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Bem-vindos ao "Porque Senão é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos dos números que revelam uma realidade muito feia. Em 2025, a Associação de Apoio à Vítima registou 1600 casos de pais agredidos pelos filhos, mas metade acredita-se que nunca chega a ser reportada. Olá, Eduardo. Estes números surpreendem-nos, mas deviam ou andamos desatentos? Olá, Eduardo.
Olá.
Olá. Perguntava-lhe se estes números, de alguma forma, nos surpreendem.
Surpreendem um bocadinho, mas ao mesmo tempo talvez não, porque aquilo que nós vamos observando na realidade do dia a dia é que estas situações são mais frequentes do que todos desejaríamos. E, portanto, muitas vezes nesses números aparecem os pais mais idosos, mais fragilizados, que muitas vezes são explorados , literalmente pelos filhos, que querem ter um nível de vida e não conseguem atingir sem requererem poupanças e outros tipos de coisas dos pais. Mas os filhos adolescentes também, e isso é demasiado frequente. Isso a mim preocupa-me muito, porque eu acho que os pais criam toda uma atmosfera em que eles vão ficando cada vez mais individualistas, mais egocêntricos, mais narcísicos, parecem só existir eles e há uma falta de cuidado absolutamente sem fim em relação aos pais. Mas a maneira como se fala em relação aos pais passa em inúmeras vezes todos os limites. Eu acho que nós muitas vezes falamos de violência doméstica na versão de violência física, às vezes de violência psicológica, quando se fazem considerações terríveis, mas alguns adolescentes estão a fazer degrau a degrau esse caminho até à violência psicológica e os pais, muitas vezes, vivem numa atmosfera de coação, sempre com a ideia de que não podem reagir, porque senão uma reação implica um conjunto de atitudes com verbalizações absolutamente graves, que fazem com que os pais se encolham, tolerem, condescendam, tentem desculpar com aspas. E, portanto, é uma realidade sobre a qual nós temos que nos deter e acho ótimo que a APAV traga estes números à discussão para nos alertar para isto que está a acontecer, que não pode, como é óbvio, ser tomado como se fosse uma epidemia atípica, uma coisa da mais absoluta gravidade. É violência doméstica e, portanto, é qualquer coisa da atmosfera do crime. E eu gostava que isso ficasse claro.
Há algum perfil para estas famílias? Estas famílias têm algum perfil tipo?
Às vezes tentando chamar a atenção dos pais, eu costumo dizer-lhes que a nossa função educativa nunca se demite, independentemente da idade dos nossos filhos. E já agora, comecem, por favor, pelas coisas mais simples. É rigorosamente vulgar, mas é vulgar mesmo. Estamos a falar de famílias dos mais diversos estratos socioeconómicos, se é legítimo pormos as coisas assim, em que a festa de aniversário da mãe não merece nem sequer uns parabéns, nem sequer uma lembrança. O Dia da Mãe, o Dia do Pai, etc. E depois há estes degrauzinhos todos que se vão percorrendo. E, portanto, não há um perfil, mas há um perfil de pais, que são aqueles pais bondosos, que às vezes são bonzinhos, que não intervêm e não corrigem cada um destes movimentos, como deviam fazer, e de uma forma involuntária, como não podia deixar de ser, vão criando uma condescendência e uma tolerância muito para lá do razoável, que sem querer vai alimentando tudo isto. E, portanto, às vezes tentando ser chocante para os pais, eu costumo dizer: "Cuidado que os bons pais às vezes podem criar maus filhos". Basta que se vão demitindo de fazer aquilo que os pais têm de fazer, independentemente da idade dos filhos, para que depois isto não vá num crescendo, que depois desemboque neste tipo de casos, que eu compreendo perfeitamente os números da APAV. Eu também entendo que aqueles que chegam à APAV são os números que não se podem iludir, que as pessoas, vizinhos, familiares, etc, denunciam mais do que as próprias vítimas. Mas a mim preocupa-me uma imensa maioria de vítimas silenciosas, cujos números nunca lá chegam e que, no fundo, vão convivendo dia a dia com realidades de uma violência que não se admite a ninguém, muitíssimo menos entre os filhos e em relação aos pais.
O que é que pode um pai ou uma mãe fazer antes de chegar a esse ponto? Há alguma altura em que se percebe que isto vai resvalar?
Depois do "não gosto de ti", que é o clássico dos nossos filhos quando são pequeninos e que não é uma violência, é uma maneira de nos darem um encontrão para nos dizerem: "Agora vê lá se vens atrás de mim e se mostras que gostas." Há tudo o resto que não se pode permitir. Há filhos que supostamente, porque acordam mal dispostos, tratam a mãe por estúpida, como se isto fosse uma coisa absolutamente vulgar. E portanto, se há uma regra que nós podemos, de alguma forma convidar os pais a levar a efeito, é só esta. Os pais são pessoas sensatas, equilibradas, são pessoas sensíveis e, portanto, quando a sensibilidade dos pais sente que há ali um arranhão com o tom com que se disse, aquilo que se disse, um gesto ou uma omissão que se teve, por favor, ponham tolerância zero a isso e zanguem-se como deve ser. Essa zanga tem um valor muito mais educativo do que pode parecer e é à conta de muitas destas zangas que não se teve, que depois, num crescente que vai até uma bola de neve, nós nos deparamos com estes casos que se traduzem nas queixas que a APAV trouxe ao nosso conhecimento.
E que os números são absolutamente impressionantes e acredita-se que mais de metade nunca chegue a ser reportada. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.