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Muito boa tarde. Estou com Carlos Barroca, professor de basquetebol, professor universitário e também treinador de basquetebol, que durante 10 anos esteve como vice-presidente das operações do basquetebol da NBA na Ásia. Também esteve durante quatro anos como diretor do desporto escolar. Esta entrevista realiza-se no âmbito deste início de mais uma temporada da NBA. Quando for 00h30 em Lisboa, os Oklahoma City Thunder, campeões em título, e também a formação do atual melhor jogador da fase regular, Shai Gilgeous-Alexander, abrem mais uma temporada com a receção aos Houston Rockets de Kevin Durant. Professor, mais uma vez, muito obrigado por ter aceitado este convite da Rádio Observador. Antes de entrarmos em algumas questões mais particulares desta temporada, de uma forma geral, o que está à espera desta nova época de NBA?

Antes de mais, obrigado pelo convite. É sempre um prazer falar daquilo que é uma das minhas áreas favoritas de trabalho, que é o mundo da NBA. Esta época é mais uma época. O que nos vai trazer de novo? Espero que nos traga de novo ainda mais espetáculo do que nos últimos anos, mais emoção do que o ano anterior. Recordo que os playoffs foram absolutamente fantásticos, surpreendentes, como a final entre Indiana Pacers e Oklahoma. O que acabou por se constituir uma surpresa, porque se é verdade que Oklahoma foi a equipa que liderou a conferência da Oeste durante todo o ano, não liderou a liga, porque os Boston Celtics tiveram melhor recorde que eles, mas eram candidatos ao título e candidatos no Oeste. Indiana já não é assim. A Indiana acabou a temporada no sexto lugar da tabela classificativa e depois foi a maior surpresa detrás de surpresas. Portanto, o grande alimento dos fãs da NBA é exatamente quais são as surpresas. E há muitas surpresas para acontecer. Desde logo, a primeira, o facto de se registar esta temporada o recorde do número de estrangeiros.

Era mesmo isso que eu ia lhe conversar, até porque são 135 estrangeiros na liga, 43 países diferentes. Como antigo responsável de NBA na Ásia, são números que os fazem sorrir? E também já agora, a importância do trabalho não só desta espécie de delegação da NBA, como também na NBA África.

Para quem trabalhou dentro da NBA, é obviamente um motivo para sorrir, porque isto é a resposta ao investimento global que a liga faz na criação de programas como desde o Jr. NBA, ao NBA Basketball School, ao Basketball Without Borders, a todos os programas que são feitos que alimentam o sistema. Portanto, a NBA não tem um sistema de formação de jogadores. A NBA é, no fundo, a alavanca em termos de marketing, de imagem e do local de desejo. Para quem joga basquetebol, a NBA é o céu. Toda a gente quer ir para o céu. E portanto, têm todos que passar pelo purgatório, pelo inferno, para lá chegarem, que é trabalhar muito para lá chegarem, porque não é só talento. Isto é uma imagem quase religiosa em relação ao céu e ao inferno. Agora, esses produtos todos servem para alavancar o interesse sobre a liga e o interesse de todos os melhores jogadores do mundo que desejam lá chegar. E é um facto que cada vez há mais jogadores internacionais de qualidade e este número de 135 é um novo recorde. Eu acho que o anterior era para 127, 128, este é o novo número. E portanto, desde logo, isso suscita interesse em mais zonas do mundo de consumirem o produto NBA.

E uma das provas nos últimos tempos foi mesmo o facto de, nos últimos creio que cinco anos, o MVP da liga, só este último ano, o Shai Gilgeous-Alexander, é quase um produto dentro do continente europeu, mas, por exemplo, tivemos Nikola Jokic, tivemos Giannis Antetokounmpo. São jogadores que em termos internacionais ainda trazem mais olhos e mais vontade para estes jogadores internacionais ingressarem na NBA.

Duplamente vontade. Primeiro, porque é a melhor liga do mundo e segundo, porque é o espaço onde todos querem estar, também financeiramente, que é um espaço absolutamente privilegiado, porque os jogadores da NBA cada vez são menos jogadores da NBA e são mais entertainers. E como o espaço da NBA é cada vez mais um espaço de entertainment para famílias, os artistas cada vez ganham mais dinheiro e, portanto, é uma riqueza para se distribuir. Agora, o que interessa aqui é olhar para a temporada e perceber os vários motivos de olhar para ela. E um deles é que, mais uma vez, se olharmos para a lista dos candidatos, há seis a oito candidatos no início de cada temporada. E é quase difícil olhar para super plantéis, porque há superjogadores, mas todas as equipas quase têm superjogadores. Todas as equipas têm dois ou três candidatos a jogarem o All-Star Game e todas as equipas são capazes de ganhar à melhor equipa e perder contra a pior equipa. E isto é que faz deste campeonato um campeonato fabuloso. Eu pessoalmente gostava que fosse um campeonato que tivesse menos triplos e mais jogadas que envolvessem dois ou três jogadores. A tendência dos últimos anos tem sido um jogo muito ou de se afundar, portanto, ao marcar debaixo do cesto ou lançar três pontos. E acho que se perdeu um pouco da fluidez do jogo coletivo, em que a técnica do passe é uma técnica privilegiada e eu acho que nos últimos tempos é talvez a técnica do jogo menos valorizada. E portanto, são linguagens do jogo diferentes nos dias de hoje.

Permita-me interromper. Antes de entrarmos novamente num dos jogadores que mais certamente aqui em Portugal vai centrar todas as atenções, não irá jogar esta madrugada. Estamos a falar de Mikal Bridges, dos Celtics. Há pouco falou da competitividade entre as equipas. Grande parte delas têm pelo menos um, dois All-Stars. Pergunto-lhe se nesta temporada há mais competitividade a Oeste ou a Este?

Eu acho que é a mesma competitividade, porque os valores são todos relativos e no passado houve mudanças de jogadores que passaram de um lado para o outro e dizia-se: "Agora vai ficar mais competitivo ali, mais competitivo ali". Eu, durante os meus 25 anos de comentador de televisão, tive sempre o cuidado de apresentar a época como, no papel, quando olhamos para o papel agora, parece que todas as equipas estão melhores do que o ano anterior. Depois quando chega a hora do jogo, daqui a um mês, podemos fazer uma primeira análise e perceber o que é que no papel está a resultar bem, e o que está a resultar mal. Hoje em dia também há outra tendência, é que muito mais cedo os treinadores são substituídos. E portanto vamos ver se esta época também continua a ter essa tendência de substituição de treinadores por tudo e por nada, ou uma maior precaução em não mudar as coisas de um momento para o outro. Há tendências, a tendência do lançamento de três pontos é uma tendência em crescendo. Ter lançadores é uma coisa importante, mas quanto mais lançadores há, mais a presença do jogador grande perto do cesto também pode ser decisiva, o que é um trunfo interessante para o Neemias, que tem este ano, aparentemente, um espaço maior para jogar mais.

Precisamente, iria mesmo entrar aí porque os Celtics que este ano vão ter, em grande parte da temporada, uma das suas maiores figuras ausente, devido a um lesão, estamos a falar do Jayson Tatum, mas que por exemplo, viu outra das grandes figuras, Al Horford, ir para os Golden State Warriors. Há mais espaço para Neemias Queta e já agora, se o poste português vai aguentar a pressão de uma equipa que ainda é uma candidata crônica ao título, mas que tem quase um processo de reconstrução para futuro.

Respondendo à pergunta em duas partes, se ele vai aguentar ou não, ele não tem que aguentar, ele só tem que fazer o que pode fazer. Ele é um jogador, não é por ele que vai passar a diferença entre vitória e derrota da equipa. Ele é um contributo para a equipa numa área muito específica e é ainda um jogador jovem, tendo em conta a pouca utilização que tem sido dele feita ao longo dos anos que ele está na NBA. O que quer dizer que há muitas coisas que se aprendem nos treinos, mas há muitas coisas que é nos jogos que se aprendem. E ele ainda não tem essa bagagem toda. É uma pessoa extraordinária, é um jogador incrível, é uma pessoa que é um prazer estar com ele em todas as circunstâncias. Agora, os Boston Celtics, não só pelo que o João já disse, que não tem o Jayson Tatum durante grande parte da temporada, e nenhum de nós sabe o que é essa grande parte da temporada, porque a recuperação pode estar a acontecer muito bem e de um momento para o outro volta para trás. Mas olha-se para o plantel dos Boston Celtics e o plantel dos Boston Celtics não é melhor do que o plantel do ano anterior. Portanto os Boston Celtics é bom para o Neemias poder jogar, mas em termos de plantel, não me parece ser um plantel tão forte como era o ano passado.

Há saídas de Kristaps Porziņģis, essa lesão de Jayson Tatum.

E portanto, isto não faz da equipa uma equipa já desgraçadinha, nem de perto nem de longe, porque aquilo que eu disse no princípio, que qualquer equipa pode ganhar qualquer equipa, também se aplica aqui aos Boston Celtics. No papel, não parecem tão fortes como o ano passado. O que é exceção, porque a maior parte das equipas parecem mais fortes que o ano passado. E sem o Jayson Tatum, essa sensação é maior ainda. Se ele estivesse a jogar, já não era tão grande assim, porque ele é um jogador polivalente e pode fazer várias posições dentro do campo. Portanto, é a primeira análise aqui aos Boston Celtics. Quanto ao Neemias Queta, para nós é de facto um prazer extraordinário, que ele continue a ser o representante de Portugal. Esperamos é que outros sigam as pegadas dele, porque se ele lá chegou, outros também lá podem chegar.

Precisamente. Vamos agora passar para a eleição do MVP, até porque nos últimos anos, concretamente há dois anos, a NBA construiu ou neste caso, criou uma nova lei acerca dos critérios desta eleição. Estamos a falar da regra dos 65 jogos. É uma regra que todos os jogadores têm que cumprir, se querem estar elegíveis para a eleição de melhor jogador da fase regular. Há muitas vezes, e isto é quase como para muitos comentadores, uma moda que tem sido tornada mais evidente nestes anos 2000, 2010, que é, eu vou utilizar aqui a expressão norte-americana, o tanking, em que muitas equipas acabam por não utilizar as suas estrelas propriamente ditas para terem os jogadores em melhor forma na fase dos playoffs. A pergunta que eu lhe faço é se esta regra dos 65 não faz com que alguns jogadores estejam em pior forma nos playoffs ou que esta regra não deve servir de desculpa para nenhuma equipa.

As regras existem para ser cumpridas e foram criadas com determinados objetivos. A mais clara de todas é tornar-se uma regra, é ser clara. Portanto, não há regras perfeitas, há regras que se ajustam ao longo do tempo e esta regra era uma regra que nem sequer existia, foi criada. Foi criada por uma necessidade de alguma maneira obrigar as equipas e os jogadores, porque há muitos jogadores que têm contratos acrescidos de valor se ganharem o prémio de MVP. Portanto, isto gera dentro da própria equipa a necessidade de gerir essas situações todas, porque se um jogador tem um prémio fabuloso por ser MVP, não quer abdicar dele, até pelo prestígio que isso representa e muitas vezes pela consequência desse prémio acrescentar valor continuado ao seu próprio contrato e aos futuros contratos. A NBA é um negócio, e é um negócio que tem dois donos, tem os donos das equipas e tem os jogadores. E portanto, entre esta dualidade de interesses, de valorizar o produto, de valorizar a liga, todos ganharem mais dinheiro, mas haver regras também que de alguma forma satisfaçam o consumidor, que é o público que paga os bilhetes Há a necessidade de criar regras para coexistir isto tudo. Regra é isso mesmo, é regra. São perfeitas? Não, são sempre imperfeitas, mas têm um objetivo. O caso desta é para criar uma certa obrigatoriedade e recordo-se que no passado esse tanking, como fez referência, era feito muitas vezes com jogadores que nem lá estavam, nem apareciam. Hoje em dia há pelo menos alguma obrigatoriedade, por causa da relação com o público, de os jogadores estarem presentes.

Estarem presentes, pelo menos no banco de suplentes.

Exatamente. É um espaço muito delicado, sendo que se calhar por trás disso tudo há outra questão, e o João falou nisso também, que é a questão de garantir que os jogadores chegam à fase final da temporada ou aos momentos-chave da temporada, nas melhores condições possíveis. O campeonato da NBA é um campeonato brutal. São 14 jogos por mês, em média, são 82 jogos por ano, mais as pré-temporadas. Os jogadores chegam ao fim do ano e quando são anos sucessivos, e há jogadores que já têm mais de 20 anos de carreira e alguns com mais de 40 anos. E são jogadores, do ponto de vista físico, brutalmente compostos. Não são jogadores de 1,75 m e 75 quilos, são jogadores de mais de dois metros de altura, com uma estrutura física brutal e, portanto, uma das coisas que a NBA quer é, de certa maneira, que os seus money players, o que é que são os money players?

Os jogadores mais importantes.

São os mais importantes, que tenham longevidade nas suas carreiras. Isto é quase tratar com paninhos de lã os aspetos todos do jogo. Como é que se concilia tudo isto com o público que paga, com os interesses da experiência do cliente, com os interesses dos donos das equipas, com o interesse dos treinadores, com o interesse dos jogadores, físico e longevidade de carreira? São muitas variáveis que é preciso haver algumas regras para suavizar a que todos tenham mais ou menos um grau de satisfação grande daquilo que são os seus objetivos. E há aqui muitos objetivos, naturalmente.

E há pouco falou desses jogadores com maior carreira, com mais longevidade, e há um nome que salta à vista e também vou falar desse nome, é LeBron James, porque há sempre rumores nesta pre-season, sempre há essa dúvida: será este ano o último ano de LeBron James?

João, eu se soubesse a resposta a essas perguntas, já tinha tentado jogar na lotaria ou no Totoloto ou no Totomilhões para acertar essas coisas todas. Eu, enquanto comentador, fiz três, se não me engano, despedidas de Michael Jordan. A primeira eu achava que era a última, a segunda também e a terceira também. Não sei se foram três, se foram quatro, mas foram muitas. Para mim foi um prazer ver o começo da carreira do LeBron James. Hoje é um prazer ver a carreira do Damian Lillard, as infelicidades dos que já partiram. Isto é a história. Nós, que gostamos de basquetebol, vivemos dessa especulação. Eu gostava que o LeBron James jogasse mais 10 anos. Ele já bateu os recordes todos e que continue a batê-los. Quem determina isso? Isso é como aquela pergunta: quando é que vamos ter o primeiro jogador português na NBA? Perguntavam-me a mim e eu respondia: "Não me perguntem isso a mim, perguntem aos jogadores, quem é que está disposto a pagar o preço para lá chegar?" A vida do LeBron James é única, é dele. E ele tem condições financeiras absurdas para não precisar do basquetebol para nada. Lembro-me para aí há um ano ou dois, uma jogada qualquer em que ele entra para o cesto e sofre falta e toda a gente viu no mundo inteiro que era falta, menos o árbitro, que estava ali debaixo do cesto e que não marcou. E que eu vi muitas críticas a pessoas: "Mas por que o LeBron James fez aquela fita a protestar com o árbitro sobre uma falta que não marcou?" E o meu comentário foi: ainda bem que ele, ao fim destes anos todos, ainda tem essa paixão pela verdade do jogo e o entusiasmo de reclamar perante uma coisa que era óbvia, que foi falta e que tinha direito a dois lances livres e que ganhava o jogo, se calhar, nesses lances livres.

No jogo contra os Celtics.

Exatamente. Ainda bem que ele tem essa paixão, ainda bem que ele continua a ter esse desejo de jogar. O que faz a idade é a cabeça de cada um e o corpo de cada um.

Professor, para terminar esta entrevista e até porque estamos a ficar sem tempo, de uma forma muito sintética, mais uma vez não faz esse tipo de apostas, mas no papel, novamente, para si, neste momento, qual é a melhor equipa na zona Este e na zona Oeste e quem é que poderia, mais uma vez, apostar para MVP da fase regular?

No Oeste, eu vou pelos New York Knicks, porque acho que foi a equipa que melhor se apetrechou. No Oeste, para a juventude e para o título dos Denver Nuggets. Dos Denver Nuggets para os Oklahoma City Thunder, como maior adversário, os Denver Nuggets, que são uma equipa muito boa também. MVP, eu acho que dificilmente não continuará a ser estrangeiro.

Muito bem, senhor professor, mais uma vez, muito obrigado por esta entrevista, uma antevisão à nova temporada da NBA. Já sabe, começa a partir da 00h30. Há sempre a cerimônia de entrega dos anéis de campeão, neste caso ao Oklahoma City Thunder. E esta madrugada há esse jogo entre OKC e Houston Rockets e também mais tarde esse duelo entre Golden State Warriors, de Stephen Curry, contra os Lakers de Luka Dončić e LeBron James. Professor, mais uma vez, muito obrigado.