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A Organização Mundial de Saúde declara a varíola dos macacos uma emergência global de saúde pública. Trata-se do nível mais alto de alerta. Esta decisão da OMS surge numa altura em que o vírus monkeypox já está presente em mais de 70 países e em que estão a ser identificados casos em crianças. João Manuel Brás Gonçalves, virologista e professor catedrático na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, está no "Jornal das Quatro". Obrigado por se juntar a nós. O que significa esta decisão da OMS?

Eu acho que esta decisão significa, fundamentalmente, uma pressão sobre os governos ocidentais. Ou seja, há aqui uma necessidade da Organização Mundial de Saúde de forçar um controlo mais apertado sobre a disseminação desta infecção viral. Eu acho que, fundamentalmente, há aqui uma pressão, porque temos visto nas últimas semanas um aumento das infecções e por parte dos governos ocidentais não tem havido claramente uma atenção muito grande. E isso há aqui uma pressão política, na minha opinião, para além de uma necessidade de uma ação claramente de informação e de maior contenção. Fundamentalmente, eu penso que é isso. Não há aqui já um alarmismo, mas há claramente uma indicação por parte da Organização Mundial de Saúde que é necessário que os governos tomem mais atenção do que têm tomado.

Os casos em crianças que estão a ser identificados, em particular nos Estados Unidos, podem ter tido alguma influência nesta decisão?

Sim, pode ter sido uma das razões. E atenção que, eu acho que isto também é importante, estamos numa altura, no verão, fundamentalmente, em que esta disseminação do vírus vai ser mais intensa. E por quê? Porque a transmissão do vírus se faz pele contra pele. Ou seja, há aqui uma necessidade do vírus encontrar a pele de outra pessoa para transmitir, uma vez que este vírus não se transmite muito bem por via aérea. E estamos na altura do verão, e portanto, claramente há aqui as crianças e todo este contacto que se faz agora no verão.

As idas à praia, piscinas, menos roupa.

Exatamente. E os concertos de música e todos estes ajuntamentos de pessoas que são muito mais intensos no verão, vai claramente aumentar a transmissão do vírus nesta altura. E portanto, há aqui uma necessidade não só de saúde pública, de prevenir e de informar a população da forma como é que este vírus se transmite e como é que o podemos evitar, mas, na minha opinião, também há aqui uma pressão política para que os governos ocidentais acordem, claramente na Europa e nos Estados Unidos, acordem para que consigamos conter esta evolução desta infecção. Este vírus não é difícil de controlar, é mais fácil de controlar este vírus do que o SARS-CoV-2 da Covid-19, mas é necessário que hajam informações muito claras por parte das autoridades de saúde, da forma como é que isso se faz. E portanto, é conter esta disseminação do vírus o melhor possível, por estas razões que eu acabei de referir.

Estava a falar da Covid-19 e, de facto, cada vez que agora ouvimos falar num novo vírus ou numa nova doença, ou num novo problema como estes, a Covid-19 vem-nos sempre à cabeça. Corremos o risco de ter andado a desvalorizar a varíola dos macacos, nomeadamente dizendo que é uma doença, ou uma infecção pouco perigosa, e ela agora poder vir a tornar-se também numa pandemia?

Ainda estamos um pouco longe desta questão da pandemia. Eu penso que houve aqui uma necessidade de uma antecipação por parte da Organização Mundial de Saúde, exatamente para prevenirmos esse cenário. Eu acho que pode ter havido, e eu concordo consigo, pode ter havido aqui e tem havido uma desvalorização, porque nós sabemos que este vírus da varíola dos macacos é relativamente mais fácil, não é um vírus novo, nós já o conhecemos, temos antivíricos e temos vacinas que o podem conter e dessa forma parece que as autoridades de saúde desvalorizaram isso. Só que este vírus tem evoluído de uma forma que nós não antecipávamos, que é aumentando a transmissão entre pessoas. Ou seja, em África, nós tínhamos esta transmissão de animais para pessoas. Agora, tanto na Europa como nos Estados Unidos, estamos a ver um aumento muito elevado. Aumentou as infecções em 77% nas últimas semanas na Europa e nos Estados Unidos, exatamente por causa destas condições que eu disse. E isto pode se tornar algo dramático, principalmente em alguns grupos de risco, que claramente vão ter um risco maior de ficarem infectados, apesar de, e claramente eu gostaria só de indicar isso, apesar de nós não termos ainda notícia de mortes relativamente à varíola dos macacos. Mas mais vale prevenir do que remediar e, portanto, eu acho que é uma altura certa por parte da Organização Mundial de Saúde de fazer este alerta.

E essa referência também é importante para se perceber também até que ponto, neste momento, esta varíola dos macacos é ou não é grave e a questão das mortes é importante. Entretanto, acredita que a Direção-Geral da Saúde, a autoridade que tem que olhar agora também de forma mais detalhada para este alerta da OMS, a Direção-Geral de Saúde deve tomar alguma medida? Antevê isso? Acha que isso devia acontecer?

Não, eu acho que tem que haver claramente indicações agora e algumas explicações de que forma, por um lado, este vírus transmite, e em segundo, como é que nós podemos evitar essas transmissões. Eu acho que essa informação a nível da população geral tem que ser feita, tal e qual como foi feito Para a Covid-19 e vai ter que haver uma informação um pouco mais detalhada do que é esta infecção. Eu acho que isso é importante para seguir estas orientações da Organização Mundial de Saúde. Agora, eu gostava de só reforçar também isso. Não é que isto seja dramático neste momento, mas é importante que todos nós saibamos a forma como é que podemos evitar estas transmissões. E é fácil fazer isso. É fácil sabendo que os contactos pele a pele, pessoa a pessoa, o contacto íntimo, é por aí que o maior risco de infecção se vai dar. E, portanto, se houver aqui alguém que tenha uma infecção e que detete que tem uma infecção por irritação na pele, por sintomas gripais, com febre, com alterações febris, então nessa situação deve evitar o máximo possível nesta altura do verão, o contacto pele a pele e o contacto mais íntimo. E, portanto, durante pelo menos sete a 10 dias, esses contactos devem ser evitados.

Mas o professor João Manuel Brás Gonçalves não antevê nenhum tipo de restrições impostas à população?

Não antevejo. Sinceramente, se nós não soubéssemos que o vírus era este, como é que ele se transmite, eu aí antevia claramente restrições muito mais rígidas. Eu acho que neste momento estamos na fase da informação e da necessidade de dar mais informação às pessoas. E a partir daí eu acho que certamente conseguiremos nos próximos dois, três meses, até o outono, porque nessa altura já será mais fácil conter este vírus, de forma a evitarmos a propagação desta doença.

Professor João Manuel Brás Gonçalves, muito obrigado por nos ter ajudado também a interpretar esta indicação, esta decisão da OMS. O professor João Manuel Brás Gonçalves é virologista e professor catedrático da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Juntou-se à emissão da Rádio Observador no Jornal das Quatro. Isto numa altura em que a OMS, Organização Mundial de Saúde, declara a varíola dos macacos uma emergência global de saúde pública