as mesmas e as primeiras que apresentámos são consistentes, não só com o trabalho que fizemos na legislatura anterior, mas também consistente com aquilo que viemos a defender durante a campanha eleitoral, quer a parte da habitação, quer a parte da saúde, quer a parte da simplificação, quer a parte do círculo de compensação. Estas são as nossas primeiras propostas já submetidas e isto é ser previsível, é ser consistente, é ser credível e é isso que podem contar com a Iniciativa Liberal, tenha na liderança do grupo parlamentar o Rodrigo Saraiva como teve, tenha agora como vai ter a Mariana Leitão e a liderança partidária do Rui Rocha. Portanto, nós somos consistentes e os portugueses podem confiar nesta consistência.

Só aqui numa questão de pormenor, mas sobre a organização parlamentar, vão abdicar de ter vice-presidentes no grupo parlamentar.

Eu penso que vamos ter, mas de facto, isso é uma prerrogativa que também foi entregue à liderança parlamentar para modelo de funcionamento, se quer ter uma vice-presidência ou não. Ceda a palavra, para que efeito?

Para a defesa da honra, senhor presidente. Nós temos aqui um segmento final que é a defesa da honra, neste caso, da bancada. A Iniciativa Liberal falhou em conseguir ganhar influência numa solução de governo.

A Iniciativa Liberal nunca correu por cargos ou por funções. Independentemente de estarmos no governo com pastas ou não, aquilo que é importante é que as nossas ideias, as nossas propostas vão fazendo o seu caminho. E quando grande parte do discurso do atual primeiro-ministro toca pontos que nos são próximos, nós ficamos satisfeitos. Portanto, isso significa que, aliás, depois de em 22, com o crescimento económico, quer agora em 24, também com o crescimento económico, com a forma de combater aquilo que é o fenómeno da imigração jovem, passaram a ser temas, quem pôs esses temas na agenda política foi a Iniciativa Liberal. Se isso não é ser influente, eu não sei o que é.

Obrigado, Rodrigo Saraiva. O Sofá do Parlamento está de regresso na próxima quarta-feira.