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Temos agora também ao telefone Ana Margarida Carvalho, escritora, também jornalista portuguesa. Ana Margarida, muito obrigado por se juntar também a nós em direto.
Muito obrigada.
O que recorda de António Lobo Antunes? Como é que podemos recordar este escritor maior da língua portuguesa?
Eu acho que a melhor maneira de o recordar seria ler os livros, coisa que eu acho que aconteceu pouco, pelo menos nos últimos anos. E quando falo últimos anos, se calhar, são mesmo os últimos 10 anos, porque eu comecei a perceber que de facto os livros não estavam a ser lidos. E ele próprio também às vezes apercebia-se disso. Eu, enquanto jornalista, fiz-lhe muitas entrevistas, acompanhei-o em viagens, porque ele ganha muitos prêmios internacionais, como sabe. E sentia um pouco isso. Quer dizer, ele tinha um desprezo enorme por entrevistadores, por jornalistas que iam lá a casa entrevistá-lo. E se calhar, incluo-me nesse grupo, porque era extremamente difícil falar com ele. Nós tínhamos que colocar uma espécie de barreira invisível, que ou nós permitíamos que ela existisse ou não. E muitas vezes eu pensei: onde é que está o limite desta nossa conversa? Porque ele tinha, de facto, comentários muito inconvenientes, mas ao mesmo tempo era brilhante. Portanto, havia ali um fascínio muito grande e eu não queria terminar aquela entrevista e acabei por ficar com uma ótima relação com ele. Nunca me atrevi a dar os meus livros a ler ou pedir comentários sobre os meus livros.
Mas chamou-lhe a atenção, chamou a atenção de António Lobo Antunes.
Sim, mas acho que nunca fiz por isso. Ou seja, eu ia lá enquanto jornalista. Quando eu digo lá, era a casa dele, que era onde ele as marcava. E tentava que ele se interessasse pelas perguntas que eu lhe fazia, o que era difícil, porque ele era uma pessoa com uma cultura vastíssima e não era só uma cultura de coisas antigas, que também era, mas era cultura de coisas presentes. Ele estava sempre muito atento ao que se estava a fazer, muito atento ao que se ia escrevendo, lia imenso e muitas vezes só respondia quando tinha uma coisa brilhante para dizer. Ou seja, nós ou eu fazíamos uma pergunta, e ele só respondia às vezes na quinta ou sexta pergunta a seguir, e desconversava. E só se lembrava, se calhar, da resposta brilhante quando já estávamos mais avançados na entrevista. Havia ali um trabalho que nós tínhamos que fazer, que era uma espécie de colagem, porque as conversas eram um pouco caóticas e sempre à vontade dele. Mas eu achava que, se calhar, esse jogo acabava por ser muito desafiante. Mas interessantíssimo. Era uma pessoa que eu lembro-me de ver cantar músicas revolucionárias. Eu lembro-me de o ver com referências pouco expectáveis. E o que mais me entristece é que, de facto, os livros não foram tão lidos quanto ele pretendia. Ele irritava-se muito que as pessoas referiam-se às crónicas, e ele fazia, de facto, as coletâneas de crónicas. E os livros eram, de facto, onde ele punha a sua vida e vertia o seu sangue todo ali. Escrevia diariamente, escrevia militantemente. Não sei se me estou a repetir, mas tinha, de facto, um desprezo por quem utiliza a língua supostamente literariamente de uma forma leviana.
Ana Margarida Carvalho, quando eu dizia que chamou a atenção, foi um dos nomes referidos por António Lobo Antunes como alguns dos talentos das gerações mais recentes. Isso imagino que é algo que a tenha enchido de orgulho.
Sim, encheu, mas acho que nem é a altura para falar isso, porque parece que me estou a aproveitar de uma pessoa tão extraordinária para a literatura portuguesa. Portanto, sim, tive essa sorte de ele me referir. Sim, ele disse-me qualquer coisa pessoalmente, mas isso fica entre nós. Mas depois referiu o meu nome numa entrevista a outro jornalista. Isso foi importante pra mim, imediatamente, porque eu penso que ele se referia ao primeiro livro. Portanto, eu era uma desconhecidíssima, ainda por cima que estava a fazer essa transição muito difícil, como calcula, de jornalista pra escritora. E geralmente não são muito bem-vindos os jornalistas que se tornam escritores. E ele acolheu-me bem, ao contrário de outros.