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Às 17h30, está lá bem perto, "Porque Sim, Não é Resposta".

Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do programa "Porque Sim, Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral e hoje vamos falar da síndrome do coala. E eu fiquei muito surpreendido com esta síndrome. Eduardo, o que é isto da síndrome do coala? Estamos a falar exatamente do quê? Boa tarde, Eduardo.

Olá, Bruno. Estamos a falar de uma síndrome com aspas.

É sempre bom esclarecer logo.

Claro. Digamos que é uma forma um bocadinho metafórica de nós pormos aqui à discussão qualquer coisa que nós vínhamos a discutir já noutro contexto, da última sexta-feira, que tem um bocadinho a ver com as dependências.

As dependências dos filhos? Ou as dependências em geral?

Não, das dependências dos filhos. Nós, no fundo, estávamos a falar na última sexta-feira do limiar a partir do qual uma dependência pode ser escorregadia e eventualmente tóxica ou, pelo contrário, pode ter aspetos bons. E agora trata-se de nós pegarmos neste assunto e esticarmos um bocadinho estas questões àquilo que se passa entre os filhos e os pais.

Então aplicá-lo às relações entre pais e filhos e essas dependências que, por vezes, a certa altura, podem ser prejudiciais para uns e para outros, mas sobretudo para os filhos.

Podem, Bruno. Podem ser muito escorregadias, porque a determinada altura nós temos aquelas expressões absolutamente ternurentas, até vaidosas, nalgumas circunstâncias, em que as mães costumam dizer: "Bom, não está bem a imaginar. Se eu não estiver ao pé dele, ele não trabalha". Que é quase como quem diz: ou a entidade reguladora está aqui permanentemente a dar-me colo e a dar uns empurrõezinhos devidos àquilo que eu tenho que fazer, ou então eu faço uma greve de zelo e não se fala mais disso. Mas de facto, noutras circunstâncias, há crianças que são muito dependentes da mãe, particularmente da mãe, e de algum modo, sempre que não a têm ao pé, ficam num ai Jesus quase inconsolável, porque de repente ficam numa aflição mesmo, ficam sem saber o que hão de fazer. E no fundo, temos uma mãe que na sua bondade vai tentando corresponder a todas as solicitações. Nestas circunstâncias não são bem solicitações, são verdadeiramente apelos. E temos depois qualquer coisa de um registo muito simbiótico. Se a mãe está, a criança funciona, se a mãe não está, anda por ali abaixo, sem ser capaz de se orientar, sem ser capaz de reagir numa desolação quase sem limites.

Eu estava aqui a pensar se isso será válido para as tarefas, aquelas que exigem já alguma autonomia, mas também para as brincadeiras. Há crianças que dependem muito dessa orientação até para se entreterem, para ocuparem o seu tempo.

Sim, não são só reivindicativas, Bruno, são mais do que reivindicativas. Têm toda uma reação que a determinada altura faz com que estas mães se achem capazes de corresponder a tudo. Só as mães, no fundo, têm um bocadinho esta ilusão e esta vontade também, mas depois acabam por ser tão glutonas que a mãe não tem vida, pura e simplesmente. E vive numa dedicação exclusiva aos apelos destas crianças, que se manifestam em tudo: na maneira como adormecem, na forma como dormem, na maneira como comem, no modo como não se relacionam com outras pessoas nem com outras crianças, porque está ali sempre a necessidade da mãe estar por perto para que elas finalmente se sintam seguras, o que faz com que um pai não exista. Portanto, é ali uma relação a dois que não dá espaço, de facto, a um terceiro. E quando uma relação é a dois, sem espaço para um terceiro, quase como se, no fundo, um fosse o complemento do outro, um fosse a extensão do outro, aí, sim, é legítimo que nós possamos pegar naquela expressão cada vez mais banal de ser uma relação com toxicidade, mas no fundo, acaba por haver uma grande aflição da parte da criança, que não funciona sem a mãe, da parte da mãe, porque percebe que a criança começa a ficar cada vez mais incapaz quando não a tem por perto, o que faz com que uma mãe fique ela própria numa aflição sem saber como há de corresponder.

São aquelas crianças que desenvolvem, estamos a falar de dependências, por isso faz sentido, aquele vício de estar sempre a chamar a mãe, por tudo e por nada.

Isso é quase um património da humanidade. Porque as mães têm aquela expressão que eu acho deliciosa: "Bom, qualquer dia tu gastas-me um nó ao longo de um dia".

Exatamente.

Porque ao longo de um dia, se for preciso, qualquer criança pequenina de quatro, cinco, seis anos, quando estão por casa e a mãe também, seja por isto, seja por aquilo, estão ali no registo: "Ó mãe". Que é muito gostoso, porque é quase uma espécie de controle de qualidade. Vamos lá ver se esta mãe é assim tão presente como ela passa a vida a dar a entender. E, portanto, vamos só chamar mais uma vez para ver se ela responde.

Estás mesmo aqui ou não?

Exatamente. Nessas circunstâncias, não. Esse registro é muito mais saudável, até porque depois as mães, quando lhes chega a gostar do nariz, dizem: "Acabou, já chega" e tudo mais, e as coisas corrigem quase em piloto automático. Agora, há crianças, de facto, em que esta dependência é tão grande, que a partir de determinada altura é de facto doentia. E portanto, estas crianças passam a viver num sufoco quando não têm esta mãe. E pior, têm uma particularidade que eu acho muito importante chamarmos a atenção, que é: sempre que a mãe está por perto, elas têm desempenhos espíritos, são muito capazes, fazem pela vida, são seguras de si, se for preciso e tudo mais. Depois, quando a mãe se afasta, ou porque a mãe fez um esforço tremendo para que em relação ao período de parto, houvesse férias e tudo mais, inclusive às vezes tiram períodos de licença sem vencimento, e depois quando finalmente a mãe se afasta, a queda é tão abrupta que elas deprimem. As crianças ficam muito desamparadas, a ponto de terem aquilo a que nós, numa linguagem psicanalítica mais tradicional, chamamos de uma regressão. Ou seja, elas eram completamente despachadas a andar ou a falar e de repente parecem andar para trás e ficam em um sofrimento de um olhar tão vazio, de uma depressão tão profunda, que inevitavelmente, estas mães, juntando pontinhas e indo ao Google, começam a perguntar: "Mas será autista? Não será autista? O que se está a passar?"

Quanto mais dependente é por natureza uma criança, maior a probabilidade de se agravar essa dependência, porque nós sabemos que nenhum pai, nenhuma mãe, gosta de ver o filho a não conseguir fazer as coisas, em dificuldades, e a tendência será de socorrer, ir em auxílio do filho e, dessa forma, ainda que com a melhor das intenções, agravar a dependência que o filho tem dos pais, vamos falar mais das mães.

Bruno, isto pode parecer uma fórmula muito simplista, e fórmula mais uma vez com aspas, mas o que eu acho que é importante é que os pais não percam de vista que quanto mais protegem, mais fragilizam. E eu sei que, valha-me Deus, que todas as mães e que todos os pais nem precisam que se diga isto, porque todos nós, quando sentimos um filho a tremelicar, inseguro, às vezes numa afliçãozinha, a nossa reação é uma reação em piloto automático, acudimos, ponto final. E fazemos muito bem quando reagimos dessa maneira, portanto, não vale a pena estarmos a pôr aí um problema. Agora, de facto, era muito bom que os pais tivessem a noção que quando começam, por exemplo, a dizer que aquela criança é um bocadinho tímida ou é de alguma forma naturalmente insegura, etc. É muito importante que os pais às vezes façam um brevíssimo ato de contrição e se perguntem o que é que nasceu primeiro, se foi o ovo ou a galinha. Ou seja, se no fundo, são estas crianças naturalmente assim ou se os pais, sem darem conta, às vezes basta passarmos por um susto no início da vida destas crianças. Bruno, é só isto, que estão sempre ali a acudir. Ainda a criança não abriu a boca, já está lá a mãe, uma espécie de piquete absolutamente infalível pro que der e vier. E isto, a determinada altura, faz com que se crie uma dependência que é facílima de criar. Basta nós vermos aquilo que se passa quando um dos nossos filhos está com um vômito ou outro mais ou menos misterioso, ou com um bocadinho de febre, e nós estamos mais presentes, e aí nas noites seguintes, é quase garantido que temos alguém ali ao fundo da cama a perguntar se não pode ficar mais uma noite conosco. Portanto, é um vício, se é legítimo chamarmos a isto vício, que se ganha com muita facilidade. Agora, é evidente que quanto mais os pais acodem no sentido de proteger, estão ali a criar um 31 de todo o tamanho e, portanto, eu percebo que isto pareça frio, quase glacial, mas às vezes temos que dar um empurrãozinho naquele rabo e dizer: "Chega!" Eles nunca vão achar muita graça num primeiro momento, quando são maiorzinhos acham que têm a pior mãe ou o pior pai do mundo, mas depois os ganhos compensam os custos e de que maneira.

E como é que se estimula a independência, a autonomia? Como é que se combate a dependência, levando em consideração as particularidades e as características de cada criança, a sua forma de ser e sem cair nessa frieza. Normalmente, os pais não caem nessa frieza, mas sem cair naquilo que os filhos poderão perceber como uma frieza até deliberada.

É uma frieza, uma vez mais com aspas.

Claro.

Temos que chegar a um patamar do gênero: tem que ser. Que faz com que, obviamente, uma criança não ache muita graça. Eu lembro que as crianças, em relação aos direitos adquiridos, são um bocadinho como as confederações sindicais, portanto, direitos adquiridos são para valer, não se discute e mais nada. Mas os direitos adquiridos são muito importantes de discutir e sobretudo de inverter. E num primeiro momento Invertem-se com uma aparente frieza, sem grandes justificações, com uma perplexidade muito grande da parte de uma criança, como quem diz: "Oh, meu Deus, onde é que a minha mãe bateu com a cabeça, entretanto?" Mas o que é importante é que nós possamos perceber que quando o fazemos, temos que ser coerentes. Não basta fazermos isto de vez em quando. Se é pra valer, é pra valer. Porque se nós fizermos estes empurrõezinhos musculados, é a partir do momento em que nós os obrigamos a ser autónomos, que eles percebem que são capazes e só depois de perceberem que são capazes é que obviamente se tornam autónomos. Portanto, é uma pescadinha de rabo na boca, basicamente.

E uma mudança muito brusca também é desaconselhável no comportamento dos pais.

Não obrigatoriamente, Bruno.

Ou eles adaptam-se facilmente a essas mudanças?

Sim, se os pais entretanto forem coerentes. O que se passa com todos os pais do mundo é que imprimem uma mudança e depois respiram fundo e pensam: "Pronto, ele é tão pequenino, eu agora vou pôr aqui mais algum algodão doce e vou poupar na autonomia." E são estes saltos, às vezes para cima, às vezes para baixo, que introduzem alguma incoerência nos nãos e nos sims dos pais, que depois dão um certo "vai Jesus" e, portanto, a partir daí aumentam a dificuldade quando não valia a pena. Portanto, quando vem para dizer não, meu amigo, é pra ser autónomo, por favor, proibido fazer marcha atrás.

E assim chegamos ao fim de mais um "Porque sim, não é resposta" e os nossos ouvintes podem depender de nós, porque estamos cá todos os dias com o Eduardo Sá. Estamos sempre disponíveis em podcast, nas plataformas habituais e no site observador.pt e pode sempre enviar-nos questões, dúvidas, partilhas, através do e-mail eduardosa@observador.pt, que tentaremos responder ao maior número possível de ouvintes. Eduardo, muito obrigado, um grande abraço e até amanhã.

Eu é que agradeço. Um abraço pra si e até amanhã.