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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de relações que não chegam verdadeiramente ao fim. Falamos de um casal casado durante mais de 30 anos, separou-se há três, mas continua ligado. De um lado, há vontade de recomeçar, do outro, apenas amizade. Eduardo, olá. O que leva duas pessoas a manterem-se ligadas mesmo depois de uma separação?
Olá, Judite. As suas questões, às vezes, têm uns ângulos complicados. O que leva, Judite? A vida. Porque quando as pessoas entram na nossa vida, nós podemos dar voltas e reviravoltas que elas nunca mais desaparecem e, portanto, podemos divorciar, podemos separar, que elas estão sempre presentes dentro de nós.
Mas há uma espécie de conforto ou de medo em não cortar o cordão umbilical?
Não, Judite, ainda só estamos a falar do que se passa cá dentro. Ou seja, não há volta de nós apagarmos o lugar delas. Claro que depois de nos separarmos, há pessoas que aceitam essa separação e de alguma forma criam espaço e autonomia e quando muito contactam a propósito dos filhos e no aniversário qualquer, ou às vezes incompatibilizam-se, que a forma de ficarem não é mais ligadas, é mais presas umas às outras. Mas depois também há aquelas pessoas que às vezes quando se separam, têm uma veleidade generosa, todavia, de passarem de um casal a melhores amigos. E isso depois acaba por ter uma gestão diferente consoante cada um dos membros de um ex-casal. Uns interpretam esta amizade como estritamente uma amizade, outros interpretam uma amizade como alguém que não lhes fecha a porta e que, portanto, se não lhes fecha a porta, é porque lhes vai criando algumas esperanças. Às vezes é como diz, Judite, é verdade que sim, uma pessoa sentir-se subitamente sem aquela pessoa, desencadeia alguma vertigem. "E agora como é que eu vou sobreviver sozinho? Como é que se faz?" Mas é verdade que por mais que isto, na maior parte das vezes, não tenha nada de calculado, é só espontâneo, enquanto estas relações estão ali, numa espécie de indefinição, que às vezes, porventura, vai longe demais. Não é, Judite? Porque há pessoas que se separam e estão a marcar um cruzeiro com os filhos ou vão à Disneyland com os filhos e de repente reagem como se fossem uma família que já não são. Mas às vezes sim, sentirem-se sozinhas, sem todas as coisas boas que todavia aquela família no seu conjunto lhes trouxe, provoca algumas vertigens e, portanto, lutam o mais que podem contra isso.
E é possível transformar um amor que falhou ou que findou numa amizade equilibrada?
Mais ou menos. Depende logo da forma como nos separamos. Não é, Judite? Porque se for uma separação de comum acordo, em que de uma forma adulta, duas pessoas chegam à conclusão que realmente são amigas, mas já não conseguem ter uma relação de casal tão intensa quanto seria de supor e que certamente gostariam, fica mais fácil. Mas nem sempre as separações são fáceis, às vezes têm realmente umas arestas complicadas.
E nem sempre são de comum acordo.
Não são, Judite. Quer dizer, no dia a dia acabam por ser, porque as pessoas nunca se afastam sozinhas, mas lá está, para um, todos os sinais que se vão dando é no sentido de dizer: "Olha, que isto não está a resultar" e para o outro, muitas vezes esses sinais, se não se traduzem em muitas discussões, quer dizer que está tudo bem. E, portanto, vão-se criando muitos mal-entendidos, de facto. Mas é difícil. É difícil, Judite, porque uma relação amorosa, é uma relação de uma intensidade muito grande, independentemente das coisas que depois não correm bem, e de repente termos uma relação quase de alguma naturalidade no meio de uma amizade, às vezes é difícil, porque há sempre um pormenorzinho ou outro que nos magoa.
Há sempre passado.
Sim, há sempre, Judite. Quanto mais não seja, porque entretanto, a atitude tensiosa que hoje temos com a pessoa que nós temos ao lado, à data de hoje, e que se calhar também resulta da nossa experiência de vida e do modo como nós aprendemos a crescer, é vivido por uma ex-mulher ou por um ex-marido, que entretanto são nossos amigos, como: "Olha, agora é só delicadeza e atenção e há 10 ou 20 anos atrás não era nada assim." Ou seja, nós no fundo reagimos à pele e não é mau que o façamos. Mas isto para dizer que não é nada fácil, nada, que se passe de uma relação de casal para uma relação de amizade, no sentido de uma amizade leal, de duas pessoas que percebem que aquela pessoa não pode desaparecer da vida delas, mas ao mesmo tempo é só amiga, é uma amiga muito especial, porque como se compreende, não é uma amizade qualquer.
Ok. Eduardo, ficamos por aqui hoje. Amanhã voltamos com mais um tema.
Nada que tenha a ver connosco, Judite França. Nada que tenha a ver connosco.
Ficamos por aqui, então. Voltamos amanhã. Um grande abraço, Eduardo. Até amanhã.
Outro para si e até amanhã, Judite.