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Bem-vindos ao "Realpolitik", uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro.
Eu sou o Sérgio José Pinto.
E hoje, Sérgio, vamos falar sobre o estado da nação e do governo. Vem aí o debate do estado da nação na Assembleia. Vamos falar sobre o estado do Reino Unido, onde o Nigel Farage vai ter como adversário, numas eleições intercalares, o conde Cara de Caixote de Lixo.
É o meu candidato.
Exato, é o teu. Agora vais ter que viver pra votar nele.
Grandes esperanças nesse conde.
Teu líder espiritual. Mas antes, Sérgio, temos esta enorme trapalhada criada pelo ministro Luís Neves, que está numa espécie de pântano em que quanto mais se mexe, mais se vai afundando. Não sei como é que tens olhado pra esta grande polêmica do tanque, da piscina, das três paredes, das faturas.
Para dizer a verdade, eu acho o episódio em si mais interessante pelo que nos diz sobre o nosso país, como nós somos, como nós lemos os acontecimentos, o tanque, o monte, o ministro, do que propriamente a história, o aperto em que o ministro se encontraria. E nós sabemos que o nosso país gosta de ver as pessoas que percebem como poderosas e privilegiadas nestes apertos. É um prazer doentio.
Vê-los a sofrer.
Sim. E depois olhamos pro monte, um monte modesto, uma piscina modesta. Estamos aqui a discutir exatamente o quê? O ministro não pediu licença pra fazer a piscina? Sabes quantas piscinas em Portugal existem sem qualquer espécie de licença? Tens alguma noção?
Não tenho, mas imagino.
Exatamente como eu, também não tenho, mas imagino. Mas a piscina suntuosa do ministro, quase uma piscina olímpica. E o monte, que também é o sonho de qualquer veraneante. E andamos aqui. Este é um país onde o bom nome das pessoas quase não tem curso, não tem valor nenhum, é como as moedas de cobre. Vamos arrasar uma pessoa: "Olhem para o monte, olhem pro tanque." Vamos destruir a reputação desta pessoa. Eu acho que também somos um bocadinho fariseus. Nós somos um povo que gosta imenso de exigir aos outros padrões de comportamento, que tem o cuidado de não aplicar a si próprio. E, portanto, fariseísmo, mesquinhez, nada disso me deixa especialmente contente. Eu não sei como resumir este episódio do tanque e do monte. Eu acho que a pátria só sossegava interrogando: "Se o ministro é bom? É bom. Então se é bom, vamos despedi-lo já. E o monte? Olha, o monte..."
Vamos terraplaná-lo e com o entulho tapamos a piscina.
Por um problema de volatilizas. Andarmos aqui à roda disto é ridículo. Eu, pessoalmente, que ainda por cima tenho a convicção, posso viver iludido, mas o tanque Luís Neves, como homem honrado, depois de se integrar ao governo, já está metido numa embrulhada, porque me parece que não pediu a licença à Câmara de Odemira, que já veio dizer, que também é espetosa a Câmara de Odemira, que isto é uma falha imperdoável. Embora haja que reconhecer que não tem grande relevância, portanto, é uma coisa imperdoável, mas sem grande relevância. Isto é Portugal igual a si próprio. Fariseus, uma dosezinha de hipocrisia e maledicência. Enfim, alegria de ver os poderosos em aflição, tudo a meter bedelho no tanque do ministro.
É verdade que esta é uma história, pelo menos até agora, pequenina. É um monte pequenino, é um montinho, tudo é pequenino. E além disso, é uma história à antiga portuguesa.
Pois é.
Eu ainda nem tenho a certeza de que o ministro precisasse da licença.
Tu és um espírito completamente deslocado.
Alguns-
Foste averiguar da legalidade daquela piscina.
Eu não, mas jornalistas a sério que nós temos aqui foram. E alguns juristas dizem que, prepara-te, Sérgio, se o tanque já lá estivesse e se ele tivesse apenas, de alguma forma, transformado o tanque numa piscina um bocadinho maior, que isso poderia já não precisar de licença. Portanto, eu nem sequer sei se era preciso licença. Mas acho que aqui temos mais um caso de uma fórmula antiga na política, que se tornou mais conhecida no tempo do Watergate, e que nos diz: o problema não é o crime, é o encobrimento. A fórmula é esta e eu não estou a dizer que aqui há crime nenhum.
Em cima de um tanque, que é fácil encobrir, que não é bem uma piscina olímpica.
Não, eu não estou a dizer que é um crime. A frase é esta. Acho que aqui o problema é a forma como o ministro Não falou transparentemente sobre tudo isto e como tentou criar uma narrativa, para usar uma expressão que toda a gente gosta muito na bolha político-mediática, criar uma narrativa, nomeadamente com a palavra tanque, e uma coisa a tentar esconder não sei muito bem o quê. E isso é que torna isto esquisito. Ou seja, se o ministro tivesse dito: "Olhem, havia ali um tanque e eu transformei numa piscina. E para ser sincero, eu estava convencido que não era preciso licença, mas vou já ver isso."
Ou mesmo dizer assim: "Eu chamo aquilo de tanque porque me parece pomposo chamar aquilo de piscina."
Pronto, ou isso, ou se ele dissesse: "Olha, e sobre os pagamentos, não sei, a dada altura houve ali uma informalidade."
Vamos lá a uma coisa. Vamos falar sem hipocrisias, sobre a vida como ela é, ok? E não sobre estes galácticos do calvinismo que andam a tentar carbonizar o ministro. Quer dizer, o senhor ministro se cruzou com um empreiteiro que lhe pareceu ser uma pessoa honesta. Ele precisava do empreiteiro, deve ter ficado esfuziante. Deve ter considerado que houve uma intervenção divina. Ficou logo com o empreiteiro e foi à igreja agradecer a Deus, que é o que toda a gente faz. Cruzou um empreiteiro, conheceu um empreiteiro, acha que a obra está bem feita, acha que o homem é sério, cumpre prazos. A narrativa de que há aqui uma troca de favores, essa é uma narrativa também.
Isto está muitíssimo longe de estar ridículo.
Mas por que estamos à volta desta história ridícula do monte e do tanque? É para lançar a suspeição sobre uma pessoa. É isso que estamos a fazer. Eu não concordo com isso. Até desertificarem a vida política, não se vai parar. Até porque vamos andar aqui todos a ver as imagens do tanque e do monte. Qualquer pessoa percebe que aquilo é um palácio do Saddam Hussein.
Tu estás desejoso de ir lá passar um fim de semana prolongado, Sérgio. Tu estás desejoso. Mas repara, eu sei que tu tens muito essa visão.
Eu só pergunto: o grande mistério é como é que uma pessoa pode financiar uma piscina daquela ordem de grandeza? Como é que é possível? Explica-me. Com um ordenado português, ter semelhante monte e semelhante piscina. Paga em suaves três, compatíveis com as possibilidades das pessoas. Quer dizer, tudo isto deixa-me mergulhado numa melancolia profunda. Sinceramente.
Mas Sérgio, eu compreendo o teu ponto. Agora, eu acrescento a isso a responsabilidade do ministro, que em vez de falar de forma natural, precisamente sobre o seu tanque que aspira ser uma piscina.
Um tanque aspiracional.
Ou sobre a piscina que tem vergonha de em tempos ter sido um tanque.
Dos seus humildes origens.
Houve um elevador social ao nível aquífero.
Tudo isto à sombra do monte megalómano.
Pronto. E falar sobre isso naturalmente e imediatamente disponibilizar... Atenção, o ministro até disponibilizou as faturas que têm a ver com aquilo. E nós aqui no Observador estamos a olhar para isso, mas não disponibilizou os comprovativos de pagamento, não sei por quê. Mas em vez de mostrar tudo e reduzir a história ao ridículo, como tu estás a fazer aqui, ele comportou-se como alguém que tem alguma coisa a esconder. E eu acho que esse é que é o problema num ministro. Em alguém com responsabilidades. Comportar-se desta forma, acho que isso é que não pode ser. Ele até parecia bem-disposto, não sei se era dos nervos, nas entrevistas, mas ele até podia tratar isto da forma como tu estás a tratar. Diminuindo a importância disto tudo. Mas a forma de diminuir a importância não é dizer que são três paredes e um tanque para depois se ver que-
Um empreendimento sumptuoso
...que apesar de tudo, não é bem um tanque. Caramba, Sérgio, eu sei que tu percebes mais de piscinas do que eu.
Estou aqui afundado na minha melancolia portuguesa.
Certo.
Pronto. O ministro é apenas um português como os outros, fez umas obrazitas, foi pagando tudo informal, como se faz em Portugal, e agora decidimos atirar-lhe pedras, pedras que vão recustear, porque os hipócritas quando atiram pedras, normalmente acabam por levar golas em cima. Há aqui uma dose de farisaísmo muito grande e, portanto, os elevados padrões comportamentais exigidos ao ministro parecem-me um pouco politicamente motivados. E também porque isto já é uma modalidade. Preferes ver Espanha-França ou ver os desenvolvimentos do ministro?
Ou o misto de atrocidade numa entrevista.
Eu acho que o ministro, a única coisa que lhe deve estar a passar pela cabeça é: "Mas o que é que eu vim para aqui fazer?" É os incêndios, é o tanque, é a piscina, é o monte.
Mas eu também, Sérgio, não me parece que seja incrível nós aceitarmos totalmente-
Mas tu já viste os valores envolvidos? A natureza das obras. O ministro se calhar usou de hipérbole explicando que eram três paredes. Se calhar não eram três paredes, eram mais de três paredes, mas objetivamente, estamos a falar de coisas de ninharias. Estamos a falar de ninharias Nada que permita, justifique, autorize, consinta e torne decente lançar a suspeição sobre a honradez das pessoas. Acho eu, mas posso estar enganado. Se calhar isto é o tank gate e pronto, vamos embora. Menos um ministro. Olha o próximo. A melhor coisa é inspecionar as respetivas piscinas. Tem alguma? Se foi tank, se é um bidé, se é uma frente de mar.
Não achas extraordinário que normalizemos, para usar um verbo muito em voga, esta informalidade?
Não está nada normalizada. Qualquer pessoa que conheça o país percebe que estes são comportamentos excêntricos.
Não. É verdade que em Portugal nós ainda vivemos um bocadinho numa informalidade. Temos uma economia largamente informal, ainda temos largas frentes.
Se calhar é por isso que temos uma economia.
Da nossa economia. Não, pronto, OK, mas podemos achar então que é mesmo assim e que vivemos assim, que isto é assim. Desde que depois não andemos a chatear as pessoas para pagarem os impostos todos até ao cêntimo e toda a gente possa viver normalmente numa economia informal. Atenção, eu não estou a dizer que o ministro não pagou os impostos todos, não é isso. É só porque depois há pessoas que têm a mania de cumprir tudo ao milímetro e podem olhar para estas coisas e pensar: "Olha!" Atenção, mais uma vez, nem sequer está nada minimamente indiciado que haja qualquer coisa que tenha a ver com fuga aos impostos, nem nada disso. O meu único ponto é: não percebo porque é que o ministro não mostra tudo. Já agora, Sérgio, é tudo tão normal, por que não mostra tudo? Eu sei que tu encaras isso como uma espécie de striptease.
Eu encaro isso como: não admira que a política fique realmente preenchida por pessoas mais ou menos inimputáveis. Não me admira, porque é preciso desconfiar da sensatez de quem aceita exercer funções públicas neste país. É preciso desconfiar da sua sensatez. Uma pessoa vai para a política correndo o risco que se venha a descobrir que tem um monte e um tank. Só um irresponsável faz uma coisa destas e não tem ali 2000 € do plástico que cobre a piscina. Quanto é que custou este escadote para a piscina? Já vi nas fotografias que a piscina tem um escadote. Os escadotes também não são de graça. É tudo deprimente. E há um preço que estamos todos a pagar. Todos pagamos um preço por isto.
E vamos falar um bocadinho mais sobre esse preço na segunda parte, porque vamos falar sobre o resto do governo, onde também há corajosos. Voltamos daqui a nada, vamos só dar uma espreitadela às notícias. Bem-vindos de volta ao Realpolitik. Sérgio, vamos ao debate do Estado da Nação, esse debate anual que serve um pouquinho de balanço de como é que correu o ano para o governo. Como é que tu estás a ver este governo? Que dificuldades é que está a ter? Está a conseguir fazer alguma coisa? Tem um plano? Como é que olhas para isto?
Eu acho que o governo revela uma certa falta de ousadia, mesmo nas condições políticas menos que ideais de que dispõe. Não se vê vontade de mexer nos fatores estruturantes do nosso atraso, do meu ponto de vista. E sobretudo, acho que a economia portuguesa vai funcionando com condicionantes sobre as quais o governo não exerce influência, como a situação no Médio Oriente, os preços da energia, e o impacte da ação do governo na economia é nulo. Portanto, estar ali ou não estar ali, sinceramente, acho que todos os anos nós olhamos para o desempenho da economia e imaginamos que o Estado tem o poder de, excecionalmente, causar grande prejuízo em virtude de erros políticos ou de, mais raramente, cometer proezas reformistas que deixam o país diferente e reconhecível para melhor. Mas normalmente o impacto dos governos no desempenho económico, todos os fatores se mantendo, fiscalidade elevada, floresta regulatória, burocracia, o Estado funciona mal, preferência pela não decisão das entidades públicas, fraquíssimo desempenho da produtividade. Enfim, o que é que verdadeiramente mudou? Nada mudou. E portanto, o país opera economicamente com a tal economia informal, com a economia formal, com a montanha de benefícios fiscais que excedem largamente os 7% do Produto. É uma realocação de recursos que ninguém controla, nem o governo tem bem noção de qual é o resultado líquido dos benefícios fiscais.
E que a dada altura já perdeu um propósito.
Nem sabe quantos funcionários tem. Antigamente as pessoas diziam, sobretudo na esquerda: "Nós queremos um governo transformador, mas só temos um governo de gestão." Se tivéssemos um governo de gestão já não era nada mau, mas nós nem transformador, nem de gestão. O país prossegue a sua trajetória, que dificilmente pode ser alterada sem Uma alteração do enquadramento macroeconômico em que a economia opera, continua a drenagem, hemorragia de gente qualificada para o exterior, que é uma perda de capital humano significativa, resultado do nosso investimento coletivo na educação. Acho que é dos problemas mais difíceis de resolver. Interrogo-me se tem solução. É que os políticos nunca dizem que às vezes há problemas que não têm solução. Enquanto permanecerem esses três cavaleiros do apocalipse: a habitação, a produtividade, que está relacionada com os salários, e a carga fiscal, porque os jovens não hão de ir viver e trabalhar noutro país, se existe procura, se as condições são completamente diferentes e melhores. Depois vão se tomando medidas, tentando discriminar positivamente os jovens. E o impacto dessas medidas é desperdiçado. Ou momentaneamente é nulo, o impacto orçamental é significativo. Portanto, acho que não se deve responsabilizar excessivamente o governo, a não ser pela inércia, mas a preferência pela inércia, é justo dizer que é uma característica que singulariza este governo. O país todo tem uma aversão à mudança, ao risco, às coisas poderem mudar e ainda ficarem piores do que estão. E, portanto, para utilizar uma expressão cara ao Salazar: nós vivemos habitualmente. Nós vivemos habitualmente, existem narrativas conflituantes e alternativas sobre o desempenho nacional da economia portuguesa e a situação dos portugueses, se vivem melhor ou pior, mas em relação às questões centrais, não há desacordo nenhum. E, portanto, eu diria que estar lá este governo ou não estar, do ponto de vista dos resultados
Estar este governo ou outro era um pouquinho indiferente, é isso?
Não vejo grandes diferenças, sinceramente. Aliás, o PSD diz: "O país está melhor." E o PS diz: "Não, o país não está melhor. O país já estava melhor." Portanto, está melhor porque já estava. Não sei se os portugueses acham que o país está melhor, se se reconhecem nesta, como tu dirias, narrativa ou nesta interpretação da realidade. Mas a verdade é que as grandes questões fundamentais continuam a arrastar-se, há um preço que vai sendo pago. O investimento público continua em níveis historicamente baixos, investimento público que dá uma contribuição muito importante para o crescimento. O crescimento continua medíocre. É inacreditável que andem todos absolutamente possuídos de alegria e êxtase por aparentemente crescermos 1,6%, um crescimento absolutamente miserável. E o fato das grandes economias da União Europeia estarem a atravessar dificuldades e disso nos criar uma ilusão de convergência, ficamos encantados. A BM e a IVS, portanto, nós subimos. E continua a dependência excessiva da nossa economia do setor terciário, especialmente o turismo. Só a Croácia consegue depender mais do turismo do que nós. Toda gente sabe os salários que o turismo permite pagar. Uma atividade importante, mas de baixa produtividade. E pronto, agora ouvimos o ministro da Economia dizer que se vive muito melhor e que os salários subiram acima da inflação. Provavelmente também subiram acima da produtividade. É possível num cenário de pleno emprego, não sei, vamos ver os números. Agora, não vejo nada que se possa sacar diretamente ao governo.
Sim, um dos problemas deste governo é que não me parece que as pessoas percebam qual é a visão. Um governo marcante é um governo que consegue resumir numa frase aquilo que está a fazer. Tu já tiveste isso. Agora, independentemente do que se pensar sobre os governos iniciais de António Costa, aquilo resumia-se numa frase, que era o repor direitos com contas certas. Com os governos Passos Coelho, tinhas o sair da bancarrota. Com Cavaco Silva, tinhas o mudar Portugal. As pessoas concordando ou discordando, e tendo eles sido governos melhores ou piores, havia uma visão de para onde é que o país poderia ir. Aqui, o primeiro-ministro não consegue articular essa visão. E é isso que faz com que algumas medidas que são tomadas, umas melhores, outras piores, desapareçam, porque elas não fazem parte de uma história coerente e que os eleitores possam digerir. Fazer política também é dar lógica e consistência àquilo que o governo está a fazer e fazer com que isso seja inteligível para os eleitores. Mas neste momento, os eleitores olham para aquilo que é feito pelo governo, concordam com umas coisas, discordam de outras, mas não sentem que haja um rumo definido. E não é por termos o primeiro-ministro a dizer que tem um governo muito reformista, que as pessoas veem essas reformas e por isso passa-se mais um ano.
É que a economia não pede licença ao governo pra funcionar, a economia funciona.
Certo.
Tanto a formal como a informal. O que não há dúvida é que funciona. Nós fazemos aqui uma análise como se o desempenho econômico do país fosse o resultado direto de uma ação decisiva, acompanhada de uma visão sobre o futuro do país. Sabes que o Alan Smith dizia que quando iam falar de visões, ele recomendava que se focasse Visitar-se um médico da especialidade. Quem tem visões tem que ser tratado. Helmut Schmidt, essa grande figura do socialismo democrático. Mas a verdade é que, se calhar, sem grandes visões e projetos de sociedade e delírios, era possível ter uma certa ambição para o país, uma ambição que se traduzisse em medidas, em decisões, em reformas. E depois ficávamos à espera dos resultados, que já sabe que os resultados não ocorrem imediatamente.
E podem ser coisas tão simples como: vamos tirar o Estado de cima das pessoas.
Por exemplo, um bocadinho, pelo menos um bocadinho.
Exato.
Por exemplo, há uma história que é extraordinária: o governo diz que baixou os impostos. Bem, há uma grande discussão sobre se o governo baixou ou não baixou os impostos. Nós nem conseguimos pôr-nos de acordo sobre matéria de facto, o que é uma coisa extraordinária. Até sobre os factos temos opiniões. Mas pronto, parece que o governo lá conseguiu ir buscar mais 600 milhões com o imposto sobre os combustíveis. Ora, o governo não mexe nos escalões de IRS, desagravou os escalões mais baixos. E se não estou em erro, o governo tentou mexer também nos escalões mais altos do IRS. E não conseguiu, porque a demagogia das oposições impediu de mexer nos escalões de IRS, mas os escalões mais baixos do IRS já regressaram aos níveis anteriores à crise. Portanto, aquele brutal aumento de impostos já foi aparentemente revertido nos escalões mais baixos. Os escalões mais altos continuam alegremente com um peso brutal de impostos. Não se consegue mexer nisso, porque é onde estão todos ao monte os nossos milionários.
Certo, os nossos ricos.
Os nossos milionários estão todos ali.
Estão cada um com o seu tanque.
Com o seu tanque de € 4 mil euros por mês e um tanque. Ninguém consegue, é preciso redistribuir. Acabou-se esta coisa de termos um tanque e € 4 mil. É que é assim, quando a demagogia não tem vergonha, quando a demagogia encontra a iliteracia, quando a demagogia de alguns se junta à iliteracia de muitos ou de quase todos, prevalece este discurso. Os escalões mais altos do IRS são os escalões onde estão o tal contingente dos Elon Musk portugueses todos. E portanto, a justiça social obviamente não consente que se mexa nesses escalões. Não é possível. E pronto, isso também contribui para a imigração, para as habilidades fiscais. Para a legítima defesa fiscal, o país é o que é, vive nisto. Nós nessas alturas podemos fazer uma apreciação sobre a ação do governo, também podemos apreciar a ação das oposições, sobretudo em face de um governo minoritário. Há muitas decisões que são o resultado dos compromissos possíveis e, portanto, este desempenho não é só-- quer dizer, evidentemente que o essencial tem que ser imputado ao governo. Mas as oposições também são chamadas a coresponsabilizar-se um pouco por contribuírem para esta inércia, para esta ideia de que há sempre umas melhorias incrementais discutíveis, não se sabe bem se há, se não há. E lá vamos nós vivendo a nossa vidinha e vivendo habitualmente. Bem, boas notícias. O emprego, continuamos, lá está, também não é isso que nos distingue do ciclo político anterior. Já na altura vivíamos próximos do pleno emprego e continuamos próximos do pleno emprego e as contas públicas. No anterior ciclo político, elas estavam equilibradas e agora permanecem equilibradas. Este ano sofre um pequeno abalo, cuja dimensão o ministro estima em zero, em equilíbrio, portanto, é uma questão central. É isso que determina as condições de financiamento da economia portuguesa, não é só do Estado, é da economia portuguesa, portanto, isso também é uma boa notícia. Portanto, em matéria de finanças públicas, o resto nada, desagravamento fiscal.
Nos impostos.
Um bocadinho do IRC, baixou o IRC.
Sim, mas não é por aí.
Não é por aí, claro que não é por aí.
O peso é tão grande que não é por aí.
Por exemplo, mexer seriamente e abolir uma carrada de benefícios fiscais, baixar a fiscalidade sobre os indivíduos, acabar com esta mentira de que os escalões mais altos do IRS é o território, é a coutada onde os milionários estão todos ao monte, vais acabar com o enrama estadual. Deixar as empresas crescerem, perceber que as empresas grandes são mais produtivas e pagam melhores salários. Alguém tentou fazer alguma coisa desta ordem de ambição?
Sim, ou sequer articular essa vontade.
Vamos pelo menos explicar. Nós gostávamos de fazer isto.
Acho que é o problema do governo. Deste.
Não é preciso inventar nada. Há aqui fatores de bloqueio. Ninguém sabe verdadeiramente quais são os mecanismos do crescimento económico. Ainda por cima, como são os privados, os agentes do crescimento económico. Agora, nós sabemos é como é que podemos tirar o Estado da frente no sentido de criar condições para que qualquer coisa aconteça de positivo no desempenho da economia privada e tal, e portanto, queremos fazer isto e isto e isto. Para mexer na legislação de trabalho, no meu ponto de vista, posso estar enganado, não é o problema central da economia portuguesa. Em relação aos impostos, conservadorismo e coxinhas certas. Alusões desgarradas a fundos soberanos, coisas que não justamente...
Paz à sua alma, nunca mais ouvimos falar do fundo soberano. Graças a Deus, ainda bem.
E graças a Deus, uma boa notícia. Olha, vou pôr também. Pleno emprego, contas públicas e fim prematuro do fundo soberano Mas eu aqui há dias, agora por acaso não me lembro, lembrei-me de várias ideias dessas da cartola, irmãos do fundo soberano. Ocorrem em eventos como congressos partidários.
A primeira medida é isso.
Início político do ano.
Acabar com congressos e com coisas onde as pessoas têm o desejo de ter ideias.
É horrível.
Não tenham ideias.
É o ideal.
Percebes? Temos cinco minutos para falar de Inglaterra.
Manifestarmos o nosso apoio ao conde.
Ao conde cara de caixote de lixo. O contexto é: várias investigações perceberam que Nigel Farage tinha recebido duas doações de milhões de libras, que não era um tanque, de milhões de libras, que ele não declarou ao Parlamento, esse é o ponto. Estava a ser investigado no Parlamento por não ter declarado. Uma das doações era de cinco milhões de libras, depois havia uma outra de uma pessoa muito próxima dele e que teve o azar ter sido condenada aqui por uns crimezinhos. E num salto de imaginação, o que ele fez foi: renunciou ao cargo de deputado para provocar eleições intercalares. Em Inglaterra, as eleições são em círculos uninominais, portanto, no círculo que o elegeu vai haver eleições e os outros partidos, também com muita imaginação, disseram: "Olha, nós não vamos concorrer a isso, que isso é uma palhaçada". E sobrou o palhaço, o conde cara de caixote do lixo.
Não é o único.
Não.
Como é que se chamam? Os Loony...
Chama-se Monster Raving Loony Party.
Exatamente.
O partido do monstro maluco e delirante, que costuma ter candidatos em vários círculos.
Quem costuma seguir as eleições inglesas. Claro que estes monstros escolhem sempre os círculos das grandes figuras. Aparecem na contagem dos votos, aparece o primeiro-ministro, um tipo vestido de ovo ou vestido de urso, ou o conde de caixote do lixo. Todos tratados com total respeito democrático.
Não, total respeito democrático.
Total respeito democrático.
Sim, qualquer pessoa se pode candidatar desde que tenha 10 assinaturas, eles têm que avançar com 500 libras. O conde nunca recebeu as 500 libras de volta, porque eles têm que ter mais de 5%. Eu suspeito que agora vai receber as 500 libras de volta. Mas nós temos aqui o quê? Temos aqui o líder do Reform, que está numa situação difícil, até porque surgiu um partido ao lado, mais à direita, que lhe está a tirar alguns votos e que está apertado com estas investigações. E vamos ter umas eleições, para as pessoas terem uma ideia, é como se fosse o André Ventura e o Manuel João Vieira, os únicos candidatos num círculo para eleger uma pessoa. Agora, também havia o partido da igreja militante do Elvis Presley.
Esses também vão?
Não, estes, entretanto, acho que não vão. Agora, a Inglaterra está numa grande confusão. Também vão ter agora um novo primeiro-ministro. O Andy Burnham vai substituir o Starmer à frente do governo sem haver eleições, fica o novo líder do Partido Trabalhista e novo primeiro-ministro. Enfim, tudo aquilo está muito complicado.
Basta dizer que sendo o Reino Unido um país muito mais rico do que Portugal, é um país que paga um serviço da dívida mais elevado do que Portugal. Ou seja, é mais caro ao Reino Unido pedir dinheiro emprestado ao exterior do que Portugal ou a Grécia, já agora. Quer dizer, portanto, há aspetos fundamentais da economia inglesa que são preocupantes. O primeiro fator é a herança da senhora Liz Truss. A senhora Liz Truss, quando tentou baixar brutalmente os impostos sem cortar a correspondente despesa, deixou os credores do Reino Unido numa situação de grande ceticismo em relação à capacidade deste país honrar as suas obrigações. O Reino Unido, logo depois da libra ter desvalorizado e das taxas de juro terem disparado, viu-se livre da senhora Truss e do senhor Kwarteng, mas a verdade é que nunca os níveis de confiança se restabeleceram completamente. Portanto, ainda há ali um custo, um legado. Esta senhora que também não é o conde Beanface, mas também deixou um legado que foi realmente um lixo para o Reino Unido. País muito endividado. Portugal, a dívida portuguesa em rácio do PIB está nos 90%, mas nós vimos dos 134%. É um desempenho admirável, dos diferentes governos, independentemente dos partidos. O Reino Unido está com uma dívida nos 95% e a tendência é crescer. Pelo menos chegar aos 96 é o que se prevê e só começar a descer a partir de 2030. Muito diferente da situação portuguesa. Não tem contas equilibradas. O Reino Unido anda com 4%, 5% de déficit orçamental anual. O custo do dinheiro para o Reino Unido é elevado por todas estas razões. O crescimento é medíocre. Tem um problema de habitação semelhante ao nosso, a habitação também atingiu custo incomportável. Eles têm outras razões, que nós também temos de certa maneira, dificuldade de disponibilização de solos, excesso de burocracia, em por cima no Reino Unido. Nós aqui temos o problema com aquelas ações que são interpostas e que impedem que os projetos avancem.
Sim.
Recurso a procedimentos judiciais. Mas no Reino Unido também, qualquer associação interessada na proteção do pássaro azul e amarelo consegue travar um investimento qualquer. É um país que está um bocadinho a tropeçar em si próprio e numa situação econômica longe do ideal. E as consequências foram a queda de Keir Starmer. E depois estes escândalos. Toda gente sabe que aquele partido é financiado por Moscovo, como vários partidos de extrema-direita pela Europa fora são financiados por países terceiros, neste caso pela Rússia, porque são um instrumento, são um cavalo de Troia da destabilização dos sistemas democráticos ocidentais.
Mas, de facto, o Reino Unido tem algumas semelhanças conosco e nós podemos aprender alguma coisa. Uma enorme dificuldade, uma das discussões que eles têm é sobre como é que vão fazer uma transferência de riqueza, sendo impossível criar riqueza, tendo eles este problema, transferência de riqueza das gerações mais velhas, dos reformados para as novas gerações.
Nós temos esse problema também.
E isso é uma enorme dificuldade, porque o peso dos reformados eleitoral é desproporcional. E já estão a discutir medidas radicais de transferência de dinheiro de uma geração para a outra para tentar evitar também a fuga das novas gerações, um Estado social gigantesco e ao mesmo tempo ineficaz, outro problema.
Têm problemas que nós não temos. Eles têm um problema gravíssimo com, não sei como é que este fenómeno se traduz, uma espécie de absentismo, pessoas que desde o Covid não querem entrar no mercado de trabalho. E portanto não são desempregados, porque não estão à procura sequer de trabalho. Um problema muito associado a doenças da ordem da saúde mental, depressões, um contingente muito maior do que os desempregados. Tudo pago pelo Estado-Providência. Nós não temos propriamente uma situação comparável.
Não, aí não. Mas de qualquer forma-
E depois temos outra coisa, convém lembrar. O dano autoinfligido do Brexit. Estão 6% a 8%, segundo se estima, abaixo em termos de Produto, do que estariam se tivessem permanecido na União Europeia e no mercado interno.
Vamos ter a oportunidade de voltar a isto quando houver as eleições Farage contra cara de caixote do lixo. Ainda vai demorar um bocadinho, mas é em breve. De qualquer maneira, nós voltamos, como é evidente, na próxima quarta-feira, em direto ao meio-dia e também pode ouvir-nos em podcast. Sérgio, um abraço.
Um abraço.