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Carla, começa a contagem decrescente. Os astronautas da Artemis 2 regressam daqui por umas horas à Terra, depois de 10 dias no espaço. É hoje que vão finalmente reentrar na atmosfera terrestre. Se tudo correr como planeado, a cápsula Orion deve amarrar no Oceano Pacífico, perto de San Diego, pouco depois da 1h da manhã deste sábado. Equipas especializadas vão estar prontas para garantir a recuperação em segurança da tripulação. Temos em direto neste jornal o professor catedrático e investigador no Instituto das Ciências da Terra da Universidade de Évora, Rui Dias. Bom dia, professor Rui Dias. Obrigada por estar conosco tão cedo para nos ajudar, em primeiro lugar, a perceber o que é que vai acontecer. Hoje será um dos momentos mais críticos desta missão, não é?
Bom dia a todos e obrigado pelo convite. Sim, é daqueles momentos muito aguardados. Tivemos mais de 50 anos sem voos desse tipo e é um dos momentos mais aguardados. A exploração espacial muitas vezes é vista como: "Vão tirar umas fotografias à Lua, há tantos problemas para resolver na Terra." Mas a exploração espacial é mais do que isso. A investigação científica é fundamental. Quando nós olhamos à noite pra Lua, não temos a ideia de que aquilo que estamos a ver é uma imagem do que terá sido o nosso planeta pouco após a sua formação. A Terra é um planeta dinâmico que vai evoluindo ao longo do tempo. Evoluindo porque há o ciclo hidrológico, que continuamente reformula a paisagem da superfície da Terra, e há um outro ciclo do interior da Terra, um ciclo tectônico, que com sismos e vulcões, vai continuamente mudando o nosso planeta. E essa mudança, ao longo de muitos milhões de anos, muitos e muitos mais do que nós conseguimos imaginar, reformula totalmente o nosso planeta. É fundamental percebermos como é que o nosso planeta funciona e quando nós queremos perceber o que é que se passa no passado mais longínquo, esses vestígios na Terra foram profundamente modificados e alterados pela dinâmica do planeta. A Lua, tendo tido uma origem que nas primeiras fases foi muito semelhante ao nosso planeta, por ser muito mais pequena, arrefeceu muito rapidamente e por isso não tem ciclo tectônico e sendo muito mais pequena, não conseguiu manter uma atmosfera. E por isso a Lua congelou, chamemos-lhe assim, esfriou e tornou-se um corpo morto que não evoluiu no tempo. Portanto, quando nós olhamos pra Lua, é como se estivéssemos a olhar para o passado mais longínquo do nosso planeta, que estamos a tentar compreender. E, portanto, isto é muito mais do que uma simples aventura pra ir tirar umas fotografias e pra engordar alguns egos. É uma missão científica muito importante pra nós percebermos o sistema solar e a Terra, em particular.
E por isso tudo que nos está a dizer, a missão não termina propriamente mais logo com a amaragem dos astronautas. O trabalho de investigação científica, podemos dizer que começa verdadeiramente depois?
Claro, começa e esta missão é uma de muitas planeadas. Há muitos dados que foram recolhidos durante a missão e essa missão irá permitir nós avançarmos para novas formas de exploração espacial. E, portanto, isto não é uma ida à Lua. De algum modo, podemos dizer que é uma ida ao nosso passado também, ao nosso passado enquanto planeta. E é fundamental nós percebermos bem o funcionamento do planeta, principalmente a partir do momento em que ganharmos a capacidade de alterar a forma como ele funciona e a sua dinâmica. E, portanto, este conhecimento profundo do nosso planeta é fundamental, até pra nossa forma de estar e sobrevivência. Portanto, não há ciência que se possa dizer: "Essa ciência interessa, esta não interessa", porque a história o que nos tem mostrado é que a ciência que em algum momento foi frequentemente desvalorizada, veio se revelar fundamental passado algum tempo.
Até com uma utilidade mais prática, digamos assim. O que é que se pode esperar para os próximos tempos em termos de exploração espacial? Quais são as próximas etapas?
As próximas etapas, o que está previsto, quer pela parte das missões que vêm segmentar a Artemis, quer também pelas missões que estão previstas na China, o que estará previsto é que iremos regressar a pôr pessoas na superfície lunar em 2028, com as missões Artemis, e está previsto que em 2030 haja a possibilidade de termos estações fixas, e isso seria uma primeira vez, pôr pessoas na Lua, não, mas estabelecer estações fixas na Lua, quer por parte da NASA, quer por parte da China. Isso seria uma primeira vez e, portanto, iremos recolher uma quantidade de dados incomparavelmente superior.
E estamos aqui, professor, a assistir a uma corrida entre estes dois blocos, Estados Unidos e China. Não há cooperação em termos da exploração científica nesta altura, da exploração espacial, queria eu dizer. Não está a haver colaboração entre as duas partes, está a haver uma competição.
Pois, infelizmente, tivemos mais de 50 anos sem ter voos deste tipo. Infelizmente, os voos e a exploração Científica de grande dimensão como esta só existem quando há competição entre países. É mais uma corrida de egos e de mostrar que nós somos melhores. Foi assim com as missões Apollo, que era uma corrida em plena Guerra Fria, a ver quem é que era capaz de fazer mais e melhor. Ultrapassamos a Guerra Fria. Como nós todos sabemos, as atenções dos países, estamos a falar dos países com capacidades financeiras e de investigação maiores, morreram. Não houve mais nada e agora voltamos a ter outra corrida de egos e, em vez de irmos instalar duas estações na Lua, seria muito melhor termos uma estação com cooperação profunda. Mas todos sabemos, basta ouvir o começo do vosso noticiário e as notícias anteriores a essas, todos sabemos que isto é muito difícil de fazer. E as pessoas, mesmo em termos de investigação, se até pode haver abertura dos cientistas para cooperação internacional, isso depois choca muitas vezes com os interesses nacionais. Isto é muito triste, mas é assim que as coisas vão funcionando.
Às vezes por estranheza, que é assim que há avanços também científicos, por essa competição de egos, como aqui nos classificou. Professor Rui Dias, muito obrigada por ter estado conosco.
Obrigado eu.
A ajudar-nos a entender a importância desta missão, a importância científica. Um bom dia e um bom fim de semana. Rui Dias é professor. Sim. Bom dia.
Eu só despedi-me. Bom dia.
Obrigada, bom dia. Ao professor e investigador no Instituto de Ciências da Terra da Universidade de Évora. Ora, se tudo correr como previsto, vai ser assim: os quatro astronautas da Artemis II regressam hoje a casa. Já estão na história por terem estado no ponto mais distante da Terra alguma vez alcançado por humanos. E a chegada dos astronautas vai ser transmitida em direto no canal do YouTube da NASA. Será por volta da 01:00, hora de Lisboa.