Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

"Porque senão é resposta" com Eduardo Sá. Eu sou Ricardo Conceição. Bem-vindos. Bem-vindo, Eduardo.

Olá, Ricardo. Como está?

Muito bem, obrigado. Hoje vamos falar de madrastas e de como pode ser difícil gerir os equilíbrios familiares quando há filhos, ex-maridos, ex-mulheres. Tudo isto é, por vezes, muito complicado. Vamos partir de uma mensagem que nos foi enviada por uma mulher, de quem vamos manter o nome sob reserva. Foi enviada esta mensagem para eduardosa@observador.pt. Esta mulher explica-nos que tem uma relação com um homem, que tem duas filhas de um anterior casamento. A mãe das crianças, explica-nos esta ouvinte, nunca aceitou a separação e diz que quando descobriu que havia casa comprada e que o pai queria guarda partilhada, "começou o massacre", nas palavras da nossa ouvinte. A filha mais velha tem oito anos, sempre se deu bem com a namorada do pai, mas agora que a relação está mais séria, as coisas azedaram e até faz acusações à madrasta. Recusa-se a passar fins de semana com o pai e a filha mais nova, que sempre quis ir passar o fim de semana com o pai e com a namorada, sai prejudicada desta situação. Chegamos à pergunta que esta ouvinte nos envia e que vou, Eduardo, citar na íntegra: "O que é que, enquanto madrasta má, posso fazer para desconstruir isto na cabeça das pequenas e ajudá-las a proteger-se desta manipulação?"

Ora bem, Ricardo, são muitas questões ao mesmo tempo.

Muita coisa.

Ricardo, é sempre muito difícil quando alguém chega à vida de outra pessoa e essa outra pessoa tem filhos de uma outra relação, porque mesmo que a idade dos filhos nos leve a pressupor que a reação vai ser compreensiva, amena, até porque os filhos, porventura, terão tido variadíssimos episódios que os fizeram perceber que a relação dos pais não seria assim tão inexquível como todos desejariam. A verdade é que esta chegada não é assim tão fácil e, portanto, num primeiro momento, quando estamos ainda no patamar de amiga do pai, as coisas ainda se toleram. Quando estamos no patamar de namorada do pai, é um degrauzinho acima. Enfim, por que não? Quando se passa para a mulher do pai, as probabilidades destas coisas se tornarem escorregadias aumentam. Não tanto, ou não sobretudo por causa das crianças, mas depois, por causa destes enredos que à volta delas acabam por se gerar. E eu percebo que isto não seja uma situação fácil de gerir, até por isto, porque existe a relação da madrasta com o pai e por mais que ambos queiram muito que aquela relação dê certo, este tipo de episódios e a maneira como eles se gerem ou às vezes, a forma como eles acabam por não ser facilmente geridos, acaba por fazer com que a relação do pai com a madrasta depois possa sair comprometida disto tudo. Por outro lado, uma madrasta ou um padrasto não se pode colocar naquele papel de: "Pronto, eu sou a pessoa fixe que acabou de chegar cá a casa. Permito que a criançada possa fazer aquilo que lhe dá na real gana e quando é preciso alguém chamar a atenção de alguém, não há problema nenhum. Eu chamo o pai e digo: 'Olha, atenção ao que as tuas filhas estão a aprontar'". Isso não pode ser, porque se num primeiro momento é quase um cartão de visita apetitoso pra criançada, a seguir, isto transforma-se numa atmosfera de reivindicação permanente a propósito de tudo e de nada, que Deus me livre. A primeira coisa que eu acho que uma madrasta não pode aceitar é o papel de madrasta má, ponto final. Por muito que uma criança de oito anos, ou tenha ela a idade que tiver, entenda colocar num registo destes. É importante aqui um pormenor, Ricardo. Quando existe uma filha que, de uma forma real ou de uma forma confabulada, se acha no papel de filha querida do pai, às vezes o grande problema não é tanto o pai ter trocado a mãe pela madrasta, é de repente o pai ter a ousadia de dizer assim: "Olha, minha filha, tu continuas a ser a filha querida do pai, mas todavia, é bom que saibas que afinal havia outra. Ou então, vais ter que rivalizar com esta pessoa, que ainda por cima se quer envolver na tua educação e ser um bocadinho mãe à medida dela". Eu receio que quando uma pessoa se põe no papel de madrasta e se aceita, ou que não se ponha, que a ponham, ela não se pode deixar estar muito tempo num papel desses, sob pena de isto ficar completamente ingerível Mas aqui o pai tem um papel muito importante, Ricardo. Porque não é razoável que uma filha, com todo o respeito do mundo pelos filhos, faça uma birra do gênero: "De acordo, eu agora não passo o fim de semana convosco." Porque não é razoável, ponto final.

O pai aqui é a chave para tentar desbloquear tudo isto e chamar todas estas pessoas à razão. É isso?

Também tem que ser. Eu percebo que um pai fique magoadíssimo, fique destroçado quando um filho diz: "Não, eu não quero passar."

Mas o pai está ali a gel fino, não é? Neste caso, nesta história.

Não pode. Tem que fazer mesmo de Rei Leão e tem que explicar à mãe das crianças que tem uma responsabilidade fundamental ao cumprir um acordo que ambos assumiram, que se a mãe de alguma forma incita à insubordinação, ou se pelo menos condescende com passividade em relação a este tipo de gestos, a mãe está a ser conivente e um destes dias, a guarda da mãe, se for o caso, fica comprometida, porque a mãe não está a cumprir com aquilo que é objetivamente da sua absoluta responsabilidade.

Claro, tudo isto é mesmo muito complicado de gerir. E o Eduardo falou na necessidade, às vezes, na vontade, ou pelo menos nessa intenção que as madrastas e os padrastos têm de não parecerem a madrasta e o padrasto mau, e de serem muito bonzinhos. Há essa tentação, que é as pessoas numa tentativa de serem aceites pelos filhos do outro, serem superbonzinhos, supersimpáticos, e isso a longo prazo pode não resultar.

Não, Ricardo. Tira o "pode", se faz favor. Não resulta de maneira nenhuma. Não resulta, porque obviamente quando se faz isso, se faz com a melhor das intenções, se faz no sentido de cativar. Mas sejamos razoáveis. Uma criança também sente quando uma pessoa crescida está ali a gostar dela a medo ou a gostar de forma franca, descontraída, simplesmente sincera. E se sente que está a gostar dela a medo, mesmo que se ponha no papel de: "Atenção, que eu sou a fiscal de casa." Isto depois tem outros tipos de consequências, porque de repente, uma criança a certa altura pergunta assim: "Mas afinal, quantas leis é que existem cá em casa? Existe a lei do pai, existe a lei da mãe, que é diferente, existe a lei da madrasta, depois existe a lei de uma cidadã de oito anos. Quantas? Só para eu me orientar." E com tantas leis a concorrerem nos mesmos metros quadrados de uma casa, a certa altura, a confusão vai alta. Mas não tenhamos dúvidas que isso vai acontecer.

E nós obviamente não conhecemos o caso, temos aqui uma descrição deste caso e é feito por um ouvinte que nem sequer identificamos, porque também temos a obrigação de proteger todas as pessoas que estão envolvidas nesta história. Mas temos aqui este caso em que esta mulher, esta futura madrasta ou já madrasta, pergunta como é que se pode defender da manipulação. E aqui fica num papel também complicado, que é: a mãe daquela criança está a instrumentalizar a criança, pelo que nos é descrito, mas ela também tem de desempenhar o papel e de defender a mãe da criança, não a atacando, não colocando em causa a ligação daquela criança com a mãe. Tudo isto é muito difícil, é um equilíbrio muito complicado.

Claro que sim, mas Ricardo, eu também entendo que os pais quando se divorciam, ficam todos numa situação muito difícil, porque se se divorciam é porque assumidamente não querem mais viver com aquela pessoa, com quem estão muito zangados nalgumas circunstâncias.

Exato.

E com quem partilham só o melhor da vida de um e de outro. Isto é verdadeiramente acrobático. É nós assumidamente dizermos assim: "Sim, eu não te quero na minha vida" e ao mesmo tempo: "Eu dividi aquela filha, por hipótese, com a pessoa que eu não quero ter na minha vida." Portanto, é muito difícil. Agora, é muito importante que as mães e os pais tenham noção que quando assumem um compromisso, se não o cumprem, no fundo, são as suas competências parentais que estão à discussão, porque eles têm objetivamente de o fazer. E depois, sejamos razoáveis. Os pais e as mães, quando se divorciam, podem ter um ódio de estimação mútuo. Deseja-se que não tenham, mas porventura, por qualquer motivo, podem ter. O que os pais têm que perceber é que quando fazem comentários ou instrumentalizam, ou de alguma forma põem um filho contra o outro dos pais, isto é compaginável com exercício de violência, que tenham noção disto. Ou seja, quando a mãe, magoadíssima, com todos os motivos que ela entende que pode ter, de alguma forma instrumentaliza as filhas, se for o caso, contra a madrasta, não as está a instrumentalizar contra a madrasta. Está a instrumentalizar contra a madrasta, está a instrumentalizar contra o pai das filhas e, por maioria de razão, está a pô-las numa espécie de fogo cruzado que bem não desfaz. Ou seja, expõe-nas a um perigo, mesmo que não tenha noção disso.

Eduardo, muitas pessoas fazem isso e eu vou usar aqui uma expressão que o Eduardo usa. Estamos aqui mesmo a chegar ao fim do nosso tempo. O Eduardo usa que são pessoas saudáveis, nossos amigos, somos nós, diria até. Mas que depois usam as crianças como arma nos divórcios. As pessoas têm noção do que estão a fazer ou estão de tal maneira toldadas pela raiva que nem se apercebem?

Ricardo, estão toldadas pela raiva e obviamente que têm que ter a noção, porque objetivamente isso é um mau trato. E portanto, é muito bom que os pais tenham a noção que quando instrumentalizam, quando fazem comentários gravíssimos, às vezes, em relação ao outro dos pais, isto é mau trato, tem que ser lidado como mau trato. E se os pais tiverem noção disso, percebem melhor que isto de amar um filho e ao mesmo tempo maltratá-lo, nem que seja a propósito da mãe ou do pai que eles escolheram para dividir este filho, não é razoável e, portanto, tem que ter um fim. E às vezes os pais e as mães têm que se zangar. Às vezes, através de um tribunal, deseja-se que não, para que se reponha o bom senso, onde às vezes ele parece escassear de uma forma estranha e absurda, porque nós educamos com bons exemplos. E é isso que às vezes os pais não podem perder de vista.

Lembrar ainda que pode sempre enviar sugestões, como fez este ouvinte, e perguntas para eduardosa@observador.pt. As mensagens que nos vão chegando servem também de tema para estas conversas no "Porque sim não é resposta". Obrigado, Eduardo, e até amanhã.

Eu é que agradeço. Um abraço e até amanhã, Ricardo.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.