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Abrimos novo gabinete de guerra das manhãs 360, é para Kharkóvia que vamos agora, em direto, ao encontro do fotojornalista do Observador, o João Porfírio. João, bom dia.

Olá, bom dia.

Olá, João. Bom dia. Sempre bom ouvir-te, João. Ao fim de praticamente três meses na Ucrânia, estás de regresso a Portugal, ou seja, estás a fazer a viagem agora ao contrário. João, estás a encontrar muitas diferenças?

Sim, é verdade. Faz amanhã três meses que eu estava a fazer exatamente a viagem oposta que vou fazer hoje. Nós saímos de Portugal às primeiras horas do dia 24 de fevereiro, ou seja, poucas horas depois da guerra ter começado, desta invasão ter despontado. Há lá sítio melhor para fazer este balanço que no aeroporto, como agora vocês certamente conseguem ouvir. Estamos no aeroporto de partida para Lisboa. As diferenças que nós encontrámos desde o primeiro dia que chegámos, no dia 24 à noite, até agora, são bastantes. Nós entrámos na Ucrânia, não havia qualquer checkpoint, por exemplo, não havia qualquer controle de passaportes, nem de carros e pessoas para se deslocarem, coisa que mudou muito. Era muito difícil conseguir nos movimentar dentro das cidades na Ucrânia, devido a esse controle apertado de passaportes, de pessoas e mercadorias também. Ao longo do tempo em que fomos estando na Ucrânia, esse controle foi como uma onda, digamos assim, foi se intensificando, foi aliviando, voltou-se a intensificar.

João, estamos com alguns cortes na ligação. Não sei se te podes reposicionar num local com melhor rede.

Peço desculpa. Espero que nos estejam a ouvir melhor agora.

Sim, parece que sim, aparentemente.

Dizia que os níveis de segurança mudaram bastante desde os primeiros dias de guerra.

João, a ligação não está melhor. Vamos fazer aqui um compasso de espera. Vamos ligar-te por telefone, está bem? Até já. Rádio Observador. Retomamos agora a ligação com o fotojornalista João Porfírio, que está em Kharkóvia. João, vamos tentar ver se agora a ligação está melhor. João, bom dia, de novo.

Olá, bom dia. Tudo bem?

Agora sim, muito melhor, João. Estavas a falar sobre as diferenças que encontraste.

É verdade, é o problema da rádio e dos diretos.

Exatamente.

As fotografias não têm estes constrangimentos. Mas dizia há pouco que as diferenças são bastantes, a começar logo pelo controle, pela quantidade de checkpoints que a Ucrânia montou logo às primeiras horas da guerra. Nós quando chegámos à Ucrânia, não havia qualquer controle de passaporte, de pessoas e mercadorias, mas logo no dia seguinte esses checkpoints foram montados com tudo o que os ucranianos tinham à mão, com blocos de cimento, com cruzes em ferro para impedir a passagem rápida de carros, enfim, uma série de utensílios que os ucranianos tinham à mão para travar essa passagem e para também controlar melhor as pessoas que ali passavam. Obviamente, também os sacos de areia tão visíveis e tão conhecidos em tantas imagens, fotografias e vídeos que todos vimos.

Tudo isso agora, na viagem de regresso, como é que tem sido ou como é que foi? Já estão em Kharkóvia, já passaram por todas essas linhas.

Sim, é verdade. Como dizia há pouco também, esse controle de passaportes, de pessoas, foi como uma linha curva, porque esse nível de controle ia se alterando, consoante o nível de ataques que o país ia recebendo. Portanto, agora ao sair e nas últimas duas semanas, últimas três semanas, esse controle era quase inexistente. Fizemos vários diretos do centro de Kiev, por exemplo, em que não havia qualquer controle já das pessoas que entravam ou saíam da cidade, ou mesmo que se movimentavam dentro dela. E o mesmo verificámos nos últimos dias, quando andámos um pouco por todo o país. Nestes três meses, o Observador fez mais de 8 mil km, passou por mais de 10 cidades ucranianas, esteve no norte, no sul, no leste e no oeste. Estivemos na linha da frente, onde os bombardeamentos se faziam sentir a cada minuto. Estivemos também em cenários bastante mais calmos, onde a esperança reinava naqueles locais. E agora ao sair, foi exatamente isso, foi uma calma, foi uma nova normalidade, esta expressão tão usada por nós aqui, nos nossos diretos, que de fato é isso. Estas pessoas, esta população Feliz ou infelizmente, está a habituar-se a esta nova realidade. E obviamente que isto tem pontos negativos, não são só pontos positivos o facto de as pessoas já normalizarem a guerra. O ponto negativo é que as pessoas têm já muito pouco cuidado, por exemplo, com os avisos de alerta antiaéreo. Raras são as pessoas que hoje se escondem e se abrigam quando essas sirenes tocam, e essas sirenes tocam diariamente. Portanto, obviamente que isto tem pontos positivos e pontos negativos, mas as pessoas não se podem esquecer que a guerra continua, os bombardeamentos continuam e há dois dias, por exemplo, um dia antes de António Costa chegar a Kiev, na manhã anterior foram intercetados dois mísseis em direção à capital ucraniana. Portanto, é preciso que a população tenha noção que tem que retomar a sua vida. A economia da Ucrânia tem que retomar, mas obviamente que as pessoas também têm que ter consciência que a guerra não terminou, está longe disso, e que precisam de manter todos os cuidados possíveis.

João, vocês andaram, como disseste, por vários locais, fizeram muitas milhas, encontraram vários países.

Encontrámos vários países, é verdade. Em Lviv, por exemplo, encontrámos uma resistência brutal da população que dizia taxativamente que nós vamos ganhar esta guerra e esta guerra vai terminar dentro de poucos dias. Em Kiev, por exemplo, já não era tanto assim, até porque as tropas russas estavam mesmo ali muito perto. As tropas russas estiveram a cerca de 25, 30 km do centro da capital de Kiev, onde sempre esteve o presidente Zelensky. E portanto, as pessoas aí já estavam muito apreensivas e com medo que as tropas, de facto, conseguissem entrar pela capital adentro. Obviamente, outra Ucrânia muito diferente no leste, em Kharkiv, por exemplo, muito perto não só das tropas russas, mas também da fronteira russa. Nós estivemos a cerca de 5 km da fronteira com a Rússia, e aí sim, já se falava muito mais em medo. Falava-se muito mais medo de morrer, medo de perder as suas casas, medo de perder os seus familiares. No sul, muita gente dividia-se, porque o sul, como todos sabemos, é muito importante, não só para a Ucrânia, mas obviamente é um dos principais objetivos desta guerra para a Rússia. E o sul dividia-se entre as pessoas que acreditavam que a Rússia, de facto, iria fazer em Odessa e em Mykolaiv, até chegar à Transnístria, o mesmo que fez em Mariupol, e a outra metade da população acreditava que isso era completamente impossível, que é impossível as tropas russas chegarem a Odessa, é impossível as tropas russas tomarem Odessa, porque Odessa é um bastião da Ucrânia e é impossível que eles consigam entrar naquela cidade e chegar até à Moldávia. Portanto, várias Ucrânias numa só. O país é enormíssimo. Eu não tinha noção nenhuma que o país era assim tão grande e era tão demorado deslocar-se. Obviamente, a Ucrânia tem vários aeroportos, mas como sabemos, o espaço aéreo está fechado e todas as deslocações têm que ser feitas de comboio ou de carro.

João Porfírio, um dos enviados especiais d'O Observador, que está de regresso da Ucrânia, está em Kharkóvia com o jornalista Pedro Jorge Castro. João, continuação de bom trabalho, boa viagem de regresso. Cá esperamos.

Obrigado.