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Está no ar o "Português Suave", na Rádio Observador. À quarta-feira, o episódio é para os nossos ouvintes com dúvidas, lamentações, queixas, queixumes, mentiras, quem sabe. Marco Neves, olá, bem-vindo.
Hoje é o dia delas. Olá, João, tudo bem?
Está tudo bem.
Hoje é o dia das mentiras. Não te vou pegar uma mentira, mas vou te dizer uma verdade. Eu não estou no estúdio, como sabes.
Não estás aqui ao meu lado, não.
Não, não estou aí. Estou aqui a passar uns dias com os meus filhos, com a minha mulher e com os meus pais. E também vou aproveitar para falar com alunos de português aqui na zona de Valência, em Espanha. Mas depois conto como é que correu. Ficaram na mentira, é verdade. Mas podemos falar de mentiras da língua portuguesa. Aliás, se calhar vamos ouvir o primeiro áudio, que no fundo traz-nos aquilo que eu posso considerar uma mentira da língua portuguesa.
Ajuda-me só aqui, Marco, é de quem? Qual é o áudio que vamos ouvir?
Abel Santos.
Ok, vamos ouvir.
Olá, Marco Neves. Fala Abel Santos, de Viseu. Tenho saudades tuas ou tenho saudades de ti? Se as tenho, são minhas, não são tuas, certo? Obrigado.
É uma boa observação. Digamos que se aproxima daquela pergunta clássica do "queria, já não quero". Porque é verdade, de facto, quando nós dizemos "queria", estamos a falar do pretérito imperfeito e por isso do passado, e por isso parece não fazer sentido. Mas eu considero que este não fazer sentido do "saudades tuas" é uma mentira. Neste caso, uma brincadeira. O Abel obviamente estava aqui a meter-se connosco, que é uma boa expressão, meter-se com alguém. Mas eu vou explicar por que razão é que isto está bem, por que nós podemos dizer "saudades tuas" ao lado de "saudades de ti". É como, por exemplo, se eu disser: "Eu estou à tua procura." A procura não é tua, é minha. Quer dizer, eu é que estou à procura. No fundo, o "tua" e o "teu" substituem sempre o "de ti". Não é só o possessivo. Nós não usamos o "teu" ou "tua", que neste caso são determinantes, podem ser pronomes, mas neste caso estamos a usar como determinantes, não usamos só quando temos alguma coisa, quando possuímos alguma coisa. Também é quando alguma coisa está relacionada com a pessoa. Por exemplo, a minha terra não é minha, eu não a possuo, mas está relacionada comigo, é de lá que eu sou. Tecnicamente, aqui, o "tua" é uma sobrevivência daquilo que podemos chamar o caso genitivo do latim. Ou seja, um caso genitivo era uma forma dessas palavras.
Genitivo. Que palavreado.
É um bocadinho estranho. Nós em inglês conhecemos o caso possessivo, quando aprendemos inglês. Quando se põe aquele S no final, é o caso possessivo, que em geral indica posse, mas também nem sempre. O latim tinha o caso genitivo, ou seja, as palavras ganhavam uma forma diferente quando respondiam à pergunta: de quem? Portanto, quando eu digo: à procura de quem? À tua procura, o "tua" responde à pergunta "de quem?"."Saudades tuas" é a resposta à pergunta: saudades de quem? Tuas. Também podemos, neste caso, ter a posse. O livro de quem? O teu livro. Portanto, neste caso, sim, é posse. No fundo, aqui o "tuas" não quer dizer que as saudades sejam possuídas por ti, mas sim que respondem à pergunta "de quem?"."Pronto, foi uma resposta um pouco mais técnica, se calhar, do que é habitual, mas só para explicar que não é um problema.
Às vezes também é preciso.
Sim, às vezes também é preciso. E não é um problema. E eu já vi várias teorias espalhadas, às vezes as pessoas que partilham aqueles textos sobre erros comuns da língua portuguesa e aquelas listas que nós também recebemos por e-mail, e de vez em quando aparece este, mas não é erro dizer "saudades tuas". Não só não é erro, é equivalente a dizer "saudades de ti", é verdade, mas eu até acho que é mais elegante dizer "saudades tuas". Mas isto já é uma questão subjetiva.
Muito estética, no fundo.
Exato. E agora temos uma pequena observação sobre o "xi coração" do Hélder Mota.
Nós recebemos tantas mensagens sobre isso. Há pessoas que elaboram, até no Spotify, já lá vamos também, teorias para o "xi coração". Vamos ouvir.
Boa tarde. Eu acabei de ouvir o vosso programa Português Suave, na Rádio Observador, em que hoje o enigma seria de onde é que viria a expressão "xi coração". Ora, eu quero participar e dizer que, na minha teoria, o "xi coração" não é mais do que quando nós damos um abraço, fazemos um X com os braços e tocamos coração com coração. Daí, a expressão original seria "xis coração", que depois evoluiu para "xi coração". Espero ter ajudado, não atrapalhado. Obrigado por me deixarem participar e desejo as melhores felicidades para o programa. Muito obrigado.
Um abraço aqui para o Hélder Mota. Marco Neves.
Muito obrigado.
Vamos acrescentar isto ou não?
Não, eu não tenho muito a dizer. Nós podemos ter todas estas teorias, como eu disse naquele episódio, nós não temos a certeza. Eu queria ouvir aqui o Hélder apenas porque é engraçado e, se calhar, até terá alguma coisa a ver com isso, mas eu não posso confirmar nem desmentir. Hoje é dia das mentiras, ficamos com esta, talvez verdade, talvez mentira, mas é interessante e também mostra como nós, quando temos algum mistério na língua portuguesa, gostamos também de imaginar o que está por trás. É a única coisa que eu tenho a dizer. Não posso confirmar o que o Hélder Mota diz.
Nós recebemos aqui também um comentário no Spotify, Adjar, acho que é assim que se diz: "Não sei se ajuda a visualizar a situação do som 'xi', mas lembro-me de, em pequenita, abraçar os meus pais enquanto dizíamos 'xi coração', possivelmente levemente de guincho." Não fiz essa parte do guincho.
Aqui pode ter acontecido. Da palavra, que não se sabe bem de onde, a pessoa depois começou a ter esse hábito de dizer o "xi coração". É um bocadinho uma pesca de rabo na boca, não sabemos o que apareceu primeiro, se este "xi" dito quando as pessoas se abraçam ou se as pessoas se abraçam a dizer "xi" porque já têm a palavra antes. Marco Neves, ainda temos aqui tempo para mais um áudio, se quiseres.
Então vamos ouvir o Bernardo Vaz.
Vamos lá.
Olá, Marco. Olá, João. Antes de mais, muitos parabéns pelo vosso programa, que é uma excelente companhia de podcast no meu carro. Meu nome é Bernardo Vaz e tenho aqui duas dúvidas para o Marco. A primeira é a palavra carioca, as suas origens e diferentes significados, porque sabemos dos nossos irmãos do outro lado do Atlântico, da cidade do Rio de Janeiro, que são os cariocas, e depois temos a nossa famosa bebida, o carioca, e variantes de carioca de limão, por exemplo. A segunda pergunta é a respeito da palavra cínico e do seu significado. Temos aqui familiares que ou vão para o significado de ser uma palavra que significa falsidade, hipocrisia. Precisávamos de ser elucidados por si. Obrigado, Marco, e muitos parabéns, mais uma vez. Um abraço.
Marco Neves, achas que só vamos ter tempo para o carioca?
Exato, só vamos ter tempo para o carioca e vamos deixar os cínicos para o próximo episódio. Fica cá, mas eu vou dizer que nós sabemos de onde é que vem a palavra carioca, vem do tupi antigo, e é um nome que se dava a uma antiga povoação onde é hoje o Rio de Janeiro. Eu não sei dizer isto bem em tupi antigo, mas será algo como carioca. E desta palavra apareceu o carioca, o adjetivo que nós damos aos habitantes do Rio de Janeiro, ou mesmo o nome que lhe damos, um carioca. Como é que isto passou para o café já é mais difícil de saber. O Brasil tem muita importância na produção do café e na venda do café. É uma boa investigação, tal como também já chegamos a falar sobre bica e sobre de onde é que vem a palavra bica cá em Portugal. Mas o que eu imagino aqui, e vou tentar confirmar, e se algum dos nossos ouvintes tiver alguma informação que nos possa ajudar, é que tenha havido alguma relação com a venda do café a partir do Brasil e que aquele tipo de café tenha sido associado de alguma maneira ao Rio de Janeiro. Não sabem como. Agora, que a palavra vem do Rio de Janeiro e que vem do antigo tupi e que é uma palavra da América do Sul, que depois veio para Portugal, disso os etimólogos não têm dúvidas. É uma palavra que vem mesmo do Rio de Janeiro. Digamos que já se refere àquela zona ainda antes de lá se falar português. Agora, fica o mistério do café e fica também o mistério dos cínicos, não é?
Sim, vamos deixar para um próximo episódio.
Vamos deixar para um próximo episódio. Sim, exatamente.
Bernardo Vaz, vai ser respondido. Não nos esquecemos. Nós aqui no nosso documento deixamos sempre notas para os próximos episódios, portanto nada fica esquecido. Marco Neves, nós estamos de regresso no domingo. Domingo de Páscoa, portanto vais trazer amendoas, suponho.
Sim, e desejo uma boa Páscoa a todos os que acompanham o "Português Suave". Nestas viagens que fiz na última semana, na Madeira, no Porto, e aqui ainda não falei com ninguém e também não sei se é tão comum assim, mas muitas pessoas vinham falar comigo sobre o "Português Suave". Portanto, aqui um cumprimento a todas.
Dúvidas já sabe.
E algumas enviaram um abraço ao João.
Boa, obrigado. Também agradeço e envio um abraço de volta. Dúvidas para portuguessuave@observador.pt ou através do nosso WhatsApp, que é o 91 002 41 85. Um grande abraço, Marco, e boas férias.
Abraço. Obrigado.