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Como lidar com mães problemáticas nas escolas é o tema do "Porque sim, não é resposta" de hoje. A propósito de uma ouvinte que pergunta ao psicólogo Eduardo Sá como deve resolver um problema com uma mãe que pediu para que não tivesse relação com a filha dela e, no fundo, que aquela amizade entre as duas crianças, estamos a falar de crianças de oito anos, terminasse. Olá, Eduardo, boa tarde. Isto é um bocadinho, como dizer, desconfortável.
Diga.
Desconfortável.
Olá, Judite. Olá, Bruno. Eu hoje estou com uma voz um bocadinho mais grave ainda.
Mas percebe-se perfeitamente.
Peço desculpa. Judite, a minha tentação era dizer: "Mães problemáticas nas escolas? Não, Judite, não há."
Exato.
Onde é que já se viu? Não, às vezes há umas mães difíceis, sim, Judite, há umas mães muito difíceis e acho que as educadoras e os professores passam por situações às vezes delicadas, porque são mães muito impositivas, são mães que querem definir regras muito rígidas, que às vezes querem, como ainda outro dia eu soube, querem que as escolas castiguem os filhos por coisas que as crianças fazem em casa, mas que elas entendem que têm que ter uma repercussão nas escolas. E às vezes estas mães muito problemáticas, creio que são uma meia dúzia delas, como é óbvio. Mas estas mães, às vezes, são as grandes dinamizadoras dos grupos de WhatsApp de mães.
Os famosos grupos de WhatsApp.
Que às vezes são úteis, evidente que sim, mas que às vezes dão uma dor de cabeça absolutamente interminável a todas as escolas, porque, no fundo, são levantamentos populares contra o poder, em boa verdade, contra a autoridade dos professores, como se isso fizesse sentido. E portanto, num contexto desses, é evidente que eu fico muito preocupado com estas mães. Evidentemente que eu tenho a noção que não são mães que fazem isto para magoar ninguém. Às vezes fazem num impulso e nem sequer medem as consequências, mas têm que o fazer, porque este não é propriamente um pedido que se faça. Eu acho muito importante que os pais sejam entidades reguladoras em relação àquilo que os filhos fazem nas escolas. Acho muito bem que quando há uma criança, como ainda ontem conversávamos, quando há uma criança que acaba por ser de uma agitação e de uma agressividade muito grande na escola, e isto é recorrente, e infernizam, dia atrás do outro, a vida das outras crianças. Claro que, evidentemente, que estes pais têm que ser chamados e, de alguma forma, ajudados para poderem ser melhores, coisa que, aliás, diga-se, alguns pais não aceitam de todo, como se não admitissem sequer que os filhos tenham uma dificuldade ou um problema qualquer. Mas isto, já me custa muito que, seja lá pelo que for, uma mãe se chegue à frente e diga à outra mãe: "Olha, vamos cá cozinhar um divórcio amigável ou pelo menos um divórcio não muito litigioso, porque eu entendo que a tua filha não é uma boa companhia pra minha", se porventura esse for o argumento. E se for assim, Judite, não é um bom exemplo.
Mas o inferno são sempre os outros, não é, Eduardo?
Acho que sim.
As mães complicadas e problemáticas são sempre as outras mães. Será que algumas pessoas têm uma hipersensibilidade em relação a tudo o que envolve os filhos e são essas aquelas que designamos por mães complicadas e problemáticas, que não conseguem evitar comunicar tudo, dizer tudo aos outros pais, quando deveriam, se calhar, conseguir lidar com isso?
Ó Bruno, eu acho que sim. Eu acho que há muitas pessoas que têm muita dificuldade em perceber aquilo que se passa com elas ou as dificuldades, inclusive, que têm dentro delas e, portanto, tentam geri-las projetando essas dificuldades sobre os outros. Há pouco estávamos a brincar, mas a falar sério sobre os grupos de WhatsApp, porque eu digo que às vezes fico de boca aberta com o tom de algumas respostas de algumas mães nos grupos de WhatsApp. E é um tom áspero e, nalgumas circunstâncias, valha a verdade, mal-educado. E não se percebe qual é a necessidade de se chegar a esse ponto. Agora, é verdade, sim, que algumas mães que são muito ciosas da vida dos seus filhos, às vezes projetam sobre eles todos os sonhos que tinham pra si, o que não é muito recomendável. Querem muito que os filhos não cometam os mesmos erros, o que é compreensível, mas depois Interferem de uma maneira que corre o risco de ser abusiva sobre a vida dos filhos, sobre a dinâmica da escola, sobre os amigos e a turma. E estas mães, em muitas circunstâncias, são vividas com muito medo pelas escolas. Por isso é que eu percebo que-
E pelas outras mães.
Por favor, está bem a ver. Porque há algumas mães que entram num despique absolutamente incompreensível. E eu percebo que as associações de pais sejam um instrumento muito importante em todas as escolas, mas também entendo quando algumas escolas jogam à defesa, sobretudo as escolas mais privadas, porque há pais que entendem que porque pagam, têm direitos acrescidos e não admitem que às vezes os filhos tenham determinadas dificuldades. Portanto, eu percebo, às vezes, alguma reserva, que não é uma reserva de princípio, mas é quase uma atitude defensiva em relação a estas mães, que são pessoas terríveis. Algumas reuniões de pais, também há pais assim, que fique claro, são de uma agressividade absolutamente desmedida. E isto é importante que se diga, porque os pais têm a obrigação de dar o exemplo e às vezes criam estes factos, que são factos assentes num conjunto de conjeturas que entendem fazer, mas que tornam a vida de uma educadora ou de um professor absolutamente irrespirável.
E passa para os filhos essa mistura?
Então não passa. Porque é isso que não se percebe, não é, Bruno? Se aquelas crianças conseguem conviver no meio de um grupo diversificado, conseguem ser amigas. Às vezes, até se podem zangar e deixar de ser amigas para voltar a ser amigas no dia a seguir, como acontece tantas vezes. O que seja, no dia a dia de uma turma. É estranho que porque haja ali um ajuste de contas qualquer, porque não se gosta da mãe da outra criança, por isto, por aquilo, o que seja, nada é suficientemente grave para que de um momento para o outro, uma mãe atalhe caminho e entenda criar uma situação que é uma situação depois muito desagradável. Como é que outra mãe que recebe um telefonema destes pode reagir e pode reagir com bom nível, com equilíbrio e com simpatia? É muito difícil. E note, eu tenho noção, tenho alguns quilómetros de rodagem, já vi muitos telefonemas destes, que são telefonemas, às vezes, de uma violência tal que uma pessoa que está numa atitude muito mais tranquila perante a escola, perante a vida, etc., fica sem jeito, porque não consegue responder ao nível, e ainda bem, mas ao mesmo tempo sente que está a ser atropelada e de repente fica com um problema nas mãos que não tinha sentido nenhum, que não é só seu, passa a ser de uma filha. Portanto, isto é uma tolice pegada, porque todos os dias quando uma criança vai pra escola, sentir que fica ali num conflito de lealdade, se brinca com aquela menina, logo a seguir, se isto chega aos ouvidos dessa mãe, há um trinta e um de todo tamanho, imagine-se. Já agora, a angústia que esta criança tem, que era absolutamente dispensável.
E como é que deve reagir esta mãe, então? Ficou com a batata quente nas mãos.
A minha tentação era dizer que ela tem direito à indignação e para além da indignação, tem todo o direito de dizer: "Olhe, eu peço-lhe imensa desculpa, estou a tentar de todas as formas possíveis compreender a sensatez dos seus argumentos. Ainda não cheguei lá. E, portanto, enquanto eu não perceber isso com conta, peso e medida, peço-lhe muita desculpa, mas eu não vou dizer à minha filha para não ser amiga da sua. E acho sinceramente que se elas continuarem a ser amigas, é uma belíssima lição para nós as duas."
Porque a interferência dos pais neste tipo de relações retira autonomia às crianças também.
E aí é que é outra tolice, não é? Porque os pais não podem passar o tempo a dizer uma coisa e o seu contrário, não podem dizer aos filhos: "Olha, tu tens que te saber defender", é uma máxima de todos os pais. "Se aquele menino te intimidar ou te agredir, dizes ao teu professor, mas no limite, se for preciso, tens que te saber defender. Tens que fazer os trabalhos de casa sozinho. A mãe não pode estar aqui o tempo todo, como tantas mães bondosamente fazem, a fazer resumos para que tu finalmente faças os trabalhos de casa." E depois, neste tipo de coisas, que é a gestão corrente de toda uma vida social, começa assim. É que começa assim, é importante que nós não percamos de vista. De repente, começamos a pôr obstáculos, sentidos proibidos, e não pode ser por aqui, por ali. Só te podes relacionar com as pessoas mais adequadas aos meus olhos. E depois, são estas pessoas que têm medo da escola ou da escola pública, em particular, como se, no fundo, o mundo plural, o mundo de gente diferente, fosse uma ameaça, como se estas crianças não acabassem, mais tarde ou mais cedo, nesse mundo, como é indispensável para que todos possamos crescer. E é isso que eu não entendo. Acho que os pais às vezes são tão precipitados e são tão impulsivos neste tipo de reações, que mesmo quando tenham as suas razões e entendam que as suas razões até são absolutamente elegíveis, às vezes não ponderam bem os custos que acabam por trazer à vida de uma criança e como acabam por contribuir para que ela, no fundo, pegando nalgumas máximas que todos ouvimos, por mais amada que seja, por exemplo, não tenha a pior autoestima do mundo, como é que se pode ter numa circunstância destas?
Sensibilidade e bom senso. É o que é preciso.
Sobretudo.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Os nossos programas estão todos disponíveis em podcast, nas plataformas habituais, também no site do Observador. E claro, continue a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, obrigada, um grande abraço e até amanhã. Até amanhã, Eduardo. Um abraço.
Um abraço aos dois e até amanhã.