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As camas ocupadas por doentes com alta clínica que não têm para onde ir subiram para 8% e atingiram o maior número de sempre, de 2342 no dia 19 de março passado. Isto tem custado 290 milhões por ano. É uma das conclusões desta nova edição do Barómetro dos Internamentos Sociais. Xavier Barreto, eu começo por lhe perguntar: como é que qualifica os resultados deste estudo?

Os resultados são preocupantes e têm vindo a agravar-se nos últimos anos. Nós temos mais de 2300 doentes internados de forma inapropriada. De facto, doentes que não deveriam estar no hospital e que só o estão porque não têm uma alternativa. Não têm uma alternativa na rede de cuidados continuados ou num lar, ou não têm retaguarda familiar, portanto, por razões várias, permanecem no hospital mesmo já não estando doentes. E naturalmente que essa situação nos preocupa pelos impactos que tem para o próprio doente, para a sua saúde, para os riscos a que está exposto. Também para o impacto financeiro que tem nos hospitais. Nós estimamos que seja superior a 280 milhões de euros, mas também para o funcionamento do hospital como um todo. Repare, estas camas que estão ocupadas com estes doentes fazem falta para outros, para outros que estão à espera de um serviço de urgência ou para outros que vão fazer uma cirurgia. Este fenómeno, que se tem vindo a agravar, acaba por afetar o funcionamento do hospital todo. No nosso entender, é uma situação grave que merece uma solução urgente por parte do Governo ou por parte de vários governos, eu diria, porque esta tem que ser uma política consistente, continuada ao longo de muitos anos, para se resolver esta situação.

E qual é que deve ser esta resposta urgente face a este problema?

No nosso entender, criar condições para ir ao encontro das necessidades dos doentes, seja apoiando as famílias, apoiando os cuidadores informais, criando equipas de cuidados domiciliários sociais que possam apoiar as pessoas nos seus domicílios, criando centros de dia, no fundo, criando toda uma rede de apoio. É uma rede que extravasa muito o Ministério da Saúde, que deve envolver certamente a Segurança Social, os municípios, as juntas de freguesia, todas as entidades que possam ajudar a atender as necessidades dessas pessoas. E essa rede não existe. Em boa verdade, essa rede não existe. Uma pessoa que hoje está a terminar um internamento hospitalar, que perdeu autonomia durante o internamento, perdeu capacidade de fazer as suas atividades do dia a dia, as suas refeições, a sua higiene, perdeu capacidade de estar sozinho, não tem, muitas vezes, soluções e a família acaba muitas vezes por optar por deixá-lo ficar no hospital. É uma situação que, no nosso entender, é grave, é dramática se pensarmos no caso concreto de cada uma destas pessoas e deve obrigar os governos e agora os partidos a refletir sobre este tema e a apresentar soluções concretas para o resolver.

O trabalho que tem sido feito pela rede nacional que existe, a de cuidados continuados integrados, neste momento é insuficiente?

Claramente, isso nós já sabíamos. Repare que a rede tem pouco mais de 10 mil camas. Estava previsto no PRR que fosse alargada em mais cinco mil, que é um aumento muito significativo, mas esse aumento ainda não aconteceu. Sabemos que esta medida do PRR tinha riscos, porque a execução não era fácil. Houve alterações no preço de construção, que obrigou a redefinir os termos dos concursos e portanto, temos dúvidas sobre qual será exatamente o grau de execução dessa medida. O governo tem que dar informações sobre isso. Mas sim, para responder em concreto a sua pergunta, a rede de cuidados continuados atual é insuficiente. O governo sabe e previu que no PRR ela pudesse ser alargada, mas esse alargamento ainda não aconteceu, de facto.