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À quarta-feira também pode contar com o "Português Suave", sempre em podcast e também aqui na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva e estou com o ninja que a língua portuguesa já reconheceu: Marco Neves.

Olá, tudo bem? Hoje vou ter que te dizer uma coisa. Não é que eu não diga coisas nas outras edições.

Não ficas mudo.

Não, não fico mudo. Mas vou a um sítio que eu já não vou há muitos anos e por isso gostava aqui de anunciar. Pode ser que alguém esteja a ouvir e que possa também lá ir.

Certeza.

Vou ao Funchal.

E quem não estiver lá vai apanhar agora.

Vai apanhar o avião pra ir para o Funchal às 18h, na Feira do Livro do Funchal, hoje, quarta-feira, dia 25 de março. Estou a dizer isto pra quem ouvir mais tarde.

Pois, quem ouvir em podcast não leva o engano.

À vontade.

Sim, há motivos mais do que suficientes para ir.

Eu já há muitos anos que não vou. A primeira vez que eu fui à Madeira, primeira e única, foi quando tinha 16 anos, fui com meu avô.

A mim vai fazer agora um ano em abril e adorei. Gostei mesmo muito.

E gostaste?

Muito.

Eu também gostei quando tinha 16 anos e fui lá e lembro-me que foi a primeira aterragem de avião e sei hoje que foi uma aterragem complexa, mas eu não fazia ideia.

Se ultrapassaste aquela.

As aterragens pra mim eram todas assim, era a única que tinha. Não sabia, não tinha comparação. Mas estou com muita vontade de estar lá então no Funchal. Às 18h lá estarei a conversar sobre a língua portuguesa, sobre o que as pessoas quiserem.

E pra falar também sobre o teu novo livro, "As raízes da língua".

Sabes ajudar aqui a lembrar.

Sim, claro.

Exatamente. A todos os madeirenses fica a sugestão. Hoje temos aqui duas dúvidas, dois áudios, e vamos ouvir o primeiro, de Tiago Nogueira.

Então vamos a isso, vamos ouvir.

Olá, sou Tiago Nogueira. Desde já, cumprimentos pra o "Português Suave". Muito obrigado pelo vosso trabalho. Hoje lembrei-me que havia uma expressão quando eu era mais novo, que eu ouvia muito e que ultimamente não tenho ouvido. E nem sequer sei bem o significado. Sei o significado, não sei a origem, que era o "chi coração". E aquele chi, eu não percebo de onde é que vem esse chi. Se o Marco por acaso souber, é agradecido. Por acaso é uma palavra que já não tinha ouvido há algum tempo e lembrei-me agora. Muito obrigado e os votos de sucesso para o vosso programa.

De onde é que vem o chi?

Excelente pergunta.

Também tenho a mesma dúvida. Nunca me passou pela cabeça, mas também quero saber.

Os lexicógrafos, que fazem os dicionários, ou os etimólogos, que estudam a origem das palavras, às vezes também tentam escapar com o rabo à seringa, porque aqui temos um mistério. Na verdade, ninguém sabe de onde é que aquele chi vem. Os dicionários dizem, por exemplo, temos alguns dicionários, até alguns online, que dizem: "chi coração vem de chi mais coração". E eu: "até aí, nós percebemos".

Isso é lógico.

Mas estive a escavar um pouco, eu também não sabia, nunca tinha pensado, mas não se consegue perceber. O "Se Tiver Dúvidas" tem aqui uma explicação que se aproxima, que eu imagino que se aproxime da realidade, embora também não explique. Já agora, o "Se Tiver Dúvidas" diz: "Não se escreve chi coração com X, mas sim chi coração com CH. Significa abraço na linguagem infantil, é um abraço carinhoso. O elemento chi é de origem onomatopeica. Quando se dá um chi coração, emite-se um som semelhante ao da sílaba chi. O chi coração é o bracinho que vem do coração". Agora, a minha questão é: eu não imito chi. É possível que seja, mas não consigo imaginar qual é a ligação.

Eu acho que não.

Talvez quando a pessoa se abraça, diga: "Xi, já não te via há tanto tempo", não sei.

Se calhar pode vir daí.

Pode ser por aí. Mas é um mistério. Provavelmente é infantil. Os falantes são assim, criam palavras.

Mas é engraçado como é que uma coisa se cristalizou, como tu costumas dizer muitas vezes, e agora vamos procurar a origem ou tentar descobrir e não sabemos.

E é mais comum este problema do que nós pensamos, porque a língua cria-se quase toda, não toda, mas quase toda, na oralidade. As pessoas não andam a registrar com um bloquinho: "Acabei de inventar uma palavra". Elas nem notam que inventaram alguma coisa. E por isso nós ficamos, por vezes, sem saber de onde é que vem. É possível que seja uma onomatopeia, mas é difícil. Acho curioso também é que não sabemos de onde é que vem, mas sabemos o que é que é o CH.

E acho que toda a gente escreve com X, não é?

É possível.

Toda a gente, entre aspas.

Sim, eu por acaso também nunca tinha pensado na forma de escrever esta palavra, mas lembro de uma história com o meu filho, que eu não sei se já contei aqui. Quando o meu filho mais velho tinha uns cinco anos, fomos ao Porto e ele sai do carro e começa a dizer palavrões que nunca mais acabavam. Não sei se ele tinha ouvido alguma vez. No Porto, aquele nosso estereótipo. No Porto, sempre uns palavrões. Ele começa a dizer coisas que eu não fazia ideia que ele sabia. E eu, aflito, digo lhe: "Simão, olha, podes dizer as palavras todas que quiseres ou os palavrões todos, mas nunca digas chiló", que era uma palavra que eu inventei ali. Ele passou o dia todo e andou o dia todo a dizer: "Chiló". E eu: "Pronto, está bem". Ele depois perguntou-me o que queria dizer chiló, e eu: "Não te posso dizer, filho, é uma coisa muito séria, muito grave." Estou te a contar isto tudo por quê? Porque eu depois fiz aqueles pequenos vídeos que falamos aqui e expliquei esta história, as pessoas acharam muito engraçado e eu escrevi na legenda chiló com X, e uma pessoa muito indignada escreveu-me uma mensagem: "Então, mas isso não se escreve assim, escreve-se com CH". E eu caí.

Gostava que isto agora tivesse vídeo. Para as pessoas verem a minha cara.

Olhei para o comentário e pensei: "O que eu respondo?"

Exato. Foi inventado, não existe.

Neste caso, ao contrário do que eu tinha dito há pouco, eu até gostava que estava com um bloco de notas e apontei o momento em que inventei aquela palavra, e por isso a palavra escreve-se como eu digo, como eu quis.

E pais, têm aqui uma alternativa, quando os filhos estiverem a dizer palavrões.

Ponham-nos todos a dizer xiló.

Xiló. Vamos criar uma trend. Não, uma trend não é português.

Uma tendência.

Uma tendência.

Xiló quer dizer uma tendência. Estou a brincar. Não sei o que xiló quer dizer, algum órgão do corpo humano, se quiserem, mas ponham as crianças a dizer xiló. E vamos ao segundo áudio.

Vamos. É do Ricardo Costa.

Boa tarde, Marco. Eu desde sempre tenho aqui uma dúvida e agora no nosso último almoço de família suscitou aqui um belo debate. E esse debate é se se diz escumadeira ou espumadeira. Um abraço.

E agora? O almoço vai azedar?

Não, eu vou ter de dar, mas com razões históricas bastante sólidas, aquela resposta que as pessoas por vezes não gostam, que é: as duas estão corretas. E eu vou explicar porquê. A própria palavra espuma, escumadeira ou espumadeira, é uma peça que permite fazer escorrer a espuma da massa ou o que for. Vem de espuma. E esta palavra tem origem numa palavra germânica que é scum, e foi dita e existe em português nas duas formas. Escuma é muito mais rara, mas espuma é uma versão correta para espuma. Aliás, noutras línguas, espuma é a versão mais usada. Nós temos, por exemplo, palavras que vêm de escuma, por exemplo, escumalha. Escumalha é um insulto, é de escuma, é a espuma no sentido da parte mais inútil, se quisermos, da sociedade, é um insulto. Portanto, escuma e espuma existem e espumadeira pode ser escumadeira e por isso as duas estão bem e não sei se resolvo o problema do jantar do Ricardo Costa.

Diagnosticado pelo Ricardo Costa.

Eu às vezes recebo estas perguntas e fico muito contente. Recebo as perguntas de alguém que diz: "Estávamos a discutir ao jantar".

Sim. E depois pensam assim: "Mas alguém que nos pode ajudar?"

Eu fico muito contente.

Marco Neves.

Ou então podem enviar para o WhatsApp, queres dizer, já agora?

91 002 41 85, para nos enviar áudios.

Mas enviem mesmo no momento em que estão no jantar.

Sim, nós queremos receber.

Digam em conjunto.

Enquanto estiverem todos juntos. Não enviem assim, como o Ricardo fez. Aliás, podem enviar.

Claro, sim, Ricardo, obrigado. Não estamos a criticar.

Mas nós gostávamos de receber um áudio no preciso momento em que estão a discutir sobre isto. Pode ter três minutos, nós ficamos aqui a assistir e vamos comentando por cima.

Já recebi muitas mensagens a dizer: "Eu estou aqui a discutir com a minha namorada ou com o meu namorado e temos esta dúvida" e eu penso: bem, é estranho as pessoas estarem em conjunto e estarem a discutir sobre isto.

Nós queremos ser moscas, queremos estar lá.

Envie em conjunto. Vamos fazer este desafio. Mensagens de áudio em conjunto. Duas pessoas, três pessoas, um jantar inteiro, mas queremos receber essas dúvidas.

Não se aleijem. 91 002 41 85. E também há o e-mail, mas no e-mail não podem enviar áudio.

Exato. Quer dizer, podem, mas é mais difícil. É preciso fazer a exportação.

Sim, dá mais trabalho. Qual é o e-mail, Marco Neves?

portuguessoave@observador.pt.

Muito bem.

E agora tenho de ir para o Funchal.

Pois é, tens um voo para apanhar. Ficamos por aqui. Voltamos no domingo. Um abraço e bom trabalho, Marco.