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Já temos conosco o Eduardo Sá, sempre de segunda a sexta-feira. Olá, boa tarde, Eduardo. Bem-vindo!

Muito obrigado. Olá!

Olá, Eduardo.

E aí, como estão?

A pergunta de hoje: por que será que os adolescentes estão sempre de mau humor? É assim, Eduardo?

Julgando por aquilo que nós vamos vendo nas séries, quando as pessoas estão nas filas de supermercados ou quando estão à procura de um lugar num restaurante, eu acho que não são só os adolescentes que estão sempre maldispostos. Eu acho que as pessoas, mesmo quando estão de férias, estão sempre tão zangadas que, de repente, o mundo dos adolescentes parece mais paradisíaco. Seja como for, eu acho que é muito difícil ser adolescente, porque o corpo cresce muito depressa, porque de repente uma pessoa não se reconhece no corpo, porque todos os dias há uma borbulha que pus no sítio mais insuportável e que uma pessoa tenta espremer e ainda infecta mais e tudo se complica. Porque de repente a cabeça dá sarações, porque nós olhamos para os nossos pais, que pareciam blocos de granito absolutamente inquebráveis e de repente são fáceis, são incoerentes, imprevisíveis. Portanto, o mundo ganha outra dimensão. É porque, de facto, quando somos pequenos, vimos de baixo para cima e começamos a ver o mundo de olhos nos olhos. E quando é assim, nem sempre o que se observa é tão bonito como aquilo que se imaginava. E, portanto, sim, às vezes andamos maldispostos, porque, como os adolescentes costumam dizer, está tudo no lugar e tudo fora do lugar. E a fórmula mais simples e mais inteligente que eles utilizam é: "Pronto, a minha vida está uma porcaria." Um pouco uma imagem de marca dos adolescentes quando estão no meio de um cone de furacão e estão a descer em várias direções.

Vou só deixar aqui mais uma vez o nosso número de telefone. O WhatsApp d'O Observador é o 917 698 051. Podem enviar as suas perguntas em áudio ou por escrito. Se não se quiser identificar, não há problema. A Maria Horta enviou-nos, não foi bem uma pergunta, foi um comentário, Eduardo. A Maria Horta escreveu: "Somos, de facto, insuportáveis na puberdade?"

Somos insuportáveis. Somos um pouquinho insuportáveis. Mas é tão difícil. Veja o corpo dos rapazes, só para lhe dar um exemplo. O corpo dos rapazes cresce a uma velocidade absolutamente espanteante. Cresce tanto, tanto, tanto e tão depressa que, de repente, eles continuam a lidar com o corpo como se fosse mais pequenino. Tanto assim é que quando se tem, por exemplo, 11 anos e se é um rapaz, e se anda pela casa, rebate em tudo quanto é móvel, em tudo quanto é mesa. E ainda por cima, clássico dos clássicos, um adolescente rapaz de 11 anos, quando vai esticar o braço para dirigir a mão à garrafa da água, invariavelmente derruba e entorna tudo. E, portanto, um adolescente nessas alturas passa por muitos maus bocados. Mas uma adolescente rapariga não é melhor. O clássico das adolescentes femininas é aquilo que se passa no balneário depois da educação física, quando de repente é preciso tomar um duche e o corpo de uma se compara com o corpo das outras. E quando se tem 11 e 12 anos, muitas meninas já têm muitos caracteres sexuais secundários, enquanto outras têm um corpo de meninas pequeninas. E, portanto, é tudo tão difícil nessas alturas que, de facto, eles são insuportáveis porque a vida deles vira do avesso de um momento para o outro. Às vezes, é quase em seis meses, se vira completamente do avesso e as pessoas ao lado deles, os pais, maioritariamente, não os percebem muito bem, porque acham que são pardos, porque são sempre mal-dispostos, porque são insuportáveis e ninguém consegue pôr por eles as legendas que precisam de ser postas. Alguém tem que lhes dizer que sim, é, de facto, muito difícil. De repente, uma pessoa não se reconhece no que é, e às vezes de um dia para o outro. É tão difícil. E as pessoas, que são os amigos dos nossos pais, às vezes vão para nos cumprimentar e hesitam por momentos, como quem diz: "Será que és tu? Será que não és?" Ou seja, nem as pessoas que nos conhecem bem nos reconhecem, quanto mais nós próprios, que às vezes somos tudo aquilo que gostaríamos de não ser.

Eduardo, recuperando um pouco aquela ideia do início da conversa sobre as pessoas que andam de mau humor nas férias, podemos dizer de uma forma geral que, se calhar, adolescentes e adultos andam todos um pouco de mau humor, só que os adolescentes também têm uma maior dificuldade em camuflar esses sentimentos e essas emoções e se calhar os adultos também têm outro tipo de responsabilidade e de obrigatoriedade em não manifestar esse tipo de emoções à flor da pele.

Não sei. Se nós formos ver por aquilo que se passa, por exemplo, numa fila de semáforos, nomeadamente em Lisboa, eu não sei se as pessoas são capazes de camuflar.

São todos adolescentes os que estão dentro dos carros, parece, às vezes, como conduzir.

Às vezes são realmente mal-educados, que é uma coisa um pouquinho diferente.

Que não tem nada a ver com adolescência, atenção, é preciso dizer isso, não é?

Não, pois, eu também acho que não. E, portanto, os adolescentes têm muito mau humor dentro de casa, porque mal seria que dentro de casa eles não pudessem desabafar à escala do que são capazes em relação a tudo o que está do avesso na vida deles. Mas eles fora de casa não são assim tão mal-educados, são tímidos, são bichos do mato, como às vezes as pessoas costumam dizer, e portanto ficam timoratos, assustados, quando alguém lhes diz bom dia e eles o melhor que conseguem fazer é murmurar. Às vezes as pessoas adultas não fazem isso.

E os adultos continuam incapazes de se colocar no papel dos adolescentes e lembrar-se do que aconteceu com eles próprios há uns anos.

A maior parte das vezes tem uma espécie de amnésia muito inquietante e ninguém quer que eles ponham um pó de arroz nas atitudes mais enxofradas dos adolescentes, porque às vezes os adolescentes quando ficam enxofrados dizem coisas que às vezes magoam ou fazem um olhar que não é nada agradável. Mas ainda assim os pais ou condescendem demais ou muitas vezes não lhes prestam atenção e, portanto, eles próprios, pais, ajudam a tornar a vida do adolescente ainda mais difícil.

Eduardo, e nessas situações, o que deve um pai fazer?

Falar pelos filhos, que é uma coisa que os pais fazem com muita dificuldade. Os pais têm uma capacidade fora do lugar para intuir o que se está a passar. São capazes de conjeturar e quando o fazem, fazem, aliás, muito bem. Mas depois, em vez de pegarem naquilo que intuem e darem os seus palpites, que podem não ser todos certeiros, mas que grande parte deles são, o que se passa é que muitos dos pais ficam neste pingue-pongue. Está a ver dois ouriços assustados a quererem comer um ao outro? É um adolescente e os pais neste registo de picarem-se. O pai pode estar enganado, mas aquilo que se passa é que tu achas que a tua vida está uma porcaria, porque de repente as notas na escola não são o que tu queres, os teus amigos tão depressa são teus amigos, como tu te zangas a meio da tarde com eles, como a seguir a mãe se zanga contigo porque fizeste tudo fora do lugar, ou a mãe acha que tu passas a vida a responder mal ao pai, porque achas que o pai não entende nada de ti, mas por que tu não ao pai dele e não lhe perguntas: "Mas por que tu estás sempre chateado comigo e achas que eu não faço nada bem feito?" Ou seja, falar o mais possível por eles, porque depois quando nós acertamos, os nossos filhos têm uma reação deliciosa. Não dizem nem sim, nem não, olham-nos nos olhos em silêncio, que significa: "Ora, aqui temos um número 10 a juntar para conta".

Exatamente, ficam com aquele ar de que sim, finalmente estou a perceber onde queres chegar. O nosso número de telefone do WhatsApp é o 917 698 051. Pode enviar as suas questões, foi o que fez o José Miguel.

Quem é que é mais difícil na adolescência, os rapazes ou as raparigas?

José, obrigada.

José Miguel, como sabe, você e eu somos absolutamente imparciais quando se trata de perguntar.

Esta é a pergunta para um milhão de euros.

Exatamente, João. Vamos ganhá-los, de facto. Mas eu acho que são as raparigas. Falando muito a sério, eu acho que o grupo das raparigas é muito mais difícil do que o grupo dos rapazes. E isso, às vezes, torna a vida das raparigas mais dura. O grupo dos rapazes é muito desengonçado. Tutam-se, têm uma linguagem muito pouco própria para os ouvidos dos pais. Às vezes, por nada, pegam fogo e são capazes de se agredir. E depois, a seguir, há um friar, há um espaço livre e a bola corrique-se. Muitas destas arestas. O grupo das raparigas é um grupo com arestas, às vezes, mais difíceis. São, às vezes, grupos muito duros, muito mais duros que os grupos dos rapazes. E, portanto, às vezes, o grupo acentua as dificuldades da adolescência. E se nós virmos isso pelo lado do grupo, porque no essencial, no resto, as dificuldades são muito transversais. Mas pelo lado do grupo, eu acho que é mais dura uma adolescência de uma rapariga do que um rapaz.

As raparigas entre elas podem ser um pouco mais cruéis do que os rapazes, na adolescência, por exemplo?

Sim. É muito engraçado ver que o grupo dos rapazes, às vezes, é mais estável. O grupo das raparigas é mais lábil. Às vezes, as raparigas têm aquelas relações muito próximas no início da manhã, depois zangam-se de morte à hora do almoço, reconciliam-se sempre lágrimas pela hora do lanche e passam para o outro grupo no dia seguinte. Os rapazes não são tão assim. E, portanto, nessas circunstâncias, sim, acaba por ser mais quinado, como as pessoas costumam dizer.

Isto de ser mulher é uma montanha-russa de emoções, Eduardo. Não só na adolescência, depois também.

Em muitos aspetos é muito mais saudável, porque ainda assim os rapazes são educados para não dizerem tudo aquilo que sentem. Continua-se a cultivar aquela ideia que um rapaz que chora não é um rapaz, é assim. E, portanto, isso não é muito razoável. As raparigas, ao menos, dizem muito mais aquilo que sentem e pode ser uma montanha-russa de emoções, pode fazer com que o grupo das raparigas, às vezes, faça do grupo dos rapazes um grupo de meninas, mas ainda assim, as raparigas são educadas a expressarem-se com muito mais clareza do que os rapazes, a ponto de se chegar à conclusão, quando somos todos crescidos, que as mulheres são muito mais sensíveis e os homens parecem duros, como se eles, todavia, não tivessem coração, não tivessem lágrimas com o coreto de sódio e não quisessem também ser felizes. Pois é.

Gostei muito deste final, confesso. Amanhã voltamos à conversa com o Eduardo Sá. Vou só deixar o nosso número mais uma vez: 917 698 051. Pode e deve enviar as suas perguntas. Eduardo, obrigada. Até amanhã.

Até amanhã. Um abraço.

Adeus, Eduardo.

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