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Miguel, Francisco Rodrigues dos Santos falou várias vezes nas responsabilidades, disse mesmo que assumir os nossos erros é um ato de coragem. Conseguiste perceber quais foram os erros que Francisco Rodrigues dos Santos cometeu nos últimos anos?
Consegui. Na opinião dele, nenhum. Tivemos uma vaguíssima referência aos erros assumidos. Ele diz metade de uma frase: "Quero assumir as minhas responsabilidades pelos erros cometidos." Pronto. Isto aparece ali no meio do discurso, mas todo o resto é dedicado a explicar porque os erros são dos outros, a explicar que o problema foi do governo da PAF durante o tempo da Troika. Afinal, aquilo que supostamente o governo patriótico que salva Portugal da bancarrota, agora é uma fonte de problemas. Aquilo que ele diz ser a descaracterização e o deslumbramento do CDS, está se referindo a duas coisas: ao deslumbramento de Assunção Cristas depois do resultado inesperado que teve em Lisboa, em que ficou à frente do PSD.
Nas autárquicas.
E àquilo que ele considera a descaracterização do partido, a transformação do partido na direita fofinha e liberal, esquecendo os valores mais conservadores da família e da defesa da vida. Culpa essa direção da Assunção Cristas pelo nascimento do Chega e da Iniciativa Liberal e depois culpa os seus adversários internos. Agora, não há uma única vez em que Francisco Rodrigues dos Santos diga: "Eu fiz uma avaliação errada disto, eu escolhi a estratégia errada naquilo." Não, ele fez tudo bem e, portanto, a culpa é dos outros. Isto é a repetição do discurso de Francisco Rodrigues dos Santos desde o dia em que foi eleito. Nada muda. No momento da despedida, nada muda. Aliás, ele chega a dizer numa frase: "A minha decisão de não me recandidatar é o único ato ao meu alcance que me permite assumir as responsabilidades pelos erros", mas depois diz "de todos", não é dele, é pelos erros de todos. E depois diz: "Libertá-los da culpa", libertá-los a eles, não a si próprio, "e dar ao partido uma nova oportunidade", etc. Nada de novo.
E num discurso que começou com Francisco Rodrigues dos Santos a dizer que no tempo dele não houve lugar para ajustes de contas, há aqui, de certa forma, também algum ajustar de contas. Estou a lembrar, por exemplo, daquele momento em que Francisco Rodrigues dos Santos fala daqueles que querem transformar o partido numa associação de egoístas que se comportam como donos do partido.
Sim, mais uma vez, este foi o discurso que o levou à liderança há dois anos. O partido estava cansado dos chamados portistas, que mandavam no partido há muito tempo. Paulo Portas esteve muito tempo na liderança do partido e, portanto, obviamente, os seus mais próximos estavam nos lugares de destaque do partido e Francisco Rodrigues dos Santos ganhou as eleições com esse discurso. Portanto, de facto, a militância do CDS queria uma nova liderança. Simplesmente, Francisco Rodrigues dos Santos não foi capaz dessa nova liderança e ele que se candidatou dizendo que uma das suas grandes vantagens era não estar no Parlamento porque poderia estar mais perto das pessoas, depois passou toda a sua liderança em guerra com o grupo parlamentar. Culpas de um lado, culpas do outro, seguramente. Mas a verdade é que um líder é que tem que conseguir arranjar forma de tirar o melhor do seu grupo parlamentar e, portanto, ele tinha a obrigação de conseguir arranjar uma forma de vida com o seu grupo parlamentar. Não conseguiu e passou o tempo todo, aliás, convém lembrar, Francisco Rodrigues dos Santos tinha uma hipótese de chegar ao Parlamento. Francisco Rodrigues dos Santos foi o número dois da lista pelo Porto. Cecília Meireles foi a número um e a forma de ele chegar ao Parlamento era Cecília Meireles sair do Parlamento e Francisco Rodrigues dos Santos e a sua direção passaram o tempo todo a desgastar Cecília Meireles para que ela saísse do Parlamento e pudesse ser substituída por Francisco Rodrigues dos Santos. Pronto, foi uma estratégia falhada, não conseguiram, ela não cedeu e com isso foram desgastando o partido. Agora, é um péssimo começo para este congresso. Não é que se pudesse estar à espera.
Mas achas que pode marcar agora, de alguma forma, o tom do congresso e ser um congresso crispado, como este discurso acabou por ser, de certa forma? Ou, de facto, aqueles apelos à unidade e à serenidade que ouvimos no início vão ser agora levados a sério por quem for falar a seguir?
Não sei como as pessoas próximas de Francisco Rodrigues dos Santos estão a ler o que se passou aqui. O que tivemos aqui, de facto, foi uma receção gelada a Francisco Rodrigues dos Santos. Mesmo o discurso teve alguns aplausos vagos, todos vindos sempre das mesmas filas.
E até que ele viva o CDS final, foi difícil conseguir que o congresso gritasse viva.
Mas seria impossível conseguir outra coisa, porque 98% do discurso do Francisco Rodrigues dos Santos foi recriminar uma parte substancial do partido. Portanto, seria impossível ele conseguir sair daqui em ombros. Saiu em braços, precisamente, não saiu em ombros. E por isso ele proclama a pacificação e depois todo o discurso é de recriminação. Portanto, assim não consegue ir lá. Este congresso está a começar muito mal Para o CDS, o episódio do chumbo ao relatório do Conselho de Jurisdição do partido foi também muito revelador. Vamos contar mais detalhes sobre isto no Observador daqui a pouquinho.
Já tínhamos Diogo Feio a dizer que não tinha noção do relatório, nem de qual era que seria.
Sim, basta contar isso. Quando o presidente da mesa diz: "Vamos agora votar o relatório da comissão", diz: "Bom, e estava aqui previsto que Diogo Feio ou Miguel Alvin viessem aqui defender o relatório. Algum deles está aí?" Silêncio, não estava ninguém. E então vão votar, chumbam. Nós vamos falar com o Diogo Feio, que diz: "Eu? Defender o relatório? Não sei que relatório é esse, nem sei do que estou a falar. E até digo mais, eu também acho que o que este órgão fez, do qual é vice-presidente, muitas dessas coisas estavam mal". Enfim, e a história torna-se ainda mais deprimente, não acaba aqui, nós estamos a reunir os detalhes sobre isso, mas esse episódio mostra o abandono, a displicência, o amadorismo com que o CDS está a viver neste momento. Depois, este discurso do líder que sai e que é um discurso de recalcamento que permanece. E há um outro ponto que eu devo te dizer, este congresso é muito especial. Nos congressos normais, aquilo que acontece foi o que aconteceu aqui. Nós tivemos Nuno Melo a chegar também aqui ao 12h30, entrar na sala ao 12h30, logo a seguir a Francisco Rodrigues dos Santos, e a ser recebido com aplausos. Eu devo te dizer que se eu fosse Nuno Melo, eu tinha sido o primeiro a chegar neste congresso. O partido está à beira da morte, como toda a gente aqui sabe, e está a comportar-se da mesma maneira como se comportaria se não estivesse à beira da morte.
E na verdade, Nuno Melo chegou até primeiro do que Francisco Rodrigues dos Santos aqui ao Pavilhão Multiusos de Guimarães e demorou, foi entrar depois aqui na sala, entrou só depois de Francisco Rodrigues dos Santos.
Sim, mas chegou por volta do final da manhã. Eu, simbolicamente, não quero ter nada a ver com partidos, nem com política e longe de mim, mas eu acho que teria sido um bom sinal para Nuno Melo mostrar que não há tempo a perder e que quer fazer tudo e trabalhar para o futuro do partido, era estar aí de manhã cedinho.
Pela fresca.
Pela fresca, aqui a acompanhar tudo. Mas não, é a política de sempre, é chegar já depois do brunch para ouvir os aplausos de uma sala cheia. Vamos ver, isto está tudo no começo, atenção.
Ainda temos muitas horas.
Temos muitas horas, vai muita gente falar, vamos ter que perceber como é que o partido está, mas para início, não está bom