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Eu começava por lhe perguntar, Tânia Araújo, o que está a ser preciso nesta altura. Vocês estão a divulgar uma campanha para ajudar os pastores da Serra da Estrela, muito a propósito deste grande incêndio que está a fustigar essa região. Começava por lhe perguntar o que é que nesta altura é preciso doar aos pastores.
É um pouco de tudo. Claro que a alimentação, as rações e os fardos de palha são o essencial, porque falamos aqui de pastores, muitos deles que perderam tudo, o pasto, a alimentação, os locais que tinham para guardar essa alimentação e que precisam de um apoio imediato. Há também outras necessidades que temos conseguido identificar à medida que vamos falando com os pastores, bebedouros, comedouros, canalizações, depósitos de água que se destruíram com o incêndio. Acaba por ser um conjunto de coisas que são essenciais neste momento para manterem os rebanhos e para continuarem a persistir na sua atividade, que é tão importante para este território.
Nesta altura, o que é mais urgente, nesta lista de coisas que identificou, o que é mais preciso nesta altura?
São as rações. As rações e a palha são essenciais porque estamos num momento em que muitos animais estão em fase de gestação ou que já deram à luz. Também identificamos junto de alguns pastores a necessidade de ração específica para gestantes e lactantes, que é um pouco difícil de encontrar e portanto até aproveito para lançar este apelo, quem puder ajudar com estas rações específicas, seremos muito gratos.
Estão a fazer esta campanha para angariar estes produtos todos para os pastores. Se estes donativos não chegarem a quem de direito, aos pastores que ficaram afetados por este incêndio, o que pode acontecer aos pastores, aos próprios animais dos pastores, quais é que poderiam ou poderão ser as consequências?
Alguns, com quem falamos, falam, se não conseguirem alimentar os seus rebanhos, falam em vender e desistir da atividade. É isto que está em causa. Claro que nós vamos fazer todos os esforços e estamos muito, não é espantados, porque eu acho que a sociedade acaba por se unir quando as catástrofes acontecem, mas tem sido uma onda de solidariedade muito grande. Temos tido muitos donativos em género, muito mais até do que estávamos à espera. Temos depois outras pessoas que não podem, não conseguem fazer o donativo em géneros e que também estão a fazer doações monetárias que nos permitem comprar depois estes alimentos. Estamos a fazer um esforço muito grande, com a ajuda de muita gente, de muitas entidades, para chegar a todos, para que nenhum deles tenha que chegar a este ponto de se desfazerem dos animais e desistirem desta atividade que é tão importante pra Serra.
E há muitos elementos da vossa equipa, dos Guardiões da Serra da Estrela, no terreno a ajudar nessa angariação de donativos, também na entrega. Não sei se terá ou não ideia de quantos pastores estão ou não a ser apoiados. E perguntava-lhe também o que está então a ser feito nesta altura no terreno.
Neste momento temos várias pessoas no terreno, não são muitas, e se mais alguém se puder juntar, seria ótimo, a fazer as recolhas e as entregas. Em alguns casos foi através das autarquias locais, em articulação. Hoje, por exemplo, está-se a fazer a entrega diretamente aos pastores em casais de Fogosinho. Estamos a usar várias formas. Há várias pessoas que estão a ajudar-nos a identificar estes pastores. Neste momento, nos sítios onde já conseguimos contabilizar, temos um número de 1800 animais que estão já a ser apoiados. Há locais onde ainda não conseguimos fazer a identificação, porque foram muitos concelhos afetados, mas temos pessoas que já contactámos para nos ajudar a identificar estes pastores. E o trabalho que está a ser feito é de recolha dos donativos e está a ser feita a entrega diretamente aos pastores. Temos várias pessoas que nos estão a ajudar com os transportes, os doadores propriamente ditos, desde empresas a pessoas a título individual, e depois as pessoas que nos locais nos ajudam a identificar que pastores precisam e quais são as necessidades. Vamos também usar os donativos monetários para depois comprar aquilo que não conseguirmos, que seja doado, que não estejamos a conseguir encontrar em termos de donativos em género.
Este incêndio na Serra da Estrela já faz hoje precisamente uma semana. Já arderam mais de 16 mil hectares. A própria Proteção Civil admitiu que este fogo era o mais complexo dos últimos anos. O que lhe pergunto é, daquilo que lhe tem chegado, se há muita destruição na região da Serra da Estrela e que tipo de relatos é que lhe têm chegado por parte dos pastores, mas também das pessoas que têm a ajudar. O que é que tem sido descrito por parte de quem está no terreno, depois desta semana que já passou de incêndio na Serra da Estrela?
A palavra que mais nos ocorre é uma verdadeira catástrofe, não só catástrofe para quem vive da Serra da Estrela, os pastores e não só, outras pessoas que tinham projetos sustentáveis e que viram tudo a ser destruído. E depois a catástrofe ambiental, porque o incêndio entrou mesmo no coração da Serra da Estrela, não só em zonas onde ainda havia muita floresta, das poucas zonas onde havia ainda uma mancha florestal grande, mas depois também pequenos nichos ecológicos importantíssimos, onde existiam valores ambientais únicos na Serra da Estrela e que não sabemos ainda até que ponto foram destruídos, se alguns têm ainda capacidade de regeneração e portanto é desolador, também pelos sítios onde o fogo entrou e cujos valores únicos podem ser irrecuperáveis.
Só mesmo para terminar, vocês estão aqui a lançar esta campanha de solidariedade, a apelar às pessoas que doem. Pergunto também se existe alguma expectativa da vossa parte e de quem está no terreno de que o governo avance com eventuais apoios aos pastores, à própria região, para fazer face a esta situação, a esta tragédia, como descreveu.
Sim, nós sabemos que o governo, que as entidades públicas estão a preparar um programa de apoio aos pastores. A nossa preocupação foi agir no imediato, porque sabemos que, por todas as questões inerentes, que estes apoios demoram um pouco a chegar às pessoas e que, sem este apoio imediato, muitos pastores poderiam não conseguir esperar, os seus animais poderiam não conseguir esperar que estes apoios chegassem, porque de facto ficaram sem nada e foi uma extensão muito grande, porque também existe a solidariedade entre os pastores. Nós tivemos situações de distribuirmos esta ração junto dos pastores identificados e eles próprios partilharam com outros que nós desconhecíamos, mas a extensão é muito grande. Portanto, este apoio imediato é fundamental para aguentar esta atividade até que esses apoios públicos cheguem às pessoas.
E para chegar a quem de facto foi afetado pelos incêndios. Tânia Araújo, muito obrigada. Agradeço a disponibilidade para conversarmos.