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"Operação Stop" na Rádio Observador, como sempre com o Alfredo Lavrador. Alfredo, sê muito bem-vindo. Como é que estás? Tudo bem contigo?
Tudo bem, José Rafael.
Ora bem, isso é que é preciso. Alfredo, hoje temos aqui um programa, eu diria quase que especial, até porque vamos falar de Fórmula 1, mais ou menos. É um carro português que é um Fórmula 1 autónomo, é um desenho de uma equipa do Instituto Superior Técnico que há mais de 20 anos que está no ramo da construção de carros. Este projeto nasceu a combustão, evoluiu para o elétrico e agora é autónomo. E Alfredo, este projeto é totalmente construído em Portugal, técnicos nacionais, destina-se a bater os melhores na Europa, acredito que não só, mas explica-nos então que projeto é que é este e quando é que surgiu.
Olha, este projeto integra-se numa competição europeia que é denominada Formula Student e que envolve os principais países. E tem imensa piada, porque na essência destina-se a fomentar, incentivar e a estimular os melhores engenheiros mecânicos do futuro. Portugal está representado pelo Instituto Superior Técnico, em Lisboa. A iniciativa começou em 2001, calcula-se, há 25 anos, e desde então os carros concebidos por estes estudantes, obviamente com o apoio da faculdade, mas atenção, são integralmente construídos pelos estudantes, uma vez pensados, concebidos, construídos pelos estudantes, uma vez que a isso obriga a regulamentação europeia. Dizia-te eu que há 25 anos os carros começaram por ser locomovidos por motores a combustão. Os estudantes tinham que tornar os motores a gasolina mais eficientes, com menos consumo, mais potência e por aí fora. Depois passaram a ser elétricos e aí introduziram a situação das baterias. Todos nós sabemos que é algo complicado e é uma tecnologia diferente, nova, que não é fácil de dominar, mas os estudantes continuaram por aí. E agora não só são elétricos como são autónomos, ou seja, não é preciso condutor, não há condutor a bordo. E isso introduz um grau de dificuldade muito mais sofisticado e difícil de denominar. E peculiar, obviamente. Isto eleva a fasquia em termos tecnológicos, o que obriga a maiores investimentos e, nas palavras do presidente do Instituto Superior Técnico, que pagará uma parte da conta, obriga a reforçar a procura de mais patrocinadores para suportar as despesas. O que é simpático. Aqui estou-me a referir ao facto de existirem patrocinadores desejosos ou capazes de apoiar este tipo de iniciativas.
Tudo isto motivos que leva a crer que isto não é só um passatempo, entre aspas, para quem trabalha nestes carros. Nestes casos, os alunos.
Nada, José Rafael. Eu não estou a dizer que estes pequenos Fórmula estão ao nível do Fórmula 1 do Verstappen ou do Lewis Hamilton, ou de todos os outros que andam a disputar o campeonato do mundo de Fórmula 1.
Certamente o orçamento também não é igual.
Não, de todo. Mas atenção, estes Formula Student, por exemplo, o Formula Student português, que é aquele que nos interessa mais, ou não fôssemos nós portugueses e a generalidade dos nossos ouvintes, pesam apenas 205 cavalos. Estou a falar da versão deste ano, que vai disputar o campeonato deste ano. É um campeonato que se está a tratar, são várias provas. Começa no final de julho, há uma pré-competição em Portugal e depois arranca logo em julho, creio que Inglaterra, depois Alemanha e por aí fora, mas posso voltar a este tema. Agora o que eu te dizia é que o Formula Student deste ano do Instituto Superior Técnico pesa 205 quilos e tem 190 cavalos. Se fizermos as contas, que é aquela coisa da matemática que o Guterres não gostava muito, concluímos que a relação peso-potência, que é aquilo que determina a capacidade de aceleração, ronda um quilo por cavalo, ou seja, cada cavalo puxa um quilo. Mas como estes carros têm pneus slicks e quatro rodas motrizes etc., são mais eficientes do que um Fórmula 1, uma vez que, só para te dar uma ideia e aos nossos ouvintes, para ir de 0 a 100, este Formula Student necessita apenas de dois segundos em modo autónomo e 2,25 segundos se tiver o piloto a bordo. E apenas porque o piloto tem peso, é estimado em 75 quilos. Os putos do técnico são elegantes, mas não são subnutridos, de maneira que tem alguma massa corporal e isto pode comparar. Mas deixa só repetir os números. Em modo autónomo, sendo sem piloto, dois segundos de 0 a 100, e os Fórmula 1 fazem 2,5 segundos hoje em dia. Ou seja, estes Formula Student são efetivamente mais rápidos do que os Fórmula 1.
Há aqui uma questão, que é isto é feito por estudantes. E numa faculdade há uma renovação de estudantes, há estudantes que acabam o curso, que seguem para outros percursos profissionais. Como é que, havendo esta rotação toda, se mantém a competitividade?
Bateste exatamente num dos pontos-chave, que foi devidamente salientado pelo presidente do Técnico, o professor Rogério Coato, que chamou a atenção para o delicado e complexo que é tu gerires uma empresa em que todos os teus quadros, desde a diretora de marketing ao diretor ou responsável pela impressão em 3D, uma vez que muitas peças são feitas em impressoras 3D, ou falando da aerodinâmica, ou das baterias, etc., todos estes elementos mudam pelo menos 50% de ano para ano e ao fim de cada dois anos, a equipa é completamente nova. Posso-te dizer, por exemplo, que de 2024 para 2025, a equipa mudou de 38 elementos em 61. Ou seja, é uma complexidade.
É mais de metade.
Mas em vez de chamar a atenção apenas para a dificuldade da situação, o gestor do Técnico chama a atenção para o brilhantismo dos alunos, que apesar de estarem sempre a entrar pessoas novas, conseguem manter uma estrutura eficiente e funcional, o que é uma lição para muitas empresas. E os gestores que nos estão a ouvir sabem exatamente do que estamos a falar.
Isto vai envolver uma competição, há uma pré-competição até em Portugal. O que é que os portugueses, neste caso, a equipa portuguesa, pode ter escondido como ás de trunfo para tentar sonhar com uma vitória?
Eles já tiveram excelentes prestações e já venceram algumas competições. Agora, nota o seguinte: os alunos do Técnico, tal como os alunos das outras faculdades, começam por construir o chassi e todos eles recorrem à fibra de carbono, que é o material mais rígido e mais leve. Os portugueses concebem a sua fibra de carbono, tentando não fazer uma coisa bruta, mas o mais leve possível, mas com a resistência necessária, que depois é cozido, igualmente em Portugal. A fibra de carbono, juntamente com as resinas, tem que ser cozido numa autoclave a grande temperatura. Tudo isto para manter o preço tão baixo quanto possível. Depois concebem as suspensões. E lá está, felizmente são engenheiros, porque se fossem pasteleiros, se calhar a suspensão não saía tão boa. E concebem as suspensões mais eficientes que são tecnicamente viáveis. E simultaneamente estudam a melhor aerodinâmica, uma vez que estes Fórmula, nas pistas em que vão andar, não atingem muita velocidade, mas precisam de muito apoio aerodinâmico a baixa velocidade. E isto implica asas enormes, tanto atrás como à frente, e o carro de 2025 tem umas asas colossais, desproporcionadas, dirias tu. É capaz de conseguir percorrer um túnel a circular pelo teto, de cabeça para baixo, uma vez que gera um apoio aerodinâmico que é superior ao peso do veículo. Logo, pode andar pelas paredes ou pelo teto ou por onde quiser. Depois há ainda o equipamento específico, em que todas as equipas recorrem a células das baterias, a inversores, a motores elétricos, os mais eficientes do mercado, mas toda a montagem, o cálculo da capacidade e o cálculo da potência é determinado, mais uma vez, por cada equipa de alunos. E a piada reside aí também.
Isso parece quase uma cena tirada de um filme de ação. Alfredo, há aqui uma questão que me deixou algumas dúvidas em relação ao que tu disseste. Ou seja, isto é desenhado em Portugal, tem de ser concebido em Portugal, ou seja, 100% português? Não pode ser nada importado nem trazido de fora?
À exceção feita para as células e para os motores elétricos. As células e os motores elétricos são chineses, mas são iguais para todos. Tirando células e motores, que são extremamente densos. Eu tive um motor daqueles na mão, que faz 45 cv e o motor parece, à vista, atenção, parece pouco diferente daqueles motores que se utilizam naquelas varinhas de fazer a sopa, não sei se tu cozinhas, mas se cozinhasses, sabias que aquilo para bater coisas, há lá umas varinhas elétricas que fazem isso. Só que este motor desenvolve 45 cv, é estupidamente pesado, porque é extremamente denso. Mas desde já chamo a tua atenção que um dos pormenores são as células, cuja capacidade os técnicos portugueses calcularam em baixa, como convém, para reduzir o peso, estimando que apenas necessitavam de 6,3 kWh de capacidade. Isto exige uma regeneração, sabes que os carros elétricos quando travam ou desaceleram, geram energia, mas este carro necessita de regeneração como pão para a boca. Isto se os alunos quiserem percorrer uma volta completa ao circuito e estabelecer o tal tempo. Mas as células utilizadas pelos estudantes são de lítio cobalto, que é uma química que não pode ser utilizada em automóveis convencionais. Por quê? Porque é extremamente instável, tende a arder, que é uma coisa que ninguém gosta. A malta gosta de barbecue, mas não no carro. E então, essas células têm que ser mantidas estáveis com o controle total por parte do equipamento. E daí, mais uma dificuldade acrescida, um desafio para os alunos que têm que impedir aquilo de arder. Já houve casos em que alunos falharam essa coisa e houve uma bateria que foi recarregar para um quarto de hotel e que ardeu no quarto de hotel.
Acredito que não tenha sido agradável.
Não correu bem. Acho que o dono do hotel não gostou, mas também isso é um pormenor. Na prática, há pouquinho falei dos motores elétricos e estes têm que ser muito pequenos, por quê? Porque os alunos portugueses decidiram optar por motores instalados nos cubos de roda e para maximizar a tração nas quatro rodas. De maneira que, na prática, o carro tem 190 cv, portanto, quatro motores de 45 cv, e isso garante a tal capacidade de aceleração que te falei há pouco. Mas atenção, isto não acaba aqui, porque a evolução, como não para, este ano os carros eram obrigados a ter uma prova de condução autónoma. E o carro português, pela primeira vez, vai contar com o LiDAR, que é uma espécie de radar que lê os obstáculos, analisa e determina os obstáculos que estão pela frente e determina igualmente a trajetória da pista. Só que este ano, esta informação é completada por uma câmera de vídeo. E isto obrigou a recorrer a placas gráficas mais potentes da NVIDIA e um maior poder computacional, porque o algoritmo é muito mais exigente. E também isto foi desenvolvido pelos alunos portugueses. De maneira que, como podes ver, têm o prato cheio, coitados.
E agora resta-nos apenas desejar sorte a essa equipa de engenheiros portugueses do Instituto Superior Técnico, que tudo lhes corra bem com este carro de Fórmula 1. Alfredo, muito obrigado. Até para a semana.
Abraço, José Rafael.