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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de queixinhas e lamúrias. Serão pedidos de colo ou sinal de fraqueza? Olá, Eduardo. O que perdemos numa relação quando deixamos de nos lamuriar?
Olá, Judite. Perdemos imenso. Porque uma coisa é nós passarmos a vida a fazer queixinhas de tudo e de mais alguma coisa, ou acharmos que as lamúrias é o que está a dar e, portanto, vamos por ali adiante, apanhamos o jeito e nunca mais paramos. Outra coisa diferente é sentirmos espaço para fazer os nossos pequenos desabafos e com isso dividirmos as coisas que nos atormentam um pouco com alguém. Já agora, esperarmos que aquela pessoa além de nos escutar, nos ajude a pôr umas legendas como deve ser em aspectos que às vezes fazem nós dentro de nós e que com a ajuda de um olhar mais esclarecido, um pouco mais distante também, nos permitem depois dar passos em frente. E depois não podemos perder de vista um pormenor, Judite. Afinal de contas, quando nós fazemos estas queixinhas ou estas lamúrias, coisas que deviam ser livres e não só abertas para as crianças e com entrada reservada para os adultos, nós estamos a pedir colo. E o colo é uma coisa magnífica, porque não sei quem é que inventou aquela ideia de que o colo é para as crianças, é uma coisa pequenina, é como os presentes, só para as crianças, e que nós, as pessoas adultas, vivemos muito bem sem isso, porque somos pessoas resolvidas. Quantas vezes não ouvimos já esse tipo de coisas? O que não é verdade. O colo é uma maneira de nós nos aconchegarmos em alguém e percebermos, em primeiro lugar, que aquela pessoa está ali. Em segundo lugar, que nós somos uma prioridade para ela, porque ela dá este privilégio de parar tudo o que está a fazer para nos dar aquele pouco de colo, que não é sumptuoso, mas que nos anima. Percebemos que, afinal de contas, não estamos sozinhos. E se depois disso trocarmos umas bolas e percebermos alguns espaços em branco que ficaram da maneira como fomos compreendendo as coisas e com isso termos os pulos indispensáveis para crescer e pensar, tanto melhor e, portanto, queixinhas e lamúrias, se pudéssemos prescrever, para 88 horas, como nos antibióticos, evidentemente.
Cumpre uma função psicológica a queixinha que um pedido direto não cumpre?
Judite, nós passamos a vida a falar de empatia a torto e a direito, mesmo quando não a praticamos, por mais que seja um equipamento de base da natureza humana. Passamos a vida a falar de vinculação a pretexto de tudo e de mais alguma coisa, e esquecemo-nos que, afinal de contas, ligamo-nos uns aos outros quando somos capazes de partilhar as coisas que existem dentro de nós, mesmo que às vezes não estejam tão arrumadinhas como podem ser. E, portanto, tem uma função preciosa. Ajuda a que nos liguemos mais uns aos outros e se gostamos daquela pessoa, que fiquemos seguramente a gostar mais dela a seguir. Isso é uma coisa tão preciosa e tão insubstituível que não devia ser necessário prescrever. Mas ainda bem que podemos estar a falar numa rádio sobre tudo isso, porque eu acredito sinceramente que isto é serviço público.
Mas esses pedidos de mimo e de colo são disfarçados por quê? Por que se disfarçam?
Somos palermas. Mas faz lá sentido que nós façamos cerimônia com as pessoas que são importantes na nossa vida? Faz lá sentido que nós tenhamos a ideia de que ficamos menorizados só porque finalmente chegamos ao pé das pessoas que fazem toda a diferença e somos transparentes, ficamos mais vulneráveis, mais frágeis, mais capazes de sermos atacados à traição por causa disso. Não. E eu acho até que devíamos aprender com as crianças, porque perdemos o jeito entretanto, eu não sei por quê. Porque as crianças pequeninas dão-nos um safanão nas calças, no vestido, puxam-nos e esticam-nos os braços e dizem: "Quero colo". Ou seja, não pedem: "Por favor, colo." Exigem-no. Exigem aquilo que sentem que têm direito a ter. E eu não percebo por que as pessoas crescidas não fazem o mesmo em relação a quem é muito importante para si, porque este colo pode não resolver a vida toda, Judite. Não resolve Mas torna mais almofadada e dá-nos a sensação de que não estamos sozinhos. Isso é o que eu acho mais importante. E faz lá sentido termos as pessoas muito importantes à nossa volta e por medo, por teimazelo, quantas vezes ficarmos com a ideia que elas só estão lá porque nos portamos de forma exemplar. Não, não faz sentido e, portanto, deixe-me reformular. Não é pedir, é exigir colo 28 horas como os antibióticos.
Quando um deixa de se queixar, o que está a mudar na relação?
Dito que sem querer, às vezes sem dar muito bem por isso, está a dizer ao outro que já não acredita que ele esteja lá, que esteja lá pra si. E isto é que eu acho que é muito significativo, porque quando nós nos tornamos aparentemente autossuficientes e temos a noção de que as coisas funcionam muito bem, mas que em tudo o que são conversas mais sensíveis ou às vezes conversas que aparentemente não adiantam tanto, mas faz tanta diferença quando nós percebemos que a outra pessoa, que é assim tão importante pra nós, nos escuta. Quando nós percebemos que a pessoa nos escuta, nós não estamos sozinhos. E às vezes a impressão que dá é que muitas relações familiares, escusamos de ficar só pelas relações de casal, são relações em que nós percebemos que as pessoas lá estão, tipo Santa Bárbara, se for preciso, quando chover, ela aparece e ajuda-nos, o que é uma coisa importante, todavia, mas que no resto do tempo parecem que não estão. E com isso, nós ficamos com a ideia que as pessoas existem, até gostam de nós, mas às vezes não percebem tudo aquilo que se passa conosco, não nos conhecem como deviam conhecer e muitas vezes não conhecem porque nós não somos exigentes na forma como queremos ser conhecidos, partilhando coisas que aparentemente podem não ser muito significativas, mas são como o ingrediente secreto em qualquer cozinhado, são as coisas que fazem a diferença.
Exatamente, as coisas que fazem a diferença. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã.
Até amanhã.