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No programa de hoje vamos falar de um estudo para o qual contribuíram a inquirição a jovens de oito países, no qual se inclui Portugal. É um estudo que procura analisar o impacto das redes sociais na saúde mental dos jovens. E se olharmos para Portugal, as redes sociais têm um impacto negativo na saúde mental de dois em cada cinco jovens em Portugal. Olá Eduardo, boa tarde. Tinha noção de que os valores eram estes, tão maus?
Olá Judite, olá Bruno.
Olá Eduardo.
Tinha, Judite. Tinha por uma razão simples: porque quando nós trabalhamos todos os dias com jovens, nós temos noção de tudo aquilo que se passa por trás de uma aparência mais ou menos normal, de um contacto muito constante, muito imersivo que eles têm com as redes sociais. E, portanto, de facto, nas redes sociais circula tudo. Desafios, imposições, digamos assim, em relação a hábitos de alimentação, por exemplo, registos relacionados com novas vagas e um conjunto de desafios que lhes são colocados de uma forma sem qualquer tipo de controlo ou sem qualquer tipo de crítica. Há toda uma areia movediça, que eu acho que passa muitas vezes debaixo do nariz dos pais e que merece, sobretudo, uma distração de todos nós, que não pode continuar a acontecer.
Eduardo, neste estudo há a conclusão de que os jovens portugueses começam a usar precocemente as redes sociais e que oito em cada 10 diz preferir comunicar com outros jovens através das redes sociais, em vez de pessoalmente. Isto é preocupante?
É alarmante, Bruno. Sabe o que é mais engraçado? É que eles neste estudo reconhecem que começam a ter um contacto com as redes por volta dos 13 anos. Eu acho que isso já não corresponde exatamente à verdade. Eles começam a ter um contacto cada vez mais precoce. E cada vez mais precoce significa aos nove, aos oito, aos 10 anos, com perfis que são inacreditavelmente criados pelos próprios pais. Nessas circunstâncias, de facto, que eu fico preocupado, porque eles precisam muito de comunicar, e ainda bem, eles comunicam muito intensamente, que bom! Mas depois, as oportunidades de comunicação que têm, são-lhes dadas fundamentalmente pelos chats que estão associados aos jogos, que eles utilizam de uma forma muito insistente, e de facto, através das redes sociais, fazem-no uns com os outros e às vezes estão em canais de comunicação abertos durante horas, e horas, e horas. Preferem comunicar por escrito, às vezes por mensagens de voz, muito menos por videomensagens, menos ainda de viva voz. E isto é que eu acho que nos devia levar a dizer: "Calma, o que está a acontecer e quais são os custos que isto pode ter?"
Há aqui uma conclusão do estudo que também é alarmante, porque Portugal é dos países da União Europeia em que mais jovens admitem estar viciados nas redes sociais. E estamos a falar de 86%, face a uma média europeia de 78%.
Pois.
Por que esta diferença? Por que Portugal tem um problema maior neste âmbito?
Judite, eu receio que, no limite, seja pelo facto de os pais portugueses serem e um pouquinho mais missionários nisto. E a mim preocupa-me muito isso, porque quando nós falamos de dependência, nós estamos a falar de dependência mesmo. E eu acho que os pais percebem que um telemóvel é mesmo um canivete suíço e, portanto, tem muitas opções, muitas ofertas, mas tem também estas. E aquilo que eu acho que é aqui inquietante, é que este nível de dependência faz das redes sociais uma droga leve, que está ao alcance dos nossos filhos, a estragá-los muito mais do que era suposto. E isto é que eu não consigo aceitar, porque isto obriga-nos, a pais, escolas, comunidade no seu todo, a ter consciência do que está em causa e depois, de alguma forma, a intervir, porque não se pode esperar que um adolescente de 13 ou 14 anos seja tão autorregulado, como agora se diz, que a determinada altura diga: "Espera lá, eu estou a ficar demasiado dependente e, portanto, vamos criar algumas regras nisto tudo." Eles são muito pequeninos, ainda não têm capacidade para o fazer de modo próprio. Isto exige, e de que maneira, que nós possamos intervir de forma a protegê-los. De outra maneira, isto tem consequências que no curto e no médio prazo são muito preocupantes. E é isto que a mim me parece que Não está a ser devidamente ponderado por todos nós.
Até porque alguns dos conteúdos a que os jovens são expostos têm um grande impacto, por exemplo, na autoestima. Nós muitas vezes falamos de conteúdos explícitos ou violentos, mas há outros que são um pouco mais insidiosos e que temos aqui, por exemplo, este dado de 45% dos jovens já ter sido exposto a conteúdos que os incentivava a comportamentos de restrição ou distúrbios alimentares. Estes são, às vezes, mais graves ou mais insidiosos, como dizia, do que outros conteúdos que serão eventualmente mais chocantes.
São muito mais graves, Bruno, por uma razão simples: porque nós estamos a falar, em primeiro lugar, de conteúdos que lhes são trazidos não por campanhas, mas por outros jovens aparentemente iguais a eles. E, portanto, são tão iguais a eles e estes conteúdos parecem tão banalizados que, de repente, quando eles estão submersos nesta cascata de conteúdos que lhes caem todos os dias, é como se, no fundo, eles tivessem permanentemente a sentir-se aquém daqueles modelos todos que lhes são trazidos, por maioria de razão, por um algoritmo. E é outra das coisas que me preocupa nisto. Por um algoritmo para o qual, naturalmente, eles contribuem, mas que faz com que estes jovens sintam que a realidade é aquilo que as redes lhes trazem. E, portanto, são tão insidiosas a este ponto que, de facto, faz com que eles não sejam capazes de discernir a realidade de uma certa confabulação em redor da realidade. E isto depois cria sobre eles uma pressão tal que se sentem feios todos os dias, se sentem incapazes todos os dias e obviamente que depois, ficando um bocadinho sufocados no meio de tudo isto, há de haver sempre uma altura em que têm uma reação por um impulso. E lá temos nós comportamentos muito preocupantes que resultam insidiosamente, como diz, e com toda a razão, deste tipo de conteúdos comunicados da forma como são comunicados.
Por fim, temos aqui a questão dos pais. Mais de metade acredita que as plataformas de redes sociais têm mais poder para moldar a autoestima e a confiança dos filhos do que eles próprios, enquanto pais, e quase metade sente-se culpado por não estar a proteger suficientemente os filhos do que veem ou do que fazem nas redes sociais.
Hostil, aqui os pais estão a ser um bocadinho batoteiros. Porque eu até posso aceitar que se sintam culpados, mas depois quando se vai ver, eles não tomam as medidas indispensáveis para criarem aqui um contrapeso, um contraponto. E, portanto, sentem-se culpados, mas não fazem nada, o que não pode ser.
Não fazer nada é, por exemplo, não retirar o telemóvel ao filho?
Não, Hostil, é quererem saber o que é que eles consomem, quererem saber quais são as implicações que tudo isso tem, porque, de facto, uma esmagadora maioria de conteúdos que os filhos de alguma forma consomem, passa debaixo do nariz dos pais, mas eles nem sequer têm o cuidado de ir à procura, de saber o que, com quem, etc. E depois repare, é de facto um bocadinho batoteiro a este ponto, porque eu já há uma geração atrás passava a vida a escutar os pais a dizer: "Não, os amigos têm muito mais influência na personalidade do meu filho do que nós." Não é verdade. Nem as redes sociais. Não é verdade. Agora, se os pais se demitem de criar o contraponto, de explicar porque é que de alguma forma acham isto ou acham aquilo, e a fazerem de pais, como têm efetivamente que fazer, claro que estão a dizer: "Nós estamos preocupados, mas nós estamos a entregar-vos nas mãos das redes sociais e esperamos que elas cuidem de vocês melhor do que nós." Não pode ser. E os pais têm que ser, de facto, ali um bocadinho abanados para esta realidade. Não só os pais, mas também os pais, para que finalmente nós não deixemos que muitos destes jovens depois se consumam por desafios tremendos, por restrições alimentares absurdas, por desafios de automutilação que não têm pés nem cabeça, por exercícios físicos levados quase à exaustão, que são do domínio da insanidade. E de facto, isto tudo passa-se com muitos perigos e, portanto, as redes sociais, pior até do que as bebidas alcoólicas, devem-se consumir com moderação, com muita moderação, porque há um limite a partir do qual são perigo mesmo e os pais têm que perceber isso.
E este estudo é um bom alerta para isso mesmo. Obrigada, Eduardo. Hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, continuem a escrever-nos para eduardo.sa@observador.pt. Um abraço, Eduardo. Obrigada e até amanhã.
Um abraço, Hostil. Obrigado. Até amanhã.