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Está no ar o Português Suave, na Rádio Observador, com um episódio extra de quarta-feira. Olá, Marco.

Olá, é o segundo episódio extra. Agora vamos ter este hábito. Espero que as pessoas gostem. Gostam, não é?

Gostam. Nós temos recebido feedback. Pelo menos eu tenho recebido mensagem de alguns amigos que eu nem sequer sabia que ouviam o Português Suave e que me dizem: "Fiquei tão contente".

Isso é bom.

É bom, não é?

Só descobriste agora com o episódio extra que essas pessoas ouviam o Português Suave.

É verdade.

Isso é muito bom. Hoje temos duas dúvidas, que têm de ser escolhidas, por vezes, entre as várias que recebemos.

Sim, nós recebemos muitas.

Eu até vou confessar uma coisa. Eu recebi há aproximadamente duas semanas uma mensagem de uma pessoa: "Já enviei não sei quantas vezes esta dúvida", e eu disse: "Olha, fica prometido que vou olhar pra dúvida e vou responder muito em breve". O problema é que perdi a mensagem.

Pois.

Portanto, se alguém-

Se alguém recebeu esta mensagem do Marco Neves, por favor, volta a mandar.

Eu respondo. Eu já procurei, confesso, procurei em todo lado, não consegui achar a mensagem.

Devem ser imensas mensagens também.

Eu recebi através do Facebook e o sistema de gestão das mensagens do Facebook não é dos melhores.

Então o que temos hoje? O que vamos esclarecer?

Uma das dúvidas é algo que já falamos aqui, que é: por que razão nós não podemos dizer "mais grande", pelo menos na maior parte das frases.

E até parece que soa mal.

Soa mal, sim.

Se calhar porque também crescemos com isso.

Exatamente. É aquilo que eu posso chamar de uma regra de etiqueta da língua. Nós não dizemos "mais grande" e quando alguém diz "mais grande", parece que é uma criança. E normalmente é. Mas por que razão é que existe esta regra para o adjetivo grande, mas não para o pequeno? Nós dizemos, em Portugal, sem qualquer problema, em qualquer idade, "mais pequeno". E os brasileiros costumam reagir muito a esta incoerência aparente, digo eu, e já vou explicar a razão, do português em Portugal. Quando ouvem "mais pequeno" na boca de um português, dizem: "Mas parece uma criança falar". No Brasil, de facto, existem estas duas regras de etiqueta. Nós não dizemos "mais grande", dizemos sempre "maior", e não dizemos "mais pequeno", dizemos sempre "menor" no Brasil. Em Portugal, esta regra está pela metade. Ou seja, nós não dizemos "mais grande", mas dizemos, sem qualquer problema, "mais pequeno". O que acontece aqui é que há um comparativo regular, que é o "mais" qualquer coisa. Mais baixo, mais forte, mais irritado, mais pequeno. E há uma exceção, no caso do "mais grande", em que nós não podemos dizer. E é uma daquelas exceções que existem na língua, como existem em muitos outros pontos. A língua é feita de regras e de exceções, como nós sabemos. E nós temos na cabeça que não podemos dizer "mais grande", dizemos sempre "maior". Quanto ao menor, em Portugal, nós tendemos a usar apenas quando temos algo que pode ser medido, uma distância menor, uma temperatura menor. Nesse caso, nós usamos menor. Também usamos como nome, ou seja, um menor, mas isso é outra situação. Com o mais grande, não. Ou seja, usamos maior em todas as situações. Parece incoerente. Só parece incoerente, porque estas duas palavras são antônimas e, por isso, parece que deveriam funcionar da mesma maneira, mas não há nenhuma regra da língua portuguesa que diga que os antônimos têm que funcionar da mesma maneira.

Então queres dizer que eu não posso dizer mais grande?

Não podes. Em Portugal, porque é uma regra de etiqueta que todas as pessoas vão torcer o nariz. No fundo, é um erro. Quando todos os falantes torcem o nariz a uma coisa, é porque nós não podemos dizer, mas mais pequeno, podemos. E alguém dirá: "Mas por que isso não pode ser mais lógico?" Porque a língua não é planejada, é mesmo assim. E reparem, a exceção aqui é o mais grande, não é o mais pequeno. O mais pequeno está de acordo com a regra normal, o mais grande é que é o problema. No Brasil, se formos às gramáticas e se formos aos livros sobre língua portuguesa mais antigos, também ninguém reclama com o mais pequeno. É uma regra de etiqueta que foi surgindo ao longo do século XX, pelo que eu percebi, depois de investigar isto um pouco. Não é um problema de Portugal, digamos assim, é uma pequena alteração às regras de etiqueta do lado do Brasil, que começou a olhar pro mais pequeno também com alguma irritação.

Ok. Disseste que tínhamos duas dúvidas. Uma já está. E agora vamos pra segunda, é isso?

A segunda é de Lúcio Cardador, que nos envia uma mensagem muito simpática e pergunta de onde é que vêm as bengalas de linguagem, como o pá, o portanto, ou aquilo que, uma bengala mais recente. Estas bengalas existem em todas as línguas e há tendência para usá-las. Há pessoas que usam mais do que outras. Há pessoas que precisam de mais bengalas do que outras. Mas mesmo a pessoa que em geral não usa as bengalas, poderá tender a usá-las quando está mais nervoso, mais cansado, ou mais nervosa, mais cansada, a precisar de mais tempo para pensar.

Para pensar, não é?

Exato.

Estou me a lembrar agora de uma que é muito usada, que é o imagina. Quase nos permite pensar naquilo que vamos dizer e usamos muitas vezes.

Depois, aqui temos algo que as bengalas misturam-se ou estão próximas daquilo que são os chavões, que nós falamos no último episódio, no domingo. O chavão será aquela expressão que nós usamos com muita frequência, também por bengala. Não porque tenha um significado próprio.

Mas chavão e bengala são a mesma coisa ou são coisas diferentes?

O chavão é uma expressão que nós usamos porque está na moda, digamos assim, e vamos usar com muita frequência, mas por vezes resvala pra bengala. Nós usamos porque queremos simplesmente ter ali um pouco de tempo. Digamos que o chavão nem sempre é para ganhar tempo, é só porque ouvimos com muita frequência, enquanto que a bengala é uma expressão ou uma palavra que o nosso cérebro usa como forma de desacelerar o discurso. Isto é tudo feito De forma inconsciente. Nós não andamos a pensar: "Olha, agora vou precisar aqui de mais um segundo porque vou dizer mais uma palavra."

Seria muito engraçado se acontecesse.

Exato, mas não é isso que acontece. É um mecanismo natural da nossa língua e de todas as outras. Todas as línguas, todos os falantes têm bengalas. Como eu disse, bengala e chavão não é a mesma coisa, mas misturam-se. Há quem use os chavões.

Sim, pode resvalar.

Pode, exatamente. E estas são as nossas duas dúvidas. Teríamos tempo para mais, mas vamos repetir uma coisa. Vamos repetir o nosso e-mail, que é portugues suave@observador.pt e vou dizer que no meio do nosso e-mail temos uma dúvida que já recebi, mas que não vou responder hoje. Vou só indicar.

Vais fazer um teaser.

Um teaser. Não é só um teaser. As pessoas talvez não tenham ainda pensado nisto. Nós chamamos ao acento que não usamos em Português Suave, no nosso e-mail, acento circunflexo. No entanto, a forma do til, como alguém me apontou há pouco tempo, é que tem uma forma mais circunflexa, ou seja, a palavra circunflexa devia ser mais usada para o til do que para o acento, mas isso fica como teaser para uma discussão.

Deixaste-me aqui a pensar, então não devo dizer acento circunflexo?

Não, deves. É o nome.

Ok.

Mais uma vez, a língua não é lógica, a língua não foi planeada por ninguém que pensou: "Vamos usar mais pequeno, mais grande. Não, não vamos usar os dois. Então este acento tem esta forma mais circunflexa."

Mas nós queremos tanto que as coisas sejam lógicas. É só saber: isto está certo ou está errado? Posso usar, não posso usar.

Mas não é.

Não é assim.

Infelizmente, há quem insista muito na questão da lógica na língua e de vez em quando podemos arrumar aqui ou ali outra coisita, mas as línguas não são lógicas.

E Marco, só acrescentar que a primeira dúvida que falámos, já que dissemos o nome da segunda, que foi do Lúcio Cardador, a primeira é do Ivo Leal.

Ivo Leal. E Ivo está aqui sublinhado que foi uma dúvida do Ivo. Não foi esquecido. Os últimos são os primeiros.

"Português Suave" na Rádio Observador, de regresso no próximo domingo. Já sabe, ative o alerta nas plataformas de podcast, que assim sempre que tivermos novo episódio, tanto à quarta como ao domingo, recebe sempre uma mensagem ou uma notificação de que há novo episódio para ouvir, sempre com o Marco Neves, que é o nosso especialista em língua portuguesa, que nos ajuda sempre aqui todas as semanas a falar melhor português, a esclarecer dúvidas. É sempre contigo, Marco. Um abraço e até domingo.

Um abraço. Até domingo.