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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Uma ouvinte escreveu-nos com uma dúvida que muitas famílias conhecem: tem dois filhos de três e cinco anos que ainda dormem na sua cama. Olá, Eduardo. Esta mãe quer saber se há uma idade certa para cada um ir para o seu quarto.

Olá, Judite. Este é daqueles assuntos que invariavelmente deixam algumas mães um bocadinho subjectivizadas connosco. Se as coisas se fizessem com um formato mais ou menos normalizado, eu acho ótimo que as crianças saiam do quarto dos pais para o quarto delas entre os oito e os 10 meses, acompanhadas do seu berço e inevitavelmente com aquelas proteções de cabeça e tudo mais que tem cheiro a mãe por todos os lados, o que faz com que, de certa maneira, não estando a mãe, ela acaba por estar. Uma transição como essa é uma transição mais tranquila, porque no fundo, uma criança desde muito pequenina percebe uma coisa magnífica: se tisna e a mãe lá está, se chora porque tem medo de um pesadelo, o pai dá uma ajuda e, portanto, estando tecnicamente sozinha, se calhar está muito menos do que pode parecer e inaugura-se dessa forma um movimento de autonomia que depois salta para a maneira como ela vai começar a engatinhar e depois a falar e por aí adiante. Chegados aqui, aos três e aos cinco, Judite, esta mãe, a certa altura, vai ter que compreender que estas crianças são magníficas, têm os ímpetos reivindicativos das melhores centrais sindicais e, portanto, não vão aceitar, por mais que a mãe tenha os argumentos aparentemente mais sofisticados, mais lisonjeantes, "vocês já são uns homens", e outras coisas do género, eles não vão aceitar uma mudança sem que, a certa altura, haja um período de um certo braço de ferro. Habitualmente, eu costumo sugerir que seja à sexta-feira, porque sábado podes dormir até mais tarde e porque nesse mesmo dia, porque o domingo vem logo a seguir, se cria uma tendência para que isso aconteça. Os pais muitas vezes dizem: "Sim, mas eu deixo lá, eles levantam-se e vêm ter connosco." Sim, o braço de ferro entra justamente aí. Agora, o que eu acho importante é que os pais percebam que ninguém quer fazer disto uma solução rígida. Há sempre aquelas noites em que uma criança está meio adoentada e se ficar por ali é muito mais fácil para os pais. Há sempre aquelas circunstâncias em que a mãe e o pai decidem dar um reforçado a um deles: "Hoje dormes tu, amanhã dorme o mano." E de repente eles percebem que não perderam nada. Os pais continuam lá com o mesmo coração e a mesma disponibilidade que já tinham, mas quanto mais depressa puderem introduzir este tipo de mudanças, mais se ganha, porque as crianças autonomizam-se na vida delas da noite para o dia. Primeiro começam a adormecer sem os pais, depois a dormir sem os pais, depois a passar sem eles durante tanto tempo, nomeadamente para tudo o que lhes for essencial e, portanto, degrau a degrau, torna-se muito mais fácil e menos tumultuoso o crescimento.

Estas crianças vão sentir essa saída da rotina, porque isto passou a ser uma rotina, como uma perda?

Não, como uma ofensa. Judite, como uma verdadeira ofensa. Judite, perder eu não acho que seja a palavra correta, porque vão continuar a ter mãe e pai, nomeadamente esta mãe tão dedicada. Vão continuar a tê-la, vão perceber que no fundo têm os seus espaços com tudo aquilo que é deles. Podem dormir equipados com uma equipa de ursos de peluche, como tantas vezes eles fazem. Podem, no fundo, ter o seu pequeno mundo adjacente ao da mãe e com a mãe sempre por perto. Não é por aí que eles vão ficar mais frágeis. Vão se sentir ofendidos no primeiro momento, porque a regra é a regra de todas as crianças mimadas: "Se tu gostasses verdadeiramente de mim, não me contrariavas. Logo, ao fazeres uma coisa deste quilate, eu vou rever em baixa toda a cotação que te tenho atribuído." É mais ou menos assim.

Os familiares têm avisado para o facto deste leito partilhado gerar dependência e também reduzir a autonomia. E há fundamento nisto, nesta redução da autonomia?

Judite, há. Exatamente na sequência daquilo que eu estava a dizer É muito importante ter a melhor mãe do mundo, mas a melhor mãe do mundo não significa estar dependente para quase tudo daquilo que ela possa trazer. Pelo contrário, porque até para a mãe isto vai fazendo com que ela se sinta um bocadinho sufocada e sem grandes argumentos para ter um bocadinho de tempo para ela. Por que as mães têm sempre aquela máxima que diz: "Eu só queria", queria, não é quer, "eu só queria ter cinco minutos pra mim por causa disto". Agora, eu também percebo quando os familiares vão sugerindo e às vezes não vão sugerindo, vão dando um palpite, ou às vezes já não é bem um palpite, é quase uma advertência. Isto, que em condições normais seria vivido com relativa tranquilidade, fica ali um bocadinho desconfortável. E depois, quanto mais desconfortável, mais difícil para a mãe assumir uma posição serena por ela própria em relação a estas duas crianças.

Esta mãe diz que dorme com os filhos, em parte porque gosta de os sentir perto, já que passa o dia longe.

Bem-vinda ao mundo das pessoas bondosas. Claro que sim, Judite. Aliás, eu a certa altura costumo dizer que não fica muito claro se são as crianças que têm dificuldade de passar sem a mãe ou as mães dificuldade de passar sem as crianças. Quem é que fica a dar colo numa circunstância destas? Dão colo mutuamente. Mas lá está, há sempre um argumento que eu acho que é imbatível. Quando as mães percebem que a relação custo-benefício de um gesto bondoso como este, no final, não beneficia tanto os filhos como era suposto, como elas desejam, claro que as mães muito rapidamente emendem o mau e fazem tudo aquilo que estiver ao seu alcance para que o crescimento dos filhos seja o menos sobressaltado possível.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, já sabem, continuem a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Este e todos os episódios estão disponíveis em podcast. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Um abraço, Judite, e até amanhã também.