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Em direto, Nuno Mayer é um dos promotores do movimento civil de agricultores que promove manifestações em vários pontos do país. Boa tarde e bem-vindo, Nuno Mayer. Está a corresponder às expectativas este protesto?

Boa tarde. Antes de mais, deixe-me referir que eu não sou um dos promotores. Eu sou um dos 15 mil agricultores que se juntou a este movimento. E 15 mil agricultores que se dividiram em grupos regionais. Estamos em 15 grupos regionais com cinco ações diferentes e a ação de onde eu estou mais perto é aqui no Ribatejo e correu de uma forma muito pacífica, não houve desacatos nenhuns. Estivemos sempre em coordenação com a ordem pública e com a autoridade que nos acompanhava. No fundo, conseguimos mostrar que estamos unidos e que estamos todos no mesmo barco.

E o que é que segue, Nuno? Esta manhã já ouvimos alguns agricultores ameaçarem rumar a Lisboa. É essa a intenção?

Na verdade, nós temos que reconhecer que o ministério, depois da pressão, atenção, estamos a falar de um movimento e de uma agitação que começou na semana passada, ou seja, dia 25, quando os agricultores esperavam receber as verbas destas medidas que são ambientalmente mais positivas e que viram estas medidas cortadas. Foi só nesta altura que começou um pequeno agrupamento, que virou um movimento muito grande. E o que é que acontece? Efetivamente, as exigências que nós tínhamos e que fomos transmitindo ao Ministério da Agricultura, aquilo que nós pretendíamos e que fomos acompanhando, da mesma forma que acompanhávamos com as forças policiais para que corresse tudo na normalidade. Nós não queríamos repetir, éramos completamente contra o que se via em França, em que ambulâncias não passavam e havia um caos inacreditável. Por isso, nós queríamos fazer de uma forma diferente. E daí, efetivamente, o ministério reconheceu o erro do cálculo e por isso temos que dar justiça. A questão é que, como diria São Tomé: "Ver para crer". Nós temos muitos anos de muitas promessas e muitas ideias que no final, o que chega ao agricultor é muito pouco. E 15 mil agricultores unem-se informalmente, de uma forma inorgânica. Não há um líder, não há um porta-voz. Incrível, não há uma associação. E a associação que existe, a Confederação de Agricultores de Portugal, que é suposto estar conosco e é suposto representar-nos, para não ser as centenas de milhares de agricultores em Portugal a falar com o ministério, mas ter apenas uma voz. Essa associação, a primeira coisa que disse foi: "Vocês não se preocupem, porque para o ano logo se resolve. Isto vai ser resolvido para o ano que vem." E para o ano que vem, nós temos compromissos a pagar, temos compromissos que fizemos e empréstimos para pagar, de uma cultura que é ambientalmente mais benéfica, é um facto, mas que vai produzir menos e por isso se chamam estes apoios à produção. E daí que nós deixámos de estar a sentir identificados. E com esta nota da CAP, de que para o ano logo se vê, não funciona.

Nuno, o governo anunciou ontem a reversão dos cortes no âmbito do plano estratégico da PAC. Por que isso não é suficiente para travar o protesto que está em curso?

A questão é que o que nós recebemos foi um documento. É evidente que tem o selo, o novo símbolo de Portugal lá no cantinho, e acreditamos que isso tenha sido emitido pela comunicação do Ministério da Agricultura e Alimentação. A questão é que, daquelas medidas que ali estão, nós temos alguma desconfiança, porque eu vou explicar: se nós estamos num governo de gestão em que o governo está impedido de somar medidas, como é que com esta leviandade, com esta facilidade, se vão desbloquear 500 milhões de euros, 60 milhões para um lado, 60 para outro, gasóleo agrícola. Nós temos alguma desconfiança de que vamos empurrar com a barriga, porque chegamos agora a fevereiro, ou seja, daqui a mês e meio já não estamos cá, quem vier a seguir que feche a porta. E estamos um pouco desconfiados disto. Não é possível desbloquear este valor, porque as ajudas que estamos a receber, são ajudas do pacote europeu. Ou seja, Portugal não pode distribuir antes da campanha e faz sentido. Nós estamos habituados a receber outubro, novembro e depois dezembro. E este ano recebemos com um mês de atraso e 35% de corte. Acreditamos que sim, o gesto do Ministério da Agricultura é ótimo e vem no sentido que nós precisamos, mas um pouco ver para crer. Nós precisamos de ser ouvidos e desmistificar esta questão de que o mundo rural está distanciado do mundo urbano. Aquela ideia de que os ovos e o leite nascem no cartão do supermercado, não vêm da vaquinha. Um aluno no Porto, em Lisboa ou Coimbra já sabe que isto não é assim. Por isso, a população portuguesa, quando nos viu na pandemia a trabalhar e toda a gente em casa a proteger-se e nós não sabíamos o que era, mas estávamos no campo e havia alfaces na prateleira, havia tomate, havia carne. Nessa altura, nós ganhamos um respeito apenas fazendo aquilo que nós fazemos desde sempre, que é produzir alimentos. E se nós temos um caminho desta estratégia europeia do prado ao prato, em que a Comissão Europeia nos diz, orienta-nos: vamos ter de aumentar consideravelmente os modos de agricultura que são sustentáveis. E depois, no final, há menos produção e os apoios que nos dão para compensar o facto de produzirmos menos, são cortados, torna aqui esta situação um pouco difícil para nós. E daí vamos nos mover, com certeza. Nós não queremos nem chatear as pessoas, porque nós sabemos que isto é incômodo para pessoas que tiveram que alterar os seus percursos, ou no nosso caso, na Ponte das Chamuscas esta manhã, nós nunca bloqueámos coisa nenhuma, nós andámos devagarinho e um trator anda a 20 km/h e consegue andar a meio km/h, para ter uma ideia. É possível que os 100 tratores que tínhamos aqui, e aqui éramos apenas um grupo, nos outros cinco pontos eram três, quatro grupos que se juntavam, ou seja, havia uma massa muito maior no outro lado do que havia aqui, embora nós estamos os 15 mil em consonância e de uma forma informal criou-se uma logística, um alinhamento que foi muito interessante e que não devia ter sido 15 mil agricultores a fazer, devia ter sido a nossa confederação. Daí que esperemos que vamos tirar quando nos mover e com certeza que a palavra do ministro vale, que vamos receber aquilo que já tínhamos contratado. No fundo, não estamos a pedir nada de mais. Com certeza que vamos ter que fazer uma reflexão se quem nos representa deve estar sentado atrás de uma secretária em Lisboa ou deve estar com os botins no campo, conosco