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Vamos a mais um Português Suave. Na Rádio Observador, todas as semanas vamos contar com o Marco Neves para esclarecer dúvidas que todos nós temos em relação à língua portuguesa. Marco, olá novamente.
Olá, bem-vindo, Marco.
Bem-vindo, tudo bem?
Que sucesso o primeiro episódio.
Não correu nada mal.
Nada mal.
Nada mal, não nos podemos queixar.
Familiares, amigos.
E tivemos umas quantas perguntas.
Umas quantas.
Chegaram a parar no trânsito no outro dia só para pedir dúvidas.
"É o Marco Neves?"
Mas olha, posso contar que já me aconteceu isso no Estádio da Luz.
A sério?
Fui fazer uma dúvida de português.
Antes do Benfica, Marco Neves, peço desculpa.
Só tirar aqui uma duvidazinha.
Meu filho não gostou muito.
Que delícia. Muito bem.
É bom sinal.
De relembrar que este programa está dividido em três segmentos, como este ainda é o segundo episódio, temos de relembrar os nossos ouvintes. Está dividido em três segmentos: a língua nas notícias, o mapa da língua e também os mitos da língua. No entanto, Marco, também recebemos mensagens dos ouvintes, como estávamos a dizer, com dúvidas, e hoje vamos já falar de algumas. Mas antes de mais, vamos começar com a língua nas notícias.
Então diz-nos, Marco, qual é que é a palavra desta semana? Ouvimos muitas durante esta semana, qual é que escolheste?
Bastantes, até.
Infelizmente foi fácil, porque a grande notícia da semana foram os incêndios, e por isso eu ainda pensei em falar de fogo ou de fogos, e havemos de falar disso lá mais pra frente, desta diferença entre fogo e fogos, de incêndio, mas acho que é bom fazermos uma homenagem aos bombeiros e por isso decidi falar dos bombeiros. Nós temos a palavra na cabeça, nem sempre vemos que a sua origem é bastante óbvia. Este bombeiro vem de bomba.
Vem mesmo de bomba, ok.
Sim, de bomba. Bombeiro é a pessoa que trabalha com a bomba, usa-se o sufixo "eiro", que serve para indicar uma profissão, uma tarefa. Mas não só. E eu gostava já agora de fazer aqui uma pausa, porque de vez em quando recebo mensagens de pessoas a dizer se é correto dizermos brasileiro. Não estou a falar de brasileiro como língua, que isso é uma discussão para outras alturas.
Cidadão do Brasil.
Exatamente. Há quem diga: "Não, mas isto no fundo é como se estivéssemos a dizer que aquilo é uma profissão". E há pessoas que reclamam. E no Brasil há uma ideia de que devia ser "brasileir".
Nunca tinha pensado nisso.
Também não.
Mas a verdade é que nós usamos também o "eiro" para outras coisas. Costeiro é uma pessoa que vem da costa.
Pois.
Ou algo que vem da costa. Também usamos "eiro" para alguém que gosta de alguma coisa. Mutaleiro. Mutaleiro é o quê?
Sim, é alguém que gosta de metal.
Não é uma pessoa que faz metal. Também usamos para pinheiro, para companheiro. Por isso estes sufixos têm vários usos. Quanto aos bombeiros: a bomba é a grande ferramenta dos bombeiros para lançar água, para tentar apagar os fogos.
Não estamos a falar de uma bomba que explode. É a bomba das mangueiras.
É a bomba das mangueiras, que foi uma das grandes inovações da tecnologia para combater incêndios no século XVI, no norte da Europa, e depois foram importadas e só no século XVIII começamos a chamar bombeiro.
Mas e antes disso, Marco, o que é que era? Antes de bombeiro, era o quê?
Nós quando dizemos como a palavra surge a certa altura, as pessoas pensam sempre: "Então e antes, o que é que acontecia?"
Qual era o nome?
Às vezes não havia propriamente uma necessidade de ter um nome só para aquela profissão, mas havia várias palavras. Havia o serviço de incêndios, que era algo que existia em Lisboa, por exemplo. Tínhamos também a palavra aguadeiros, que significava as pessoas que levavam água para o fogo.
Não é descabido.
Sim.
Faz sentido.
Mas pronto, aguadeiros também era um termo muito geral para qualquer pessoa que levava água para algum lado. Havia quem chamasse certamente os homens do fogo. Havia designações gerais. E a verdade é que esta palavra bombeiro acabou por se espalhar com muita força, precisamente porque era útil, faltava qualquer coisa. Às vezes as palavras surgem porque faltam e por isso, a partir daí, começamos a chamar bombeiros. Há outras línguas que também têm palavras parecidas, como o francês. O francês também tem palavras parecidas. Às vezes ficamos na dúvida: será que foram eles que inventaram e nós imitamos? Mas às vezes é simplesmente uma coincidência. As línguas têm soluções parecidas.
Muito bem, portanto, desmistificamos a palavra bombeiro. E fica também a homenagem, claro, a todos os bombeiros que combatem os fogos por este país fora. Claro que sim. Muito bem. Agora, Andreia, se calhar vamos passar aqui à próxima secção. Marco, podemos avançar?
Sim, vamos ao mapa da língua.
Vamos ao mapa da língua.
Nesta rubrica falamos das palavras que existem por esse país fora, e são muitas. Já tivemos na semana passada a alga, estávamos a gravar os bombeiros.
Vale é que daqui para frente não nos vai faltar.
É isso. Não.
Mas parece que há aqui uma sequência que foi pensada.
Só o episódio de hoje.
Marco, o que é que temos hoje? Conta-nos.
Eu tenho que confessar uma coisa: para ter inspiração, eu acabei por fazer um pequeno vídeo que publiquei nas redes sociais a perguntar às pessoas: "Já que temos este programa na Rádio Observador, que sugestões é que dão de palavras da vossa terra? Só da vossa terra. E dei o exemplo da minha própria terra para lançar a discussão.
E recebeste 19 milhões de sugestões.
Não foram 19 milhões, mas foram muito mais do que eu estava à espera, porque neste momento tenho uma lista de 2 mil sugestões e acho que temos aqui vários anos de programa.
Tens de dedicar umas horas da tua vida só para ler isto.
Confesso, não consegui responder sequer às pessoas a agradecer. As pessoas gostam deste tema.
Fica aqui o agradecimento.
Sim, muito obrigado a todos. Mas decidi, e espero que ninguém leve a mal, já que tinha tantas sugestões para ninguém ficar aborrecido por não ter sido o primeiro, vou precisamente dizer qual é que foi a sugestão da minha própria terra. Eu venho de Peniche e eu e os meus amigos, quando éramos novos, usávamos um verbo curioso, pelo menos eu acho, eu hoje, que é curioso, embora na altura fosse a coisa mais banal do mundo, e só quando cheguei a Lisboa é que percebi que não.
Qual é que é o verbo?
"Queres barco?"
Não sei. É o verbo chincar.
Chincar, nunca ouvi.
Nunca na minha vida ouvi chincar. Desculpa, Marco.
Quando eu estava a jogar à apanhada, isto são recordações de infância, se eu tocasse em alguém, era chincar na pessoa, mas normalmente era mais usado quando a pessoa queria reclamar. Imaginem que eu ia passar ou alguém ia passar e tocava em alguém e a pessoa dizia: "Não me chinches, não me toques".
Não tem nada a ver com o xingar do Brasil.
Não, não parece ter a ver. Eu quando fiz o vídeo, houve pessoas que me disseram que na zona do Porto, chincar quer dizer trincar. E eu fui ver aos dicionários, não conhecia também, e está nos dicionários a palavra chincar como trincar, mas parece ser outra palavra. Às vezes as palavras existem com sentidos diferentes, são palavras diferentes.
Certo. E aparece em mais algum sítio com esse sentido que vocês tinham em Peniche, tu e teu grupo de amigos?
Não era só o meu grupo de amigos.
Parece que vocês inventaram um dialeto.
Os grupos de amigos fazem isso. Se nós virmos bem, todos os grupos de amigos têm expressões que só eles é que conhecem.
É verdade, eu tenho uma amiga minha que criou chiriquitar.
Isso era o quê?
Chiriquitar é ir passear.
Pelo menos pensei que tinha feito uma pergunta que não devia.
Não, chiriquitar é ir passear, é ir apanhar ar, coisas do género.
Mas todos temos. As famílias, os grupos começam a criar um amigolete.
Amigolete é bom.
Só para eles. Quando saí de Peniche, percebi que aquela palavra só existia lá e só muitos anos depois, ao falar com linguistas galegos, é que percebi que está nos dicionários da Galiza. Na Galiza, não é que as pessoas usem, mas está nos dicionários, o que quer dizer que usavam pelo menos até há algum tempo, e também quer dizer tocar. E por isso, ou é uma palavra antiga, que era usada na Galiza e em Portugal e foi-se perdendo, menos aqui e ali, Peniche, por algum motivo, é quase uma ilha. Ou então, foi uma questão de transporte por pescadores. Às vezes há estes contactos que vêm pelo mar. Peniche tem muitos pescadores.
Mas é um salto grande. Um salto muito grande da Galiza para Peniche.
É verdade. Às vezes há surpresas dessas. Um exemplo completamente diferente e muito afastado daqui: há uma terra no sul de Itália que fala precisamente a mesma língua, podemos chamar língua ou dialeto, que uma zona da França, no centro da França, e ninguém sabe muito bem o porquê, o que é que aconteceu ali. Isto é o exemplo extremo, que é uma língua que de repente aparece no sul de Itália.
Portanto, Galiza para Peniche não é nada.
Galiza para Peniche não é nada. E não nos podemos esquecer que a língua vem lá do norte e por isso não sabemos exatamente. Nunca consegui perceber, mas pelo menos fiquei mais contente por perceber que não era uma invenção dos Penicheiros. Podia ser.
Penicheiros também é engraçado. Pronto, realmente também podíamos ficar aqui o dia todo com outras palavras.
Sim, mas quero. Também era uma sugestão.
Mas eu vou prometer que vou olhar para aquela lista.
Das 2 mil.
Sim, a minha mulher estava assustada porque o meu telemóvel parecia um... Mas isso significa que as pessoas gostam muito deste tema, gostam das palavras da sua terra.
É identidade.
Exatamente, é a identidade das terras dos amigos, e vamos falar. Eu vou trazer algumas dessas sugestões. Portanto, quem está a ouvir, continua a ouvir, pode ser que na próxima vez façamos um episódio.
Fica aqui prometido. Bem, vamos então passar à próxima rubrica, Mitos da Língua. Marco, já te vou perguntar qual é o mito que trazes hoje, naturalmente, mas antes temos de responder algumas dúvidas que recebemos.
Recebemos algumas, ainda bem, e obrigado. E eu até sugeria que se calhar mudássemos o nome desta secção para Mitos e Dúvidas da Língua.
É o que faltou.
Ora mais vale.
Recebemos mesmo muitas perguntas.
É isso. Mas ora, Marco, vamos a isso. Qual é a primeira dúvida? Se calhar o André pode nos dizer.
Sim, eu vou dizer. Um grande abraço para o Afonso Noronha, foi o feliz contemplado.
Acabou de ganhar. A montra final.
Mas com tantas, acho que acaba por ser um prémio. Que pergunta por que a diferença entre dizermos, por exemplo, tenho 100 gostos, gostos com o O aberto, no Instagram, e dizermos que temos gostos diferentes. Ou seja, eu tenho 100 gostos no Instagram, mas tenho gostos diferentes em filmes. Não deviam ser pronunciados da mesma forma, Marco?
Sim, não. Não é isso que eu quero dizer. Sim, não, é uma boa resposta. Talvez, vamos ver. Mas isto lembra-me uma coisa: lembra-me aquela velha discussão do 18 ou do 18, porque algumas pessoas do norte dizem 18, algumas pessoas do sul dizem 18, é uma bela discussão. Pode ser que ainda cheguemos lá hoje, não sei, ou então fica para outro dia, porque esta também dava para um episódio inteiro. Mas no caso dos gostos ou dos gostos, eu tenho que explicar isto aqui em várias fases, porque nós temos palavras como, por exemplo, fogo, que nós falamos hoje. Fogo, que no singular é fogo, no plural é fogos. Há algumas palavras que têm este fenômeno, que tecnicamente se chama metafonia.
Mais uma para o glossário.
Mas é um bom nome até para um grupo musical. Já deve existir de certeza. E este fenômeno tem que ver com as características das vogais no latim, não vale a pena chegarmos tão longe, mas estas características levaram a que em português, no singular, nós temos, por exemplo, novo, no plural temos novos, no feminino temos nova e no plural feminino temos novas. Portanto, só o singular masculino é que é O e as outras são todas O. Depois há outras palavras em que isto não acontece, e às vezes até nos enganamos porque estamos tão habituados.
Por que é que acontece com uns e não acontece com outros?
Precisamente porque no latim havia uma vogal que era mais longa. As línguas mantêm certas características ao longo do tempo, mas depois os falantes também às vezes vão desarrumando um pouco as coisas. Por exemplo, nós temos acordo E o plural é cordos, mas muitas vezes precisamente porque estamos tão habituados a ouvir, as pessoas sobem o língua e dizem cordes, porque estamos habituados a ouvir os ovos, o ovo e os ovos. No caso do gosto, é precisamente isso que acontece. Nós dizemos gosto e dizemos gostos. Era esta a regra. E continuamos a fazer isso. Todos nós dizemos: "Nós temos gostos diferentes". Eu acho que nunca ouvi ninguém dizer: "Nós temos gostos diferentes". Não sei.
Eu só ouvi isso mesmo em contexto de redes sociais.
Lá está, a palavra aí é diferente, porque o que nós fazemos nas redes sociais é transformar a forma verbal "eu gosto" num nome. Eu gosto. E aquilo passou a ser um nome.
Um gosto.
Sim, um gosto, um eu gosto. É um pouco estranho, não é muito habitual na língua acontecer isto, porque quando nós transformamos um verbo no nome, normalmente transformamos o infinitivo. O saber, o olhar, o jantar. Nós não transformamos o sei ou o janto. Mas, na verdade, o que aconteceu foi isto. Nós pegámos nesta expressão "eu gosto, eu gosto disto, vou clicar" e passámos a expressão, a palavra gosto no verbo sempre foi dita com o O aberto. Só que é uma palavra diferente, é o verbo. E transformamos num novo nome. No fundo, temos aqui duas palavras diferentes. Temos o gosto no Facebook ou no Instagram.
Que é o substantivo, é o nome.
Exatamente. E temos o gosto. O meu gosto é diferente de outras pessoas.
Isto está correto, Marco? Essa é a questão.
Eu posso dizer que no fundo nós criamos duas palavras. Não há nada na língua que impeça que isto aconteça. Nós também temos pregar um prego na parede e temos pregar na igreja, escreve-se exatamente da mesma maneira, mas lê-se de maneira diferente. Isto na escola nós aprendíamos que eram palavras homógrafas. Portanto, eu não vejo nenhuma regra que nos impeça de fazer isto. Eu até diria uma coisa, se nós virmos bem, a diferença entre o meu gosto é diferente e o gosto, é bastante subtil. E já que não falámos de nenhum mito, eu diria que o mito que nós podemos desmontar hoje é dizer que os falantes não são subtis ou que estão sempre a errar. Às vezes erram, nós todos erramos, mas às vezes até inventam palavras novas assim de uma forma um pouco diferente do habitual.
E cá estamos nós a inventar então aqui este gosto.
É um grande gosto para este programa.
É um gosto ouvi-los.
Sim, mas há aqui ainda aquela dúvida do avô, avós, avôs.
Isso dava para um episódio completo, mas eu posso só rapidamente.
Uma mirete. Olha, uma mirete é uma boa.
Uma boa palavra, porque o avô, e olhe, deixo aqui também o cumprimento à minha avó. Nós temos dois plurais, não sei se alguma vez repararam que nós temos a palavra avô no singular, temos avô e avó. E os plurais desta palavra, avô, são três, porque nós temos as avós, é o plural feminino. Temos os avôs, que são os dois homens que são avôs, e temos os avós, que são todos. Portanto, nós temos três. E o que aconteceu aqui também foi, no fundo, tal como acontece em ovo, ovos, avô passa a avós, ou seja, o plural é com o O aberto, mas isso deu-nos a oportunidade de abrir o espaço para os falantes de repente inventarem uma nova palavra, os avôs, que são só os avôs masculinos, não todos. Portanto, mais uma vez estão aí os falantes a inventar uma palavra até bastante subtil.
Pessoas muito criativas.
Se calhar deixamos o dezoito para o próximo episódio.
Até porque vai consumir algum tempo, de certeza. Marco, muito obrigada.
Obrigada.
Nós voltamos para a semana com mais um Português Suave. Até lá, não esquecer, pode sempre enviar as suas dúvidas sobre língua portuguesa para o e-mail, o novo e-mail. Atenção, façam atenção.
Já agora, por que é outro? Porque entupiram o primeiro.
É verdade! O ouvinte do Observador, o e-mail já estava ali a crashar, a passar mal. Portanto, portuguesSuave@observador.pt. Português Suave, dois S.
Dois S e sem o acento.
Sem o acento, exatamente. portuguesSuave@observador.pt. Nós voltamos para a semana. Marco, até lá. Obrigada.
Até para a semana.