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Sejam muito bem-vindos a mais uma edição do "PopUp" aqui na Rádio Observador, o vosso magazine semanal sobre assuntos que aparentemente não importam nada, mas sem os quais não conseguiríamos viver, ou seja, tudo o que é cultura pop. Esta reflexão ponderada e construtiva é feita pelo nosso ilustre painel fixo, a Maria Ramos e Silva. Olá, Maria.

Olá.

O Pedro Buchinho Mendes. Como estás?

Viva.

E o Bruno Vieira Amaral.

Olá.

Começamos por recordar o final do primeiro programa. Na semana passada, o Bruno confessou que estava ansioso por ver o "Toy Story 4", o último capítulo de uma das mais populares sagas do cinema de animação. Bruno, conseguiste ver o filme?

Não consegui.

Epa!

Peço imensa desculpa aos nossos fiéis ouvintes que estavam agora à espera de uma opinião profunda sobre o filme, mas não vi. Mas em compensação, assisti a um concerto da Bárbara Bandeira.

Ah, excelente. Conta-nos.

Nas Festas Populares do Seixal. Não me perguntem mais.

Como assim?

Foi muito bom.

Ok. Boa crítica.

Teve aquele momento genial em que a cantora disse: "Boa noite, Seixal". Não se enganou, podia ter dito: "Boa noite, Fogueteiro, boa noite, Alhos Vedros".

Odivelas.

Não, mas parece que a Bárbara Bandeira conhece relativamente bem a margem sul. Ela diz que passou lá a infância, o que no caso dela foi há 15 minutos. E conhecia bem o Seixal e outras zonas adjacentes.

Mas gostaste do concerto? Ok. Vamos em frente. Até porque todos precisamos de alguma orientação na vida e este programa não é diferente. É feito de rubricas. Vamos à primeira, chama-se Boadica. Na Boadica queremos saber o que pensam os nossos comentadores sobre uma frase que marcou a última semana. Desta vez são várias frases e são coisas como: "Ouvi dizer bem e vim para contar às vizinhas" ou "Era para ter comprado um presunto, mas estava cheio de pressa e não deu". Estas são palavras de clientes da Mercadona, a cadeia espanhola de supermercados de grande sucesso no país vizinho, que abriu as primeiras lojas esta semana na zona do Porto e de Vila Nova de Gaia. Houve filas, houve notícias, houve muitos leitores interessados em saber mais. Bruno, por que gostamos tanto de supermercados? Por que gostamos tanto de estar lá no primeiro dia?

Os supermercados, não sei se tu tens conhecimento do conceito, vendem coisas.

Sim.

E as pessoas compram coisas. E quando um supermercado entra no mercado, que é bastante competitivo, é normal que faça promoções. E é normal que as pessoas procurem beneficiar, ganhar alguma coisa com essas promoções. Eu, ao contrário de outras pessoas, quando comentam estas promoções e estas deslocações massivas de pessoas para supermercados e outros estabelecimentos, eu acho que as pessoas normalmente tomam as decisões corretas para elas. Fazem escolhas inteligentes. O senhor que vai lá e quer comprar um presunto com desconto, está a fazer uma escolha muito acertada quando vai comprar um colchão numa loja de móveis. Estão a fazer escolhas inteligentes. Para nós, às vezes pode parecer-nos estranho. Por que as pessoas vão para lá no primeiro dia, todas a correr, todas doidas, mas se calhar temos que olhar um pouco para fora do círculo dos nossos interesses e tentar ver o que leva as pessoas a aderir a estas promoções. Às vezes podem ir lá só para ver, como essa senhora que disse que queria contar à vizinha. Funciona quase como uma visita a uma instalação artística, sei lá. Será uma espécie de Serralves em festa para aquelas pessoas.

Por exemplo.

Eu não compreendo muito bem o interesse, mas há muitos fenómenos que me passam-

Que não compreendes?

Que não compreendo e que aceito. Eu lembro-me há uns anos, eu trabalhava no Freeport, sem qualquer relação com o engenheiro Sócrates.

Conta-nos mais sobre isso.

Trabalhava lá nos cinemas e tinha um amigo que também trabalhava lá e estávamos a falar sobre as lojas do Freeport, das grandes marcas internacionais. E eu dizia: "Não percebo como é que alguém vem aqui comprar um fato por 600 €, um fato que custa normalmente 800. Quem dá 600 € por um fato, também dá 800". E esse meu amigo explicou-me com alguma caridade cristã e com alguma paciência, que há pessoas no mundo que dão 600 € por um fato, dão 800 € por um fato, e ele era uma delas, e têm muito prazer e têm todo o interesse em pagar 600 € só pelo mesmo fato. E isso é uma coisa que pra mim é inconcebível, é uma coisa fora dos meus interesses, fora do meu mundo. No entanto, há pessoas para quem isso é importante. Da mesma forma que, se calhar, há pessoas que Tem interesse em comprar presunto na Mercadona?

Ora bem.

Não sei, como é que se diz?

A Mercadona.

Obrigado.

Mercadona.

Até é mais salero. Uma das frases citadas pelos jornais era de um cliente que, comparando com o que viu em Espanha, dizia: "Aqui acho que tem os corredores mais largos". Pedro, até que ponto a largura ou a qualidade dos corredores influencia a satisfação de quem vai às compras?

Várias coisas. Em primeiro lugar, sou de um tempo em que a Rexina, que é uma marca de produtos desodorizantes e sabonetes, em Portugal chamava Rexina e não Rexona, por causa da rima óbvia. E havia também um Opel, que era o Opel Ascona.

Exatamente.

Portanto, folgo em saber que a Mercadona não teve problema nenhum em pôr a sua marca, apesar da rima.

Tal e qual.

Depois, tiro o chapéu ao PR da Mercadona, à empresa que lançou ou comunicou. Não sei se vocês sabem, mas vocês jornalistas, como eu também sou.

Vocês.

A Mercadona não investe em publicidade, portanto, não contribui para a riqueza para os nossos aumentos e os nossos bónus no fim do ano, não investe nos sítios onde nós trabalhamos. É uma opção. Quer dizer, algumas empresas o fazem, mas a Mercadona ainda não tinha aberto em Portugal e já fazia parte do lote daquelas marcas, que são marcas comerciais como a Apple e o IKEA, ou a Netflix, que o jornalismo acha que toda a gente quer e toda a gente gosta e, portanto, não é preciso ter aqueles pruridos do:

Não vamos mencionar a marca.

Marcas comerciais. Os jornalistas portugueses têm um bocado de mania disso, talvez nos outros países também tenham, não sei, eu só vivo aqui. E portanto, falam da Mercadona como se fosse uma política agrícola comum ou eleição para a Câmara Municipal de Lisboa. E é uma marca comercial. Portanto, tiro o chapéu, em primeiro lugar, à empresa que fez as relações públicas do supermercado. Aliás, notou-se em algumas reportagens que eu li, que o jornalismo não é aplicado. Há uma espécie de narração descritiva. Aquilo não é jornalismo. E não é um mal só do jornalismo, é também um mal que acontece no jornalismo televisivo onde eu trabalho. O jornalista entusiasma-se e o seu editor entusiasmam-se e descrevem: "Temos presunto, temos não sei o quê, ou há presunto." Não sei se dizer que num supermercado se vende presunto é jornalismo, mas eu tenho as minhas dúvidas, mas se calhar não dormi bem esta noite. A abertura desta loja no Canidelo, em Vila Nova de Gaia, teve uma grande influência na comunidade local, com o clube desportivo e ofereceram uma sede nova ou os terrenos, ou uma coisa assim. E portanto, é natural que a população tivesse expectativa em ver como é que aquilo é. Até acho um bocado parolo por parte de nós, lisboetas, digamos assim, estarmos admirados por aquelas pessoas irem lá. Aquilo no limite abriu ao lado da casa deles, não é?

Exato.

Notaste alguma sobranceria nossa?

Notei. Não é de vocês os dois.

Sim, nossa.

Lisboetas, sim, notei.

Não, mas Pedro, eu acho que isso não acontece só com coisas que se passam fora de Lisboa. Até coisas que se passam aqui relativamente perto. Estes fenómenos de massas normalmente motivam esse tipo de abordagem meio sobranceira. Lá estão os parolos, que vão todos a correr para as lojas. Por isso é que eu dizia há pouco que as pessoas normalmente fazem escolhas muito racionais. Quando as pessoas vão para lá, sei lá, para as filas às 6:00 A.M esperar que aquilo abra, eles não estão lá para fazer figuras ridículas.

Isso. Claro que sim.

Estão a fazer decisões inteligentes.

São mais duas coisas que eu queria dizer. Antes de criticar, vamos dizer assim, e eu obviamente também mando bocas e piadinhas que conto com os meus amigos. Não vou ser o falso moralista, mas a maior parte das casas em Portugal são muito mal construídas. Vocês têm noção disso, não é?

Sim.

E portanto, essas pessoas que às vezes vão aos centros comerciais ou aos supermercados, às vezes estão a ter experiências de conforto. É tão simples quanto isso. E se calhar, se houver uma senhora com uma bandeja que lhe dá um bocadinho de queijo para amostra, não sei o quê, se calhar é o momento alto dessa semana, dessa pessoa. A outra coisa, em paralelo, para cimento de experimento. Nós, portugueses, somos muito bons no retalho. Temos o Continente, o Pingos Doble, o Lidl em Portugal é fortíssimo na sua comunicação, o Dia, o Minipreço, o Intermarché. E portanto, é natural uma espécie de Sporting e Benfica. Há um novo clube, há um novo jogador que é a Mercadona, que chegará a Lisboa daqui a uns anos. E aí poderemos ver melhor, porque é uma parte importante do país, onde há muito consumo. Mas eu, sendo um liberal, sou 100% a favor da concorrência, portanto, bem-vinda Mercadona.

Vamos em frente. Muito rápido, só mais uma frase: "Estava na senha cinco e eu era o 18." Maria, estamos com um problema ao nível das senhas entre os supermercados e o cartão do cidadão?

Estamos. Mas pegando aqui um bocadinho no que o Bruno e o Pedro disseram, de facto, incomoda-me se calhar muito mais, e olhando desde o começo do ano, nós já tivemos casos de filas à porta, sei lá, do Estádio do Dragão, recordo-me agora, para entrar num jogo. Já tivemos filas para abastecer gasolina face à possível falha de abastecimento. E eu, na altura, assisti a coisas muito mais picarescas, digamos assim, como uma senhora que dizia: "Eu ontem estive aqui a testar o depósito e hoje já cá estou outra vez. Epa, isto é um problema, porque tenho imensa gente." Mas tu não precisas de testar o depósito todos os dias.

Não precisas.

Portanto, isso parece um bocadinho mais bizarro do que propriamente uma pessoa que corre para uma loja que é de facto uma novidade e que lhe oferece um bombom, e que lhe dá a oportunidade de comprar um presunto, que afinal é um bem consumível Com desconto. Portanto, não acho assim tão estranho. No caso do cartão de cidadão, alguém também dizia com alguma graça, reconheça-se, de facto os portugueses esperneiam muito porque têm que passar tempo nas filas do cartão de cidadão e depois fazem fila voluntariamente para uma Mercadona. Mas lá está, estão a acenar ali com uma experiência que não acho ser uma experiência muito sedutora. Parece que os supermercados são apenas tempos de consumo, mas eu comparo um bocadinho àquele efeito Tinder. Eles são feitos para nos seduzir e portanto quando nos aparece assim um perfil encantador, nós fazemos o swipe certo.

Posso só dizer uma coisa? Voltando ao jornalismo, que eu acho que é um tema que eu gostarei de falar aqui neste programa. As filas do cartão de cidadão é um bom exemplo de como o jornalismo se podia distinguir das redes sociais. O jornalismo que eu tenho visto sobre o cartão de cidadão, e sem querer ser injusto, é essencialmente sobre as filas, depois apontam o microfone à pessoa: "Estou aqui desde as 03:00 a.m." E depois o repórter fecha: "As filas são cada vez maiores". Ou seja, eu enquanto cidadão gostava de saber porque é que há filas. Por exemplo, haverá um maior afluxo de pessoas que se querem naturalizar portugueses? Parece que sim. Parece que há cidadãos de outros países que querem ser portugueses como nós. Outra pergunta, terá a ver com as 35 horas, que é um dia que este governo... Não estou a dizer que está errada a medida ou que está certa. Terá a ver com isso? Quantas pessoas estarão de baixa nas repartições? Por exemplo, seria uma oportunidade para o jornalismo ir mais fundo do que as redes sociais e é mais uma oportunidade perdida, na minha opinião.

Talvez um dia consigamos ir por aí, Pedro. Mais à frente neste "Pop Up" vamos falar de séries de televisão, no geral, e de "Stranger Things", em particular. Agora seguimos em frente com o Post-it. Nesta rubrica revelamos o que mais gostámos de ver, ouvir, ler ou até comer nos últimos dias. Maria, esta semana queres falar-nos de maquilhagem.

Quero falar mais ou menos de maquilhagem. Na verdade, quero falar de uma miúda chamada Alexa Chung, eu penso que é assim que se pronuncia o apelido dela. Por quê? Porque ela fez um vídeo para a Vogue com a sua rotina de maquilhagem. E na verdade, esta Alexa vem de um tempo em que ainda não tínhamos sido enxameados por estes inúmeros tutoriais de maquilhagem. Eles estão por todo o lado, são os blogs ou vlogs com as suas dicas, que envolvem uma série de cosmética e de passos. A Alexa é uma daquelas slashers do mundo da moda, da beleza, televisão, ou seja, uma faz tudo neste universo. E é um fenómeno muito interessante, por quê? Porque ela é uma das últimas it girls que explodiram antes do apogeu das redes sociais, aí algures em 2008, 2009. Ela ainda consegue ser um bocadinho old school, uma legítima herdeira de uma Kate Moss. Na altura, o New York Times até compara, diz que ela é a nova Kate Moss. Enfim, aquelas comparações que adoram fazer. E ela, na verdade, ainda transpira muito aquele rock'n'roll da miúda que é descoberta, como ela foi aos 16 anos numa barraca num festival de Reading.

E que namorou com o Alexander Skarsgård.

Exatamente. E o outro dos The Horrors também.

Ah, realmente.

Sim. Tem esse lado, de facto. Ela começa por não se levar muito a sério, que eu acho que é sempre um ponto a favor.

Como nós.

Pronto, como nós, exatamente. E demarca-se por completo daquelas miúdas, muitas delas indiferenciadas, que depois entretanto povoam as redes sociais e o Instagram, porque ela consegue de facto surgir ali na antecâmara dessa fase toda. Capitalizando depois também muito com isso, como é evidente. Nós continuamos a ouvir falar da Alexa e ela soube fazer o seu caminho e sobreviver também nessa fase. Mas ela, de facto, isto voltando um bocadinho ao começo, ela faz este vídeo com a sua rotina de maquilhagem. Ela está em Paris para a Vogue e eu vou lá ter, já não sei bem como. Não é uma coisa que siga particularmente, mas chego à conclusão que a forma como tu te apresentas num formato destes, a falar sobre maquilhagem, é um belíssimo barómetro de personalidade para ver quem és. E ela, de facto, consegue falar da água de Paris, consegue falar do cabelo, consegue falar de Mick Jagger, consegue mostrar como, apesar de estar rodeadíssima de coisas aparentemente frívolas, como a maquilhagem de todos os dias, não só não percebe muito daquilo, como te dá dicas super porreiras. E na verdade, tu acabas por seguir todo aquele vídeo e nem te lembras de dicas de maquilhagem, porque é o menos importante. Estamos a falar de uma história muito bem contada, com uma personagem que aguenta aquilo muitíssimo bem. E para além de mais, até a forma como ela arranca é muito sintomática do tempo de onde ela vem. Ela tem 35 anos e começa por se apresentar como: "Olá, é a Alexa, a outra, não aquela da Amazon". Isso também diz muito da fase em que ela de facto desponta como figura mediática e por volta, ainda antes de 2010, e como de facto nos faz apelar a um mundo, que para mim já é de alguma nostalgia. É relativamente recente, estamos a falar de 10 anos, mas já nos traz assim alguma nostalgia e ela de facto tem muita pinta.

O Pedro Gusmões Mendes quer falar-nos não de maquilhagem, mas de macacos alcoolizados que vão à ópera. É mais ou menos isto.

Sim, por uma coincidência feliz, eu estou a ler um livro sobre alucinogénios e LSDs e cogumelos e não sei o quê. E tropecei na teoria do stoned monkey, portanto, no fundo, o macaco pregado. Basicamente, tem a ver com uma hipótese, uma conjectura, que um dia um nosso antepassado, um macaco, digamos assim, comeu um cogumelo e aquilo atuou no cérebro do macaco e aumentou as sinapses e não sei o quê, e o macaco, enfim, há milhares de anos, se foi tornando inteligente porque as suas sinapses eram estimuladas pelo cogumelo Pelos alucinogénios, os LSDs, aquelas coisas. E o Afonso Cruz lançou um livro aqui na Fundação Francisco Manuel dos Santos, também conhecido como Fundação do Pingo Doce, como era tratada pela esquerda.

Supermercados, outra vez?

Exatamente, como era tratada pela esquerda. Acho que agora é menos tratada pela esquerda, talvez porque a esquerda tenha publicado bastante nesta coleção. Não sei. Pode ter a ver com isso, pode ser coincidência, só Deus sabe. É um livro chamado "O Macaco Bêbado Foi à Ópera", do Afonso Cruz, e que fala da teoria do macaco bêbado. É uma relação muito curiosa entre o álcool, aquilo que nos torna bem-dispostos sexta à noite, e a humanidade, que parte de uma das teorias, que é: um dia um macaco desceu da árvore, comeu uma fruta que estava no chão, fruta madura, que provavelmente estaria fermentada, e isso o estimulou, porque os animais precisam de açúcar, porque açúcar é energia. E isso terá estimulado, ao longo de milhares de anos, a evolução da espécie. É um livro fininho, tem poucas páginas, as pessoas que não se assustem. O Afonso é muito culto e ele faz cerveja também, portanto, isso também tem muito a ver com álcool e com cerveja. É um livro interessantíssimo, baratíssimo, custa menos que um maço de tabaco, bem menos, e que eu recomendo vivamente, "O Macaco Bêbado Foi à Ópera" do Afonso Cruz.

Muito bem. Bruno Vieira Amaral, esta semana estiveste mais dedicado à música.

É verdade, à música do Prince, que já nos deixou, paz à sua alma, há três anos, mas agora está na altura de aproveitar tudo que ele deixou guardado na arca, que acho que é mais extensa, mais vasta do que a arca do Fernando Pessoa. Já tinha sido lançado um álbum há dois anos, creio, e creio que também já está prevista a edição de um novo álbum, e agora foi lançado o "Originals", que inclui uma série de canções que se tornaram populares.

Como esta que vamos pôr aqui.

Exatamente.

É o "Manic Monday", que toda gente conhece.

Interpretado pelas Bangles.

Ora bem.

Mas que é uma música da autoria do Prince. E este álbum inclui várias músicas que ele compôs, quase todas nos anos 80, para outros intérpretes, incluindo Kenny Rogers, e a mais famosa será o "Nothing Compares 2 U", que depois foi popularizada pela Sinéad O'Connor. Esta versão do "Manic Monday", a versão das Bangles, é muito parecida com esta. Elas não trouxeram muito de novo a esta música.

Sim, terá arranjos um pouco diferentes, mas a estrutura é basicamente igual.

Sim, não há muita diferença. E no caso do "Nothing Compares 2 U", há ali uma apropriação, de facto, da Sinéad O'Connor, que transformou aquilo numa canção verdadeiramente dela. Eu acho que é um álbum muito interessante, porque mostra esta característica do Prince, que era a capacidade, não só a generosidade, mas também a capacidade de produzir, de criar muito. E eu creio que é uma forma específica de gênio, o gênio prolífico. Há aqueles gênios mais perfeccionistas, que se calhar demoram anos.

O Daniel Day-Lewis, que faz filmes de 10 em 10 anos.

Sim, muito criteriosos na escolha dos projetos. O Kubrick, que é aquele gênero de criador-

O Terrence Malick, por exemplo.

Que dedica muitos anos a aperfeiçoar aquela obra em particular. E depois há os gênios prolíficos, que parece que não conseguem controlar aquele impulso criador que têm dentro deles e o Prince é um caso.

E mãos largas.

E, neste caso, capaz de oferecer.

O que é curioso, porque a generosidade aqui é curiosa, porque o Prince ao mesmo tempo, ainda que tivesse pouco mais de um metro e meio, tinha um ego gigante, e que gostava de alimentar, mas ainda assim não deixava de ser generoso e fazer essas canções para outros.

Para outros.

Achas que ele era tão bom que até se dava ao luxo de oferecer, dar aquele avanço?

Não, acho que não era essa a situação. Não sei se eram restos que ele não queria, mas não me parece que fosse uma coisa que deixasse no alto-

Há algumas canções que tu podes imaginar perfeitamente nos álbuns dele. E há outras que não. A do Kenny Rogers, por exemplo, que ele ofereceu ao Kenny Rogers, acho que foi mesmo pensada para a voz do Kenny Rogers. Aliás, tu ouves o Prince a cantar essa canção e parece que está a fazer uma espécie de imitação do Kenny Rogers. Mas há outras canções que fariam todo o sentido dentro dos álbuns dele. Não são muito diferentes do resto das coisas que ele estava a escrever naquela altura.

Exatamente. Fazemos um curto intervalo. A seguir ficamos com a síntese das notícias. Até já. Bem-vindos à segunda parte do "PopUp". Chegou a altura do pop de arroz. Servimos o prato principal desta emissão, vamos falar de televisão. Na última quinta-feira, chegou à Netflix a terceira temporada de "Stranger Things", uma das séries mais populares dos últimos tempos. É uma série sobre um grupo de jovens que vive uma aventura entre o fantástico e a ficção científica numa pequena localidade americana em meados dos anos 80. Pedro, tu que sabes algumas coisas de televisão, digo eu. Por que "Stranger Things" faz tanto sucesso? Por que estava tanta gente à espera deste regresso?

Eu não tenho a certeza que estivesse. Repara, o projeto "Stranger Things" foi recusado pelos canais normais de televisão. Não sei se vocês sabem isso, como aliás o "House of Cards". Foram recusados A televisão americana e a nossa também, de certa forma, são projetos que circulam, neste caso em Los Angeles, e os vários canais tentam ficar com eles. O "Stranger Things" foi um sleeper. A Netflix lançou isto como mais uma série, não esperava que o mundo parasse para a ver, e foi um sucesso esmagador a primeira temporada, a segunda um bocadinho menos. E esta terceira temporada, que estreou sexta-feira.

Quinta.

Quinta.

Quatro de julho.

Portanto, 4 de julho é feriado na América.

Exatamente.

Tem o hype, aquilo que eu chamo as séries de jornalistas. Eu esta semana escrevi um texto sobre uma série, que é a principal série de jornalistas, que é a série "Borgen", que nós estamos a exibir na SIC Radical. E depois vais ver as audiências, as audiências foram miseráveis do "Borgen" na RTP 2. No Netflix, nós não sabemos quantos espectadores têm as séries. Achar que esta série era muito aguardada, eu entendo a pergunta e não discordo, mas eu não aguardava, de certeza.

Mas aquilo que vemos nas redes sociais.

Eu não sei se vemos, aí é que está. Desculpa estar a teimar nisto.

Teima.

Não sei se vemos. Vamos ver se vemos. Nós vivemos um momento da produção de televisão que é uma coisa justamente esmagadora, a quantidade e a qualidade que há. Imaginar que isto pode melhorar é difícil a abstração, como é que isto pode melhorar? Porque o nosso dia continua a ter 24 horas. Onde é que vamos arranjar tempo para ver isto? Por exemplo, agora uma série na HBO, "Euphoria", que é uma série fortíssima e também é passada com jovens, digamos assim, e que não tem o mesmo hype, porque se calhar os jornalistas ainda não viram.

Ainda não tem, mas eu acho que vai ter. Acho que estamos a um passo.

É o que eu acho que é. E depois se calhar estás-me tu a dizer: "Pedro, por que está toda a gente a falar de 'Euphoria'?". Porque os jornalistas viram e os jornalistas, como nós sabemos, confundem muitas vezes o seu interesse com o interesse público. Muitas vezes é quase sempre. Com o interesse do público, desculpa. O "Stranger Things" é uma série de nostalgia, é uma série que foi lançada em 2016, acho eu. Feita para a pessoa que no lar costuma pagar a conta do Netflix. Vou repetir isto. Normalmente, a pessoa que paga no lar a conta do Netflix é o pai ou a mãe, digamos assim. Portanto, é feita para essa demographic, como se diz, para esse target. E depois os miúdos agarraram, porque aquilo tem um lado aventuroso. Mas a razão principal é porque é uma série muito bem feita.

E o que é uma série muito bem feita?

Cast, os atores. Eu acho que foram vistas 800 pessoas para fazer o papel que faz a Millie Bobby Brown, aquela miúda. Foram vistas 800 pessoas. Eu trabalho em televisão em Portugal e nós fazemos ao contrário, que é: qual é o ator que está livre? Pronto, então é esse que vai fazer. Ver 800 pessoas para um papel em Portugal é de gargalhada, é irreal. Tem um cast fabuloso, há uma imensa química entre os miúdos, os miúdos são grandes atores, muitos deles já eram profissionais quando a série estreou. Os episódios estão bem filmados. Em televisão, quando tu recuas, quando a diegese do episódio, aquilo passa nos anos 80, mas não podes filmar aquilo como se fosse nos anos 80. Tens que filmar de forma contemporânea, de agora, 2016.

Demonstrando que estás, de alguma forma, nos anos 80.

Exatamente. Isso está muito bem feito. A direção de produção, production design, direção de arte são overwhelming. É muitas vezes a diferença, aquilo que nós chamamos o acabamento ou craft. Nós, em televisão, tendemos a confundir o conteúdo com a qualidade. "Eu gosto imenso do Guerra dos Tronos." Tu gostas imenso da Guerra dos Tronos porque aquilo está muito bem feito.

Ora bem.

Não gostas por causa do plot. Os plots, como nós sabemos, são quase sempre os mesmos. Isto é uma aventura que os miúdos vivem na primeira temporada, depois é uma quest. Depois lá descobrem no final que o culpado é não sei quem, não sei quê, e fica tudo bem. Como foi um sucesso, fizeram uma segunda temporada e agora uma terceira, mas de facto está muito bem feita. Eu acho que é uma série típica de verão. Também posso acrescentar que vivi esse tempo dos anos 80, eu lembro-me perfeitamente daquelas coisas todas.

Isso também ajuda o sucesso, porque as pessoas que se calhar pagam a conta.

Sou eu que pago na minha casa, exatamente.

Viveram não aquele ambiente tal e qual, mas regressam de alguma forma àquele tempo.

Sim, eu vi primeiro do que os meus filhos, por exemplo. Os meus filhos acabaram por ver, se calhar, porque ouviram na escola, mas eu vi logo. Vi a série, na altura não havia tanta oferta como há agora. Isso foram só três anos e gostei imenso da primeira temporada, mas depois já não vi a segunda. Já não me interessou.

Bruno, na semana passada dizias que estás a ver o "Breaking Bad".

Estou a fazer a minha parte. Já estou na quinta temporada.

Fazes bem. A questão é: uma série já com alguns anos. Tu não sentes pressão em acompanhar o que se passa na televisão? Pelos vistos não, não é?

Nenhuma.

Existe esta necessidade de estar um pouco a par. Porque as séries são tema de conversa, acabam por ser, às vezes, um elemento que forma grupos ou que une, de alguma forma, a vida social e as pessoas discutem e trocam ideias E falam sobre isso nas redes sociais. De todo sentes essa pressão, mas reconheces isso de alguma maneira?

Há um certo prazer de nadar contra a corrente, de estar fora desse movimento também. Há um lado de querer pertencer e de querer participar nessas discussões e há um outro lado de dizer: "Estou fora disso. Isso não me interessa, eu depois apanho-vos mais tarde." Os hábitos de consumo, e o Pedro sabe isso muito melhor do que eu, os hábitos de consumo de televisão alteraram-se completamente nos últimos anos. Estamos a falar dos anos 80, em que todos nós tínhamos um chão comum sobre o qual falar. No dia a seguir, passava qualquer coisa na televisão, todos sabíamos o que é que tinha passado, tínhamos todos visto a mesma coisa, e isso alterou-se. E se calhar obriga, põe uma pressão acrescida nas pessoas para acompanharem, para verem o que está a dar, para poderem discutir isso.

É quase uma demonstração de estatuto.

Claro. É mostrar os cartões.

Eu estou a ver, eu sei.

Aquele estilo do American Psycho, que é mostrar os cartões. "Está aqui o meu cartão, este é dourado", e essas coisas todas. Aí também há: "Eu estou a ver. Estreou anteontem e eu já vi e sei que é a melhor série de sempre." Há um pouco esse lado. Mas eu acho que algumas destas séries, como o "Breaking Bad", são tão boas que o facto de veres oito ou cinco anos depois.

Não muda nada.

Acho que não muda e, aliás, até reforça a ideia de qualidade das séries. Se uma série só tiver valor se for vista naquele momento para poderes discutir, então é porque não é grande coisa. Às vezes também é preciso deixar que o tempo faça o seu trabalho. Eu estou a ver o "Breaking Bad" com muito entusiasmo.

E estás a gostar.

Muito.

Não sei se posso meter aqui a colher.

Bora.

Há aqui várias coisas. Em primeiro lugar, as pessoas veem muito menos séries do que aquilo que pensam, do que elas próprias pensam. Eu não estou a dizer que as pessoas mintam. Estou a dizer que muitas vezes nós vimos, imagina, "Breaking Bad". Vimos, se calhar, a primeira temporada, alguns episódios da segunda, um episódio da terceira, e isso para nós conta como se conhecêssemos a série e a tivéssemos visto. Portanto, quando estás em jantares de amigos: "Ah, 'Breaking Bad'. Gostei." Para mim, ver uma série é ver todos os episódios da série. E eu até acho que vi um texto sobre isso e obviamente fui insultado no Facebook por um imbecil.

Um imbecil no Facebook? Não.

Porque a pessoa ofendeu-se com uma coisa que eu disse, uma conjectura que eu fazia, uma opinião. Na minha opinião, as pessoas não veem os episódios todos. "Quem ele pensa que é, eu também vi." Porque não é humanamente possível, de facto, ver todas as séries. Certo?

Em princípio.

E as pessoas estão a começar a perceber isso. Eu acho que está a cair.

Finalmente.

Não é possível, temos que escolher. E indo de encontro ao que o Bruno disse, mas para depois divergir, as pessoas procuram o chão comum. Ou seja, qual é a série que toda a gente vê? Por exemplo, nós temos uma série na SIC chamada "Golpe de Sorte", que é uma série cujo custo é o equivalente às garrafas de água consumidas no episódio do "Breaking Bad".

Metade das garrafas de água.

Mas que é vista todos os dias por 1.300.000 pessoas. E Portugal não tem assim tantas mais pessoas. As pessoas querem ver as coisas que os outros veem, porque querem sentir que fazem parte de uma comunidade.

Se calhar há pressão social para isso.

Não há pressão social, as pessoas têm que ter sense of belonging.

Claro.

Se é que as pessoas vão à missa também.

Sim, basta pensares se não tens assunto ao almoço, por exemplo.

Exato. E por isso é que enchem estádios.

Claro. Esta coisa de que o consumo de televisão está a mudar, é verdade que há outro tipo de forma de consumir vídeo. Que agora nós temos que dizer a palavra vídeo. Mas não é líquido que, enfim, dando aquele exemplo óbvio, o cinema também não desapareceu com a televisão, o rádio também não desapareceu. Muita gente está no chamado my time. Nós temos o prime time, o late night, e agora temos o my time, que é uma expressão que se quiserem podem usar.

Obrigado.

Mas muita gente também vai espreitar o "Agricultor" ou o "Casados à Primeira Vista", porque as pessoas falam disso à volta. E então aí as pessoas interrompem as séries.

Porque querem saber, querem ver o que se passa.

E porque gostam.

Claro.

Nem todos somos doutorados em física quântica e só queremos o melhor para nós.

Como o Bruno.

Às vezes nós queremos-

Dois doutoramentos em física quântica.

Às vezes nós queremos a indulgência de ver uma coisa, queremos rir, desligar metade do cérebro, como se costuma dizer. Isto aqui das séries, só mais uma coisa. Caro Bruno, são muito poucas as séries que resistem ao tempo. E o "Breaking Bad" é uma delas.

De quantas é que nós vamos ao titular daqui a-

Mas as que resistem são fantásticas.

Eu só vejo as que resistem.

Ele espera que resistam e depois vai vê-las.

É um elitista.

Podemos discutir isso durante seis horas.

Não, é que eu não tenho muito tempo. A questão é que eu não tenho muito tempo. Eu sempre fico muito surpreendido quando vou a falar com amigos: "Agora está a dar aquela série, e depois está a dar 'West Wing', e depois está a dar não sei o quê, e eu estou a ver." E eu disse: "Como é que têm tempo?" Não é uma questão de elitismo, nem aquela coisa que eu dizia há pouco de ir contra a corrente. É não ter tempo. E agora arranjei aqui um esquema de ver o "Breaking Bad", e depois fiquei agarrado. E agora tenho que ver até o fim.

Agora é uma chatice. Claro, eu percebo. A Maria Ramos Silva não confessou aqui, confessou antes do programa, que é adepta do binge-watching, ou seja, ter todos os episódios de uma série disponíveis no momento e ver todos de uma vez, pelo menos até adormecer. Porquê, Maria? Por que gostas de...?

Qual é o teu record?

É um exagero do Tiago. Mas gosto de ter esse fundo de maneira, até porque eu acho que a velha forma de nós vermos televisão continua a existir e coexiste neste momento com esta nossa impaciência. Eu acho que tem a ver com a impaciência, não querermos esperar. Permite talvez uma gestão do tempo também mais eficiente. Permite antecipar, não sofreres. Eu acho um bocadinho insuportável tu de repente estares a ver uma série que gostas imenso e subitamente tens que esperar dois anos por uma nova temporada.

É uma vergonha.

E para uma pessoa que já vai perdendo um bocadinho na memória, depois fica muito difícil fazer esse record.

O Paço Coelho inventou esta regra.

Eu não imagino o que seria agora se eu tivesse de esperar um ano para ver mais episódios. Acho que matava alguém. Mas isso era bom para escreveres um livro. Enfim, Maria, continua.

Sim, eu não vejo muito, eu não sou de todo um bom exemplo. Eu sou uma pessoa que esteve vários anos sem ter televisão em casa, muitos anos sem seguir uma série de séries. Por outro lado, parei numa certa fase daquelas velhas séries que nós nos lembramos, alguns clássicos, tipo "Sim, Senhor Ministro", coisas por aí fora, os "Black Adders", inclusivamente "Bairro do Amor", por que não?

Por que não?

E acho que recuperei um bocadinho de terreno recentemente. O "Breaking Bad" é um belíssimo exemplo de uma série incrível e que também vi já com um certo delay em relação ao ranking original e esperei que fossem saindo esses episódios para conseguir condensar tudo. É uma grande frustração no final, como é a frustração quando acabas de ler um livro bestial e não tens mais páginas. Mas pegando ali numa série de questões, eu acho que o Pedro deve ter razão quando nos diz que nós-

Deve.

Não, acredito que tenha, de facto, porque nós certamente vemos muito menos séries do que efetivamente comentamos. Eu acho que nós passamos muito tempo a comentar e a falar sobre séries. Tenho dúvidas de que as vejamos a todas e assim tanto, porque fica claro que cada vez temos menos tempo para ver uma produção tão grande. Tenho também dúvidas que daqui a 40, 50 anos, consigamos manter na memória todas estas séries como mantemos, sei lá, um "All in the Family", personagens icónicas como um Archie Bunker. Tenho muitas dúvidas que depois com essa peneira do tempo, mesmo um "Stranger Things", não sei se sobreviverá. Eu não conheço. O Pedro está a acenar com a cabeça. Quanto a esse binge-watching, como tu disseste, parece que é uma tendência, do pouco que googlei, parece que há estudos que dizem que a esmagadora maioria das pessoas, e estamos a falar de 95%, seguem este processo, portanto, não se contentam só com um episódio e veem vários, têm assim umas maratonas de episódios. Não é assim tão atípico.

O binge-watching prejudicou seriamente a venda de livros nos Estados Unidos. Os livros no verão vendiam mais, porque as pessoas iam de férias e compravam sempre um pocket ou um romance para ver e o binge-watching, pronto, as pessoas levam séries para ver, têm os devices, têm os iPads para ver. Só para dizer mais uma coisa ou outra, desculpem, mas esta é a minha área. A televisão é uma filha do capitalismo. As séries de televisão existiam para ter anunciantes nos intervalos. Não havia: "Vou fazer uma série chamada 'Bairro do Amor', porque deve haver uma miúda chamada Maria em Portugal que está a precisar de ser distraída ou está com papeira e quer ver séries."

E não tem nada para fazer.

Exato. As séries tinham ganchos narrativos, vocês devem se lembrar do que é um gancho narrativo, sem saber com certeza, mas tinham ganchos narrativos, às vezes até tinham freeze, que a imagem ficava, o MacGyver estava quase a cair do penhasco e depois havia um intervalo e ele safava-se. E agora as séries não são assim, sobretudo as da Netflix, a princípio exagerou um pouco. A temporada é o episódio piloto, no fundo, são filmes de 12 horas, se tiver 12 episódios, são longos filmes de 12 horas, muitos dos quais francamente exageradas as séries, algumas são uma seca, para usar uma expressão mais popular, por causa disso, porque o criador: "Isto é binge-watching, então deixa lá que eu já te lixo." Fazem a chamada trama mais parada, a cadência muito mais lenta. E por que faz isso? Porque as plataformas, para contratarem os melhores criadores, tinham e têm que os deixar fazer o que eles querem. Portanto, está tudo ligado, como diria o outro. Eu não tenho a certeza que o binge-watching seja a maioria. Acho que as pessoas veem dois ou três episódios ou dois episódios e meio.

Sim.

Binge-watching não é sete episódios. Vês uma hora e meia, que é mais ou menos a duração de um filme, porque uma hora e meia são dois episódios e pouco.

Sim, acho que a média não vê só um. Vais um bocadinho mais além.

Não sei se dois episódios é considerado binge.

Sim, é capaz de ser excessivo.

Sim, não no teu caso, mas as pessoas usam muito. Quando as pessoas usam a expressão, deixa-me pôr isto desta maneira. Eu fico sempre com a ideia que as pessoas estão a dizer que fecharam as janelas todas, trancaram as portas, desligaram os telefones.

Tiraram férias para ver.

Exato, e baixaram as persianas e os stores e quando acordaram deram por si era 16h da tarde, três dias depois.

Barricaram-se em casa para ver.

Exatamente. E isso não é assim.

Claro.

Videobarricadas.

Estamos na reta final do "PopUp". Antes de terminar, fazemos uma viagem no tempo na rubrica: Isso é que era bom. E aqui não falamos nem de presente, nem de futuro. Queremos falar de efemérides, memórias, coisas boas que aconteceram noutros tempos. O Bruno Vieira Amaral quer falar-nos de um filme com 20 anos sobre um serial killer, outra vez, que foi um sacana há mais de 40 anos, certo?

É verdade. O filme é do Spike Lee, é o "Summer of Sam", o "Verão Escaldante". Estreou nos Estados Unidos em 1999. Cá creio que estreou um ano depois. Houve aí um delay.

É o costume. Era o costume.

Mas é um grande filme. Não vou dizer que é o melhor do Spike Lee, mas eu gosto muito deste filme. O Spike Lee, no "Verão Escaldante", saiu das histórias da comunidade afro-americana e entrou na comunidade ítalo-americana e saiu-se muito bem, ao contrário do que alguns poderiam esperar, porque era aquelas histórias que ele estava habituado a contar. E é um grande filme. Tem desempenhos magníficos. Foi a primeira vez que eu reparei no Adrien Brody, faz um grande papel nesse filme. E talvez também tenha sido a última vez que reparei na Mira Sorvino. Acho que é o último grande papel dela. Também não quero estar a mentir, mas depois disso ela desapareceu. Depois já vai dizer que também teve muito que ver com as histórias do Harvey Weinstein.

Exato.

Mas é um grande papel da Mira Sorvino e é um grande filme, faz agora 20 anos, num ano que foi todo ele muito bom de cinema, com grandes filmes. Há quem diga que foi o último grande ano de cinema. Há ali uma série de filmes de que gosto muito, o "Magnólia", mas também o "Tudo sobre a Minha Mãe" do Almodóvar, é um dos meus filmes preferidos. E o "Matrix" também.

Exatamente.

Grande filme. Mas teve muitos. Foi um ano com muitos e bons filmes, e eu queria destacar este do Spike Lee, que é um dos grandes filmes dele.

1999. Pedro, vais voltar a falar de televisão, mas por razões diferentes.

Sim, quero falar de uma efeméride que tem a ver com esta semana. Soube-se que poderá estar nos astros.

É bonito.

Uma quinta temporada de uma série muito boa, que se chama "Blackadder", uma série com o Rowan Atkinson, escrita por ele e pelo Richard Curtis, e com o Hugh Laurie, entre outros, o "Doctor House".

Situa-nos só um pouco nessa série, muito rapidamente.

É uma série passada em várias épocas temporais, uma no tempo da Isabel I, depois a última temporada, acho que foi na Primeira Guerra Mundial.

Portanto, tudo ao longo da história de Inglaterra.

Sim.

Começa bem no século XV.

Sim, acho que no tempo da Guerra das Rosas. E é um humor muito violentamente bom inglês, aquele humor inglês à séria. Os Monty Python são o pináculo dessa coisa.

Com jeito vai.

Exato, sim.

É mais ou menos a minha coisa.

Não, mas o "Blackadder" deu várias vezes na RTP, na RTP Memória, na RTP2. Esta coisa das efemérides, achei que isto é diferente, como direi a outro, de fazer uma efeméride do futuro. Ou seja, esta é a altura em que nós ficamos a saber que poderá haver uma quinta temporada do "Blackadder".

Também reparei nessa notícia e fiquei muito entusiasmado. Lembro-me de ver na altura na RTP2, naqueles tempos em que víamos as mesmas coisas.

Exatamente. É bonito ver-vos de acordo.

Só para dizer que os Monty Python estão na Netflix.

Exato.

Sim, mas o jornalismo português ainda não descobriu, lá está.

É triste. Maria, não sei o que queres dizer sobre isso.

Não, é um exemplo. Só para ser mesmo irritante. É um exemplo de como o Monty Python é muitas vezes citado pelos nossos humoristas, e bem. Bolas, e bem. Como uma demonstração de absoluto génio, e é verdade. E aquilo está disponível na Netflix e podia-se fazer para as gerações mais novas perceberem, e ainda não foi captado pelo radar do jornalista português.

Este programa deveria chamar-se Pumba no Jornalismo.

Vamos a isso. Maria, um minuto para juntares cinema e jazz, por favor.

Óra boa. E bourbon, que eu também tinha aqui bourbon.

Já agora.

Sim, que as personagens também o bebem muito, o que torna tudo ainda mais saboroso. Então, olha, eu trago "Anatomia de um Crime", do Otto Preminger, como lembrou aqui muito bem o Bruno Vieira do Amaral, com o pretexto de mais uma efeméride. O filme faz 60 anos.

Vamos pôr a tocar qualquer coisa muito rápido.

Boa. E no fundo, isto é só uma desculpa para falar de um filme incrível, recheado de ingredientes que pisam o risco, uma série de ambiguidades. Se quisermos um sistema de justiça em que um júri acaba por decidir a favor da história mais apelativa, o que é muito "made in America", mas no fundo porque o bem e o mal também são terrenos muito pantanosos, seja em 59, que é o ano dele, ou seja, em 2019. O Preminger já tinha forçado a barra, como dizem os brasileiros, em filmes anteriores. E neste filme de barra tribunal, dir-se, consegue pôr tudo o que é interdição no açoador. Portanto, para resumir, esta é a história do Paul Biegler, um advogado materiola, que de repente se vê com um caso mesmo de peso. O filme é baseado numa história verídica, que foi contada em livro por um juiz que esteve, de facto, envolvido neste caso. Este Biegler é James Stewart. Depois temos o marido ciumento, que é o Ben Gazzara, e a mulher, que é uma Lee Remick incrível, que terá sido violada. Enfim, o seu marido depois terá decidido ajustar contas. Há aqui uma série de pontas soltas. Isso também faz parte do charme do filme. Só para terminarmos. O outro interesse deste filme é a banda sonora com o Duke Ellington, que estamos a ouvir aqui em fundo. Que também aparece no filme. E é o primeiro compositor afro-americano a aparecer numa grande produção de Hollywood, que também é digno de nota.

Então não é. Muito bem. É o final de mais um "PopUp". Obrigado por ter acompanhado este segundo programa. Estamos de volta no próximo sábado. Até lá, tenha uma boa semana.