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Antes de mais, voltamos também um pouco à história. Boa tarde, Rui Ramos, historiador. Rui Ramos, já ouvimos aqui há pouco Jaime Nogueira Pinto falar dessa faceta de historiador, que é por vezes esquecida, de Vasco Pulido Valente. Não sei se é isso que quer sublinhar também nesta tarde em que assinalamos a morte de Vasco Pulido Valente.

Sim, o Vasco Pulido Valente era conhecido do grande público, e muito justamente, como um dos grandes autores de prosa na imprensa. Ele é um dos grandes colunistas, cronistas da história da imprensa portuguesa dos últimos 200 anos, a par de João Chagas, Ramalho Ortigão. Acho que vale a pena colocá-lo ao nível a que ele se colocou com o trabalho que fez durante muito tempo, isto é, ele escreveu nos jornais durante muitos anos e foi sempre relevante, foi sempre exemplar no esforço e no apuro que punha nas suas crônicas. Portanto, isso obviamente criou-lhe um público, um público que apreciava o estilo, mas apreciava também o ponto de vista dele. Ele era aquilo que em Inglaterra se chamaria um contrarian, isto é, uma pessoa que geralmente tinha uma opinião diferente daquilo que a maior parte das pessoas dizia. E isso correspondia não apenas a uma vontade de contrariar, mas também a uma visão, e uma visão relativamente estruturada, com uma perspectiva fundamentada sobre o país. E por trás disso tudo, isto é, por trás dessa argúcia e dessa capacidade de analisar, estava também o trabalho dele como historiador. E é um trabalho muito importante. Ele é autor de algumas obras que são referência na história dos séculos XIX e XX, que era aquela a que ele se dedicava. Ele começa com um livro muito importante, que é um desenvolvimento da sua tese de doutoramento na Universidade de Oxford, no princípio dos anos 70, que é "O Poder e o Povo", sobre a revolução republicana de 1910. Foi um livro que causou polêmica pela sua interpretação ousada quando saiu, mas que se impôs pela investigação em que estava baseado e também pela qualidade da reflexão. Ele traz muito para a história portuguesa uma perspectiva anglo-saxônica, digamos, numa historiografia que nos anos 70 é muito dominada pelas referências francesas, ele traz as referências inglesas, a Inglaterra, onde ele estudou, e portanto traz um ponto de vista diferente. E depois ele escreve, a seguir, interessa-se por outros temas, desde a classe operária, sobre a qual escreve um estudo importante sobre as conservas de peixe em Setúbal no princípio do século XX. Os militares, tem um trabalho muito importante sobre a relação entre os militares e a política no princípio do século XIX. E depois tem um outro livro muito original e muito importante, que é a "Glória", que é uma história do Vieira de Castro, que era um político muito conhecido em meados do século XIX, envolvido depois num crime passional. Mete o Camilo Castelo Branco, mete o Ramalho Ortigão, mete uma série de outros personagens. E ele consegue construir um livro publicado há cerca de 20 anos, uma obra de referência também em termos de uma história ousada. Portanto, ele como historiador e como professor universitário também, mas como historiador, tem uma obra extraordinariamente importante, que, claro, a sua reputação, a sua fama como cronista tendeu a deixar um bocadinho na sombra. Quer dizer, mas se tivesse só feito a sua obra de histórias, teria sido já um personagem importante da cultura portuguesa.

Já agora, Rui Ramos, enquanto falava, eu aproveitava também para dar aqui uma espreitadela numa entrevista que Vasco Pulido Valente dava em 2018, uma entrevista ao público em que lhe perguntavam quem é que na historiografia portuguesa escrevia bem e ele dizia: "O Rui Ramos não escreve mal, escreve bem". Portanto, já tinha sido devolvido esse elogio.

Eu tive o gosto e o proveito de ser colega do Vasco Pulido Valente no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde ele trabalhou durante muito tempo, era amigo dele, admirava-o. E enfim, simpatia dele, ele tinha aquela reputação de dizer mal de toda a gente, o que não era verdade. Havia também à volta dele uma lenda, como acontece com as pessoas que marcam muito a vida pública de um país. Ele marcou de outra maneira também com a sua intervenção política. Ele teve um papel na política portuguesa bastante importante. Foi uma das figuras Um dos protagonistas principais da Aliança Democrática em 1979, 1980. Um grande colaborador de Francisco Sá Carneiro durante o governo em-

Ainda chegou a Secretário de Estado da Cultura

...1980. Foi secretário de Estado, mas sobretudo era uma pessoa que estava muito próxima do Francisco Sá Carneiro e em quem Francisco Sá Carneiro teve uma grande confiança. Eu acho que isso era uma das mágoas do Vasco Luis Valente, foi precisamente a morte do Sá Carneiro, além da morte de alguém de quem ele tinha ficado amigo também. Mas era também uma pessoa em quem ele tinha confiado, em quem ele tinha acreditado para mudar o país e acabou de uma maneira trágica. Depois teve também uma relação mais complexa, de aproximação e afastamento com o Mário Soares. Colaborou na primeira candidatura de Mário Soares à Presidência da República. E portanto, ele teve um papel bastante importante também em termos políticos. E claro, depois teve a sua colaboração na imprensa, em que repito, ele atingiu o topo de autor da imprensa. Isso sem esquecer, obviamente, o intelectual que ele era. Era uma das pessoas que mais lia, incrivelmente informado. Ele tinha uma vida bastante recatada.

Era alguém que não escrevia de cor, que antes de escrever o que fosse.

Não escrevia de cor. Lia imenso. Era uma pessoa extraordinariamente escrupulosa no seu trabalho intelectual. Preocupava-se muito com a qualidade, com a certeza, e era muito aberto a críticas e a observações, procurava-as. Por vezes fala-se dele como alguém que escrevia bem. E obviamente ele escrevia muito bem, mas ele escrevia muito bem porque pensava também muito bem e pensava também muito bem porque estudava muito e trabalhava muito. Eu acho que isso é a razão pela qual, ao longo de 30 ou 40 anos em que ele colabora na imprensa, ele mantém-se sempre na linha da frente, enquanto uns vão, outros vêm. Há gente que estava na moda e que depois deixou de estar na moda. E se nós olharmos para a imprensa, para os colunistas da imprensa nos últimos 40 anos, há um nome que vem desde 1973, 74, quando ele começou a escrever com regularidade, até há poucas semanas, e é o nome do Vasco Luis Valente. Isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque ele trabalhava imenso. Ele era uma pessoa que trabalhava muito, lia muito, trabalhava muito a sua escrita, informava-se muito. Isso até ao fim. Quer dizer, eu acho que isso é aquilo que o caracteriza. Não era apenas alguém que tinha graça, não era apenas alguém que tinha jeito para escrever, era um trabalhador, era uma pessoa que se esforçava muito e se esforçou tanto no fim como se esforçava no princípio. O Vasco Luis Valente tinha isso, era alguém que nunca deu nada por adquirido. O Vasco Luis Valente que escreveu a última crônica há três ou quatro semanas, era alguém que se empenhava tanto a fazer aquilo como o Vasco Luis Valente que começou a escrever no Cinéfilo e depois Diário de Notícias, em meados dos anos 70. Era alguém que trabalhava muito, era muito disciplinado a esse respeito. E portanto, sim, tinha se tornado um personagem da vida pública portuguesa.

E podemos chamá-lo de um personagem controverso?

Sim, ele buscava a controvérsia. Ele não era alguém que procurasse consensos, não era alguém que procurasse agradar, não era alguém que procurasse dizer coisas com que toda gente concordava. Mas isso era o resultado, não necessariamente de um gosto da controvérsia ou de um gosto do choque, mas creio que era de uma exigência em relação a ele próprio. Eu acho que aquilo que mais o definia, eu conheci-o durante bastantes anos, era a exigência. Ele era muito exigente com ele próprio e acabava também por ser às vezes exigente com as outras pessoas. E havia quem ressentisse essa exigência. Mas era alguém que foi, do princípio ao fim, sempre muito exigente com ele próprio, muito severo, até com ele próprio, isto é, nos juízos que fazia sobre aquilo que ele fazia. Mas repito, era alguém que trabalhava muito, era alguém que lia imenso. Ele era talvez das pessoas que eu conheci em Lisboa que mais lia. Lia quase tudo. Interessava-se por imensas coisas na história, acompanhava aquilo que era publicado, ia lendo. Era raro sair um livro que tivesse algum interesse, que ele não conhecesse, que ele não soubesse, que ele já não tivesse lido. E, portanto, tinha toda essa bagagem.

E aproveitando, Rui Ramos, muito obrigado. Agradeço-lhe o contributo também neste jornal