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Rola a bola para mais um relatório de jogo, como sempre, na Rádio Observador e hoje com Luís Francisco, para analisarmos o empate do Futebol Clube do Porto frente ao Gil Vicente, jogo a contar para a 24ª jornada da Liga Portugal. O Porto tinha aqui uma possibilidade de se afastar do Sporting, ainda mais, na liderança deste campeonato nacional, isto depois do empate do Sporting frente ao Marítimo, mas o Porto desperdiçou esta oportunidade. Luís Francisco, o que é que aconteceu neste jogo? E vamos olhar para ele muito rapidamente, logo com um fator que poderia ter sido decisivo, que aconteceu logo ao segundo minuto, mas que, afinal de contas, não valeu tanto quanto isso.

Não, o Gil Vicente começou, desde logo, a jogar com um a menos, de facto. E o Futebol Clube do Porto, que ia entrar intenso, que ia tentar sufocar o adversário, que ia tentar impedi-lo de sair, recuperar muitas segundas bolas, encadear ataques à procura de um erro do adversário, pareceu ter, teoricamente, a tarefa facilitada nesse aspecto. O que explica este resultado? Às vezes não é possível explicar um resultado, porque é um jogo, e ainda bem, porque senão não tinha graça nenhuma. Mas há duas coisas que explicam. Primeiro, o Futebol Clube do Porto, de facto, não foi uma equipa fria. Pareceu, e aí estou de acordo com o Sérgio Conceição, ter entrado numa pressa excessiva a partir do momento em que se viu em superioridade numérica, porque achou que agora sim, tinha mesmo a obrigação de mandar no jogo e decidir rapidamente as coisas. E, por outro lado, encontrou pela frente um Gil Vicente, que foi uma equipa extraordinária, muito bem organizada, muito bem montada e servida por grandes jogadores. Atenção, este Gil Vicente ganhou na Luz. Não é como se não houvesse avisos. Este Gil Vicente tem mais pontos conquistados fora de casa do que no seu terreno e é a quarta equipa da Liga com mais pontos conquistados fora de casa. Melhor só mesmo o Futebol Clube do Porto, o Benfica e o Sporting por esta ordem. E, portanto, está toda a gente avisada, só perdeu no terreno do Santa Clara, sobre o facto de que o Gil Vicente mantém os seus princípios e consegue, aplicando os seus princípios de jogo, algum descaramento e qualidade individual, consegue beneficiar do facto de os adversários se apresentarem com outro tipo de ambições no campo e sabe explorar muito bem os espaços. Agora, jogar em casa, o Futebol Clube do Porto contra qualquer equipa, joga sempre para ganhar. A jogar em casa, depois do Sporting ter cedido pontos, o Futebol Clube do Porto joga sempre para ganhar. E caramba, a jogar em casa com um a mais desde o início da partida, era mesmo de jogar para ganhar, mas não conseguiu.

E foi mesmo, como dizem os ingleses, the operative word. Não conseguiu, é essa a palavra aqui em foco. Já tivemos a oportunidade também de falar aqui, mesmo durante a emissão, com o adepto do Futebol Clube do Porto, Luís Pinto Coelho. O Futebol Clube do Porto não jogou efetivamente mal esta noite. O Gil Vicente é que se superou. E queria também pegar nesta questão, falaste aí das individualidades, mas o Gil Vicente vale pelas individualidades ou tal como o treinador disse, vale pela família, pela equipa?

Vale essencialmente pela forma como essas individualidades, e isso é trabalho de treinador, e muito bem Ricardo Soares, vale pela forma como essas individualidades são todas montadas de maneira a que o bloco seja muito coeso. E é claro que todos falamos da capacidade goleadora do Fernando Navarro, das acelerações do Samuel Lino, da forma como o Fujimoto, muitas vezes, de forma inteligente, parte o jogo, mudando de velocidade muito rapidamente, com uma grande inteligência tática, e são os homens da frente. Mas lá atrás, houve muita gente a trabalhar para defender a baliza. Durante a partida, nós brincámos um bocadinho sobre eu ter filosofado com o conceito de que o tempo é relativo, mas então vamos lá filosofar desta maneira. O Futebol Clube do Porto merecia ganhar o jogo? Sim. O Gil Vicente merecia perder? Não. O que é que aconteceu? Empataram. É um bocadinho isto. O Gil Vicente fez pela vida, complicou a vida ao Futebol Clube do Porto em alguns momentos de jogo de forma absolutamente extraordinária e o Futebol Clube do Porto não conseguiu dar a volta. Agora, acho que este Gil Vicente é para ser tido em conta, tem 11 pontos de vantagem sobre o sexto classificado e, portanto, está certamente já a pensar qual será o adversário nas competições europeias, porque, de facto, a maior diferença pontual que temos neste campeonato é entre o quinto e o sexto. Neste caso, os sextos. O Vitória e o Estoril têm 30 pontos, o Gil Vicente vai com 41. Atenção, está a três pontos do Sporting de Braga.

E será possível manter esta dinâmica na próxima época? Ou será apenas um fogacho?

Acho muito difícil. Já assistimos a muitos casos em que, de facto, equipas que vêm do meio da tabela, de repente, têm uma época extraordinária. Paços de Ferreira, o Estoril, enfim, os exemplos são muitos. E depois na temporada seguinte, custa a manter.

Mesmo o Boavista.

Mesmo o Boavista. O Estoril conseguiu fazê-lo em duas épocas consecutivas, o que é uma proeza absolutamente assinalável. Mas eu acho perfeitamente natural que muitos destes jogadores do Gil Vicente estejam a ser cobiçados por emblemas que podem pagar mais, que têm projetos desportivos mais ambiciosos, mais aliciantes e, portanto, acredito que o Gil Vicente pode tentar cavalgar esta temporada para ter uma próxima época bem ordenada e com outras doses de confiança. Mas é muito difícil manter esta equipa com estes jogadores em Barcelos.

Resumindo, um Porto que merecia ganhar, um Gil Vicente que não merecia perder e no meio disto tudo, o que é que foi o melhor e o pior deste jogo?

Olha, eu acho que o melhor foi mesmo o jogo. O Futebol Clube do Porto Não jogou mal, como disseste. Teve momentos menos bons, mas fez pela vida e podia até ter ganho o jogo. O Gil Vicente nunca desistiu de ter bola, de ferir o adversário, de procurar construir e, portanto, esteve longe de ser aquela equipe que foi lá para defender e que, para mais, teria uma tentação muito grande com 10 jogadores fazê-lo, e seria também um erro enorme, porque o Futebol Clube do Porto gosta disso, de estar em cima do adversário e sufocá-lo. Portanto, penso que o jogo foi, de fato, o melhor, com um pormenor que eu acho fundamental: houve apenas quatro faltas cometidas pelo Gil Vicente na partida toda. O Futebol Clube do Porto cometeu 12. Números mais habituais no Campeonato Português. Quatro faltas é, de fato, notável. O jogo foi muito interessante mesmo.

E o pior?

O pior é quando deixamos vir ao de cima aqueles velhos problemas do futebol português: discutir com o árbitro por tudo e por nada, jogadores que caem para o chão com ar de que foram atingidos e depois levantam-se passado 5 segundos e vão a correr atrás da bola quando percebem que o árbitro não ligou a nenhuma. Os bancos constantemente a protestar, muitas quezílias, muitos protestos, muita confusão. O futebol português tem de ser um produto exportável. E está a exportar jogadores e está a exportar treinadores. Quer dizer que há qualidade cá. O problema é que o nosso campeonato não se exporta com facilidade se os jogos tiverem demasiados tempos mortos, se houver demasiados incidentes paralelos ao jogo, se houver continuamente uma preocupação de pressão sobre os árbitros, em vez de tentar resolver os problemas com a bola nos pés. E acho que isso foi o pior deste jogo, outra vez, porque tem se repetido com alguma assiduidade jogos do Campeonato Português que parecem vagamente recordar os tempos idos da América do Sul na década de 80.

E a terminar este relatório de jogo, na época em que vivemos, também deixamos aqui uma palavra para os adeptos e para a homenagem, por assim dizer, que aconteceu, o momento de solidariedade que aconteceu no Estádio do Dragão ao início desta noite, Luís.

Sim, porque tudo pode até parecer pueril colocar uma bandeirinha, fazer qualquer coisa. Mas a verdade é que é dessas pequenas coisas que se cria uma vaga. Uma onda muito grande é constituída por gotas pequeninas. E de fato, foi mais um bom momento, mais um belo momento de solidariedade num momento complicado em que o mundo está a olhar para dentro de si próprio e a tentar perceber exatamente o que é que aí vem. E eu acho que é nestas alturas também que vem ao de cima o que há de bom nas pessoas.

Exatamente. As equipes com a bandeira da Ucrânia antes do jogo começar, a bandeira da Ucrânia também nos ecrãs ao longo de todo o jogo, as lanternas acesas. Portanto, aqui também um gesto de solidariedade dos adeptos e do próprio futebol.

O futebol, como eu disse antes desta partida, numa conversa que tivemos, uma bancada de futebol não mente sobre o que é a opinião pública de um país. E já vimos até em Moscovo, os adeptos do Dinamo de Moscovo aplaudirem o treinador adjunto, que é ucraniano. E a bancada é anônima. Manifestações de rua podem ser organizadas por determinados grupos, podem até ser manipuladas de alguma forma. Uma bancada de futebol é a opinião pública de um país. E Portugal, já se percebeu, está pela paz e na Rússia também há muita gente que não vai nisto.

Apesar de tudo e apesar deste empate do Futebol Clube do Porto frente ao Gil Vicente, tudo está na mesma, tal como estava ao início desta 24ª jornada, nível de distância pontual entre primeiro e segundo lugar. O Porto continua a seis pontos do Sporting na liderança deste campeonato. E Luís Francisco, mais uma vez, vale a pena quem não teve a oportunidade de ver este jogo e de seguir o relato aqui na Rádio Observador. Vale a pena perceber mesmo o que é que se passou esta noite no Estádio do Dragão. Foi especial em muitos sentidos e também os parabéns aqui para ambas as equipes e deve ser disto que o futebol é feito também.

Precisávamos de muitos mais jogos destes.

Está feito o relatório de jogo deste empate a uma bola entre Gil Vicente e Futebol Clube do Porto. A edição de hoje foi com o Luís Francisco.