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Boa parte dos ucranianos que procura fugir da guerra está em Lviv, uma cidade situada na zona ocidental da Ucrânia. É lá que estão os enviados especiais do Observador, Cátia Bruno e João Porfírio. O João está agora aqui conosco em direto, numa estação de comboios em Lviv. João, boa tarde. O desespero da população é, por estes dias, maior.

Olá, muito boa tarde. O caos está completamente instalado na estação de comboios de Lviv. Eu estou na plataforma de comboios, onde é o objetivo de todas as pessoas chegarem, porque o comboio parte daqui sensivelmente uma hora e meia, se não houver atrasos. E há pessoas instaladas nas escadas há mais de 12 horas. Estou aqui a observar, por exemplo, carros de bebês passando por cima de cabeças, porque a prioridade são as mulheres e as crianças, os homens ficam para trás. Há confrontos entre pessoas que querem tentar apanhar esse comboio, fugir de Lviv, e o ambiente é bastante tenso, bebês a chorar, não sei se conseguem ouvir, bebês a chorar, gritos da polícia, gritos de pessoas a tentarem passar, há relatos de atropelos completos, de pessoas que se sentem mal nestas escadas. Não há assistência médica neste momento, a assistência médica não consegue chegar até aqui. A polícia é pouquíssima, o exército que cá está, está a tentar controlar as pessoas para não atravessarem a linha do comboio. Consigo ver, por exemplo, muitas pessoas com animais de estimação também, os animais de estimação não são deixados para trás. Muitas pessoas com gaiolas, com todo tipo de animais, mas o mais grave neste momento é mesmo a tensão que existe nessas quatro escadas que dão acesso à plataforma, onde as pessoas estão instaladas completamente com as inúmeras malas que têm nas mãos, e a pouca polícia que cá está vai tentando organizar minimamente a subida das mulheres e das crianças. Muitos policiais, cá em cima na plataforma, pegam nas crianças das escadas, trazem as crianças cá para cima, as crianças ficam imenso tempo à guarda da polícia até que as mães consigam então subir. É esta a situação que se passa aqui na estação de Lviv. De relembrar que muitas dessas pessoas vieram de Kiev, mas também já falei com pessoas que vieram de Odessa, ou seja, do sul do país, que fizeram uma viagem de mais de 48 horas e provavelmente vão demorar outras tantas horas a chegar à Polônia, que é o destino destas pessoas todas.

João, as sirenes ouvem-se aí em Lviv, há avisos de ataques aéreos por parte das forças russas ou não? O ambiente está calmo sob o ponto de vista militar, de confrontos em Lviv?

Do ponto de vista militar, a situação está mais calma. A última sirene que se ouviu aqui na cidade de Lviv foi ontem às 19h30, ou seja, 19h30 aí em Lisboa. A nível militar, a situação está calma. Eu nem consigo imaginar o caos que seria se agora, neste exato momento, essa sirene tocasse, porque as pessoas não têm para onde fugir. Se voltassem para trás, perdiam o lugar na fila e mesmo se quisessem voltar, seria completamente impossível, porque as pessoas não dão nem um passo