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É um inferno. Aqui não dá para dormir. Ontem, eram 4h da manhã, estava aqui toda a gente aos berros.

Mónica está a viver na Estação do Oriente desde outubro do ano passado. Dorme com o namorado num banco, onde guardam com a maior atenção todos os pertences. Dominique trabalha, mas mesmo assim, não chega para arranjar um teto.

Eu também queria arranjar uma casa para nós e não estou a conseguir nada, nem eu nem ele. Estamos a ver aos poucos quartos, mas é muito difícil.

A Gare do Oriente é um dos dormitórios a céu aberto que existem por Lisboa. Aqui chegam a pernoitar centenas de pessoas.

O aumento sentiu-se na segunda metade do ano passado, manteve-se ao longo deste ano e havia dias em que nós encontrávamos aqui 130, 140 pessoas, só aqui na Estação do Oriente.

A comunidade Vida e Paz é uma das associações que apoia as pessoas em situação de sem-abrigo. Celestino Cunha é um dos voluntários e explica que as caras que por aqui se veem vão mudando todos os dias.

Há uma grande rotação, ou seja, há sempre pessoas novas a chegar e sempre pessoas que naturalmente deixaram de estar aqui, deixamos de ver. Nós às vezes achamos que deixar de ver pessoas na rua é sempre um bom sinal, mas não sabemos se foram para sítios protegidos ou se continuam na rua noutro sítio da cidade.

Grande parte das pessoas em situação de sem-abrigo na Estação do Oriente são imigrantes. É o caso da Ana, é do Rio de Janeiro e há cinco meses que faz daquele banco de pedra, cama.

Mais ou menos, não é muito confortável, mas eu durmo. Acho que é meio estresse, eu não estou dormindo muito direito à noite, mas é estresse mesmo de estar aqui, não é nada de mais.

E quem chega recebe logo a lista de cuidados a ter.

É preciso ter cuidado, porque à noite há roubos aqui.

Pois.

Às vezes há uma pessoa alcoolizada que fala durante a noite ou grita, mas é um ambiente que se vive muito aqui.

Violência, roubos, drogas e álcool é a realidade para quem dorme no piso de baixo da Gare do Oriente.