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Recebemos hoje, neste Sofá do Parlamento, o deputado do PSD, Duarte Marques. Obrigado por ter aceite o nosso convite. Começava já olhando para o futuro, ou seja, já se está a falar dessas listas de deputados. As eleições são a 30 de janeiro. O Observador deu conta também nos últimos dias que o Duarte estará numa lista de dispensáveis do PSD. Ainda assim, algumas concelhias apontaram já o seu nome como candidato. Aquilo que lhe perguntava era se, por sua vontade, é ou não candidato nas próximas legislativas.
Eu estou completamente disponível para tudo. Já vou no terceiro mandato, fiz o meu trabalho. Neste momento, eu estou sempre pronto para servir o PSD e defender as pessoas do meu distrito e da minha região. E, portanto, neste momento, é uma questão que compete ao presidente do partido. Eu estou sempre disponível para ajudar e não se faz só política no Parlamento, pode-se ajudar o partido e o país fora do Parlamento e, portanto, é o presidente do partido é que tem que saber se precisa ou não precisa, ou se eu posso ser útil ou não ser útil. Eu, por mim, fico descansado com a minha consciência, seja qual for a solução.
Conta integrar através da cota da distrital ou haverá outra?
Não, a cota da distrital já está ultrapassada. Fui mais uma vez excluído, apesar do trabalho que temos feito. E, portanto, essa parte do capítulo está encerrada. Mas como eu já disse, nós não fazemos só política no Parlamento. O presidente do partido teve uma eleição importante, uma vitória importante, e terá a capacidade e o escrutínio certo, o discernimento certo, para escolher as melhores pessoas para servir o PSD. Como eu já disse, ficarei bem com qualquer decisão.
Só para encerrar este assunto, já conta mais então com uma não continuidade do que com a continuidade.
Não conto nem deixo de contar. Eu aquilo que tenho que saber é se fiz um bom trabalho ou não. E se há coisa que eu sei que fiz, foi um trabalho empenhado até agora, nos vários anos que aqui passei. Fiz um trabalho muito empenhado, de construção quando estávamos no poder, defesa do governo, de oposição forte ao governo atual e da apresentação de alternativas e, portanto, foi isso que eu fiz e é só isso que eu tenho que saber se fiz ou não fiz bem. E penso que o resultado final é esse e é uma coisa que muito me orgulha. E, portanto, a partir de agora, o que interessa é a nossa consciência estar completamente tranquila. A vida é feita de opções e é feita de decisões e de escolhas e há muita coisa para fazer neste país, que eu gostava também de fazer.
Duas perguntas numa: ficou surpreendido com a vitória de Rui Rio e o que é que falhou em Paulo Rangel para não conseguir conquistar o partido?
Os resultados têm sempre razão. Eu acho que Rui Rio fez uma campanha boa. Aliás, Rui Rio é sempre bom nas campanhas. Paulo Rangel fez também o melhor que podia e fez uma excelente campanha de discussão de ideias. Eu não tenho dúvidas que hoje o partido está muito mais forte do que estava antes das diretas. Aliás, eu disse no próprio dia das eleições: fosse qual fosse o resultado, o partido estaria sempre melhor. Estaria melhor porque Rui Rio, se ganhasse, tinha muito mais legitimidade para ir a votos e a eleições do que teria antes. E se ganhasse com Paulo Rangel, teria uma lufada de ar fresco no partido e uma legitimidade também forte, por ter sido recentemente eleito. E daí eu dizer que o PSD estaria sempre mais forte. E o PSD hoje está mais forte. E acho que quer o discurso do Rui Rio de vitória, quer o discurso de aceitação da derrota de Paulo Rangel, vieram contribuir para fortalecer a unidade do partido e, sobretudo, vieram dar razão àqueles que achavam que devia haver este ato eleitoral. O partido hoje está muito mais forte. Rui Rio tem uma popularidade maior dentro e fora do partido do que tinha no dia antes das eleições. E agora quem tem que estar preocupado não somos nós, quem tem que estar preocupado é o doutor António Costa e a esquerda radical.
E já essa questão de ser capaz de derrotar António Costa. Antes, só porque referiu nessa questão da união dentro do partido, acha que o Rio vai ser capaz de unir? Porque nesse discurso de vitória, houve ali alguns toques para líderes distritais de outras estruturas que não estiveram ao lado dele.
Eu acho que vai ser capaz.
Acha que deviam demitir-se, por exemplo, os líderes distritais?
Não, acho que toda a gente que está eleita tem os seus mandatos eleitos, tem os seus mandatos para cumprir e eu não sou daqueles que tenta fazer purgas a seguir a eleições ou a tentar que as pessoas resignem os seus mandatos. Não, cada um tem a sua circunstância. Há presidentes distritais que foram eleitos há muito pouco tempo, há outros que já foram há muito tempo também. Uns tiveram bons dados eleitorais, outros não tiveram. Cada um tem que fazer o seu juízo daquilo que fez. Acho que não é essa a questão, e essa é uma questão para os militantes decidirem, não é para andarmos aqui nós por fora a dar opinião sobre essa matéria. Eu acho que o partido tem que se unir, porque vai ter uma campanha muito importante, as distritais são importantes para esse caminho. Agora, Rui Rio consegue um fenômeno que é chegar mais fora, até do que o partido, e consegue mobilizar as bases. E se consegue fazer isso, consegue mobilizar os cidadãos que votam naturalmente no PSD. Isso é um caminho importante que há a fazer. Eu diria que essa é a grande lição das diretas. A primeira lição que eu tiro das diretas é que nós aprendemos que o apoio das estruturas do partido não significa o seguidismo das pessoas dessas regiões. Quando isso coincide com a vontade das pessoas, está resolvido. Agora, não basta ter os dirigentes, é preciso ir além dos dirigentes. E se calhar, foi isso que falhou.
Em Rangel, neste caso.
No caso de Rangel, sim, foi isso que falhou. Também houve aqui algum jogo duplo de algumas pessoas que apoiaram os dois candidatos, quando deviam ter apoiado só um, era mais sério. Houve muita gente que apoiou Paulo Rangel com grande convicção, tal como outros apoiaram Rui Rio, mas aquilo que houve, de facto, foi duas maneiras diferentes de ver a prestação do PSD. E ganhou uma, e isso é indiscutível. Foram 4% de diferença e ganhou essa. Agora importa é pegar nisto, conseguir unir, andar pra frente e fazer uma oposição ao PS e, sobretudo, conseguir ganhar as eleições.
Era isso que lhe ia dizer. Acredita que Rui Rio tem essa capacidade para bater António Costa e ser o protagonista de um bloco maioritário à direita?
O Rui Rio tem uma capacidade única de se Revelar, de se transcender em campanhas eleitorais. Aliás, como vimos agora. E já foi assim nas últimas legislativas, que recuperou bastante durante as legislativas. Eu não tenho dúvidas que as pessoas estão fartas de António Costa, estão muito fartas, como estavam fartas em Lisboa de Fernando Medina, e nós conseguimos ganhar. Se o PSD souber unir, se o líder do partido souber unir, se aqueles que estiveram contra souberem dar o seu contributo e se nós tivermos as mensagens certas, se formos humildes e se formos, sobretudo, sinceros e conseguirmos apresentar alternativas ao Partido Socialista, uma alternativa em que tudo não depende do Estado, que não pode depender tudo das opiniões do Partido Socialista, que temos que privilegiar também a iniciativa privada, a iniciativa das pessoas, proteger mais as pessoas, deixar tanta propaganda, começar a resolver os problemas do país a sério e, sobretudo, a fazer reformas estruturais, eu acho que os portugueses podem dar a oportunidade ao PSD de liderar uma qualquer coligação de centro-direita que possa ser uma alternativa viável a António Costa. Eles já cometeram demasiados erros pra nós podermos continuar só a fazer oposição, nós temos que ir pra o governo, porque é preciso, porque Portugal precisa.
E porque já vai nessa legislatura, conhece também bem esse crescimento de partidos que surgiram entretanto à direita. Onde é que o PSD deve ir buscar votos nestas eleições e se deve ir ou não coligado com o CDS pra este ato eleitoral?
Eu há pouco não disse, mas quem é líder do PSD, como eu já disse uma vez, é como o Mário Wilson dizia sobre o Benfica: arrisca-se a ser campeão. E qualquer presidente do PSD tem que estar preparado pra ser primeiro-ministro e arrisca-se a ganhar. Agora, qual é a forma como vai ganhar, qual é o somatório de apoios, é muito normal que se reveja mais nos partidos à sua direita. Agora, o eleitorado do PSD é um eleitorado muito disperso. Voltando à linguagem futebolística, o meu professor Lino Malta dizia muitas vezes que o PSD é muito parecido com o Benfica, porque conseguem ir buscar gente de todo lado, todos os estratos sociais. E é verdade, é um partido que junta muito tipo de pessoas diferentes, do centro-esquerda à direita, e que consegue abranger um conjunto de preocupações, um conjunto de eleitores muito diversificado. Ele até usava uma expressão que era a comparação entre os cães puro sangue e os cães rafeiros. Os partidos grandes são cães mais rafeiros, conseguem adaptar-se a mais circunstâncias e também são mais fortes pra resistir às ameaças. Enquanto os partidos mais puro sangue, tal como os cães, são muito mais frágeis e não se adaptam às circunstâncias. O PS e o PSD são os dois grandes partidos rafeiros em Portugal. E eu diria que só têm uma capacidade maior de abranger votos, e o PSD pode fazer isso. Um dos erros que eu apontava a Rui Rio era de se virar muito pro centro-esquerda, porque era aí que ele ia buscar a diferença que podia permitir ganhar. Nós não podemos esquecer também a direita moderada que há em Portugal. E diria que o PSD é o partido que consegue abranger mais gente. Eu acho que estas eleições vão ser muito bipolarizadas entre o PS e o PSD. Aliás, o António Costa provocou a queda do governo, a dissolução da Assembleia e o chumbo do Orçamento de Estado, claramente a pensar nas propostas que o PCP e o Bloco de Esquerda chumbaram, pra agora poder pegar nelas pra campanha e ir buscar votos ao PCP e ao Bloco. Acho que António Costa vai fazer uma campanha muito à esquerda e tentar também manter o seu eleitorado de centro. Rui Rio tem que ir buscar eleitorado aos indecisos, tem que ir buscar eleitorado à direita, e creio que não há condições materiais, nem tempo pra haver coligações pré-eleitorais. Eu acho que é manifestamente impossível, a não ser que venha a haver uma grande surpresa, mas não acredito que venha a haver qualquer tipo de coligação pré-eleitoral com nenhum partido.
E teme esse desaparecimento do CDS que se tem vindo a falar?
Claro que temo, mas eu acho que não vai acontecer. Acho que o CDS vai conseguir dar a volta, seja com esta ou com outra liderança. O CDS tem um passado demasiado importante na democracia portuguesa pra desaparecer. Não vai desaparecer. É um partido muito sólido, com muita gente que acredita mesmo na doutrina democrata cristã e todos os valores do CDS. Eu penso que isto é uma fase temporária. É uma fase que não é de agora, esta baixa grande do CDS já vinha do tempo da Assunção Cristas. É um fenômeno realmente interessante, mas eu creio que pode voltar a crescer. Acho que há partidos que surgiram, como a Iniciativa Liberal, que se vão manter sempre, são uma força importante, e acho que o Chega é um fenômeno que assim que crescer demasiado, também vai cair imediatamente.
Deixe-me olhar agora pras últimas semanas no Parlamento. A lei da eutanásia foi uma das polêmicas destas últimas semanas, dos últimos dias. Votou até favoravelmente à despenalização, aí até ao lado do Rui Rio. Foi um dos pontos onde teve esse consenso com o Rui Rio. Perguntava-lhe pelo veto de Marcelo Rebelo de Sousa. Acha que foi uma tentativa de adiar esta legalização ou as dúvidas do presidente fazem sentido?
Eu respeito muito o presidente da República. Obviamente, nós quando votamos este tipo de leis, há um sinal político que damos. Eu também podia não concordar com toda a letra da lei, mas concordava com aquele princípio. Aliás, eu fui presidente da JSD e disse muitas vezes que havia dois temas que eu não me importava de pegar, daqueles mais fraturantes. Fiz sempre questão de não pegar nesses fraturantes, porque pra mim fraturante era o desemprego jovem. Mas sempre disse que a questão da eutanásia era uma daquelas que me fazia mexer, porque mexia muito com sentimentos e pensava muito nas pessoas. Aqui, neste caso, acho que o presidente conseguiu encontrar um argumento importante na letra da lei. Acho que é até um bocadinho humilhante pro Parlamento aquilo que ele pegou, confirmar se que é verdade. Acredito que o próximo Parlamento poderá corrigir isso, se tiver uma maioria suficiente pra o aprovar. Mas eu acho que é uma lei que fazia falta a Portugal e aos portugueses.
Também um dos dossiês onde o Duarte esteve envolvido foi a questão da regulamentação do lobbying, que acabou por cair ou por ser adiada ad eternum e, portanto, não se resolver nesta legislatura. Nesse dia, falou no rolo compressor do bloco central. Que bloco central é esse que não quis avançar com isto? Não é o seu, duvido.
Não, não é o meu, mas há aqui dois tipos de pessoas que são contra a regulamentação do lobby. Há aqueles que têm medo da transparência e, portanto, têm medo que o lobby seja regulado, preferem omitir que ele existe pra que alguns possam continuar a fazê-lo na sombra. E é esse bloco de interesses que impediu o PS de votar a favor, porque o PSD foi sempre contra. Depois, há outro tipo de pessoas, como o doutor Rui Rio, como Passos Coelho, é bom recordar, que acreditam que as pessoas ainda não estão preparadas, a discussão ainda não está preparada pra haver esse tipo de regulação. E isto é uma defesa legítima, porque eu já tive esta discussão com vários presidentes do PSD. Há pessoas que acreditam que a regulamentação do lobby não deve avançar já nestas condições ou porque o país não está preparado para isso. Outra das razões que o Rui Rio apontava, por exemplo, era o facto de ser tão minuciosa que um presidente de câmara que saísse de casa para ir até ao seu município encontrava 20 pessoas e tinha que registrar isso tudo, que era um disparate, obviamente, se isso acontecesse. Esta versão atual já expurgava isso. Era uma legislação que já permitia evitar esse tipo de desajustes que, na altura, o presidente do PSD apontou. Eu diria que também a regulamentação do lobby, e essa para mim é a grande discordância, é a cara do Rui Rio. Rui Rio é o presidente do PSD, dos partidos atuais, que mais luta pela transparência, contra os negócios escuros, contra tudo isso. E eu tenho a certeza que mais cedo ou mais tarde vai aprovar isto, vai votar isto porque percebe que isto é exatamente o que vai permitir que aquilo que ele defende na política, que é a transparência, a igualdade de oportunidades e, sobretudo, que não haja gente a aproveitar-se das posições políticas para conseguir fazer negócios e que as empresas tenham todas as mesmas oportunidades, é isto que vai permitir que isso aconteça. Mas ainda há algum preconceito contra a palavra lobby, de alguma forma, e depois alguns exageros por parte de alguns partidos naquilo que querem pôr na lei, também tem levado a que pessoas que definiriam obviamente o lobby, não queiram avançar já nestas condições. Mas é um caminho que se vai fazendo, eu acho que vai ser importante no futuro. É curioso, é o ruído do PS. Dá a ideia que o PS teve medo da transparência, o Partido Socialista é um partido que é conhecido.
Mas essa crítica ainda pode ser feita quando, por exemplo, aprovar o enriquecimento injustificado, a estratégia anticorrupção.
Porque a estratégia, quer dizer, a maior parte das coisas era só conversa fiada. Agora, finalmente, começamos a aprovar algumas coisas muito concretas. Mas eu penso que o Partido Socialista, mais uma vez, tem as narrativas e depois tem as reformas. No fundo, a maior parte das coisas que colocou sobre o combate à corrupção, tudo isso, não deixam de ser apenas narrativas. É como o combate à interioridade, tem medidas, tem programas que depois não têm candidatos, é como os programas para a habitação, anunciam não sei quantas vezes os programas, depois aquilo não funciona. Há uma incompetência contínua do Partido Socialista. No caso dos interesses, dos negócios, tudo isso, é obviamente um Estado que está cada vez mais dependente novamente do Partido Socialista e da máquina do Estado. É normal que eles não queiram aprovar uma regulamentação destas. É por isso que eu falei do bloco central, um bloco central de interesses que impediu que isto acontecesse, porque se a proposta foi apresentada, o Partido Socialista tinha a vontade de a aprovar, mas afinal houve alguém que começou a fazer barulho e tiveram que voltar atrás e infelizmente isso matou aquela regulação.
Está a concluir a terceira legislatura, ou seja, acompanhou a ascensão e queda da Geringonça. Como é que agora que essa parceria, pelo menos mais formal, terminou, como é que olhou para este período da política e da história parlamentar, um bocadinho?
Foi um período de adiamento do país, em que se agravaram problemas que já existiam, em que se retrocedeu em algumas matérias que já estavam mais desenvolvidas. Eu recordo que o período de ajustamento, apesar de todas as dificuldades, deu uma luz ao fundo do túnel. O país começou a crescer em 2014, com reformas importantes que foram feitas. O Partido Socialista e a Geringonça acharam por bem fazer duas coisas. Primeiro, tentar demonstrar que o caminho que se tinha feito era desnecessário. E segundo, começar a distribuir riqueza como se tivesse sido riqueza acumulada naqueles pequenos períodos. E o que é verdade é que o país não só recuou em matérias como, por exemplo, o Serviço Nacional de Saúde, hoje está pior do que estava no final da Troika. A questão do investimento público foi menor durante a maior parte dos anos da Geringonça do que foi durante o período da Troika. Fizeram retrocessos muito importantes em algumas áreas, na área laboral, na área do investimento estrangeiro, investimento privado. Portugal podia ter crescido muito mais do que cresceu se tivesse mantido o rumo que tinha. O governo e a Geringonça optaram por tentar desmontar o que foi feito, ou seja, menorizar o esforço dos portugueses e, por outro lado, desperdiçar a oportunidade que tiveram num contexto internacional de crescimento, com o apoio do Banco Central Europeu, Portugal desperdiçou a oportunidade que tinha de se precaver, de se proteger, de se tornar mais resiliente. Não é por acaso. Quando veio o diabo, infelizmente, da pandemia, Portugal não estava preparado, não estava tão resiliente, porque não fez o trabalho que tinha que fazer. Não é por acaso. Portugal é o país da Europa que menos apoiou as empresas no período da pandemia, que menos apoiou, que menos capacidade tinha para apoiar, porque manteve o crescimento da sua dívida pública, não fez as reformas que tinha que fazer, aproveitando o conforto dos juros do BCE. E nós estamos a pagar esta fatura. Apesar de toda a propaganda, os portugueses e as empresas estão a pagar a fatura da inversão da estratégia em 2016. E infelizmente, o mais grave de tudo isso é o desperdício que foi feito do esforço que os portugueses fizeram durante o período de ajustamento. Portanto, diria que é um período de alguma alegria inicial por parte das pessoas, porque passaram a receber alguma distribuição de riqueza, um bocadinho mais do que tinham no passado. Acelerou-se a reposição de rendimentos, mas infelizmente, isso não foi feito de forma a que esse crescimento dos rendimentos pudesse ser contínuo e cada vez mais acelerado, mas se calhar estamos agora a voltar a um congelamento por não sei quantos anos, porque houve um governo que geriu para o imediato e não geriu para o futuro. Infelizmente, é a história do Partido Socialista.
Cede a palavra, para que efeito? Para defesa da honra, senhor presidente.
Duarte Marques, estamos na reta final nesta fase a que chamamos de defesa da honra e eu não peguei em duas ou três coisas que disse ao longo da entrevista, porque queria guardar agora para este momento, que é a questão da lealdade e dos candidatos e dos apoiantes de Paulo Rangel e Rui Rio, que andaram um bocadinho divididos entre os dois. Na última legislatura acabou por ser deputado porque a direção nacional se atravessou pelo seu nome. Não pode ser acusado de deslealdade por ter estado agora ao lado de Paulo Rangel e ter sido um dos apoiantes mais vocais até.
Não, na outra vez o que aconteceu foi que houve um conjunto significativo de conselhas que indicaram o meu nome e depois o presidente da distrital nem sequer o pôs a suplente. Foi por isso que a direção nacional se revoltou e se empenhou. E acho que o meu trabalho durante aquele mandato foi inquestionável. Quando o presidente do partido fala de lealdade, eu percebo. Lealdade não é não discordar. Lealdade é discordar nos sítios certos, é ser frontal. Eu tenho uma história com o Rui Rio, nos últimos anos, de muito confronto, quer dizer, em vários momentos discordei, mas no local certo, através de e-mails, nas reuniões do grupo parlamentar, em reuniões dois a dois, naquilo que deviam ser as opções do partido em algumas matérias, eu discordei, mas fi-lo sempre com lealdade, ou seja, frontalmente e nos locais próprios. Eu não andei a dar entrevistas a boicotar o trabalho do presidente do partido. Mas acho que a maior lealdade que se deve ter é também aos nossos valores e ao programa. E acho que há uma coisa que ninguém me pode acusar é de não ter defendido o PSD e ter dado a cara, é não ter defendido o meu distrito acima de qualquer outra situação e sobretudo, ter feito uma oposição firme ao governo do Partido Socialista e apresentando sempre alternativas. E, portanto, a maior lealdade que eu acho que posso ter é essa. Agora, quando chegamos a eleições, é normal que existindo projetos diferentes, pensemos de forma diferente. E eu acho que até nesse ponto, o Rui Rio já disse várias vezes aqueles que estiveram com convicção com algum dos candidatos.
Acha que integra esses critérios do Rui Rio?
Esses critérios eu integro bem, agora resta saber o resto. Mas eu tenho duas características: sou frontal, e isso refere lealdade. E quanto à questão de ser trabalhador, acho que vocês que estão aqui todos os dias percebem e veem o que eu faço. E portanto, diria que fico com a minha consciência muito tranquila, seja qual for a decisão, e não vou ficar incomodado nada se não ficar no Parlamento. E portanto, se ficar, continuarei o que fiz. Se não ficar, tenho muita coisa para fazer, que gostava de fazer, que não tenho tido a oportunidade de fazer, para me dedicar a outros projetos que tenho em carteira e que por estar no Parlamento nunca os pude aceitar, nunca os pude desenvolver. Portanto, feliz da vida de qualquer das formas e sobretudo de consciência tranquila. E é bom ver quando as pessoas se referem a nós, que vai ficar de fora um dos deputados mais empenhados ou mais trabalhadores ou com mais iniciativas. Portanto, isso é o que é importante. Agora o resto, vamos ver. Não há insubstituíveis na política. Há muita gente de qualidade no PSD, no distrito de Santarém, nos outros distritos. Há imensa qualidade que nós temos que aproveitar. Às vezes não têm a oportunidade de o demonstrar e isso é relevante. Eu quero crer que o partido vai ter as melhores listas para as próximas legislativas e nós vamos conseguir ganhar as legislativas se conseguirmos perceber que há uns que têm que ficar dentro, outros que têm que ficar de fora e que o mais importante é que fique um espelho do partido, do pensamento do partido. Só o Bloco de Esquerda e o PCP, agora até o Bloco de Esquerda, é que têm um pensamento único, porque de resto as pessoas são livres de pensar e há pessoas que pensam de forma diferente na estratégia, nas ações e nalgumas prioridades. Eu fico de bem com a minha consciência e não vou ficar amargurado com nada, porque o caminho é livre e sobretudo, o que importa é sempre o que nós fazemos, o que nós fizemos e a cara que temos para dar às pessoas lá fora.
Obrigado, Duarte Marques. Já a seguir vamos aos Passos Perdidos, isto para a despedida de Ferro Rodrigues. Na despedida dos plenários, Eduardo Ferro Rodrigues fez uma intervenção final aplaudida de pé e citou Fernando Pessoa para falar da longa viagem que teve na Assembleia da República.
Senhoras e senhores deputados, na intervenção que proferi aquando da minha eleição como presidente em 2015, citei Fernando Pessoa e o seu livro do Desassossego. "Vivemos todos neste mundo a bordo de um navio, saído de um porto que desconhecemos, para um porto que ignoramos. Devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem." Chegando ao fim de dois anos antes do que se punha, do que todos supúnhamos, esta foi uma longa viagem, com muitas alegrias, não isenta de episódios menos felizes, tristes mesmo, sobretudo o falecimento de grandes amigos e estadistas. Foi uma viagem com algumas tormentas. Assim são os mares em que navegamos, entre os compromissos e as divergências que caracterizam a política, que foi e continuará a ser a minha vida.
Tristezas, tormentas, mas também momentos felizes. Ferro Rodrigues na despedida, mas sem abandonar a primeira linha de combate político. Eu sou o Miguel Vítor Dias. O Sofá do Parlamento está de regresso na próxima quinta-feira.