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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos dos bem e dos mal resolvidos. Olá, Eduardo. Quando dizemos que alguém é bem resolvido, do que estamos verdadeiramente a falar?

Olá, Judite. Às vezes não sei. De uma forma empírica, eu digo que as pessoas bem resolvidas são os sábios. São raros, infelizmente, mas são aquelas pessoas, que independentemente da idade, têm um olhar curioso, que não são muito apressadas, que também não são pessoas que se ancorem em preconceitos ou em prejuízos. São pessoas verdadeiramente de cabeça aberta, que sabem tantas coisas que, no fundo, acabam por conviver bem com a sua ignorância, porque, afinal de contas, é a partir dela que sabem mais a seguir. E essas são as pessoas bem resolvidas, mas curiosamente, as pessoas bem resolvidas nunca são uma tarefa fechada, são uma tarefa aberta. São um livro que nunca se escreve até às últimas páginas, porque elas estão sempre numa construção muito grande. Nos tempos que correm, bem resolvidas são aquelas pessoas que, às vezes, pegam num tutorial ou num livro de autoajuda, ficam ali a burilar meia dúzia de ideias, colam-nas, às vezes de uma forma esperta e habilidosa, e discorrem, até dissertam sobre determinados conceitos, como se elas se conhecessem até às últimas consequências, não tivessem dúvidas sobre si próprias e com isso dessem a entender que têm um controle quase digno de um comandante de um enorme Airbus, que consoante os poços do ar e as tempestades, estão sempre ali de uma forma absolutamente esclarecida a lidarem consigo. Eu tenho a ideia que muitas vezes estas pessoas que falam e que às vezes não falam só, quase pergumam, que são bem resolvidas, são pessoas que falam da necessidade de empatia e a praticam muito pouco, falam da importância da gratidão e confundem-na invariavelmente com a dívida. Falam da compaixão e são tão viradas sobre si próprias que têm uma grande dificuldade em imaginar o que os outros sentem. E, portanto, eu acho que às vezes as pessoas que têm muita necessidade de repetir uma vez, duas, três, muitas vezes, que são pessoas muito bem resolvidas, utilizam isso de uma forma habilidosa, porque ao pé delas nós sentimo-nos meios rudimentares, como se nós tivéssemos noção que erramos, que às vezes ficamos tristes, que às vezes ficamos atrapalhados, atabaloados, ao contrário dessas pessoas que parecem irrepreensíveis. E, portanto, eu acho que às vezes estas pessoas bem resolvidas, eu tenho medo que às vezes não sejam tão bem resolvidas assim e usem isso não como uma manifestação de sabedoria, mas como uma atitude que eu tenho medo que seja um bocadinho sabida e que tem como finalidade quase intimidar-nos e não nos dar grande margem para perguntar por quê, por dúvidas ou perguntas.

Por se eu torno uma pessoa mal resolvida.

Bem-vindo ao clube.

Mas é criação da família, da escola, é o resultado de pequenas escolhas ao longo da vida?

Judite, eu acho que nós temos que ter a humildade para percebermos que temos uma margem de crescimento infindável. E que, por mais que sejamos esclarecidos sobre muitas coisas que se passam conosco, às vezes não nos conhecemos tão bem. Nós precisamos muito dos outros e da diversidade que os outros trazem à nossa vida para nos esclarecermos e para percebermos quem somos. E, portanto, às vezes não é que sejamos abertamente mal resolvidos, claro, Judite, mas é evidente que temos os nossos capitulozinhos. E às vezes uns sentem-se mal resolvidos nos amores, outros sentem-se um bocadinho mal resolvidos na forma como são pais, outros na relação que têm com o seu corpo. E aquilo que eu acho que é importante é que nós possamos trazer este lado dos mal resolvidos como uma qualidade que é transversal a todos nós. Os mal resolvidos são pessoas que têm, pelo menos, a coragem de perceber que têm ali algumas páginas em branco e algumas coisas mais ou menos dúbias que precisam de ser melhor pensadas. Às vezes, os mal resolvidos são aquelas pessoas que reconhecem que nunca pensam até às últimas consequências, mas só até às antepenúltimas. E, portanto, não são os trapalhões pegados São as pessoas saudáveis, eu acho, para dizer a verdade, porque quando eles sabem ou reconhecem que têm coisas mal resolvidas, é porque já estão tão bem esclarecidos em relação a si próprios que não precisam, às vezes, de se vender acima do seu preço de mercado e podem ser, sobretudo, honestos e reconhecer que hoje erraram redondamente aqui, mas que com jeito e se apanharem a onda, vão ser capazes de crescer com isso.

Há marcas de infância que reaparecem na idade adulta como assuntos mal resolvidos.

Muitas. Sobretudo da maneira como nos sentimos, às vezes, mal amados. E não é que não tenhamos sido, Edite, se calhar fomos todos, às vezes mais, às vezes menos, mas às vezes é preciso crescermos e sermos pais para percebermos que as leituras que fazemos da nossa infância ou das feridas que ficaram, quando as temos numa perspetiva e que somos, agora sim, depois de sermos pais, mais facilmente capazes de nos colocar no lugar dos nossos pais, percebemos que as cicatrizes vão lá continuar e aquilo que pareciam assuntos absolutamente impossíveis de resolver, aquilo que as pessoas chamam com muita frequência traumatismos, depois de pensadas de outra forma, não se dissipam, ficam lá as dores, mas a forma como nós somos capazes de as ver e de crescer com elas nunca nos tornam bem resolvidos, ponto, porque às vezes as cicatrizes repuxam, como todos sabemos, mas permitem-nos perceber que às vezes somos mais egocêntricos do que pode parecer ao ver as nossas dores, mesmo que às vezes tenham sido dores muito grandes e os nossos pais, de uma forma atrapalhada, não tenham sido capazes de nos amar como nós, em consciência, sentimos que merecíamos.

Eduardo, hoje ficamos por aqui e amanhã voltamos com mais um tema. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Outro para si, Edite. Até amanhã.