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Está conosco o Bernardo Trindade, presidente da Associação de Hotelaria de Portugal. Muito obrigado por ter aceitado o convite da Rádio Observador. A época alta está a começar. Este início é tradicionalmente marcado pela Páscoa, que é já este fim de semana. Bernardo, quais estão a ser os efeitos do conflito no Médio Oriente pra indústria hoteleira portuguesa?

Muito obrigado pelo convite e dizer aquilo que nós estamos a sentir são, apesar de tudo, comportamentos distintos. Eu diria que nos ambientes resort, como o Algarve e a Madeira, há, de facto, um movimento de clientes que provavelmente teriam optado por fazer férias em determinados destinos como os destinos Chipre, Turquia, Tunísia e Egito, e que canalizaram parte desse interesse para as nossas regiões resort da Madeira e do Algarve. O mesmo não se passa nos destinos urbanos de Lisboa e do Porto, onde claramente há aqui um impacto de cancelamentos que não é despiciendo. Clientes oriundos de Israel, por exemplo, que normalmente optam por destinos urbanos. E atenção, não só Lisboa e Porto, como é Madrid, Londres ou Paris, ou mesmo clientes asiáticos que faziam escala em aeroportos em zonas que estão neste momento a ser impactadas diretamente pela guerra, estamos a sentir cancelamentos. Portanto, respondendo à sua pergunta, temos dois tipos de comportamentos: aquilo que são os números que impactam os destinos resort, Algarve e Madeira, com comportamentos muito interessantes e, por outro lado, os destinos urbanos a ressentir-se um pouco.

Consegue avançar com números sobre este aumento, não é aumento, mas a percentagem positiva na Madeira e no Algarve e, por outro lado, na redução dessas nas zonas urbanas de reservas?

A Madeira basicamente vem de um corolário de anos pós-COVID muito positivo e, portanto, está a manter níveis elevados. O Algarve, com reservas tardias, reservas de última hora, eu diria que a Páscoa se vai compor e em algumas zonas, em algumas unidades hoteleiras, vamos ter inclusivamente incremento relativamente ao ano passado. O mesmo não se passa nos destinos urbanos e onde Lisboa, se quiser, lidera, é mais impactada, porque já não bastavam as questões relacionadas com as limitações aeroportuárias, a incapacidade de crescer no aeroporto de Lisboa, a que se juntam agora estes cancelamentos, que a um outro nível de mercados, nomeadamente o mercado americano, que é um mercado que nos últimos anos tem, em alguns meses, de forma clara, liderado os movimentos em Lisboa, também a esse nível temos sentido algum decréscimo e, portanto, é claramente uma tendência que nos convoca a ter que intervir, hoteleiros, poderes públicos, a Associação de Turismo de Lisboa, nós temos estado já em contacto e, portanto, como é evidente, isto vai ter que ter uma reação da nossa parte.

Em relação à passagem das tempestades pelo centro do país, impactaram de alguma forma as reservas nesta região?

Como podem imaginar, a própria região centro hoje está a reerguer-se, está a procurar reerguer-se, e de forma muito válida, de forma muito guerreira. E há, de facto, muitos mecanismos e movimentos solidários que de alguma maneira têm permitido e tem sido um estímulo pra os empresários que, nalguns casos, viram as suas unidades mesmo encerradas. Ora, reabriram, estão a procurar reerguer-se. Agora, a realidade é o que é e, portanto, este primeiro ano será sempre um ano difícil.

E qual é que é a expectativa da Associação de Hotelaria de Portugal pro resto do ano? É que comparado com o ano passado, melhor, que pior, devido a estas externalidades que estão a abalar Portugal neste momento?

Miguel, esta questão da guerra, a manutenção da guerra, o prolongamento do conflito, não é boa pro turismo. O turismo é a indústria da paz, é aquela que no fundo capitaliza os movimentos benignos. Ora, este prolongar pode ter, de facto, impactos. Repare, só o aumento dos combustíveis determina que tenhamos previsivelmente mais inflação. Uma inflação que impacta salários, salários que são depois, como consequência, menos rendimento disponível pras famílias, nomeadamente para gastar neste tipo de opções. E, portanto, aquilo que nós olhamos é um olhar, se quiser, responsavelmente preocupado, porque o agudizar deste conflito pode ter, de facto, consequências