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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave", episódio extra todas as quartas-feiras. Aposto que, Marco, é muito difícil. Semana após semana, e cada vez mais difícil, porque temos cada vez mais dúvidas e agradecer aos nossos ouvintes que continuam a enviar muitas.
Temos de agradecer duas coisas: primeiro, enviarem as dúvidas e depois por terem paciência.
Para nos ouvir duas vezes por semana.
E pela resposta às dúvidas, porque elas às vezes demoram algum tempo.
Seja bem-vindo, Marco.
Olá, obrigado. Estamos à quarta-feira, isto agora é engraçado duas vezes por semana.
Vamos a isto. Começamos com uma dúvida da Maria Roque. Queres explicar, Marco?
A dúvida é a seguinte: já falámos aqui nos episódios, eu também já referi em alguns vídeos que faço, que há um fenômeno fonético em português, que é o "i" epentético, que se usa ou no meio das palavras, e todos nós usamos, como quando dizemos "areia", em vez de dizer "area", como seria originalmente, ou às vezes até entre o artigo e a palavra, em certas zonas do país, por certos falantes, não todos. Também se usa isto no galego, quando, por exemplo, em vez de dizer: "A Ana", as pessoas dizem: "A i Ana" ou "A i Ala".
Sim, agora estava a tentar lembrar-me de outro exemplo.
Ou quando dizemos: "Ah é", muitas vezes as pessoas dizem: "A i é", e ninguém nota que estão lá a pôr exatamente o mesmo "i" que as pessoas põem quando dizem: "A i Ana". Isto é tão comum, que eu recebi, quando falei disto, algumas mensagens de pessoas do norte a dizer que nunca ouviram ninguém fazer isto.
Eu já ouvi.
Toda gente ouviu.
E não é só específico do norte, atenção.
Não, eu estou a falar do norte, porque é mais comum, mas isto também acontece no resto do país. Não é todos os falantes, como eu disse, se calhar nem será a maioria, provavelmente será uma minoria, mas acontece muito. Agora, é tão frequente nessa minoria, e em certas zonas é tão frequente, até ser provavelmente a forma como toda gente fala, que as pessoas nem notam. É como se eu disser que o S no final de uma palavra se lê de três formas diferentes, as pessoas ficam a pensar: "Três formas diferentes?" E, no entanto, nós dizemos ou ou ou . E isto nós depois percebemos quando ouvimos com atenção, mas é tão comum que é quase invisível. E é o que acontece com este "i". Quando as pessoas em certas zonas me dizem: "Nunca ouvi ninguém dizer isto assim", é porque não repararam. Não é porque não tenham ouvido, a não ser que tenha uma coincidência tremenda.
E agora, por exemplo, temos as redes sociais, vamos ao TikTok ou Instagram, muitos vídeos e muitas vezes nem precisamos conhecer a pessoa, mas o facto de falar dessa forma já nos leva a pensar que já ouvimos aquilo em algum sítio.
Sim, e é assim. Na verdade, esta é a primeira época em que todas as pessoas do país ouvem todas as formas de falar do país.
Exato.
Antes não era assim, era preciso viajar. As pessoas não saíam da zona onde estavam. E isso hoje não é assim. Nós ouvimo-nos todos. E isso é bom, na minha opinião. Agora, leva também a estas pequenas fricções, por vezes. "A pessoa está a falar mal." Não, está a falar da forma como sempre se falou naquela zona ou que a família falou. E a Maria Roque pergunta.
Deve ser corrigido?
Se a neta falar assim, se ela deve corrigir. E é uma boa pergunta, e uma pergunta difícil de responder. Por quê? Porque nós sabemos que há formas de falar com mais prestígio social do que outras, que são usadas em mais contextos do que outras. Provavelmente, se alguém for trabalhar pra rádio, corrijam-me se eu estiver enganado, vão me dizer: "Não digas 'a i Ana', diz 'a Ana'." Não sei se isso vai acontecer ou não.
Se bem que eu sou a favor.
Eu também acho que devemos ser muito mais flexíveis com os sotaques.
Até porque leva à identificação de outras pessoas que se calhar nunca se sentiram representadas na comunicação social, por exemplo.
Por isso, eu sou muito a favor de termos mais variedade de sotaques, de pronúncias, de formas de falar, mas não deixa de ser verdade que isto é um fator de, como é que eu vou dizer, que a pessoa pode, em certas situações, ser prejudicada por falar de uma determinada maneira. Isso é um problema da sociedade, não é da pessoa, mas a pessoa deve saber isso ou deve conhecer isso. A minha resposta é: não acho que a pessoa deva corrigir, até porque naturalmente as pessoas vão perceber isto que eu acabei de dizer, e não é preciso que a avó diga: "Não se diz assim" pra pessoa perceber que em certos contextos aquilo poderá não ser bem visto. Aliás, essa força do prestígio é tão forte que não é mesmo preciso que alguém nos diga.
E se calhar a criança vai perceber naturalmente.
Vai perceber naturalmente. E tal como estávamos agora a dizer, eu penso que deveremos mais lutar para que as pessoas percam essa forma um pouco preconceituosa de olhar para as pronúncias e que aceitem essas pronúncias. Isso é mais importante falarmos disso do que ao contrário, de tentarmos corrigir à força a maneira como todas as pessoas falam pra que ninguém se irrite. Às vezes, mais vale arriscar alguma irritação e assim podermos estar um pouco mais abertos à maneira de os outros falarem.
Temos cinco minutos até o final. Vamos a isto.
Vamos a mais uma dúvida, Marco, que aqui envolve comida ou será o comer?
Sim. Eu há uns dias fiz um vídeo sobre isto e eu já sabia, porque já tinha feito um vídeo sobre isso há um ano, e é sempre um dos mais polêmicos.
Por que será?
Confesso que é um mistério, por que razão é que este tema é tão polêmico, mas eu vou explicar o seguinte: nós temos a expressão, ou nós ouvimos muitas vezes a expressão "o comer", "o comer está na mesa". E isto irrita solenemente muitas pessoas, principalmente na zona de Lisboa, mas não só. E tudo bem. Como eu disse nesse vídeo, as pessoas podem irritar-se com o que quiserem, podemos odiar profundamente coisas sem sentido nenhum, é algo irracional. Agora, não podem é pôr argumentos gramaticais aqui em cima, porque o argumento costuma ser: "O comer é um verbo, não pode ser um nome." No entanto, pode. Pode, porque nós também usamos o jantar, que vem de um verbo. Nós usamos o manjar, o manjar dos deuses, exatamente o mesmo processo.
Cada vez gosto mais de ti, Marco. Nós usamos o saber, nós usamos o olhar. "O teu olhar é tão bonito." Isto é um fenómeno curioso que eu já sei que quando eu falo disto, as pessoas vão a correr encontrar argumentos para rebater. Um dos argumentos é: "Está bem, mas isto tem de dizer o ato, isso pode ser o nome, mas tem de querer dizer o ato de comer, não aquilo que está na mesa." Eu disse: "Mas quando eu digo que o jantar está na mesa, isso é o ato? Não, quer dizer aquilo que os falantes criaram." Há quem diga: "Não, mas isto é uma invenção nova, não está nos dicionários." Está logo nos primeiros dicionários, desde o século XVIII. Há quem ainda diga que não pode ser porque também não dizemos o beber. E eu: "Está bem, mas o facto de as pessoas não dizerem uma coisa não impede que nós também tenhamos o 'des' para negar." O facto de nós não usarmos o "des" com tudo, eu não digo "desfalar". Isto sim, existe. Mas quer isso dizer que o desfazer está mal? Não quer dizer. Portanto, é uma questão meramente social. As pessoas em certas famílias não gostam da palavra e noutras famílias adoram a palavra. Aliás, em muitos pontos do país esta expressão é quase que sinônima do que a avó dizia. O comer está na mesa.
Eu sempre ouvi.
Não só não é um drama, como é algo muito natural. E há muitas pessoas que depois também comentam ao contrário, dizer: "Mas alguém tem um problema com esta expressão?" É verdade que tem, há muitas pessoas que têm.
Há sempre alguém que tem problema com algo.
Mas não há razão nenhuma, gramatical pelo menos, para odiar tão profundamente o comer. E só mais uma coisa antes de avançarmos, não sei se temos tempo pra outra dúvida, que é complexa. Mas antes de avançarmos, as pessoas por vezes dizem: "Não, mas já existe a comida. Por que razão é que nós vamos transformar uma forma verbal no nome, se já existe a comida?" Duas respostas: há sinônimos na língua, como nós sabemos, e segunda resposta, a comida também vem de um verbo. Comida é uma forma verbal, comida é um particípio e foi criado também da mesma forma que o comer. Portanto, deixem lá o comer em paz.
Obrigado, Marco. Eu sempre ouvi muitas vezes muitas pessoas a reclamarem com esta expressão. E obrigado, é bom fazer este programa e é bom depois perceber.
Só uma dúvida, qual é o argumento que usavam?
Eu acho que é porque não é tão bonito de se dizer. Porque às vezes é muito por aí, não sei se sentes isto, e se calhar sendo linguista, se calhar sentes mais, que é uma palavra às vezes por não ficar tão bem dita ou bonita na nossa língua, as pessoas ficam com uma espécie de irritação. Ou seja, entre dizer comer e comida, comida como é uma palavra, não é mais bonita, mas fica melhor de ser dito, se calhar.
Mas fica melhor precisamente porque há muitas pessoas que acham que o comer é isto. Ou seja, aqui começa tudo com uma questão social de associação que algumas pessoas fazem ao tipo de pessoas que fala assim, e daí partem para: "Eu não gosto da palavra, é feia." Mas é tão feia como saber. Lá está, é como estás a dizer.
São coisas que não se explicam, são irritações.
Exatamente, não se explicam.
Nós vamos deixar uma dúvida para a semana do Ivo Leal. A palavra senão se escreve tudo junto ou separado.
Eu disse "é" sem querer.
Vamos deixar esta dúvida do Ivo Leal para o próximo episódio, ou seja, já da próxima quarta-feira ou quem sabe no próximo domingo, logo depois vemos como fazemos aqui a organização dos nossos episódios. Marco, se tiver alguma dúvida, portuguesuave@observador.pt, sem o acento circunflexo e tanto com o S de português e também de suave neste e-mail para enviar as suas dúvidas. Marco.
Até domingo.
Um abraço, até domingo.