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É dia de Português Suave, no último dia do mês. Eu sou o João Costa e Silva, tenho comigo o Marco Neves, porque eu não faço isto sozinho.

Olá.

Aliás, podia fazer, mas isto ficava muito malfeito.

Eu gostava de ouvir.

Eu acho que não ia ser bom.

Um dia destes experimentamos. Um dia faço eu sozinho, outro dia fazes tu.

Não, é melhor não. Não quero ter essa pressão em cima. Ora bem, estamos no último dia do mês.

Ou seja, é obrigatório dizer: ainda não estamos em dezembro.

Este mês passou muito rápido, não sei se tens essa sensação.

Este ano.

Mas eu sinto que o mês de novembro, do nada pisquei os olhos e estamos no final do mês.

Ainda agora estávamos em outubro.

É verdade, passou muito rápido.

Vem o Natal, mete-se o Natal, que também é uma expressão muito portuguesa.

Temos que convidar a Mariah Carey, não nos podemos esquecer, para vir aqui ao Português Suave.

E vamos ter de fazer episódios sobre o Natal, sobre as línguas do Natal.

Sabes que já começaram as filhós, já me começaram a mandar dúvidas sobre isso.

Há muitas dúvidas de Natal. Mas não é hoje. Hoje vamos falar de muita coisa, vamos ao Brasil, vamos a Portugal. Mas vamos avançar.

Vamos. Temos muito, não é? Vamos a isso.

Ora, além das notícias, nós tivemos uns quantos debates presidenciais.

Já tivemos uns quantos.

Já tivemos uns quantos. E eu lembrei-me de falar rapidamente a palavra presidente, de novo, porque já falámos dela.

Uma palavra que vamos falar muito.

Vamos falar até janeiro.

Quer dizer, nós falamos todos os dias. Eu acho que é inevitável nós não dizermos-

Presidente? Achas que sim? Não sei.

Estou a pensar. Eu acho que digo todos os dias, provavelmente.

Tivemos até agora um presidente muito presente.

Sim. Mas se calhar pelo meio onde estou. Nem toda a gente diz presidente todos os dias.

Não, mas é assim, com todas as reclamações que nós ouvimos, a verdade é que a política está presente na nossa vida.

Sim, quanto mais não seja, quando vemos notícias para nos referirmos a ele, dizemos presidente.

Exato. Mas o presidente, a palavra, tem origem latina, queria dizer a pessoa que está a presidir a uma reunião, que está à frente de uma reunião, depois tornou-se um dos cargos típicos de chefes de Estado. Isto é importante porque a primeira vez que esta palavra foi usada por um chefe de Estado e passou a ser um homólogo, e gostávamos de falar esta palavra mais tarde, homólogo do rei, mas nas repúblicas, foi nos Estados Unidos. Os Estados Unidos foram o país que inventou esta ideia de haver um presidente. Tínhamos repúblicas mais antigas, mas o presidente dos Estados Unidos foi o primeiro chefe de Estado que usou este título. E a partir daí os outros países copiaram, a França copiou, Portugal copiou. Provavelmente Portugal quando copiou, estava a pensar que estava a copiar da França, e não os Estados Unidos. Até porque a França usou Presidente da República, que não é o título do presidente dos Estados Unidos, e por isso foi uma inovação linguística que partiu dos Estados Unidos e que se espalhou pelo mundo fora e hoje, se algum país se torna uma república, o habitual será criado presidente da República.

Exatamente.

Não seria obrigatório, nós hoje pensamos que é tão natural, mas São Marino é uma república há muito tempo e não tem presidente. Tem outros, acho que é capitão-geral. Podes estar enganado.

Ah, também gosto. Capitão-geral parece que está à frente de uma capitania de um barco.

Penso que sim. Até são dois. Eu não me lembro se é exatamente capitão-geral, mas é um título diferente. Eu gostava só de chamar a atenção que há países que são monarquias, mas que usam presidente também como cargo político, como Espanha. Espanha tem o rei e tem o presidente do governo.

Exato.

E muitas vezes, no dia a dia, os espanhóis falam do presidente. Não dizem primeiro-ministro. Primeiro-ministro não é o cargo juridicamente exato para o cargo que é ocupado por Pedro Sánchez, atualmente. Portanto, o que quer isto dizer? Que o presidente do governo espanhol é homólogo do nosso primeiro-ministro, homólogo é uma palavra aqui útil, o presidente da República é homólogo do rei de Espanha, mas às vezes, e já vi isto, há jornais espanhóis que como usam presidente, acabam por falar de coisas como o encontro entre o presidente português e o presidente espanhol. Estão a falar de um encontro entre Marcelo Rebelo de Sousa e o que nós chamamos de primeiro-ministro espanhol, o que é muito curioso. Portanto, introduzo aqui só esta palavra que é útil para falar destas coisas: homólogo.

Não gosto muito dessa palavra.

É, mas é assim.

É feita.

É feia. No outro dia estavam a perguntar como é que se dizia cá em Portugal, um brasileiro perguntou como é que se dizia xará. Sabe o que é xará? Alguma vez ouviu isto?

Xará? Não.

Xará é uma pessoa que tem o mesmo nome que eu. Se eu tivesse aqui um Marco, ele era o meu xará. E um brasileiro perguntou-me como é que nós dizemos. E eu e outro português que estava ao meu lado: homónimo, que é muito mais feio.

Exato.

Do que xará. Mas pronto, é assim.

Xará. Nunca tinha pensado. Aliás, nunca tinha ouvido, na verdade.

Estás a conhecer uma nova palavra. Vamos tomar o pé da língua.

Vamos a isso.

Amanhã é o dia primeiro de dezembro.

Depende. Se estiver a ouvir na rádio hoje, é dia 30 de novembro e amanhã é dia um de dezembro. Se estiver a ouvir em podcast, até já pode ser dia três.

Pois, ou então pode ser no ano que vem, 30 de novembro, e estamos a ouvir.

Aquelas pessoas que ouvem tudo de uma vez, vários episódios.

Assumindo que as pessoas estão a ouvir no dia 30 de novembro, amanhã é dia primeiro de dezembro, foi o dia em que nós pusemos um novo rei no trono, um rei português, e abandonámos a dinastia filipina, e normalmente falamos disto como a restauração da independência. Na época, as pessoas não diriam restauração da independência, isso são termos que surgiram depois. Mas uma pergunta que eu agora faço, e é uma pergunta muito difícil de responder, e por isso vou só responder na minha ótica e de forma resumida: o que é que teria acontecido à língua portuguesa se o primeiro de dezembro não tivesse ocorrido? Se tivéssemos ficado com o rei espanhol. Na altura, o que nós chamamos Espanha era uma coleção de reinos ainda, portanto, tínhamos Aragão, tínhamos Castela, também tínhamos Portugal durante aqueles 60 anos de domínio filipino. E a minha pergunta então é: o que é que teria acontecido ao português? Eu vou dizer aquilo que eu acho que teria acontecido. É claro que nós não fazemos a mínima ideia. Nós sabemos que Espanha tem mais línguas, portanto o português não teria desaparecido, isso não. O português era uma língua muito importante na época, Portugal era um reino muito importante, mesmo dentro do contexto da Coroa comum, aliás, as várias coroas partilhadas por uma só pessoa. Portanto, eu presumo que o português tivesse hoje mais importância do que têm as outras línguas de Espanha. Só que não teria, certamente, a mesma importância que tem hoje. Porque mais tarde, a Espanha passou, durante o século XVIII, XIX e XX, por uma série de processos de centralização e tentativa de espalhar a língua que passou a ser chamada espanhol, coisa que também não aconteceria na época, que era conhecida como castelhano, e por isso o português teria sofrido também com esse processo, e por isso hoje estaríamos em um país onde o português era uma língua secundária e provavelmente estaríamos a passar pelo mesmo processo que várias regiões espanholas estão a passar, em que estão a tentar salvar, dar mais prestígio e pôr outra língua com mais importância.

É triste pensar nesse cenário.

Sim. Uma vez disse isto no Facebook e tive pessoas a dizer: "Que falta de patriotismo". Não, eu estou a dizer isto precisamente.

Exato.

Porque acho que foi muito bom que nós tivéssemos conseguido estar em um mundo onde a nossa língua pode ser a língua principal do Estado. No Brasil, se perguntarem também o que é que teria acontecido, o Brasil já existia, não era um país independente. No Brasil, no século XVII, portanto, quando em 1640 Portugal recupera a independência, no Brasil ainda não se usava muito o português. O português só veio a impor-se como língua brasileira, como língua do Brasil, língua brasileira é perigoso, é outra questão, só no século XVIII é que o português se espalhou com muita força pelo Brasil. Portanto, se Portugal tivesse ficado dentro de Espanha, provavelmente hoje no Brasil ou falariam uma língua de origem indígena, como se chegou a falar durante muito tempo, que era a língua geral, ou então seria o espanhol a língua principal e português talvez tivesse lá umas pessoas a falar, mas não seria certamente a língua mais usada. Esta é a minha perspectiva.

Estava a dizer, falaste aí da língua brasileira e há muitas pessoas que se referem assim ou dizem o brasileiro. E se ofendem com isso, não é?

Sim. Eu quando disse língua brasileira, eu senti língua do Brasil, que era o português que eu estava referindo. Mas é uma boa questão que temos.

Porque o normal é dizer português do Brasil.

Sim, mas nós às vezes, cá em Portugal, referimo-nos a brasileiro e muitas pessoas levam a mal porque parece ser uma forma da pessoa dizer: "Tu não falas a mesma coisa que eu." Embora depois no Brasil a questão seja muito diferente. No Brasil também há pessoas que defendem, que falam brasileiro, mas por razões completamente diferentes. É uma questão muito interessante, mas ficará para outro episódio.

E que até dava um bom debate, Marco.

Vamos pensar nisso. Vamos ter aqui alguém a debater sobre a língua do Brasil. Para já, oficialmente, é o português. Aliás, está na Constituição brasileira a dizer que é o português há mais tempo do que está na Constituição portuguesa a dizer que a língua oficial é o português, mas ficará para esse episódio de debate.

Bem, vamos avançar para os mitos e origens da língua.

E hoje queria só falar de um mito muito comum, que aponta várias expressões, por vezes, as expressões que são consideradas as expressões incorretas, e as pessoas têm a tendência para considerar que esta incorreção é algo recente, que as pessoas agora todas dizem.

Ok. Que há essa percepção.

Sim. E vou dar exemplos. Por vezes, o que aconteceu foi: a expressão, que é considerada hoje incorreta, é muito antiga, era muito usada, e o que é recente é a ideia de que é incorreção. Não sei se estás a perceber onde é que eu quero chegar. Ou seja, às vezes há modas em expressões que nós usamos, há modas em construções verbais e também há modas nas correções. Vou te dar um exemplo. Há uma regência verbal que era considerada normalíssima no século XIX, e que hoje é vista como erro por muitas pessoas, que é "dever de". "Eu devo de fazer isto" ou "Ele deve de estar muito irritado." Isto hoje é considerado muito popular, popularucho, quase, por algumas pessoas, quando no século XIX era usado por todos os grandes escritores e ninguém acharia isto estranho. Havia uma distinção entre "dever de" como possibilidade, ou seja, "Ele deve de estar chateado ou aborrecido", e "dever" como algo que deve ser feito. Portanto, "Eu devo ir à escola todos os dias."

Ok.

Esta distinção hoje já não se aplica, porque muitas pessoas consideram que é um grande erro dizer "dever de", e eu ouço, por vezes, e acontece.

Assumem como se fosse algo popularucho, é isso?

Assumem como se fosse um erro recente, que começou a ser dito por quem não percebe muito português.

E é o contrário.

E é o contrário. O que aconteceu foi: houve uma correção que começou a ser feita e que começou a espalhar-se e hoje é vista como erro. E, na verdade, num texto formal devemos evitar, porque senão temos não sei quantas pessoas a considerar que é um grande erro. E também há pessoas que dizem: "Não, mas é uma questão também de não ser bonito, é feio." Mas aqui as pessoas também estão a ver isto ao contrário. É feio porque foram corrigidos durante muito tempo na sua vida. No século XIX, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz não considerariam esta expressão minimamente feia, porque ninguém tinha corrigido, ninguém tinha estado ali a dizer que não podes dizer esta expressão. Eu não estou a dizer para as pessoas passarem a usá-la. Eu só estou a dizer para reconhecerem que a mudança não foi o uso da expressão, mas sim ela começar a ser condenada. A condenação é que é recente. Outro exemplo: "Eu sou parecido ao meu pai." Muitas pessoas hoje consideram que é um grande erro e que deve ser: "Eu sou parecido com o meu pai."

Aqui a única diferença é o ao ou o com, não é?

Exatamente. As duas formas eram tradicionais na língua portuguesa. O padre António Vieira usava parecer a. Os grandes escritores da língua portuguesa sempre usaram isto, os falantes também usaram. Eu não estou a dizer os grandes escritores no sentido de se eles usam, nós temos de usar. São só a demonstração de que era usado e que ninguém considerava um erro, porque nem sequer foi um, nem uma vez. Qualquer escritor se pode enganar. Era sistemático, era muito usado, sempre foi usado.

Isso é muito interessante, porque muitas vezes nós ouvimos coisas e que se calhar são institucionalizadas, vamos dizer assim, há algum tempo, mas como nos soam mal, achamos que é um erro ou não se devia usar. Isso acontece muitas vezes.

Nós já conversámos aqui sobre alguns casos.

E não é por a palavra ou a expressão ser feia que não pode ser usada.

Muitas vezes o que acontece é que ela é considerada feia porque houve um processo de correção. Ou seja, as pessoas ouviram a professora na escola, ouviram os pais a dizer que não se pode usar. E tudo bem, isso acontece. A língua também se faz destes mecanismos de correção. O que eu estou a dizer é que, por vezes, essas correções são recentes, são de algumas décadas. As expressões são mais antigas. Alguém poderá dizer: "Então quer dizer que todas as correções que fazemos, estes erros são recentes?" Não, há algumas. Eu vou dizer a pergunta ao contrário. Quer isto dizer que tudo aquilo de que eu não gosto é antigo? Não. Vou dar um exemplo de uma expressão que é muito recente, ou de uma construção que é muito recente, e que eu também considero que ainda pode ser combatida. Porque o que eu quero dizer com isto é: a língua é uma lenta acumulação dos hábitos dos falantes, mas um hábito só é um hábito quando, isto agora vai ser um pouquinho circular, quando é habitual. Ou seja, quando uma coisa surge e é realmente recente, nós podemos ainda não usá-la e tentar dizer aos outros: "Não uses isso que eu não gosto." Se depois ganharmos a guerra, digamos assim, ótimo, essa construção desaparece. Se perdermos, daqui a umas dezenas de anos, é parte da língua e não há muito que nós possamos fazer. E vou dar o exemplo de algo que eu gostava que desaparecesse.

Então.

Também acontece isso. Que é o começar as frases só com o infinitivo. Dizer: "Dizer que estamos aqui com." Ou então eu começo uma conversa: "Agradecer a quem aqui está."

Agradecer a quem aqui está, partilhar consigo.

Em que está a cair ali uma parte. Quero agradecer. Eu, de facto, também não gosto nada desta expressão. É algo que parece ter alguns anos. Eu procurei, já vi pessoas a queixarem-se disto há 10 anos.

Nós já falámos disso aqui no "Português Suave", e eu vou admitir que muitas vezes em rádio, isso acontece, pelo simples facto de às vezes querer simplificar o discurso ou tirar palavras.

A língua tem muito de inconsciente, porque senão nós não conseguiríamos usá-la. E por isso, mesmo a pessoa que está a reclamar sobre alguma coisa, como eu, não estamos livres de usar essa mesma coisa daqui a pouco tempo.

O que nós dizemos que não gostamos, depois podemos usar. E já me aconteceu tantas vezes dizer assim: "Não gosto desta expressão." E depois a expressão fica tanto na minha cabeça que eu até começo a usar. Quem nunca?

Já conheci pessoas a dizer: "Eu nunca uso isso." E passado três ou quatro frases, usam.

Claro, e assim sempre.

A expressão X, e não notam, porque a língua está ali no limite entre o consciente e o inconsciente. Se fosse completamente consciente, nós não conseguimos falar. Teríamos de parar, pensar na frase que íamos dizer, analisá-la gramaticalmente, perceber se estava tudo correto, se estava de acordo com os nossos princípios linguísticos, e só depois dizíamos a frase. Senão, não é assim que a linguagem humana funciona. E pronto.

Ficamos por aqui. Neste episódio de domingo, já sabe, dúvidas, através do...

Não sei. Viste o silêncio?

Preguei-te uma rasteira agora.

9102, não segurei. 185. Espera.

91 002 41 85 é o nosso número do WhatsApp. Preguei-te uma rasteira porque não estavas no sítio certo do documento.

Não, não estava no sítio certo do documento. E o e-mail é, aqui não te vou pregar rasteira nenhuma, porque tu sabes.

Esse tu sabes. Diz lá.

portuguessuave@observador.pt.

Muito bem. Áudios até 30 segundos, não se esqueça. Marco, um bom feriado. Aproveita. E até quarta-feira.

Até quarta.