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E começa agora o Português Suave, edição de quarta-feira, dia 8 de abril. Eu sou o João Costa e Silva e estou com o Pai Natal da Páscoa. Pai Natal, por quê? Porque ele anda por todo lado. Marco Neves, olá, bem-vindo.

Olá, estás tudo bem? Pai Natal, bem, já mudei de ninja pra Pai Natal, não sei se é melhor ou não, o Pai Natal.

Não, eu prefiro ninja, mas estamos aqui a fazer jus àquilo que andas a fazer.

Já agora, sabias, e já que disseste isso, lembrei-me de um pormenor linguístico curioso, que em espanhol é possível dizer Páscoa ou Páscoas no Natal. Eles tradicionalmente, agora já deve ser bastante raro, diziam Felizes Páscoas para Feliz Natal. E não me perguntes por quê, mas foi ali uma troca que os espanhóis fizeram.

Mas é estranho.

É, o Pai Natal da Páscoa na Espanha se calhar faz mais sentido do que cá. Mas pronto, vamos hoje aqui ter algumas dúvidas.

Temos uma pendente, não é?

Temos uma pendente, sim. Só pra dizer que vamos acabar por falar dos advérbios e dos adjetivos, a confusão entre os dois, isto pro final. Mas vamos começar por falar da dúvida de Bernardo Vaz, que nós não vamos voltar a passar o áudio, mas ele deu-nos duas dúvidas e a última era o cínico, o que quer dizer cínico, porque há aqui vários sentidos pra esta palavra, e é verdade. Ela originalmente está relacionada com uma escola filosófica grega que eu não vou atrever-me, temos que convidar aqui um filósofo pra vir cá falar. E eu até tenho algumas ideias sobre filósofos interessantes que podem vir cá falar sobre palavras e sobre a língua. É uma corrente filosófica associada a não dar muita importância às convenções sociais. E desta base filosófica, depois a palavra começou a deslizar, como acontece muitas vezes, pra outros significados. E em português, pode querer dizer também, no fundo, não sei se concordas comigo, porque isto é um uso habitual, hipócrita. Uma pessoa hipócrita é uma pessoa cínica, que diz uma coisa, mas por trás está a pensar noutra. Isto em português é um uso habitual. Curiosamente, se olharmos pra o inglês, cynical não quer dizer isto. Habitualmente, em inglês, quer dizer uma pessoa pessimista, que acha que os outros estão sempre a mover-se por interesse, que não estão a ser sinceros. Essa pessoa é uma pessoa, não ela própria hipócrita, mas que desconfia muito dos outros. E assim vemos como, do mesmo ponto de partida, as línguas fazem deslizar as palavras de maneira diferente pra significados um pouco diferentes. E pronto, foi só uma resposta rápida ao Bernardo Vaz.

Um abraço pro Bernardo.

Um abraço pro Bernardo. Lembres que nós fizemos um desafio há uns episódios das pessoas enviarem as dúvidas quando estivessem em grupo, e pelos vistos são pessoas que cumpriram. Então vamos ouvir a primeira dúvida de hoje. A primeira não, a segunda, que é da Inês Santos.

Bom dia a todos. Antes de mais, muitos parabéns pelo excelente programa. Estamos aqui no carro, em família, e estamos a discutir se se diz azoto ou azote. E gostávamos muito de saber a vossa opinião. Muito obrigada.

Este carro estava muito silencioso. A discussão foi pacífica.

Tem de enviar um áudio no carro, Inês. Enviem todos a falar ao mesmo tempo. E nós tentamos perceber a dúvida no meio. Neste caso, eu sempre disse azoto, com o O mais fechado.

Eu também.

Mas fui ver aos dicionários e aos recursos que apontam a forma de pronunciar. Já sabemos que formas de pronunciar corretas é sempre muito discutível, mas todos indicam que é azoto. O azote poderá ser uma forma minoritária, mas nunca tinha ouvido, confesso. Portanto, eu aqui diria azoto. E curiosamente também no plural, nós sabemos que há dúvidas, por vezes, quando se faz o plural, porque nós podemos ter ovo, ovos, mas depois, por exemplo, temos acordo, acordos, depende da palavra. E o azoto, se quiséssemos pluralizar, por algum motivo, seria azotos também.

Depois há aquela célebre também molho, molhos, não é? Que também já discutimos aqui.

Mas hoje se fôssemos por aí, já não tínhamos tempo pras outras dúvidas.

É verdade.

Fica pra outro dia. E agora vamos ouvir o Jorge Silva.

Vamos a isso.

Olá à equipe do Português Suave. Meu nome é Jorge Silva, estou aqui com a minha noiva. E surgiu-nos finalmente aqui uma dúvida. Eu ouço já desde o primeiro ou segundo episódio, e gosto muito do vosso programa. E surgiu-nos aqui que, ao sairmos de casa, estávamos a preparar-nos, e surgiu a questão que eu sempre disse calçar as meias, calçar as luvas. Não usei a palavra calçar só pra calçado, porque sempre associei mãos e pés, tudo o que se coloca, como calçar. Mas ela diz que sempre usou apenas calçar para calçado e não para meias e luvas. Ela diz vestir as luvas ou vestir as meias. Existe aqui alguma lógica da parte dela que eu sempre disse mal, ou ambas as maneiras de dizer são válidas? Pronto, e é esta a minha dúvida. Muito obrigado e continuação de um bom programa. Bom trabalho pra todos.

Marco Neves, aqui há um noivado em jogo.

Há um noivado em jogo, sim. Mas eu vou dizer ao Jorge que ele está bem, está a dizer bem. Os dicionários dizem, e aqui vou citar um dicionário que é facilmente acessível até pelo telemóvel, a Infopédia, conhecido, que diz: calçar, verbo transitivo, primeiro significado, introduzir os pés em. Segundo significado, introduzir as mãos em. Portanto, as luvas também se calçam e as meias também. Portanto, tudo o que seja pôr os pés e as mãos, como é que nós podemos dizer Sem querer insultar ninguém, mas todos nós somos insultados de igual forma, as patas. Pomos as patas de algum lado. Estamos a calçar. Mas o uso de vestir já será talvez mais recente, minoritário, digo eu, não sei se será minoritário ou não, fica aqui a pergunta, mas ele, o Jorge, não tenho dúvidas de que está correto e pode dizer calçar as luvas, calçar as meias, calçar os sapatos, calçar o que ele quiser. Está respondido.

Jorge Silva, esperemos que não tenha problemas em casa depois desta resposta do Marco Neves, ainda por cima em regime de noivado.

Depois enviem um áudio em conjunto ou a discutir ou a fazer as pazes. Isto corre tudo bem.

Marco Neves, só aqui uma questão: nós temos três minutos. Dá tempo para responder?

Eu vou deixar a dúvida no ar e depois vamos respondendo.

Não, mas vamos fazer assim: vou dar aqui uma opção, que é despedimo-nos em FM, ficamos por aqui e em podcast, os ouvintes depois vão ao Spotify e a todas as plataformas e continuam a nos ouvir. Pode ser?

Pode ser, vamos a isso. Então vamos despedir-nos para já, até domingo. E agora vamos continuar com as pessoas que quiseram ouvir no outro lado.

Exatamente. Ouvir em podcast e já sabe, enviar as suas dúvidas para portuguesuave@observador.pt e também para o 91 002 41 85.

E vão ouvir no podcast porque esta dúvida é interessante. Olá a todos, os que quiseram ficar connosco.

Os terráqueos que aqui estão connosco. Quiçá na Lua também já nos ouvem.

Exato. Estamos a tentar. Vamos ver. Aqui foi o Miguel Guimarães que fez várias perguntas, mas eu aqui optei por responder a uma em particular. Pergunta o Miguel Guimarães a nossa confusão entre advérbios e adjetivos, por exemplo, entre rápido e rapidamente. "Eu vou lá rápido", em vez de dizer "Eu vou lá rapidamente." Se isto não é uma questão mais recente, uma confusão recente. E ele faz-nos essa pergunta, se não será até influência de outras variedades ou de outras línguas. E eu aqui devo dizer ao Miguel Guimarães que não, que a utilização de um adjetivo como advérbio é algo tradicional da nossa língua. Eu posso dar um exemplo: nós dizemos "ela é alta", e aqui o alta é um adjetivo, claramente, mas depois eu também posso dizer "ela fala alto". Estou a usar o alto, que era um adjetivo, como advérbio. E aliás, nós não dizemos nesta situação altamente. Não é obrigatório usar o advérbio de modo, e que neste caso até é desaconselhado, porque o advérbio de modo ganha um significado um pouco diferente. Aqui, o que também é interessante é que quando nós dizemos "ela fala alto", o alto já não concorda com o ela. No cérebro dos falantes, nós sabemos que aquilo passou a ser um advérbio e que, portanto, se tornou invariável em género. Por isso, nós dizemos claramente "ela é alta", "ela fala alto" e como vemos, o cérebro dos falantes sabe dar a volta a estas situações.

É quase automático, não é?

É automático e mostra que temos as classes das palavras na nossa cabeça. Ou seja, não é uma confusão, é simplesmente a utilização tradicional destes adjetivos também como advérbios. As palavras podem saltar de classe de palavras. Os nomes podem passar a verbos, os verbos a nomes, com alguma frequência e seguindo algumas regras, claro, e seguindo algumas tendências da língua. Eu fui procurar, por exemplo, rápido. Rapidamente existe, claro, felizmente, mas o fato de nós podermos usar o adjetivo rápido como advérbio, por vezes em certas frases, ajuda-nos a dar uma sensação de maior rapidez. E também nos ajuda a evitar aquela profusão de mentes, de rapidamente, velozmente. Às vezes há frases que têm tantos advérbios de modo que ficam feias, e o recurso da língua que permite usar os adjetivos como advérbios ajuda-nos a evitar isso. E eu vou dar aqui um exemplo da literatura, e não é o único, existem vários escritores. Alexandre Herculano escreveu, por exemplo, esta frase: "Subiu rápido a encosta donde Roderico atendia aos sucessos da batalha." Não se pode dizer que isto seja uma frase informal. É mais formal do que quase todas as frases que nós dizemos. Estamos a falar de Alexandre Herculano, que tinha um estilo muito formal, clássico, e ele diz: "Subiu rápido a encosta." Portanto, aqui dá-nos a sensação de mais rapidez, porque se ele dissesse: "Subiu rapidamente a encosta", era mais banal. Temos esta possibilidade. Não é algo recente. Nada contra fazermos a distinção e continuarmos a usar os advérbios de modo, mas este uso dos adjetivos como advérbios não é recente e é, aliás, um recurso que eu penso que é muito útil. O Miguel diz-nos, e já agora fica aqui um cumprimento para o Miguel, que na altura, quando era novo, quando se fizesse esta confusão, era castigado. E eu devo dizer que é normal nos primeiros anos, quando nós estamos a aprender a escrever, os professores muitas vezes simplificam as regras ou tornam as regras mais claras.

Querem eliminar esta confusão, entre aspas.

Sim, querem eliminar esta confusão. Mas depois o uso real e literário sempre foi mais complexo e mais aberto. Sempre que às vezes as pessoas pensam que é uma coisa: "Olha, então quer dizer, eu aprendi isto na escola primária e agora vejo que não se faz assim." Mas isto não se faz assim já é de sempre. A escola primária, ou o primeiro ciclo, e não só, os outros ciclos também, obviamente, vão ter de apresentar as regras de uma forma um pouco mais, às vezes, simples ou enxuta e, por vezes, acabam por deixar de fora utilizações que são tradicionais. Espero que o Miguel fique satisfeito com esta resposta e também se não ficar, se não concordar, isto também é normal. Na língua há sempre alguns pontos de discórdia que também fazem parte.

Sim, pode sempre reclamar e escrever-nos outra vez.

Escreva outra vez. Eu não sei se fizemos mais de três minutos para esta resposta.

Possivelmente, sim, acho que sim.

Mas mesmo que não tenhamos feito, ficou como bombom para as pessoas que nos ouvem em podcast.

Sim, quem nos ouve agradece sempre poder ouvir-te mais um bocadinho, Marco Neves. Nós estamos de regresso no domingo para o episódio habitual, com o Mapa da Língua, a Língua nas Notícias e também os Mitos e Origens. Se tiver dúvidas, já sabe, é enviar para o nosso e-mail, como fez o Miguel Guimarães, que é, Marco Neves?

portuguesuave@observador.pt. E depois temos o telefone, que o João sabe de cor.

Exato, que é o 91 002 41 85. Enviem-nos dúvidas através do WhatsApp.

Eu já tenho medo. Se um dia eu decoro este número, acaba o "Português Suave". Portanto, eu não decoro.

Pois é, e nós não queremos isso. Ou então esqueces-te do e-mail.

Exato. Temos de esquecer de um deles.

A cabeça não dá para tudo. Marco Neves, um grande abraço, uma boa semana e até domingo.