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Estou preocupada. Agora estava preocupada com o acompanhamento, não fiz nada.
Então vamos à outra.
Estou preocupada, sabe? Este daqui é giro.
Este é giro. O acompanhamento está muito bom e vamos agora à outra seguinte.
Em ano de centenário, Amália Rodrigues abre-nos a porta de casa e do estúdio pela mão da editora Valentim de Carvalho.
Talvez seja dos discos mais íntimos da Amália. Porque é vê-la trabalhar. E isto nunca pode ser visto como uma intromissão, porque a qualidade é sempre excepcional. Imagino que o trabalho tinha parado a meio e que só tinham ficado takes aqui apresentados. Esses takes já valiam por si extraordinariamente. Portanto não é de todo ferir uma coisa que ela não gostasse que fosse observada. É como se nós estivéssemos sentados no canto do estúdio, na Valentim de Carvalho e depois em sua casa, não por esta ordem, muitas vezes os trabalhos em casa eram antes, e estivéssemos a assistir ao trabalho da Amália.
Trago uma rosa vermelha. Não preciso de mais nada.
Para Frédéric Santiago, responsável pela colecção de Amália, a capacidade de trabalho da fadista é a maior revelação destes discos agora publicados. Mas fica também a nu o lado mais revolucionário de um ícone que nunca se atravessou contra o regime.
Aqui temos a noção que ela, bastante antes do 25 de Abril, já estava a estudar com Alain Oulman um repertório que podemos dizer estar muito ligado à oposição. Porque temos poemas de Manuel Alegre, de Ari dos Santos e de um poeta que não se sabia que ela tinha gravado, que é o Hermínio Rodrigues, que era um poeta ligado ao PCP e que escreveu um inédito que está aqui que é "Sete Estradas".
Sete estradas, com sete facas à cinta.
Frédéric Santiago não tem dúvidas que Amália viveu sempre livre, mesmo durante o Estado Novo.
Sendo que Amália com a sua liberdade sempre conseguiu dar uma no cravo e outra na ferradura. Porque ela dizia muitas vezes que uma pessoa livre dentro de si, de certa maneira também é livre. E portanto conseguiu sempre essa liberdade artística de conseguir cantar coisas que, embora ela soubesse que se calhar a censura não deixaria serem editadas naquela altura, rompiam um bocadinho a norma vigente. E por exemplo, há fados aqui que ela no estrangeiro cantava. Portanto, ela sabia onde os podia cantar. E isso também é mais uma das provas da sua enorme inteligência.
Nestas gravações inéditas conhecemos Amália enquanto criadora.
Amália também trabalhava muito. Não quero dizer que ela logo no primeiro contacto que tinha com as peças não atingisse logo um grande nível, mas ela quis sempre aperfeiçoar-se e sobretudo no repertório com Alain Oulman, de que este disco se trata. Tinha muito cuidado de dar certas sugestões aos poetas, mudar algumas coisas nos poemas, fazer mesmo um caminho musical com Alain, que às vezes modificava algumas coisas e criar mesmo.
O autor e compositor Alain Oulman é uma das presenças constantes destas gravações inéditas.
"Fui à fonte". Pode ser?
Não, pode ser não, porque eu não me lembro da letra.
Não está mal.
Não está mal, está. Depois eu engano-me.
Ok.
Sim.
Fui à fonte lavar os cabelos, minha mãe.
Oulman foi um dos responsáveis por levar os grandes poetas portugueses para a obra de Amália, uma das marcas mais inovadoras no percurso da artista.
Foi a maior fadista de sempre, mas eu acho que as pessoas pouco a pouco se vão dando conta que não foi só isso. Foi uma das maiores intérpretes do século XX e assim foi reconhecida, sobretudo no estrangeiro. Portanto, se cá a casa não fazem milagres. Mas como uma das grandes intérpretes do século XX, a cantora popular que mais foi pioneira em imensas coisas, não só, por exemplo, na abordagem da literatura erudita, foi uma coisa que ela fez como mais ninguém. Portanto, ela tornou-se canónica e hoje todos pensamos que ela fez sempre isso, mas não. Desde o vestido preto ou cantar à frente das guitarras, ou conseguir fazer aquela performance que hoje é tão natural. Foi ela que inventou tudo.
A homenagem da Valentim de Carvalho no centenário da eterna diva do fado foi muito mais do que isso.
Olhos abertos, à beira de sete estradas.