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Bem-vindo à Operação Stop. Está com a Rádio Observador, no programa em que falamos de automóveis. Eu sou o Miguel Cordeiro e comigo já está o Alfredo Lavrador. Alfredo, bem-vindo!
Obrigado, Miguel.
Hoje vamos falar de autocarros. Um artigo do Observador.
Parece estranho, mas pronto.
É verdade, mas temos que falar.
Tinha que haver a primeira vez para falar de autocarros.
E os autocarros fazem parte do nosso sistema rodoviário e há aqui preocupações para este episódio. Um artigo que o Observador publicou recentemente causou alguma agitação no mercado ao revelar que a Noruega foi surpreendida pelo fato de os autocarros de transporte público que adquiriu a um construtor chinês, envia, no maior segredo, podemos dizer assim, todo o tipo de informação para a China e até permite remotamente que sejam impedidos esses autocarros de se movimentar. O que aconteceu? Nós podíamos dizer que é ficção científica, mas já estamos a viver no futuro, não é?
Exatamente. Não, isto não tem nada de ficção científica e nem de futuro, acontece hoje. Mas deixa-me só fazer aqui um parêntesis. Hoje em dia, todos os carros novos, e isto nem sequer é um caso de ciberataque, atenção, isto é apenas um caso de um acesso permitido a um controle à distância de um determinado veículo. Mas só para recordar os nossos ouvintes, que a União Europeia obriga todos os carros que são vendidos nos países da União a passarem por um teste de defesa contra ciberataques. Parece assim estranho, como tu dizes, e muito bem, assim meio futurista, mas é uma realidade, porque a partir do momento em que os carros têm aceleradores eletrónicos, já não por cabo, direções eletrónicas, já não por cabo, já não por pinhão e cremalheira, ou seja, já não físicas. Travões também por cabo elétrico, um fiozinho ou uma informação via app, e não por um cabo de travão que aciona uma bomba hidráulica, que depois aplica travão ou a pressão nos travões de disco das rodas. A partir do momento em que isto é tudo eletrónico, começa a ser muito complicado impedir que os carros sejam controlados por terceiros. E esse terceiro pode pegar no teu carro e impedir que tu te deves estar de frente no autocarro que vem contra ti, o que é um bocado aborrecido. E então, por isso mesmo, a União Europeia implementou testes contra ciberataques e há uma série de carros que já foram anunciados, já foram impedidos. Anunciaram já que vão ser impedidos de ser comercializados. E digo-te dois ou três exemplos, por exemplo, de uma marca só, não é a única marca, atenção. Mas esta, como é uma marca com bastante notoriedade, chama a atenção. Por exemplo, os Porsche Cayman, os Porsche Boxster e até o Macan a combustão a gasolina, não o elétrico, como temos plataformas com um software mais antigo, não podem ser comercializados a partir de 1 de janeiro na Europa. Por quê? Porque a marca decidiu que era mais caro atualizar o software do que retirar os carros do mercado. Isto é um tema quente.
Certo.
E o que aconteceu no caso da Noruega, respondendo agora à tua pergunta. Porque a União Europeia está a pressionar para que haja um maior controle contra os ciberataques, os noruegueses, que não são rapazes muito perspicazes, resolveram recorrer a uns testes internos aos seus autocarros, aliás, são todos estrangeiros, eles não fazem autocarros. Ao contrário de nós, por exemplo, como tu sabes muito bem, melhor que eu, nós produzimos autocarros elétricos e muito bons, lá em cima em Gaia, os Caetano Bus, tanto a combustão como elétricos. E não só, nós somos os poucos a fabricar. Desculpa, deixa-me corrigir, mas quando eu falo poucos, são mesmo poucos.
Sim.
Porque produzimos autocarros elétricos, tanto alimentados por bateria como alimentados por fuel cells a hidrogénio, ou seja, produzem onboard a energia de que necessitam. Mas dizia eu, eles resolveram fazer esses testes e fizeram em simultâneo para um autocarro chinês da Yutong, que eles têm umas centenas dessas coisas. A Yutong é o maior fabricante chinês de autocarros elétricos.
Ok.
Para início de conversa. E então eles submeteram os testes do autocarro chinês e o autocarro holandês, também elétrico. E detetaram uma coisa estranhíssima, que eu não fazia ideia, que o autocarro chinês tinha um chip, um cartão SIM, igualzinho àquele que tu tens no teu telemóvel e os nossos ouvintes têm nos deles, que permitia comunicar com a China e receber ordens da China para inclusivamente parar, por exemplo. Esses autocarros não têm direção elétrica, digamos assim, eletrônica, ou seja, têm as direções convencionais, tanto quanto julgamos saber, também têm travões e aceleradores convencionais, mas a verdade é que os chineses se quiserem podem mandar parar quase um milhar de autocarros que venderam à Noruega. Isso é complicado, um país de repente pôr toda a confiança num outro país vizinho, relativamente próximo, vizinho será um bocado abuso, mas pronto. Está mais próximo da China do que nós, mas não será provavelmente um vizinho próximo Que ainda por cima não é muito confiável. É um país complicado em termos políticos. Isso enfureceu, obviamente, os noruegueses e acredito que todos os países europeus ficaram um bocadinho de sobreaviso, sobretudo porque o acesso remoto ao veículo foi dissimulado. Uma coisa é dizer: "Olha, eu tenho acesso ao seu veículo para atualizar o software, para fazer isto ou aquilo", e tu ficas a conhecer isso mesmo. Eles não fizeram nada disso. Basicamente, conectaram tudo e instalaram o SIM no maior secretismo.
A possibilidade de um construtor enviar informações para a sede, recolhidas por veículos vendidos a pessoas ou entidades estrangeiras, parece estranha, de fato. A menos que seja conhecida à partida e que seja, por exemplo, aceite por ambas as partes. Neste caso, nestes autocarros vendidos pela Yutong à Noruega, foi isso que aconteceu?
Não foi nada disso.
Portanto, foi uma surpresa autêntica.
Foi um presente envenenado, se preferes que diga. Porque, por exemplo, não só o que disse há pouco, o cartão SIM é romeno, o que não faz sentido nenhum, porque como todos sabemos, não faltam empresas de comunicação na China, todas elas controladas pelo Estado, claro, mas na China tudo é controlado pelo Estado, e não faz sentido este tipo de secretismo. Não há nenhum carro elétrico moderno, quanto mais sofisticado, mais necessita deste tipo de coisas, que não tenha acesso a receber informações e a enviar informações para a sede, sobretudo ao nível do software. E não só, por exemplo, os carros elétricos modernos, não é por serem elétricos, é por terem um software mais versátil e com muito maior potencial do que os carros a combustão tradicionais. Mas digo-te eu, um carro moderno elétrico permite, por exemplo, tu comprares um carro e de repente decides que não precisas de ar-condicionado separado à esquerda e à direita, porque é um capricho, dás-te lindamente com a tua esposa e os dois gostam da mesma temperatura. Mas de repente decides: "Não, a minha mulher gosta mais de frio, eu gosto mais de quente, de maneira que vamos aqui separar isto". E então ligas à marca e dizes: "Olha, eu quero aquele extra, pago um extra e vocês ligam o ar-condicionado separado à esquerda e à direita". Eles ligam à distância, remotamente, não tens que ir ao concessionário de carro. Ou seja, este tipo de graças, este tipo de situações, por exemplo, software de estacionamento, ajuda ao estacionamento. "Olha, minha filha agora ou meu filho começam a guiar o meu carro e eu preciso de ajuda para que eles não me batam com o carro quando estacionam, de maneira que venha daí uma ajuda ao estacionamento." E então vai daí, eles libertam-te o software, instalam no teu carro um software, um pack de programação, que te permite o carro estacionar como tu bem desejas. E isto, se for dito à partida, inclusivamente pode ser um trunfo. Mas uma coisa é dizer à partida, ou tu descobrires a posteriori que tens ali um traidor em casa.
Ok, nós estamos a falar da situação com a China, mas há mais construtores. Por exemplo, a Tesla não envia também informações diretamente para a sede, neste caso nos Estados Unidos da América, como fazem aquilo que estamos a dizer aqui os construtores chineses?
Todos enviam, tens toda a razão. A questão é, e a Tesla, sobretudo, porque já foram os primeiros a começar este tipo de coisas. Mas é sempre recordar que a Tesla, quando começou a vender veículos na China, a maior fábrica da Tesla em área, em volume de produção, já tem 1 milhão de carros na China. A China proibiu tudo o que é general, quadros superiores do exército, quadros superiores das grandes empresas, etc., de adquirirem carros da Tesla. Por quê? Porque eles filmam, os carros da Tesla têm a capacidade de filmar tudo o que passa à sua volta, através daquelas câmaras que ajudam na navegação, na condução semiautônoma, que é o nível dois que eles oferecem, etc. E a China não queria que houvesse registro de imagens e quem sabe som, porque os carros quando registam podem registar tudo, nas suas instalações secretas, como é óbvio, eu também percebo. Vai daí, baniram os carros até que a Tesla se comprometeu, e provou que o fez, que todas as informações que recolhia, todos esses vídeos, eram armazenados em servidores na China. Servidores da Tesla, claro, mas na China, não nos Estados Unidos. Não sei por quê, eles não gostam de coisas dos Estados Unidos. E então, isto é uma coisa que é relativamente corriqueira. Agora, aparentemente passa-se o mesmo com a Noruega e com a China. E se alargarmos um bocadinho o âmbito da coisa, vamos ver que se passa com todos os países europeus e a China.
Então vamos lá falar de Portugal. Os operadores portugueses de transportes públicos adquiriram este tipo de veículos de transporte à Yutong ou outros fabricantes chineses. Sabemos isso? Sabemos também se verificaram se também esses veículos podem ser controlados remotamente pela China?
Olha, até agora impera o silêncio. Sabe-se, porque Portugal figura nas listas da União Europeia como um país que adquiriu veículos pesados elétricos de passageiros à Yutong, à China, especificamente à Yutong. Não necessariamente só à Yutong, mas adquiriu à Yutong, mas até agora Que se saiba, ninguém fez teste nenhum. Não sei se estarão preocupados com o assunto, mas acho que deviam estar. Como te disse logo no arranque da peça, a Yutong é o maior fabricante de autocarros elétricos chinês e está presente em toda a Europa, em vários países do mundo e também em Portugal.
Voltemos à situação da Noruega, como é que isso ficou? Qual é atualmente a situação dessas comunicações secretas com a China dos autocarros noruegueses? Qual é que foi a solução, se é que houve alguma encontrada pelo governo escandinavo?
Miguel, vais-te rir, porque a solução não podia ser mais ridiculamente simples.
É encostar os autocarros à box, não é?
Não, que eles andam. As pessoas têm que ir trabalhar, são uns povos muito dedicados ao trabalho.
Puseram autocolantes à frente das câmaras.
Não, muito negativo. Calcula tu que resolveram aquilo, eu não sei, eu acho que nem com custo nenhum. Eu ia dizer um cêntimo, mas nem um cêntimo foi. Pura e simplesmente retiraram o chip, retiraram o cartão SIM. Ou seja, o autocarro anda muito bem, graças a Deus, mas sem o cartão SIM. E obviamente estão a dialogar com a China para ver como é que resolvem aquilo. Há várias soluções. Os carros andam no dia a dia sem cartão SIM, até que a China lhes diga: "Ó meus caros amigos, nós precisamos de atualizar o software que gere os motores, a temperatura das baterias, a gestão elétrica, disto e daquilo, de maneira que não se importam de ligar isso, meter lá o SIM para eu aceder a essa coisa e atualizar o software?" E eles, se acreditarem nos chineses, que é sempre uma possibilidade, ou não, introduzem lá o cartão SIM e eles atualizam o programa e voltam a tirá-lo a seguir, que é para eles não poderem parar aquilo, no caso de um dia a China se chatear com a Noruega pelo que quer que seja.
Muito bem.
De maneira que neste momento a situação é esta, os carros andam lindamente, sem cartão SIM.
Muito bem.
Saiu barato e foi rápido, aparentemente.
Se a solução passar por aí, se ficar resolvido, não me parece propriamente um problema, mas será certamente para acompanhar e perceber que próximos desenvolvimentos têm este caso e também perceber que impacto é que pode ter ou não em Portugal uns autocarros da Yutong que já estão em Portugal.
Exatamente.
Esta operação stop está feita, Alfredo. Voltamos a falar para a próxima semana. Um abraço.
Abraço.