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Quarta-feira também é dia. É dia de "Português Suave", episódio extra comigo, João Costa e Silva, e também com o Marco Neves.
Olá, tudo bem?
Porque isto não se faz sem ti. Na semana passada, na quarta-feira, falamos do Lusco Fusco. E há quem diga e defenda que tu és autor de um dos esquetes do Gato Fedorento. Foste tu que idealizaste isto.
É mentira.
São comentários que foram surgindo no Spotify em resposta a esse episódio. Mas não, não foste tu.
Não fui eu, mas continuo a defender que nós deveríamos ter uma festa.
Sim, pode ser uma festa de final de tarde. Agora, se calhar vai ser mais difícil porque fica tarde mais cedo. Ou pode ser melhor, porque sou daquelas pessoas que não gostam de ficar na festa até tarde.
Acabou, já o Lusco Fusco acabou.
Às 17h30.
17h30, vamos embora. Então se fosse lá pro norte da Europa, na Escócia, duas da tarde já estava tudo a animar. Mas comecem já a planear. Vocês, pessoas que organizam esse tipo de coisas.
Sim, ouvintes, tenham esta veia empreendedora.
Comecem a planear. Veja o problema do plural. Mas pronto, comecem a planear o grande Lusco Fusco para maio de 2026.
Estaremos lá. Estamos confirmados. Vamos às dúvidas neste episódio extra do "Português Suave". Começamos com uma dúvida do Ricardo Costa.
Muito boa tarde. Desde já dar os meus sinceros parabéns pelo programa ao Marco Neves, ao qual a minha pergunta é dirigida. Eu queria saber: a minha avó tinha muito o hábito de utilizar muitas expressões populares e agora desde que foi diagnosticada com Alzheimer, ainda mais. E ela diz muito para quando eu estou a tentar enganá-la, ou seja, quando ela quer dizer que não é burra: "Deves pensar que eu vim da Lourinhã". E eu gostava de saber se isto é uma expressão que ela inventou, porque ela entretanto já se confunde com algumas expressões, ou se de facto isto é uma expressão que existe e se existe, qual é a origem. Um grande abraço.
Marco Neves.
Fica aqui um cumprimento pro Ricardo e pra avó e devo dizer ao Ricardo que a avó não inventou a expressão, a expressão existe. "Deves pensar que eu sou da Lourinhã".
Eu também já ouvi, por acaso.
É uma expressão. Agora, eu tenho a má notícia de que não consigo dizer qual é a origem. Nós não sabemos qual é a origem. Há estas expressões que muitas vezes têm referências a terras e eu vou falar de três: esta, de Lourinhã, que é lá perto da minha terra, é perto de Peniche, e eu já tinha ouvido. Há teorias, há histórias, já ouvi algumas, estive a investigar, encontrei várias, mas nenhuma me parece muito credível.
Fica aí que não.
Não sabemos. Alguém não gostava de alguém da Lourinhã.
Pode ter sido isso que desencadeou. Um ex-namorado.
Ou são estas rivalidades que existem entre terras, porque eles levam aqui uma terra do lado, começa a dizer mal da terra do outro, depois aquilo espalha-se. Mas não há uma rivalidade entre Peniche e Lourinhã, que eu saiba. Existe alguma rivalidade entre Peniche e Nazaré, um pouco daquelas rivalidades.
Olha, lá em cima há muita rivalidade entre São João da Madeira e Oliveira de Azeméis, por exemplo.
Entre Guimarães e Braga, sim.
Sim, também.
Isso eu sabia. E já agora falamos de Braga. "És de Braga?" é uma expressão que se usa quando alguém deixa a porta aberta.
Usamos essa expressão muitas vezes aqui na rádio, porque como temos o estúdio e às vezes vão pessoas ao estúdio e depois a rádio tem que se fazer em silêncio. Em silêncio, a pessoa tem que falar, mas convém ter silêncio à volta para que o ouvinte não fique demasiado confundido.
Exatamente. Um silêncio que vê.
Quando a pessoa deixou uma porta aberta aqui no estúdio e está a acontecer uma emissão em direto, dizemos: "Então, és de Braga?"
Pronto, se alguém de Braga quiser explicar donde é que isto vem, se calhar foi alguém de Guimarães.
Quem sabe? Pode ser.
Das várias rivalidades que existem, criar uma expressão idiomática com o nome da terra com a qual temos rivalidade não parece ser das piores coisas do mundo. Há outra expressão com nome de terra, que me diz muito a mim, em particular, que é a expressão "amigos de Peniche", que quer dizer um mau amigo, por isso as pessoas de Peniche como eu não costumam gostar muito.
Exato, ia te perguntar, não deves gostar muito dessa.
Não, nós sabemos que as coisas são assim. A história que se conta, desde criança que eu ouço, é que os verdadeiros amigos de Peniche eram os ingleses que chegaram no final do século XVI pra tentar pôr Dom António, Prior do Crato, no trono português contra os Filipes. Desembarcaram em Peniche, aliás, na Consolação, perto de Peniche, mas eles, na verdade, só conseguiram conquistar mesmo Peniche, ele foi rei de Peniche durante algum tempo. Depois, na direção a Lisboa, foram destruindo mais quase do que os próprios Filipes e eram amigos de Peniche. Ou seja, não grandes amigos. Mas, a verdade, e até em conversas com o historiador de Peniche, que é o Rui Vinácio, que tentou encontrar aqui a verdadeira razão pra esta expressão, não é muito provável que seja isso, porque a expressão só começa a aparecer na escrita muito tempo depois, no século XIX, na altura em que os portugueses andavam um bocadinho de candeias às avessas, outra expressão, com os ingleses. Tem alguma lógica que a explicação tenha surgido nessa altura. Ou seja, foi uma altura em que nós queríamos ali mostrar que os ingleses eram maus, mas não parece haver ligação entre este evento histórico e a expressão. Há uma explicação que o Rui Vinácio avança, que o historiador avança. Houve um senhor muito briguento, com uns amigos muito maus, que era o Conde de Peniche, aqui em Lisboa, ele não era de Peniche. E tinha os amigos do Peniche, que era o Conde de Peniche.
Já está a soar tão estranho na minha cabeça ouvir a palavra Peniche.
Desculpa.
Dizemos tantas vezes que já fica estranho.
E Peniche, eu acho, pessoalmente, que sou de lá, que tem um som que leva a que, ao repetir, começamos a achar estranho. E até digo mais: qual é que é o gênero deste nome? Porque nós não usamos o artigo, portanto o gênero não está explícito. E já perguntei a várias pessoas: "De Peniche?"
Exato, de Peniche. Ou seja, não atribuímos o gênero.
Não atribuímos o gênero, mas se eu for pôr lá um adjetivo, Peniche é lindo ou Peniche é linda? Eu pessoalmente acho que é feminino, mas há pessoas lá que acham que é masculino. É uma pergunta que fica no ar. Dê por onde der, as pessoas de Peniche não são más amigas.
As pessoas de Braga deixam ou não a porta aberta.
Exatamente.
E as pessoas de Alenquer também são boas pessoas.
São boas pessoas todas.
Exato. Há pessoas boas em todo lado.
Mas a língua é assim, a língua às vezes é cruel. Nós temos as expressões que deixam certas pessoas de certas terras um pouco atrapalhadas e depois até criam programas de rádio só pra poderem dizer que os amigos de Peniche não existem.
Verdade. Vamos avançar, temos mais uma dúvida. Esta chega-nos da Clara.
Olá, Marco, eu sou a Clara e há pouco estava a discutir com a minha irmã, porque ela diz que não se pode dizer "sem pressas", porque não há plural de pressa. E eu quero saber se isso é verdade.
Discuções entre irmãos, quem nunca?
Exatamente.
Gostamos tanto, não é?
E ela estava com um ar um pouco, como é que eu vou dizer, a rir-se porque devia estar se calhar com a irmã ao lado, não sei. Mas eu vou dizer que não tenho nada contra "sem pressas" no plural. Nós fazemos muitas vezes isto, pôr no plural, às vezes até pra dar um ar mais pessoal. Nós temos uma velha expressão que era ir às sortes, que era ir ao sorteio de quem ficava. Nós dizemos também calhas, que aquilo também é uma espécie de plural. Às vezes, o que é plural passa a singular só pra dar um, por exemplo: "essa calça fica-te bem".
Eu lembrei-me de uma agora.
Qual?
Já me irrita as pessoas que dizem tênis, porque eu digo sapatilhas. As pessoas que dizem: "Têni". Por quê?
Temos que conversar sobre isso.
Por quê?
Já tive grandes conversas com o Sam the Kid sobre isso.
Tênis já é mau, por que meter têni?
Não vou discutir isso com uma pessoa do Porto. Do Porto não, do Norte. Desculpa, não te queria chamar do Porto.
Mas eu aceito, até porque estou a 20 minutos do Porto, está tudo bem.
É que às vezes esta confusão, e já várias pessoas me disseram que não se pode confundir o Porto com o Norte. Obviamente que não. Mas nós às vezes a nossa cabeça é solta.
Sim, claro. Não leva a mal, não te preocupes. Leva mal pessoas que dizem têni, isso sim. Desculpem, estou um bocadinho alterado.
Mas eu diria que a Clara tem razão. Nós podemos dizer sem pressas, como podemos dizer sortes, podemos dizer a calça. As pressas dão nisto, as pressas das duas pessoas. Estamos aqui todos, eu estou com pressa, tu estás com pressa, estas pressas vão dar mau resultado. E pronto, acho que já estamos com pressa pra acabar o episódio.
Um minuto e 15. Ainda dá tempo de dizer o e-mail pra enviar dúvidas.
Ainda podemos falar da história do russo, do chinês e do romeno.
Qual é o e-mail, Marco?
portuguessuave@observador.pt.
E o nosso número do WhatsApp é o 91 002 41 85. Envie as suas mensagens de voz, como fez a Clara e o Ricardo Costa, e também o Zé Maria no episódio de domingo. E depois nós reunimos aqui à quarta-feira ou às vezes até no domingo, com dúvidas dos nossos ouvintes, neste episódio do "Português Suave", que esclarece sempre dúvidas da língua portuguesa.
Então, até domingo.
Até domingo, Marco. Um grande abraço.