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Depois de um primeiro mandato em que prometeu o combate à corrupção e o desenvolvimento do país, Dulce, João Lourenço pede a continuidade.
Sim, João Lourenço pede a continuidade, enquanto Adalberto Costa Júnior pede a mudança. E estas duas linhas, enquanto que um se tem focado sistematicamente na paz, na estabilidade, na continuidade da governação que tem estado a fazer, o outro tem apelado sistematicamente à alternância, à mudança, à necessidade de ter uma outra experiência no espectro governativo. Estas têm sido as duas visões em campo e hoje, que é o último dia de campanha, ele vai, aliás, ser marcado pelo comício de encerramento da campanha da UNITA em Luanda, no bastião tradicional do MPLA, um dos maiores subúrbios da capital, o Cazenga. Ainda há pouco eu falava com alguém que vive neste município, que é como os angolanos referem a estes grandes aglomerados, que me disse que eles estão a mudar, ou seja, já não serão tanto do MPLA, mas sim da UNITA. Eu passei lá à tarde de sexta-feira e nas ruas encontram-se as duas tendências, mas não é de crer que a UNITA escolhesse encerrar a campanha num local que não lhe garantisse uma boa multidão. Já João Lourenço fez o seu comício de encerramento no sábado, um enorme comício, aquilo a que chamam um grande ato de massas no Camama, em Luanda. Agora tem-se vindo a desdobrar em encontros com grupos de população, depois de ontem ter estado presente no grande culto ecuménico no Estádio 11 de Novembro. Ontem esteve com os jovens e hoje a partir das 10h, a partir de agora, está num encontro com mulheres. Só um detalhe: esta era a única atividade do MPLA de que as jornalistas tinham conhecimento, mas ontem à noite foram convocados para uma conferência de imprensa para análise do momento político atual para as 14h. Pormenor, o comício da UNITA começa às 13h30. E este detalhe mostra apenas como os dois principais partidos concorrentes estão, como tu dizias há pouco, num sprint final antes de quarta-feira, quando 14 milhões de angolanos vão às urnas.
E nós, Dulce, não acreditamos em coincidências. Neste último dia de campanha, como é que estão os angolanos a encarar estas eleições?
Com uma forte mobilização para o voto. Há 10 minutos falava com um jovem de 24 anos que vai votar pela primeira vez. Nota-se muito esta vontade dos jovens de intervir. Ele dizia mesmo que não queria continuar arredado do seu poder de escolha e que não estava de todo satisfeito com a situação atual. A julgar pelo que se ouve nas ruas de Luanda e nos subúrbios, que eu tenho ouvido, são muitos jovens que pedem a mudança. Os mais velhos, alguns mais velhos, são muito mais prudentes. Viveram a guerra e têm muito medo de qualquer tipo de instabilidade. Eles, aliás, diziam mesmo: "Esses jovens que falam, eles não sabem o que são as dificuldades, o que é o terror de viver sob a guerra". Por isso, ainda há muito este fantasma, diríamos assim, nas pessoas com mais de 40 anos. Além da mobilização, há obviamente muita expectativa.
E há também esse conflito direcional, digamos assim. Pergunto agora, para terminarmos, se mantém o receio de que possa existir algum tipo de conflito nos dias depois das eleições.
Sim, esse receio tem estado aqui permanente em todas as conversas que vou tendo e em geral. Aliás, ontem houve um grande culto ecuménico no Estádio 11 de Novembro. Estavam lá seguramente mais de 30 mil pessoas, algo que foi organizado por várias igrejas cristãs de Angola, onde esteve João Lourenço, o representante da UNITA e também o líder da Casa-CE, ou seja, as terceiras maiores forças políticas com assento parlamentar estiveram presentes. E foi a primeira vez em que nós vimos elementos da oposição juntos e, ao mesmo tempo, poder-se-ia dizer, todo o regime. Estavam lá os ministros, os secretários de Estado, o presidente da Assembleia Nacional, vice-presidente, enfim, foi de facto, podíamos dizer, um momento que juntou o regime e a oposição. E o tom era paz, estabilidade. Era mesmo para orarem sobre as eleições e houve vários apelos a não reagirem a provocações, a se manterem calmos, a orarem antes de votar, depois de votar. As pessoas não falam propriamente em conflitos, mas todos aguardam protestos, seguramente. Isto se, principalmente, o resultado da UNITA não refletir o entusiasmo que se sente nas ruas em volta de Adalberto Costa Júnior. Na sexta-feira, ainda em Cazenga, um tal município com mais de dois milhões de habitantes, um dirigente de um movimento cívico juvenil dizia mesmo que podemos estar sentados em cima de material explosivo.