Duarte Cordeiro opõe-se à formação de um bloco central que junte PS e PSD, a fim de fazer frente a uma potencial maioria do Chega. Entrevistado na manhã deste sábado pela SIC Notícias, o militante do PS, que desempenhou a função de ministro do Ambiente no último Governo de António Costa e apoiou a candidatura de António José Seguro à Presidência, refletiu sobre a gestão das acampadas pelo executivo de Luís Montenegro, a dirigência do PS e Mário Centeno — que foi eleito o favorito dos portugueses para desempenhar o cargo de primeiro-ministro.

A “incapacidade” do Ministério Público em relação à Operação Influencer e Vítor Escária também receberam um comentário do socialista.

A oposição ao Bloco Central

“Acho que o PS não deve fazer um bloco central com o PSD”, afirmou Duarte Cordeiro. Nas próximas eleições legislativas, “não defendo que o PS viabilize um Governo do Chega e também não defendo que forme um bloco central com o PSD”.

O socialista acrescentou que não deseja que o PSD constitua Governo com o Chega, mas que, se isso acontecesse, seria da inteira “responsabilidade do PSD”. “Para o PS é impensável viabilizar um Governo do Chega“, garantiu.

O socialista manifestou ainda o desejo de levar a atual legislatura até ao fim. “Espero que, em particular, o Governo tenha condições e bom-senso para levar a legislatura até ao fim”, admitiu o socialista. “Acho que existem condições para isso, até porque o Presidente da República também tem essa vontade. Não existe vontade, pelo menos do PS, para fazer eleições antecipadas.”

Mário Centeno para primeiro-ministro? “Penso que sim”

Questionado sobre se Mário Centeno daria um bom primeiro-ministro, após os resultados da sondagem realizada para Expresso e para a SIC, na qual o seu nome surge como favorito para o cargo, Duarte Cordeiro respondeu: “Penso que sim”.

Contudo, o socialista destacou que o secretário-geral do PS é José Luís Carneiro e não o antigo ministro das Finanças e governador do Banco de Portugal.

“Acho que ele tem estado bem, não tenho necessidade de me comprometer para além do trabalho que tem estado a fazer ultimamente”, disse sobre o atual dirigente socialista.

“Foi um erro Vítor Escária ter feito o que fez”, sem esquecer as farpas ao Ministério Público

Duarte Cordeiro criticou Vítor Escária, o antigo chefe de gabinete de António Costa que foi constituído arguido na Operação Influencer, após a apreensão de 75.800 euros em dinheiro que guardava no Palácio de São Bento.

“Foi um erro Vítor Escária ter feito o que fez”, admitiu o militante socialista e ex-ministro do Ambiente.

Cordeiro defendeu António Costa, que não tinha capacidade de prever aquilo que aconteceu. “Acha que era possível antecipar que um chefe de gabinete ia guardar 75.000 euros do seu dinheiro no gabinete?”, questionou.

“O Ministério Público está a analisar” o caso, continuou o socialista. “Não sei se decorreu algum tipo de ilegalidade, mas [Escária] foi altamente imprudente.”

Cordeiro destina ainda críticas ao Ministério Público, que, três anos depois da demissão de António Costa, continua a dificultar o acesso do atual presidente do Conselho Europeu aos documentos do processo, que continua sem desfecho.

“O Ministério Público não tem capacidade para gerir o processo. A taxa de eficácia é baixíssima. É, provavelmente, dos órgãos da Administração Pública menos capazes”, concluiu.

Acampadas e crise da habitação

Duarte Cordeiro criticou ainda os encontros promovidos pelo Governo com os líderes da oposição, que não conduziram a entendimentos sobre a habitação.

Na mesma entrevista, o socialista denunciou a “intransigência” do primeiro-ministro, que não permite uma participação significativa dos restantes partidos com assento parlamentar no debate sobre a habitação. “O Governo escolhe uma medida avulsa para dizer que houve participação”, mas demonstra “uma certa incapacidade de ceder”, apesar de não ter maioria absoluta.

“Este é um tema profundamente representativo de um mal-estar que existe na sociedade portuguesa e que divide gerações e pessoas com mais disponibilidade financeira e a maioria das pessoas que não tem capacidade financeira para ter uma habitação”, explica o antigo ministro do Ambiente, para quem a solução passa pela construção de casas.

“A lei do arrendamento como está, e também ouvindo as declarações do líder do Chega, não vai passar.”

Sobre as manifestações que acontecem há várias semanas em Lisboa e no Porto com recurso a tendas, Cordeiro afirmou que “o Governo não teve mão”.

O autarca de Lisboa, Carlos Moedas, também foi alvo de críticas, pois não tentou mediar ou procurar a coabitação dos manifestantes com a feira de Natal que se realiza no Rossio.

“Ele não existe, não faz mediação nenhuma”, continuou Cordeiro. “A figura do presidente da Câmara é uma figura inexistente neste momento.”

O socialista, que apoiou a candidatura de António José Seguro à Presidência, admitiu ainda que o Presidente da República “devia ter falado mais cedo”, mas que, quando o fez, “falou bem”.