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Professor António Costa Pinto, obrigado desde já pela sua disponibilidade e por se juntar aqui à Rádio Observador. Convido-o, nesse sentido, a falar um pouco de algo que tem ocupado grande parte do comentário político, que tem sido um tema também central das intervenções dos próprios candidatos à Presidência da República, quase diariamente, durante toda esta campanha, que são as sondagens. Para um pequeno contexto, o Observador tem um radar de sondagens em que basicamente faz uma média dos resultados de todas as sondagens publicadas já desde o final de outubro de 2025 relativas a esta eleição presidencial. Ao cuidado de sublinhar que os resultados foram obtidos por várias empresas e com abordagens também metodológicas diferentes. Há o caso também específico das tracking polls da TVI CNN, que são apenas utilizadas de três em três dias, porque é nesse momento em que se conta com uma amostra totalmente nova. Isto para dizer que são já quase 20 sondagens. São 17, neste momento, que constam neste radar do Observador. A primeira pergunta que lhe faço, professor António Costa Pinto, é se considera saudável para o eleitor ter acesso a esta quantidade de sondagens antes de ir votar. Ou seja, é uma forma de pensar o sentido de voto ou pode se tornar numa forma de o baralhar?
No mundo contemporâneo, legislar sobre a proibição de sondagens tem aquilo que se poderia dizer, aliás, um impacto praticamente nulo, porque para isso seria evidentemente indispensável, para além da comunicação social tradicional, proibi-las nas redes sociais, e isso hoje não tem qualquer sentido. Portanto, eu diria que as eleições há muitos anos que vivem com sondagens e vão continuar globalmente a viver com sondagens, desde que o país seja democrático.
Há países que proíbem a publicação de sondagens, pelo menos no mês antes das eleições, durante o período de campanha. Não considera isso uma boa medida?
Há países que proíbem um mês, há países que proíbem 15 dias durante a campanha eleitoral formal propriamente dita, mas evidentemente, isso tem apenas como impacto diminuir o núcleo de cidadania que tem acesso a elas, porque elas existirão sempre.
Perguntava-lhe também se considera que os portugueses sabem interpretar sondagens ou se podem ser demasiadamente induzidos a votar em determinado candidato ao lê-las.
Nós sabemos que as sondagens têm algum impacto. E é justamente por isso que, sobretudo nos últimos anos, com o proliferar das fake news, nós temos imensas sondagens que tecnicamente e politicamente são falsas. Basta olhar para as redes sociais e algumas informações sobre sondagens que são verdadeiramente falsas. Partindo do princípio que estamos a falar de sondagens reguladas, validadas, como é o caso, formalmente, em Portugal, as sondagens têm sempre um pequeno efeito. E esse pequeno efeito remete fundamentalmente para dois fatores. Em primeiro lugar, porque alguns eleitores menos preocupados com clivagens ideológicas, cuja motivação de voto muitas vezes é de caráter conjuntural, têm tendência a votar no vencedor. É um efeito conhecido, estudado e trabalhado. As sondagens têm mais importância, e vale a pena sublinhar no contexto atual das eleições presidenciais em Portugal, quando a distância entre os eleitores, em termos de intenções de voto, é muito pequena. E, portanto, evidentemente, uma influência pequena pode ter uma maximização dos resultados eleitorais. Mas quando me pergunta: os portugueses sabem? Não, não sabem. Mas a questão não é apenas essa. É que como é natural, a grande maioria da sociedade portuguesa não sabe qual a técnica que está por trás das sondagens e não sabe também, por exemplo, a diferença entre sondagens e tracking poll. Mas eu gostava de comentar um ponto que me pareceu particularmente impressionante nestas eleições presidenciais. Como é sabido, e é natural, um grupo de comunicação social fez uma tracking poll. É também natural que a queira potenciar comercialmente, etc. Faz parte da saudável concorrência de órgãos de comunicação social. Mas qual foi o problema? O problema é que mesmo outros órgãos de comunicação social muito rapidamente titulavam: A em primeiro, B em segundo. "Olha, hoje é o C que está em primeiro e o B em segundo". Quando, evidentemente, tecnicamente, as tracking poll não servem para isso, não servem para dizer quem está em primeiro, quem está em segundo.
De dia para dia são apenas alterados 200.
Nem é apenas dia para dia, é porque elas servem apenas para observar tendências. E houve títulos de jornais que diziam: A em primeiro. Bem, a diferença não estava sequer no intervalo, não estava sequer na margem de erro. Era 0,1, que é uma coisa estatisticamente nula. É nula.
Certo. A verdade é que essas tracking polls tornaram-se o tema central da campanha eleitoral desde que começaram.
Exatamente. E houve uma segunda dimensão interessante. É que associadas a outras sondagens, os próprios candidatos ativaram as sondagens Isso também é importante. Como é sabido, muitas vezes as campanhas eleitorais são ativadas por temas que não se prendem diretamente com elas, sejam casos pessoais, não vale a pena agora entrar em dinâmicas de ativação política. Ora os candidatos, ao comentarem sistematicamente durante alguns dias as sondagens, também ativaram e destacaram imenso os próprios resultados dessas sondagens. Tudo isto para dizer que elas têm um papel, mas está longe de ser um papel determinante, não vale a pena pensar que é isso. O que nós não sabemos é qual é o nível do pequeno papel que têm.
Há um dado interessante também nas sondagens. Esta, como já referiu, é uma eleição muito disputada, tem um rápido ciclo de alteração das intenções de voto, o que dificulta também a veracidade destas sondagens. Há, por exemplo, uma sondagem da Católica que diz que 51% das pessoas inquiridas admite mudar o seu sentido de voto até ao dia das eleições. Isto também tira credibilidade às sondagens?
Repare, as sondagens perdem sempre credibilidade, não pela dimensão técnica delas, ou seja, elas são, na maior parte dos casos, boas, validadas, utilizando bons métodos, mas evidentemente, elas lidam com a realidade da sociedade portuguesa em análise. Evidentemente, se o número de indecisos é muito significativo, que a perceção quase sempre é enganosa, muito embora todos os dias muitos dos técnicos que fazem sondagens digam sempre: "Isto é uma fotografia" ou até um filme, para utilizar a diferença entre tracking polls e uma sondagem, uma é uma fotografia, ou até uma imagem em movimento, para utilizar esta parábola. Mas na realidade, intuitivamente, a sociedade interpreta sempre isto como o verdadeiro sentido de voto. Quando os indecisos são grandes, quando independentemente dos indecisos, há uma pequena minoria que decide votar à última hora, evidentemente que as sondagens muitas vezes falham e nós já tivemos, aliás, até em Portugal.
Sim, o caso de António Costa em 2022, por exemplo.
E outros casos anteriormente que não tiveram esse impacto tão significativo, em que as sondagens se enganaram redondamente. Ou seja, as sondagens não se enganaram. Num certo sentido, a sociedade surpreendeu as sondagens.
Exato. Nesse sentido, particularizando aqui num candidato em concreto, o Gouveia e Melo tem argumentado que acredita que vai passar à segunda volta, mesmo que as sondagens não indicam, graças a um eleitorado silencioso que as sondagens não conseguem captar. Disse ontem que a sua equipa tem esses dados estatísticos. Acha possível isto acontecer e haver uma fatia assim tão grande da população que as sondagens não representem?
Repare uma coisa. Nós estamos numa eleição que não é exatamente, só para dar um exemplo, as típicas eleições presidenciais em que o candidato que é presidente da República, se recandidata.
Certo.
Aí, evidentemente, que isso não tem qualquer importância, mas eu sublinho mais uma vez, independentemente de nós não podermos aferir se o Gouveia e Melo tem esse estudo, algumas candidaturas fazem evidentemente, também estudos que ficam guardados, porque remete para a sua própria estratégia eleitoral. Mas aqui o ponto fundamental é este: a diferença em intenções de voto dos candidatos não é muito grande e por isso, para dizer a verdade, nós não sabemos. Quem lhe disser que sabe, basicamente está a imaginar.
A única certeza que temos é mesmo essa, que não há certezas. Não pedindo que faça um exercício de futurologia, aqui em geral, acha que as sondagens nesta eleição em concreto podem vir a falhar e que, por exemplo, Marques Mendes ou Gouveia e Melo, que têm estado um bocado afastados dos lugares para passar à segunda volta, venham a passar?
Eu em defesa de quem faz sondagens, o que não é o meu caso, muito embora o meu instituto as faça, direi que não são as sondagens que se enganam. Aliás, repare-se a prudência com que os diretores destes institutos têm feito, desde o Cesop a outros. Cuidado, na última da Católica, aqueles que tiveram a oportunidade de ver o seu diretor falar, pode mudar, ainda pode mudar tudo, porque efetivamente, não só os indecisos, como também aquela margem que pode mudar de voto à última hora, evidentemente pode alterar os resultados. Com certeza que não vai colocar Jorge Pinto a ganhar as eleições, não é verdade?
Certo, à partida.
E seguro, ou obviamente o Gouveia e Melo a perdê-las, mas evidentemente a margem é pequena e quando a margem é pequena, a incerteza é grande.
Outro dado que eu acho interessante é: há um grande número de pessoas, uma grande percentagem, que opta por não responder às sondagens. Tem havido essa indicação, às vezes quase metade que prefere não dizer o seu sentido de voto. Por que acha que isto acontece?
Não há muitos estudos sobre abstenção eleitoral em Portugal. Já existem bastantes quantitativamente, mas poucos que vão inquirir os abstencionistas, ou seja, quais são as atitudes dos que não votam. Nem sei porque acontece, porque eles escapam, abstêm-se, está o assunto resolvido. Mas evidentemente, isso significa, em primeiro lugar, que uma parte dos que não respondem às sondagens fazem parte do universo dos abstencionistas. A razão pela qual se abstém é muito variada, mas evidentemente, os que não respondem são aqueles que não vão participar.
Professor António Costa Pinto, muito obrigado pela sua disponibilidade, pela conversa, por se juntar aqui à Rádio Observador. Tenha um bom dia de reflexão amanhã, que bem precisamos de refletir.
Muito obrigado.
Muito obrigado, com licença.