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Este é o Português Suave da Rádio Observador. Mais uma vez estamos reunidos, eu, João Costa e Silva, e o Marco Neves. Ainda que seja à distância, estamos sempre conectados. Olá.

Estamos sempre. Está tudo bem?

Está tudo bem. Cá estamos mais uma vez.

Cá estamos a falar do português. Foi uma semana interessante, porque tivemos os Santos Populares em Lisboa, porque os Santos Populares estão longe de terem terminado.

Ainda vamos no início. Ainda falta.

Ainda vamos no início. Tivemos o feriado municipal de Lisboa ontem. Os feriados às vezes calham ao sábado, o que é sempre mau, mas de qualquer forma este é um grande dia aqui para Lisboa. E também tivemos o início do Mundial. A nossa seleção ainda não jogou, mas já houve jogos.

Sim, exatamente. Marco, o que diz?

Ia dizer que é isso mesmo. O início vai ser mesmo sobre o Mundial e depois vamos avançar por aí. Vamos aos Estados Unidos também, mas para falar de uma língua de que não estamos à espera. Desta vez não o português. De vez em quando gosto também de falar de outras línguas. E por fim, vamos terminar em Lisboa, precisamente porque tivemos o feriado de Lisboa, para falar de uma característica do nome da cidade.

Muito bem, regressamos à base. Vamos andar por aí e depois regressamos à base. Começamos então com a língua nas notícias.

João, começou o Mundial e acho que todos nós reparamos que dizer o Mundial em português pode depender do país em que estamos.

É verdade.

Se formos até ao Brasil, é Copa do Mundo. Cá em Portugal é o Mundial. Penso que Angola, Moçambique dirão mais Mundial, mas não tenho a certeza. Fica aqui a pergunta no ar, se alguém quiser dizer. Nós já falámos aqui no Português Suave da origem da palavra taça, que vem do persa, passou para o árabe, depois para o castelhano e depois chegou ao português. Gostava hoje de dizer também que a palavra mundial, penso que ninguém tem dúvidas, que vem da palavra mundo, e nós usamos mundial como abreviatura, como redução de Campeonato Mundial de Futebol. No caso da copa, que é o termo usado no Brasil, é um termo interessante porque vem do latim e é da mesma família de copo. No fundo, a copa é a mulher do copo, neste caso, a taça. A copa tem precisamente a mesma origem. Tem a mesma origem de outra palavra portuguesa que é cuba, o recipiente, onde podemos pôr o vinho, por exemplo. Tem também a mesma origem, é a mesma palavra, aliás, da copa das árvores. A copa das árvores é uma copa porque parece uma espécie de taça invertida. E por isso é uma velha palavra portuguesa, que já vem da versão medieval da nossa língua. No Brasil, acabou por designar taça e, neste caso, a taça do Campeonato do Mundo, provavelmente porque o castelhano também escolheu a mesma palavra. O inglês também usa cup, que é uma palavra inglesa de origem latina, que tem precisamente a mesma origem e que é, no fundo e de manda, copa. E talvez por isso, no Brasil optou-se por falar da copa, ou seja, da taça do mundo. Mas não é uma palavra nova, não é também uma importação. Esta palavra já é muito antiga e é, de facto, da mesma família que o copo.

Eu ia-te perguntar isso, se era uma variação recente, vamos dizer assim.

Não, é muito antigo. Há registos de copa há muitos séculos. É simplesmente a utilização particular no Brasil de uma palavra que já existia muito antes. Não era usada para falar do Campeonato do Mundo, porque ele também não existia.

Nós aqui no Observador também temos uma copa, mas não é a taça.

Pois, lá está mais uma utilização da mesma palavra. As palavras, quando puxamos o fio e começamos a ver que elas estão em muito mais lugares do que pensamos. E é precisamente para falar de lugares que vamos avançar para o mapa da língua. E já que estamos a falar do Mundial, o Mundial desta vez realiza-se em três países. Daqui a quatro anos vai ser por cá, também em três países, um deles Portugal, mas agora, neste momento, nos Estados Unidos, no Canadá e no México. E os Estados Unidos são um país muito interessante por vários motivos, também linguísticos, porque já falámos várias vezes da questão do espanhol nos Estados Unidos. Do inglês não é preciso falar muito, porque todos nós sabemos que é a língua mais falada, mas há mais línguas nos Estados Unidos. Por exemplo, ainda há poucos dias, li uma notícia sobre bandeiras. No Idaho, tentou-se aprovar uma lei. Sabe-se que agora tem havido esta espécie de tentativa de impedir a utilização de várias bandeiras que não sejam bandeiras oficiais. Isto tudo, na verdade, porque há vários lugares no mundo onde alguns partidos não querem que a bandeira LGBT seja hasteada. Então, no Idaho, houve uma tentativa de aprovar esta proibição de hastear bandeiras que não sejam a do estado ou dos Estados Unidos. Só que a coisa correu mal e a razão porque correu mal é muito interessante linguisticamente, e eu vou tentar explicar o que eu quero dizer com isto. Foi feita esta tentativa de aprovação da lei e houve uma reclamação. Estamos a falar do Idaho, nos Estados Unidos, um estado dos Estados Unidos. Houve uma reclamação muito forte contra esta lei de alguém que talvez seja um pouco improvável para quem não conhece a situação linguística daquele estado. O presidente do País Basco, da comunidade autónoma do País Basco, em Espanha, reclamou E por quê? Porque a bandeira do País Basco, a ikurriña, é muito usada no Idaho e seria também proibida por esta lei, ou seja, seria arrastada por esta lei.

Bem que confusão.

Eu já vou explicar por quê. Na proposta de lei, acabou por ser feita uma exceção para a bandeira do País Basco. E agora as pessoas que nos estão a ouvir podem perguntar: "Mas o que o País Basco tem a ver com o Idaho, nos Estados Unidos?" A verdade é que há muitas pessoas de origem basca neste estado. Há muitas pessoas de origem basca no velho Oeste, naquele velho Oeste que nós víamos nos westerns, porque na altura da corrida do ouro, houve muita imigração do País Basco para aquela zona dos Estados Unidos, para aquela área dos Estados Unidos, e a língua foi com eles. A língua basca está presente nos Estados Unidos, está presente no Idaho, e a bandeira basca também. Há muitas inscrições que os bascos fizeram por ali, que se encontram até em árvores. Alguém contou mais de 25 mil inscrições em basco, em vários lugares. A língua foi ficando, as tradições bascas, incluindo a bandeira, também foi ficando. Por volta dos anos 70 e 80, houve uma diminuição da utilização da língua, que foi um fenômeno que se verificou em vários pontos do mundo, na utilização de línguas minoritárias, mas agora está em franca recuperação. Há festivais de cultura basca, há até um jardim escola que utiliza o basco para as crianças. Estamos a falar do Idaho, nos Estados Unidos. Isso só pra dizer que às vezes há línguas que aparecem em lugares que são muito imprevistos. E posso dizer mais, o basco apareceu noutros pontos da história da América. Por exemplo, há línguas nativas, ou seja, dos povos nativos dos Estados Unidos, que têm importações do basco, estamos a falar dos Estados Unidos, por causa de contactos entre os nativos norte-americanos e os pescadores bascos que iam buscar o bacalhau às costas da América e que foram deixando também palavras bascas, até nas línguas nativas dos Estados Unidos. Foi só um pequeno passeio por uma outra língua muito diferente da nossa.

E com coisas que não conhecíamos, Marco. Nós estamos sempre a aprender.

Isto foi um pouco confuso, mas espero que as pessoas se interessem por saber que às vezes as línguas se misturam mais do que nós pensamos e também encontramos o português em lugares que não estamos à espera.

É verdade.

Por exemplo, no Uruguai. Mas sobre isso já falámos uma vez, penso eu, e falaremos outras vezes. Para já, vamos avançar para o nome de Lisboa.

Vamos a isso.

João, aqui a minha pergunta é: por que razão é que Lisboa tem vários nomes em várias línguas? Temos Lisboa, temos Lisbon, temos Lisbon, em francês, a tentar pronunciar um pouco melhor. A minha pergunta hoje, nesta seção sobre origens, é de onde é que vem aquele "n" que aparece no inglês, que aparece no francês, que aparece no italiano, no alemão, não aparece em português, ou seja, uma língua mais usada na própria cidade. E não aparece também em espanhol, por exemplo, em castelhano não aparece, eles usam a versão Lisboa, dita de uma forma um pouco mais à espanhola. E aqui, rapidamente, o que se passa, não vou falar da origem do nome, porque isso é uma outra história completamente-

Mas está relacionado, Marco, a origem?

Está relacionado, no sentido em que se começarmos no latim, em que temos Olissipo. Este latim desenvolveu-se ao longo dos séculos e acabámos com uma forma do nome da cidade, relacionada com a forma como as palavras em latim também mudavam de acordo com a situação gramatical, ou seja, com a função sintática, e acabou-se por se usar principalmente o termo Olissipona. Este era o nome mais recente em latim, que depois foi passado ao árabe, onde o nome da cidade tinha várias formas, uma delas era algo como Lisbona. Isto era o nome latino já transformado em árabe. Quando o árabe deixa de ser uma língua em Lisboa, as pessoas que estavam em Lisboa continuaram a falar o que já falavam antes, que era no fundo latim com muitas influências árabes. E o nome da cidade era, nessa língua latina com muita influência árabe, Lisbona. E continuou a ser assim. Nós ainda vemos registros no século XVI, muito depois de tudo isto, com o nome da cidade como Lisbona. E é deste nome, Lisbona, que vêm os nomes estrangeiros, os exônimos, os nomes estrangeiros da cidade, em inglês, em francês, em alemão, em italiano. O que acontece? Em português, aquele "n" acabou por cair porque é tendência natural da língua, pelo menos foi durante os primeiros séculos, deixar cair o "n" entre duas vogais. Portanto, de Lisbona passamos pra Lisbo , com o til, que está registrado em muitos casos. Por vezes é apenas uma abreviatura do "n", outras vezes registra mesmo a nasalidade, e depois acabou até o próprio til por cair e ficámos com Lisboa. Os outros povos mantiveram o nome anterior que já tinham, tirando os nossos vizinhos, que acabaram por assumir o nome português e importaram esse nome português. Portanto, só pra dizer que aquele "n" não é nenhuma invenção destas línguas, mas é simplesmente uma transformação do nome que Lisboa tinha, em português também, durante os primeiros séculos. E é só isso. Uma pequena homenagem à cidade onde estamos.

Depois do Santo António, não é?

O quê? Desculpa, João.

Depois do Santo António.

Depois do Santo António, sim. Pensei que me tivesses perguntado se eu tinha ido ao Santo António. Andei por aí, certos arraiais.

A investigar e fazerem-te muitas perguntas, certamente.

Tudo a ouvir. Investigação linguística pura.

Bem.

Vamos ao livro da semana?

Vamos a isso.

Para terminar o nosso episódio. João, hoje trago-te um livro de que já falámos aqui há muitas semanas.

Bem me parecia que este livro não era uma novidade, no sentido em que já tínhamos falado dele por aqui.

Já, só que como não tínhamos ainda essa secção de sugestões de livros, voltei a falar dele. Este já é o décimo livro de que falamos. Apesar de tudo, isto já vai longe.

Tu tens tudo contabilizado muito bem, Marco Neves.

Tenho uma listinha. Se as pessoas depois quiserem. O livro é o "Novo Dicionário de Regência Verbal e de Erros da Linguagem", de Artur Veríssimo, professor de português que está nos Açores, que conheci há umas semanas, e que é um excelente autor de livros de português. Também imagino que seja um excelente professor, embora nunca tenha sido aluno dele. Este livro é um livro de consulta, mas também de leitura, porque acaba por ser muito interessante, precisamente porque dá exemplos literários. O que é isto da regência verbal, para quem não sabe? É simplesmente como é que os verbos se ligam às preposições que vêm a seguir. Por exemplo, será que devemos dizer "insistir em", ou "insistir para", ou simplesmente "insistir"? Isto vai depender da própria forma da frase e está tudo explicado aqui neste livro para muitos dos verbos, que não são todos, mas são muitos verbos, e são os verbos que nós usamos com muita frequência. É um livro que pode parecer muito particular, mas na verdade, é um dos pontos da língua onde temos mais dúvidas, e aqui aparecem as várias respostas de uma forma bastante bem fundamentada e com muitos exemplos literários. Portanto, é um livro que também é muito agradável de ler e muito bem organizado, porque esta não é uma área, não é um tema nada fácil de organizar em livro, tendo em conta toda a variedade, toda a complexidade da língua portuguesa.

Eu ia-te perguntar isso. Para alguém que escreve sobre português, sobre dúvidas, tens vários livros já publicados, um muito recente, que pode ser comprado, está nas bancas.

A fazer a publicidade.

Exato. Até na Feira do Livro de Lisboa e nas feiras do livro pelo país. Qual é o grande desafio de escrever sobre a língua portuguesa e torná-la fácil de compreender para todos?

É uma excelente pergunta. Há vários desafios. Há dois tipos de livros sobre língua portuguesa.

Porque nós, às vezes, até mesmo nós aqui em rádio, Marco, estamos a explicar alguma coisa, tu deves sentir isso mais do que ninguém, e fica sempre aquela dúvida: será que eu fui suficientemente fácil de compreender por quem nos está a ouvir? Porque há coisas que às vezes explicar, até mesmo em rádio, é difícil, não é?

A dificuldade aqui é ser fácil de compreender, no sentido de sermos claros, mas não necessariamente simplificar de tal maneira que estamos a destruir a informação. Não sei se estou a explicar bem o que eu quero dizer. A questão não é tanto a facilidade, eu não utilizaria tanto essa palavra, porque pode ser perigosa neste contexto, mas mais a clareza, o tentar ser claro. E há um outro desafio, e aqui eu não sei se o Artur Veríssimo concorda comigo, se ele estiver a ouvir, eu sei que ele também ouve o "Português Falado" de vez em quando, pelo menos. Um outro desafio é uma coisa que se chama, em comunicação, a maldição do conhecimento. O que isso quer dizer? Todos nós sabemos coisas que as outras pessoas à nossa volta não sabem, e as pessoas à nossa volta sabem coisas que nós não sabemos. Não é uma questão de uns sabem muito, outros sabem pouco. Estamos a falar simplesmente de um fenómeno comum a todos, que é: se eu sei uma coisa, tenho muita dificuldade em me pôr nos pés da pessoa que não sabe aquilo. Para mim, é óbvio. Eu já sei aquilo. É muito difícil nós distinguirmos aquilo que nós sabemos, porque por acaso estudámos ou aprendemos ou é a nossa área, daquilo que é o conhecimento mais geral que todos nós temos. Não sei se isto está a ser claro, mais uma vez.

Está.

E por isso é que muitas vezes um especialista numa área é muito mau a comunicar nessa mesma área, porque tem muita dificuldade em perceber, no conjunto de conhecimentos que tem na cabeça, quais é que são aqueles que são conhecimentos que ele tem por ser especialista e quais é que são os conhecimentos que ele tem porque toda a gente tem naquela área. E por isso tem muita dificuldade depois em traduzir o seu conhecimento para alguém que não tem esse conhecimento. Essa dificuldade é uma dificuldade real.

Nesta área do português, posso deixar-te descansado, porque estamos muito bem servidos, Marco Neves. Portanto, nada a apontar.

Pronto, obrigado.

Ficamos por aqui. Diz.

Não, ficamos por aqui e na próxima quarta-feira temos as dúvidas.

Exato.

Podem mandar as suas dúvidas, para onde? Agora pergunto eu, para que telefone?

Não, pergunto teu, qual é o e-mail, primeiro.

Pensei que me ias perguntar o telefone. O e-mail é portuguesfalado@observador.pt e o telefone começa por nove.

Eu fiquei com esperança. Começaste com tanta vontade a dizer, achei que ias dizer mesmo. 91 002 41 85.

91 002, essa parte já conseguimos. Vamos devagarinho. 91 002.

41 85.

Para a semana eu decoro o resto.

Ainda tenho esperança. Marco Neves, um grande abraço. Sigamos por aqui.

Até quarta. Obrigado.