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Bem-vindos ao "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de um inquérito da rede EU Kids Online, que revela que mais de 30% dos jovens em Portugal encontram nas redes sociais conteúdos de automutilação, teorias da conspiração e imagens chocantes. Olá, Eduardo. Perante isto, como é que um pai gera o receio sobre aquilo a que os filhos estão expostos no dia a dia? Estamos a falar de conteúdos muito graves e alguns podem afetar diretamente a saúde mental e o bem-estar de um adolescente.
Olá, Judite. Eu teria a ousadia de sugerir que tirássemos o podem, porque afetam sempre. Claro! Como? Porque são conteúdos de uma grande violência e de uma violência que em muitas circunstâncias é, de facto, protagonizada por adolescentes da idade de quem está a ver. E portanto, cria-se uma espécie de normalidade neste tipo de comportamentos, que têm quase uma dimensão iniciática. Isto é quase como se estivesse colada à adolescência a existência deste tipo de atitudes, que são, de fato, atitudes graves. As automutilações são comportamentos que muitas vezes existem, sobretudo nas raparigas, e que se banalizaram como uma forma de elas, no essencial, os adolescentes, de forma mais genérica, compartilharem com os colegas os seus desalentos e a forma como de vez em quando encontram aí uma espécie de alívio momentâneo, que muitos exibem. Daí que faço toda que os adolescentes que fazem um pequeno corte no pulso, muito superficial, e o exibem, tenham um comportamento nas automutilações, por exemplo, mais normativo do que propriamente mais furtivo. Os adolescentes mais perturbados procuram outras partes do corpo mais clandestinas, até para que possam fazer isso. Outra violência, porque a violência de gênero é muito comum, a violência sexual é muito comum. A violência entre pares é, de facto, muito comum e eu fico muito contente que cada vez mais há tribunais e países que começam a regular este conteúdo, como aliás teriam de ser regulados. O que não se entende é que haja, da parte das autoridades, de uma forma genérica, uma passividade, uma distração em relação a isto, como se, no fundo, estes conteúdos só tocassem noutros adolescentes que não nos seus. Isso é grave, mas eu tenho esperança que esteja a mudar.
Estamos aqui com umas pequenas interferências, talvez estabilizem. Deixa-me ir à segunda pergunta pra verificarmos isso mesmo. Os pais tendem a achar que se os filhos viram estas imagens é porque andavam à procura delas. A verdade é que estes conteúdos são, no fundo, responsabilidade dos algoritmos, mais até do que alguma intenção própria destes jovens?
São. Eu não tenho dúvidas que as conversas de recreio às vezes tragam este tipo de conteúdos e, em consequência disso, alguma curiosidade. Mas a verdade é que ao fim de pouco tempo, e poco tempo às vezes são poucos minutos, Judite, de um adolescente ter acesso a dados, os algoritmos começam a colocar à sua disposição esse tipo de conteúdos. E, portanto, muitas vezes não são os adolescentes que vão ter com eles, são os conteúdos que vêm à procura deles. E vêm de uma forma, às vezes, absolutamente intempestiva. Os conteúdos de violência sexual são muito comuns, apanham os adolescentes completamente desprevenidos. Eles ficam chocados, ficam muito embaraçados, porque têm muito medo que os pais suponham que eles andam numa pesquisa muito ávida desse tipo de coisas. E, portanto, não quer dizer que eles muitas vezes não andem a pesquisar no sentido de encontrarem alguns desses comportamentos, mas a verdade é que o algoritmo faz o seu trabalho, faz seu trabalho bem feito para prejuízo dos adolescentes.
E ainda bem que falou nisso, porque quando um filho se cruza com uma imagem violenta ou perturbadora, qual costuma ser a primeira reação? Sente espaço pra contar aos pais ou esconde por receio?
Judite, muitas vezes esconde. Esconde. E então, se forem conteúdos que têm uma tonalidade sexual, esconde, porque tem um medo muito grande de ser repreendido ou de ser censurado E, portanto, esse primeiro movimento vai no sentido de se resguardar. A verdade é que há alturas em que já não pode mais, porque esses conteúdos sucedem e a maneira como depois os adolescentes não sabem o que hão de fazer com eles, acaba por criar ali uma tensão tão grande que em determinado momento desabafam e partilham. Verdade seja que às vezes os pais ficam muito chocados quando uma mãe ou um pai têm um filho que de repente traz conteúdo em redor da sexualidade, evidentemente, que deixa de ser pequenino e, portanto, há ali um titubear de reações que é, de facto, compreensível de todos os pais. E às vezes é comum que os pais num primeiro momento ralhem primeiro e depois procurem as razões pelas quais estes conteúdos lá estão. Não façam os pais disto um drama, porque o que é importante não é tanto a primeira reação que possam ter, e a maneira como depois, de forma sensata, não se inibem de tentar perceber como é que aqueles conteúdos chegaram ao telefone do filho e depois, evidentemente, ajudá-lo a desfazer estes nós, porque eles podem ser super capazes para lidar com redes sociais e novas tecnologias, mas no meio do embaraço são muito mais pequeninos do que podem parecer.
O estudo fala também de uma exposição enorme a teorias da conspiração e a discurso de ódio, especialmente a partir dos 16 anos. Como é que se ensina um jovem a duvidar do que vê no ecrã?
Voltamos a uma questão que eu acho que devia ser muito importante no Ministério da Educação, que é: qual é a relação dos nossos filhos adolescentes e jovens adultos com os jornais e com a informação? E cada vez mais eles têm uma informação muito mediada pelo algoritmo, que lhes dá a ideia que o mundo é exatamente como eles imaginam que é. Portanto, não há tanto contraditório como devia existir e isso inibe a sua capacidade crítica. E, portanto, estes conteúdos são muito vulgares e são tão vulgares, que talvez não seja por acaso, que os conteúdos mais radicais acabam por ser, num primeiro momento, muito perfilhados por uma mansa significativa de novos votantes, que vão criando, de facto, tendências que nos deviam dar que pensar. Porque quando se repete uma realidade muitas vezes, quando se faz um discurso hábil, muito hábil, em que se mistura uma parte de realidade e outra parte muito fantasiosa em relação à realidade, evidentemente, que eles vão consumindo tudo isto, vão replicando isto tudo e quando dão conta funciona como os slogans na política. As coisas repetem-se meia dúzia de vezes e parecem fazer com que as percepções sejam a realidade. E é aqui que as escolas, sobretudo as escolas, às vezes mais que os pais, Edite, porque as escolas têm espaço para que estas coisas se discutam e eles juntos a pensarem acerca disso uns com os outros, acabam por ter uma capacidade crítica mais afinada. Mas é urgente que tenham, porque de fato, a informação que eles têm ao seu dispor é tão filtrada por aquilo com que eles convivem todos os dias com as novas tecnologias, que em muitas circunstâncias nem sequer as versões digitais dos jornais lhes chegam com tudo o que isso tem de absolutamente angustiante, tomando em consideração o papel muito importante que eles têm a decidir também o caminho dos países, mas já agora o seu equilíbrio, porque não vale a pena que os pais imaginem que isto é inócuo. As redes sociais fazem mal à saúde mental dos adolescentes e, portanto, os país têm que estar muito mais atentos hoje do que estavam há uma geração atrás. Podemos dizer que de certa forma, os pais hoje são mais competentes, mas sem dúvida que hoje acaba por ser mais difícil ser-se mãe e pai do que era há uma geração.
Eduardo, ficamos por aqui. Vamos de fim de semana. Voltamos na segunda-feira com mais um tema. Até lá, um grande abraço. Obrigada. Até segunda.
Outro pra si, Edite. Até segunda.