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Português Suave na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva, está comigo o Marco Neves neste dia 18 ou dezoito de março.
O meu vou dúvida. Já falámos disso aqui, já não sei quantas.
Eu digo mais vezes dezoito, por acaso.
Mas é por quê? Porque estás cá em Lisboa ou sempre disseste dezoito?
Não, eu sou um camaleão, no fundo.
Que é o que todos somos, não direi. As pessoas não são.
Adaptam-me muito facilmente.
Mas é uma boa descrição do que acontece com muitas pessoas quando se movem pelo território da língua.
Basta eu ter um telefonema com a minha mãe, que eu transformo-me e troco osês pelos zes.
Aqui em Lisboa tens o sotaque diferente. O camaleão é mesmo. E aliás, já foi mais. Eu posso dizer, e este é um excelente tema, que se nós aterrássemos, nós não temos gravações, claro, mas tudo indica, tendo em conta tudo o que nós sabemos, se nós aterrássemos, por exemplo, nos primeiros séculos da língua, as pessoas faziam isso com muita naturalidade. Uma pessoa que vivesse em várias terras e andasse, também ia mudando com a terra. Sempre foi assim com a humanidade. Só desde que há uns 200 anos temos uma ideia de que há um padrão que tem de ser seguido, e que algumas pessoas depois ficam demasiado presas a essa forma muito particular de falar. Mas isso é uma discussão interessante, e também entre línguas, as pessoas também são camaleões entre línguas. Temos uma primeira dúvida, não sei se queres ler essa.
Posso ler. A dúvida é do Tiago. Antes de mais, diz que o nosso programa é excelente, nós agradecemos. A dúvida do Tiago é relacionada com as palavras casal e casamento. Ele diz que muitas pessoas discutem o uso para situações que não se referem especificamente a um homem e uma mulher, chegando mesmo a alegar que não se trata de homofobia, mas sim de uma mera desadequação desses termos a uniões não heterossexuais. E ele pergunta: "Linguisticamente, é minimamente defensável que o uso destas palavras se restrinja às uniões entre homem e mulher?"
Aqui a questão é, o que o Tiago está a perguntar é: será que na origem o significado casal era apenas uma união entre homem e mulher e depois passou a ter outros significados porque a sociedade mudou? Neste caso, até é um pouco ao contrário. Casal vem de casa e de o lugar onde as pessoas viviam, e é essa a origem da palavra, não indicava o sexo das pessoas que viviam na casa. Claro que, sendo tradicionalmente o casal que está na casa sendo constituído por homem e por mulher, ganhou esse significado, passou a ganhar esse significado, que agora mudou e passámos a ter um significado mais alargado. Linguisticamente, não há nada que implique que tenha de ter, pelo menos em português, atenção que isto pode ser diferente de língua para língua. Linguisticamente, não há nada que obrigue a que usemos casal apenas para um homem e para uma mulher. E na verdade, os dicionários fazem precisamente isso, têm lá os vários significados.
Ou seja, não fazem essa distinção.
Têm lá os vários. O casal pode ser um homem e uma mulher ou então com o mesmo sexo.
No fundo, atribuir outro nome para um casal, sendo ele entre um homem, dois homens ou duas mulheres.
Linguisticamente, não há, nem na origem, nem na forma como as palavras podem mudar ao longo do tempo, não há nenhuma razão para impedir que o casal seja usado para um casal homossexual.
Não sei se percebeste, eu acabei por dizer dois homens ou duas mulheres e um homem. Já inventei também aqui um trisal, que também já existe. Mas aí já é outro nome, já é trisal, já não é casal.
Mas aí já temos uma discussão um pouquinho mais alargada, que já muda de língua para língua, porque, por exemplo, em inglês nós usamos couple e aí tem de ser só dois. Mas não vamos por aí. Vamos só responder à pergunta particular que nos foi transmitida. Vamos agora a mais uma dúvida do Renato Magalhães.
Vamos ouvir.
Olá, Marco e João. O meu nome é Renato Magalhães. Antes de mais, muitos parabéns pelo vosso programa. Gosto muito e tento não perder nenhum episódio. O que me traz aqui é uma dúvida sobre o uso da segunda pessoa do plural. Ora, sendo eu do concelho de Vila Real, sempre cresci a usar a segunda pessoa do plural, ou seja, o vós. Onde é que vós ides? Trazei-me aquele objeto. Acontece que vim estudar para Coimbra e acabei por conhecer aqui vários colegas. Arranjei, inclusivamente, também uma namorada que é da zona de Santarém. E aquilo que eu me fui apercebendo, ao conviver com eles, foi que mais ninguém usa essa conjugação verbal. Basicamente, a segunda pessoa do plural simplesmente não existe. Aquilo que todos usam é: tragam-me aquele objeto, onde é que vocês vão. E a minha dúvida era por que a segunda pessoa do plural não existe? Será que está mais restrita simplesmente ao Norte interior? Será que foi sempre assim e caiu em desuso nas restantes regiões? Existe alguma posição oficial? É porque, em verdade, onde vão, o que está aqui em uso é a terceira pessoa do plural, ou seja, eles. Enfim, peço aqui a vossa ajuda, a desvendar este mistério e muito obrigado desde já e um abraço aos dois.
Obrigado, Renato. Eu sinto que há ali uma discussão entre namorados, por trás. Antecedentes. Há aqui uma certa tensão, que faz parte também da brincadeira, do fato de nós ouvirmos de sítios diferentes. Esta é uma questão conhecida e um pouco complexa, e não é só do português. Há muitas mudanças deste tipo em várias línguas. Posso apontar para o inglês, que tinha, e neste caso não é exatamente a mesma situação Na mesma área de problemas. Os ingleses tinham uma forma pra segunda pessoa do singular, "thou art", tu és, e tinham uma forma pra segunda pessoa do plural, "you are". Portanto, o "you", em inglês, era o vós. E, no entanto, o "you" acabou por invadir o tu, o "thou", e o "thou" hoje não se usa. Temos aquela sensação quando vemos um texto inglês em que aparece "thou art", como aparece num soneto de Shakespeare, em que ele é muito formal, tem uma coisa assim muito floreada, mas na época seria normalíssimo, era o tu. Aconteceu uma coisa parecida, mas não com as mesmas pessoas. Nós tínhamos em português, tínhamos e temos, atenção, como diz o Renato, continuamos a usar em diferentes sítios do país, não desapareceu, o vós ides.
Não diz respeito só a esta região de Vila Real. Está presente em mais pontos do território.
Sim, mais para norte. Não tenho o mapa na cabeça, exatamente, do território, mas isso está no território e nos livros de português, porque os alunos da escola encontram isso muito bem.
As pessoas da zona de São João da Madeira usavam bastante.
E as pessoas mais novas?
Depende. Já nem tanto, mas notava isso mais nas pessoas mais velhas.
Mas nos livros portugueses tá lá. Os meus filhos, em Lisboa, aprendem vós ides, têm de aprender a recitar. Acham estranhíssimo. É daqueles pontos da língua que só encontram na escola. E por isso acham estranho, mas está lá. Agora, o que aconteceu aqui foi: nós temos as formas tu és, ele é, nós somos. Eu sou, tu és, ele é. Agora, reparemos, há aqui vários pontos desta polêmica. Reparem que no singular, nós também usamos a terceira pessoa quando queremos falar com alguém de forma mais respeitosa. Ou seja, eu digo tu és, mas se estiver a falar com alguém que não conheço, então, o senhor considera que isto é uma situação? Ou o senhor doutor. Evitamos, em Portugal, ou pelo menos na zona de Lisboa, evita-se a palavra você, é verdade, mas seria o pronome adequado aqui pra esta situação, porque vem de vossa mercê, mas usamos a terceira pessoa. O senhor vai, quer um café? Quer também é uma terceira pessoa.
Queria, já não quer. Isso é outra questão.
Portanto, eu digo: "Quer um café?" Não digo: "Queres um café?" Nós usamos a terceira pessoa habitualmente pra falar com alguém que não conhecemos.
Sim, com quem não temos tanta proximidade.
No plural, aconteceu a mesma coisa. Nós tínhamos o vós sois, que hoje soa a uma coisa muito antiga ou muito formal, mas era a forma banalíssima de nos referirmos à segunda pessoa do plural, ou seja, nós falávamos com um grupo e seria assim que qualquer pessoa falaria. Começamos a usar, naturalmente, a terceira pessoa como forma de respeito. Vossas mercês querem, vossas mercês preferem, vossas mercês vão à viagem. E este vossas mercês acabou por se reduzir para vocês. E este vocês vão, vocês querem, acabou por ser a forma habitualíssima e acabou por substituir, no uso normal, a segunda pessoa do plural, por este processo. A forma, e peço desculpa aqui por esta redundância fonética, a forma formal muitas vezes substitui a forma mais informal, porque as pessoas têm tantas dúvidas. Será que vou ser mais assim?
Às vezes é só esta a questão.
Sim, portanto, vossas mercês acabou por substituir o vós. Ele existe. Agora, há um outro problema, que eu se calhar vou deixar pro próximo episódio, que é a frase-
Diz lá, eu fiz-te o sinal do relógio.
Sim, exatamente. O João fez-me um sinal de cale-se.
Sutil, muito sutil.
Mas eu digo aqui que no próximo episódio, se calhar já no domingo, falaremos de: voltem para os vossos lugares. Sentes alguma coisa estranha nesta frase?
Não.
Pronto, então veremos a estranheza que lá está inscrita.
Ok.
No domingo.
Fica no ar o suspense. Dúvidas para o e-mail marconeves, diz lá.
portuguessuave@observador.pt.
Muito bem. E através do nosso WhatsApp, 910024185. Queremos ouvi-lo, portanto envie as suas dúvidas através do nosso WhatsApp. Nós estamos de regresso no domingo. Um abraço, Marco.
Um abraço.